A luz do sol atravessou a cortina fina impiedosamente e bateu direto nos meus olhos. Teve o efeito de me arrancar do sono à força por me fazer sentir que o dia já havia começado há muito tempo. Por mais que eu piscasse e virasse o rosto, não adiantava.
Acabei abrindo os olhos.
O quarto estava banhado por uma luz dourada e calma, tão bonita que parecia não ser daquela hora. Por um instante, até passou pela minha cabeça que algo bom poderia sair dali. Bem, mais ou menos. Como toda beleza efêmera, ela durou o tempo para esquecer a realidade.
As férias haviam acabado. Simples assim. Não houve despedida nem um último dia memorável. Elas simplesmente escorreram pelos dedos para nunca mais voltar, deixando apenas a certeza de que a rotina estava de volta.
Escola. Provas. Eles se repetiam em uma sequência sem fim em um ciclo vicioso. Eu não sentia medo, mas sim cansaço antecipado. A sensação de já saber como cada dia terminaria.
Respirei fundo, empurrei o lençol para o lado e sentei na beira da cama. Segurei por mais um segundo do que deveria, encarando o chão para juntar forças para levantar.
Ao pisar o pé no chão, senti uma pontada aguda, cega e profunda subir direto para o cérebro sob a forma de um raio de puro ódio.
— Filho da…
Não consegui emitir mais do que um rosnado de um animal acuado. Pulei com o outro pé, cambaleando, enquanto uma enxurrada de xingamentos fervilhava na minha garganta. Bem nos meus cantos dos olhos, lágrimas ameaçavam sair.
Olhei para onde havia acabado de pisar. Ali estavam as peças de Lego, umas quatro ou cinco, espalhadas como minas terrestres esquecidas de uma brincadeira de dias atrás. A mais maldita de todas era uma daquelas pecinhas retangulares de dois botões, que brilhavam sob a luz do sol.
Desengonçado e com um dedo do pé latejando, por ter batido no espírito vingativo de um dinossauro de plástico, dei alguns pulos até a cadeira.
Caí nela mais do que me sentei, e a tela do monitor, sobre a qual eu havia esquecido de desligar ontem à noite, acendeu sob meu olhar.
A janela do Discord ainda estava aberta na nossa conversa.
Passamos a noite inteira conversando por chamada de voz, falando sobre tudo e mais um pouco. De um anime novo, da sensação estranha de voltar às aulas, até como o céu da cidade dela tinha mais estrelas. Tudo por 8 horas e 22 minutos.
Eu devia ter sido o primeiro a cair no sono. Ou ela. No final, a ligação simplesmente ficou registrada, unida a dois quartos desconhecidos por um fio invisível, onde duas pessoas dormiram a quilômetros de distância.
Conseguia me lembrar do som baixinho dela roncando de um jeito fofo, algo como um zumbido de abelha, que me fez pensar, de maneira um tanto boba, que aquilo era o mais próximo que teríamos de compartilhar um travesseiro.
A dor no pé era pequena perto dessa desconexão brutal, essa ausência súbita. O mundo voltara com tudo, mas ela sumira.
Meu dedo pairou sobre o teclado. Digitar um "bom dia" não parecia adequado, era muito normal para o buraco que estava no meu peito. Enviar um gif? Também não.
No fim, apenas o fechei.
Caminhei até a janela e descorri as cortinas.
Um jato brutal de luz branca bateu fortemente nos meus olhos.
— Cacete. — grunhi, virando o rosto.
Mesmo de olhos fechados, os borrões vermelhos e laranjas dançavam na escuridão.
Aos poucos me acostumei. Primeiro abri um olho, depois o outro. O mundo lá fora não era só luz. Estava quente.
O sol já estava alto e escaldante, de onde era possível ver as ondas de calor tremeluzindo na superfície do asfalto.
E então, como um segundo soco no estômago, veio o pensamento:
“É segunda, né?”
A ideia ecoou em minha cabeça ao som de uma porta de prisão se fechando. O dia em si não era o problema, mas parecia que toda energia negativa da semana se condensava naquela manhã, como um peso que ia muito além do calor.
Virei para sair do quarto. Pisei com cuidado para não passar por cima do campo minado de Lego outra vez.
Caminhei até o banheiro, onde escovei os dentes e lavei o rosto. Eram movimentos automáticos que se tornaram uma programação gravada no corpo, repetidos tantas vezes.
Ao levantar o rosto, ainda pingando, me encontrei no espelho.
— Hm…
Antes de sair, parei diante do espelho. Inclinei a cabeça de leve para analisar meu próprio reflexo.
Um sorriso pequeno apareceu nos cantos da minha boca.
— Ahaha! Nada mal.
Não fazia mal algum apreciar o que se via ali de vez em quando.
Meu cabelo escuro estava um pouco bagunçado, mas nada que comprometesse completamente. Minha pele pálida denunciava o tempo excessivo dentro de casa, mas eu não me importava muito com isso. Meus olhos, da mesma cor das raízes do cabelo, carregavam um brilho indecifrável, um marrom profundo que, dependendo da luz, poderia ser até atraente.
Não se tratava de narcisismo, na verdade, era autoestima.
— Acorda, moleque!
O grito não partiu do corredor. Estourou lá embaixo, subiu as escadas como um foguete, atravessou as paredes e foi direto para o meu ouvido. Tive um choque repentino na base da espinha a ponto que meu coração deu um salto equivocado no peito.
Minha reação física foi mais rápida que a mental. Bati a porta do banheiro ao correr para as escadas, impelido por um medo instintivo.
— Que foi, caramba?! Tô aqui!
Na cozinha, ela me esperava, escorada no balcão com aquele sorriso torto e irritante.
— Sua namoradinha virtual te deu um pé na bunda, foi? Cê desceu tão cedo.
O sangue subiu ao meu rosto sem que eu pudesse controlá-lo. Respirei fundo, tentei não cair na provocação, embora o jeito debochado dela já começasse a corroer minha paciência.
— Vai à merda, Kate. Tu gritou do nada, por isso vim aqui.
— Hahaha! Eu só tô brincando, seu mal-humorado. Relaxa, não morre por isso.
Fiz uma careta e desviei o olhar. As palavras dela ainda insistiam em pairar no ar, e o incômodo que causaram não desaparecia tão facilmente. Kate sabia exatamente onde cutucar para me provocar o suficiente para me fazer perder o equilíbrio.
— Você não precisa ficar jogando isso na minha cara o tempo todo.
— Ah, entendi. Vergonha da sua namorada?
— Quê?! Não! Não é isso, é só que…
Tentei articular uma resposta decente, mas tudo o que saiu foi um amontoado de palavras desconexas.
Suspirei, derrotado.
— Esquece.
Larguei o corpo na cadeira, cruzando os braços. Não valia a pena discutir. Meu olhar caiu sobre a mesa, e foi aí que todo o embaraço deu lugar a algo mais importante.
Diante de mim, um misto quente perfeitamente dourado reluzia como uma oferenda divina. Ao lado, um copo de suco de laranja brilhava sob a luz da cozinha.
— Uau…
Kate se inclinou um pouco, apoiando o cotovelo na mesa, o sorriso de quem já sabia que tinha vencido estampado no rosto.
— Tá vendo? Eu que fiz.
Ergui uma sobrancelha, desconfiado.
— Fez mesmo? — Peguei o sanduíche, analisando com olhos críticos. — Não colocou nada estranho aqui, né?
— Idiota. — Revirou os olhos, mas um sorriso meio contido escapou. — Come logo antes que eu jogue fora.
Peguei o sanduíche e dei uma mordida, saboreando o queijo derretido na boca ao mesmo tempo em que a crocância do pão cedia sob os dentes. Embora não fosse uma obra-prima da culinária, tinha um gosto caseiro reconfortante, um tipo de comida que trazia uma sensação de pertencimento, mesmo quando não se queria admitir.
— Tá bom. Ficou… aceitável.
Com o queixo levemente erguido, Kate levantou uma das sobrancelhas e cruzou os braços.
— Aceitável? Eu devia começar a cobrar.
— Cobra nada. — Mastiguei mais um pedaço e a encarei, fingindo seriedade. — Você me deve isso depois de gritar igual uma lunática.
Apesar do suspiro exagerado, o brilho em seus olhos revelava que ela não se arrependia nem um pouco.
— Tá, mas pelo menos me agradece. Não é todo dia que você vai comer algo tão bom.
— Vou pensar no caso.
Kate sempre teve esse talento irritante para fazer as coisas funcionarem. Não importava se era algo tão banal quanto um misto quente ou algo mais complicado, como sair ilesa de situações em que qualquer outra pessoa se daria mal.
Enquanto mastigava, um som involuntário de satisfação escapou. Baixo, mas não o suficiente para passar despercebido.
— Que bonitinho. Parece uma criança comendo.
Revirei os olhos, mas ignorei. Esta adorava jogar verde e colher reações. E eu já tinha caído nessa armadilha vezes demais para morder a isca agora.
A Kate era mais velha que eu por cinco anos e, mais importante, mais alta por uns bons centímetros.
Ela gostava de multidões, festas e movimento. Por outro lado, eu preferia o conforto do meu quarto, a companhia de uma tela brilhante e um filme aleatório, enquanto me perdia em pensamentos.
Nos traços, tínhamos algo em comum: olhos da mesma cor, um tom quente de marrom, e o cabelo igualmente escuro. Mas, se o dela estava preso num rabo de cavalo meio displicente, o meu era sempre muito bagunçado.
Hoje, no entanto, Kate estava diferente. Não o tipo de diferente que passaria despercebido. Seu habitual jeans e camiseta deram lugar a leggings, um top e uma camiseta jogada por cima.
Analisei o conjunto com um arquejo curto, antes que o filtro do bom senso resolvesse aparecer.
— Achei que demoraria mais pra você entrar numa academia.
Ela desviou o olhar, alisando a barra da camiseta como se estivesse repassando algo na cabeça.
— Tava na hora. Me dá uma tristeza quando olho no espelho e vejo meu corpo. É tão… sei lá…
Franzi o cenho, esperando que continuasse.
Kate puxou a camiseta, levantando-a um pouco, e beliscou a pele na lateral da barriga com um olhar severo.
— Isso aqui me irrita. Essa pochete me dá nojo.
A agitação dentro de mim foi causada pela forma como foi falado. Aquilo não era um comentário casual, que se restringia à estética. Isso era mais profundo, mais corrosivo.
— Pode parecer idiota, mas tem dias em que evito espelhos. — Passou os dedos na borda da mesa, como se não quisesse me encarar diretamente. — Parece que meu reflexo me julga, entende? Como se estivesse apontando tudo o que tá errado. Como se estivesse rindo.
Os ombros dela relaxaram um pouco ao suspirar, mas os dedos continuavam inquietos sobre a superfície da madeira.
— O que você acha?
Era raro Kate perguntar minha opinião sobre algo. Normalmente, ela decidia, agia e seguia em frente. Isso não combinava consigo mesma.
Engoli em seco, pensando no que responder.
— Você é bonita pra caramba. Não entendo por que se importa tanto com isso. Tá tentando agradar alguém? Se for homem, já perdeu tempo. A maioria saiu direto do cu.
Kate soltou um riso abrupto, uma gargalhada sincera que iluminou seu rosto.
— Pfft, hahaha! Meu Deus, você fala cada coisa… — Balançou a cabeça, divertida, mas logo o sorriso se suavizou. — E obrigada. Mas não é isso. Tô cansada de me sabotar. Talvez seja hora de me tornar uma versão melhor de mim mesma.
Aquilo me fez refletir sobre o modo como foi dito. Melhor para quem? Se fosse para a própria pessoa, ótimo. Mas, se fosse para se encaixar em algum padrão ridículo, já estaria fadada à frustração.
Kate puxou a cadeira ao meu lado, sentou-se com o corpo relaxado e os cotovelos apoiados na mesa. Entrelaçou os dedos sob o queixo e me encarou com uma expressão que indicava que já tinha algo em mente.
— Vai, Krynt. Confessa. Vocês dois andam brigando, né? Aposto.
Meu estômago contorceu levemente, mas fingi desinteresse, mordendo outro pedaço do misto quente feito se ele fosse a coisa mais interessante do mundo.
— Tá tudo bem entre a gente. Ou… acho que tá.
Ela arqueou uma sobrancelha, claramente não convencida.
— Tá tudo bem, ele diz. — Repetiu, imitando minha voz com um tom forçado. — Esse é sempre o código pra as coisas tão uma merda, mas eu não quero admitir.
Desviei o olhar, focando no prato. Mastiguei devagar, dando tempo para minha mente encontrar uma resposta que soasse convincente. Não achei nenhuma.
— Só não quero falar disso agora, tá? Não é o momento.
Kate soltou um riso baixo, tomando um gole de água antes de responder.
— Beleza, garoto teimoso. Mas você sabe que pode falar comigo, né? Mesmo eu não sendo a melhor conselheira do mundo. — Girou o copo entre os dedos. — Só um conselho: não crie grandes expectativas.
Ergui os olhos para ela.
— Como assim?
— Simples. Se você já espera que algo vá dar merda, não dói tanto quando acontece.
Embora tenha dito isso de maneira despretensiosa, algo em seus olhos trazia à tona lembranças que gostaria de manter enterradas.
— Isso é meio… sombrio.
— E prático.
Com um gesto de leveza, Kate deu de ombros, aceitando uma verdade feia e aprendendo a conviver com ela.
— Eu sei que não é a coisa mais otimista do mundo, mas é a realidade, Krynt. Aprenda com isso.
Sorriu, mas o sorriso não alcançou os olhos.
— Falando sério, se precisar de alguma coisa, só falar.
Respirei fundo, digerindo aquilo.
— Valeu. Vou tentar lembrar disso.
Esta estalou a língua, inclinando-se na cadeira com um ar provocador.
— De nada, garotinho. Mas ainda quero saber. Me conta logo.
Levantei uma sobrancelha, encarando-a diretamente.
— Já disse que não. Fofoqueira.
Revirou os olhos em resposta, claramente enojada.