A televisão de tela plana, instalada na parede no canto da cozinha, próxima à mesa de jantar de madeira maciça, estava no programa de notícias que acabara de voltar dos comerciais.
— Isso de novo… — falei, aborrecido.
— É o que mais está sendo comentado. Você deveria ouvir, pode ser interessante.
— Duvido. Isso só me deprime.
A maioria destas notícias eu considerava sem importância, mas pareciam fascinar particularmente Kate.
O estúdio ao fundo dos jornalistas se iluminou. Uma mesa elegante estava repleta de papéis e anotações. A repórter latina Sophia Vargas, de olhos e cabelos castanhos, ajustava seu microfone. Ao seu lado, John Davies, ancorista experiente de cabelos grisalhos e olhos azuis, recostava-se na cadeira.
— Estamos de volta. — disse ele. — E entramos agora em um assunto que tem dividido o país.
Kate soltou um suspiro longo.
— Lá vem…
Sophia inclinou levemente o corpo para frente.
— Com as eleições presidenciais se aproximando, o clima político nos Estados Unidos entra em mais um período de tensão. Comícios lotados, discursos inflamados e promessas que têm chamado atenção até fora do país.
— Especialmente considerando o contexto global em que vivemos hoje.
Por trás deles, a imagem mudou. Apareceu um mapa-múndi com a Europa em tons escuros.
— Desde o fim da Segunda Guerra — continuou John —, os Estados Unidos seguem como uma das poucas grandes potências que nunca foram ocupadas ou formalmente dominadas pelo regime alemão. Isso moldou não só nossa política externa, mas também a forma como o país se enxerga.
— Traduzindo — falava Kate —, isso é síndrome de protagonista.
Segurei um riso.
Sophia assentiu lentamente.
— E é justamente essa imagem que o atual presidente tem explorado em sua campanha de reeleição.
A cena alternou para imagens de um comício. Havia bandeiras tremulando, uma multidão aos gritos de slogans, bonés e cartazes erguidos no ar.
O presidente apareceu no palco vestido com um terno largo, uma gravata longa e estampava um sorriso forçado. Ele apontava para a plateia com o dedo em riste, como se estivesse escolhendo alguém para receber um prêmio invisível.
— Meus compatriotas — começou, abrindo os braços —, este país está sendo roubado. Roubado há anos! Mas isso vai acabar. Vai acabar muito em breve.
Kate soltou um riso curto pelo nariz.
— Aham.
O presidente apontou para a câmera, como se estivesse falando diretamente comigo.
— O sonho americano não está à venda. Não está para alugar. E não está aberto a interpretação! É nosso! Foi construído com suor, sangue e ferro americano! E sabem quem está tentando roubá-lo? — Apontou um dedo acusador para a câmera. — Os parasitas. Os que chegam de fininho, pelas sombras. Os que não falam nossa língua, não honram nossa bandeira, não amam nosso Deus. Eles são um câncer, e um cirurgião, quando vê um câncer, o que ele faz?
O público rugiu uma resposta ensurdecedora e indistinta.
— Isso mesmo! E eu sou o cirurgião-chefe! Milhões vão sair. Milhões! Vai ser rápido, eficiente e… bonito. Muito bonito!
O estúdio reapareceu em tela dividida. Sophia mantinha o rosto neutro, mas os olhos estavam tensos.
— Vamos limpar o país. — disse ele, sorrindo. — Tirar o lixo, tirar o que não presta. Gente que não trabalha, que não contribui, que não é… compatível com os valores americanos.
Senti um arrepio subir pelas minhas costas. Não porque era demais, mas porque isso era dito de forma muito simples.
— Compatível é meu pau. — murmurei, mais alto do que pretendia.
Kate trocou um olhar rápido de divertimento e incômodo comigo.
— Ele nem disfarça mais.
O presidente ergueu o punho fechado.
— E não são só os ilegais, não! É todo esse lixo cultural, essa gente impura que mina nossos valores! Essas porcarias de artistas, jornalistas mentirosos, professores com suas ideias podres, eles vão ser catalogados! Vamos dar uma boa olhada no que estão ensinando aos nossos filhos e nós vamos reivindicá-lo, com fogo e aço se preciso!
A multidão explodiu em aplausos.
A imagem congelou no rosto triunfante do presidente, com a boca aberta em um grito não emitido.
Sophia retomou a fala no estúdio.
— Levantamentos feitos nas últimas horas indicam que uma parcela significativa do eleitorado vê essas falas como necessárias. Para esses apoiadores…
Não tive mais paciência. Apanhei o controle, que estava largado sobre a mesa de centro, e apertei o botão para mudar de canal.
No lugar da imagem da âncora, um fundo cinza-azulado, tomado por gráficos simples demais para parecerem reconfortantes, apareceu. Nele havia um logotipo no canto da tela.
U.E.C.
— Ah, não. — Kate reclamou na hora. — Sério isso? Tu trocou justo agora?
— Eu só… — Suspirei — Cansei.
Na TV, um homem de cabelos loiros e olhos vermelhos falava direto para a câmera.
— Em caso de encontro com um Mephisto, mantenha distância. Não tente diálogo. Não corra em linha reta…
— Olha isso. — Kate apontou para a tela, irritada. — Isso é terrorismo psicológico. Eles passam isso toda semana e fingem que é normal.
— Prefere ouvir o outro cara falando sobre gente impura?
Ela abriu a boca para responder, mas, de repente, a fechou.
O agente da U.E.C. continuava gesticulando, em uma sequência de animações curiosamente reais.
— Se houver contato visual prolongado, evite movimentos bruscos…
O som se tornou distante à medida que meus pensamentos se intensificaram.
Levantei os olhos por impulsividade e foi quando vi o relógio de parede. Os ponteiros giravam mais devagar do que o normal, quase me provocando.
Onze e quarenta e três.
— Tá de sacanagem… — murmurei.
Ainda não era tarde o suficiente para entrar em pânico, e também não era cedo o bastante que desse para ficar parado ali, absorto naquele clima pesado da TV.
Respirei fundo, contando mentalmente.
“Tá. Dá tempo. Pouco, mas dá.”
Kate me encarou de canto do olho.
— Atrasado?
— Um pouco. — respondi, empurrando a cadeira pra trás.
O pé da cadeira arranhou o chão com um som seco. Sem pensar duas vezes, levantei rápido demais de modo que a metade do pão e o copo ainda sujo de café ficaram largados na mesa.
— Ei, e vai deixar isso aí mesmo?
Peguei a mochila do encosto da cadeira enquanto andava de costas.
— Sem tempo!
— Você sempre não tem tempo. Pelo menos joga uma água nisso.
— Se eu jogar água agora, chego atrasado. — falei, indo em direção ao corredor. — Se eu chegar atrasado, você reclama depois. Escolhe a reclamação.
— Idiota. — resmungou, com os braços cruzados.
— Eu lavo quando voltar! — gritei, subindo o primeiro degrau.
— Você sempre fala isso!
— E às vezes eu cumpro!
Subi as escadas de dois em dois.
Ao entrar no quarto, fechei a porta com mais força do que o necessário. Joguei a mochila na cama e, com as mãos, percorri o cabelo a fim de controlar a respiração.
— Tá, tá… Vamo pegar alguma roupa.
Caminhei até o guarda-roupa e o abri.
Comecei por baixo. Puxei um jeans destroyed preto. Para o tronco, vesti uma camiseta preta oversized. Olhei para o espelho enquanto ajeitava o caimento e assenti com a cabeça.
Peguei as correntes de prata sobre a mesa de cabeceira. O clique do fecho atrás do pescoço soou satisfatório. As correntes brilhavam contra o tecido escuro da camiseta, adicionando um detalhe pequeno, mas que fazia toda a diferença.
“Vaidade, né?”
A palavra soou na minha mente como uma acusação. Muitas pessoas associam vaidade à arrogância. Eu discordava. Ao ajustar os colares para que caíssem em alturas diferentes, pensei que a palavra, na verdade, era uma forma de polidez consigo mesmo.
E se não era respeito, certamente era o mínimo de cuidado que se devia ao próprio reflexo. Se o mundo estiver um caos e eu me sentir quebrado por dentro, por que deveria parecer quebrado por fora?
O cuidado estético era a minha armadura; se eu parecesse bem, talvez acabasse me sentindo bem por osmose.
Sentei na beirada da cama para calçar os tênis. Os dunks em azul marinho e branco. Eles quebravam a monotonia monocromática do resto do visual com um novo peso visual aos pés.
Depois de amarrar os cadarços, levantei-me para me encarar no espelho mais uma vez.
Coloquei as mãos nos bolsos da frente e relaxei os ombros.
— É isso, nada mal.
Lá embaixo, ouvi Kate bater alguma coisa na pia.
— Pelo menos o visual não é o problema.
— Nunca foi.
De todos os lugares e nenhum ao mesmo tempo, a voz surgiu. Um sussurro, tão íntimo quanto meu próprio sangue, fazia contato com o fundo da minha mente.
Minha razão não conseguiu superar a reação do meu corpo. Num impulso repentino, virei-me para qualquer lado, as mãos já fechadas em punhos e os sentidos alertas.
O quarto estava vazio. A porta, fechada.
Mas a janela…
Um gato preto, como se sempre tivesse estado lá, me encarava sobre o parapeito externo da janela. Seu pelo absorvia a luz da tarde, fazendo com que se destacasse contra o céu como um vazio de contornos perfeitos. Seus olhos, de um âmbar intenso, não pestanejaram.
O felino inclinou a cabeça.
— Meow.