Há muito tempo atrás, quando o pó fazia sombra e a redundância era charmosa, o ontem era hoje e o amanhã nunca existiu, como agora. Na esquina entre a frente ordenada dos carros e a desordem do fluxo das balas, no bar, no lar e no fliperama que esvaziava os bolsos. Um homem perguntou: Tem cigarro. Prontamente lhe entreguei o maço; não fumo. E preservativo. Entreguei sem hesitar; não transo. Olhou de lado, piscou fundo e encarou o interlocutor. Passa essa blusa também. Não tenho frio. E esse tênis. Não tenho estrada. Já que é tão generoso, vou levar esse livro que seguras. Claro, pode levar; não tenho letras. Cismado e ansioso, resolveu ousar. Quero seus olhos, pegue minha luz. Quero sua voz, pegue minhas palavras. Quero seus ouvidos, receba meu silêncio. E as suas pernas, aproveite meu impulso. As mãos, abrace sua ambição. O coração, com toda certeza, senhor, nutra seu destino. O que mais posso levar? O que deseja? Desejo existir. Então compartilhe o seu amor e não se esqueça de conferir o troco.