Revolto em um debate fútil de uma tarde em assonância, a náusea surgiu entre os amigos. O cheiro de cântaro era o cheiro da morte. Uma pessoa que eu sequer posso dizer que conheço, morreu, desapareceu sem significado algum. Disse o que se encontrava à direita. Seguiu-se a carqueja. Lembrar a pessoa significa que reconhece sua existência, mesmo que não possa manter essa existência por todo o tempo, ela significa algo, amigo. Apaziguou o companheiro à esquerda. “Onde? Os poucos encontros que tive com ele nada interferiram na minha vida, pelo menos nada rastreável, palpável; ele desaparece sem deixar rastro, esquecido entre todos os dias; e mesmo se for lembrado em um piscar de olhos, novamente esquecido será. Assim como todos aqueles que não conheço. Se pensar bem, mesmo um tio tem menos peso que um amigo próximo; entre o cotidiano ele é distante como um ninguém. Mesmo um pai, depois de vários anos da morte, é pouco ou ausência. Mesmo uma mãe viva é pouco ou ausência, nada que interfira diretamente, ou seja, rastreável, uma apóstrofe na curva da vida.” Espere um pouco, vamos com calma, a prosopopeia não é tão simples. Quando se pensa em si, em seu poder e conhecer, o peso é enorme. Quando se significa para si, o peso é enorme; embora se possa saber que meu tio também não pensa em mim, que para ele, assim como para todos os que não me conhecem, ou mesmo para muitos que me conhecem, sou um piscar de olhos presente e esquecido. O que tenho para mim, dito ser valoroso, o meu conhecimento, minhas posses e sentimentos. “Está alucinando, amigo, isso é um solecismo. Tudo aquilo que gira aqui — a sinestesia e a silepse — para os outros não significa nada, assim como para mim, os outros, suas posses e conhecimentos, não significam nada. Lhe esclareço, quem diz conhecer, menospreza o conhecimento de todos, quem diz se lembrar, esquece todos dos quais não pode lembrar. Quem define que está certo por si, que dá peso, é o mesmo que um suspiro de vento, uma brisa, um alguém aleatório com interações aleatórias e conhecimento aleatório, como o meu, como o de meu tio, como o do meu pai. E ainda mais, como o dos meus próprios amigos que têm peso e não têm peso algum. Somos vazios e egocêntricos, frágeis e tolos. Pensamos ter poder, peso, significado e conhecimento, mas desconhecemos o outro, submetemos o outro à categoria de outro, submetemos o outro a um reflexo distorcido e falho de nós mesmos. Não consideramos que eles têm vida e peso em si, e que, assim como nós, são vazios, egocêntricos, frágeis e tolos. Eles morrem e desaparecem.” Seu alecrim não perdura uma metáfora, não se sustenta, assim como o meu tio que você desconhece, assim como o meu pai que se apaga no tempo, assim como você o é para todos que nem sequer sabem ou se importam com as suas alucinações de conhecimento, com a sua existência ou não existência. Estamos entre conflitos fúteis de palavras pertencentes aos mortos, pertencentes a todos os desconhecidos e menosprezados, tudo para garantir nosso lugar ao sol, o qual também será menosprezado para garantir o lugar ao sol dos próximos, esses outros que somos nós mesmos em infinita tolice. Entenda, um estranho morreu, um ninguém, um ninguém que sou eu e que é você. Encarar a insignificância última dos outros, e de nós mesmos, é algo que exige muito empenho, ainda mais para manter essa insignificância junto ao peito e olhar nos olhos de todos os efêmeros seres, e para nós mesmos, com o devido respeito.