O ar zumbia como uma colmeia. Passando por um relógio digital em um poste, lá avisava que faltavam oito minutos para o portão fechar, e meu estômago se revirou. As pessoas se agitavam ao meu redor, com mochilas batendo e murmúrios. Era uma corrida louca até a linha de chegada.
De repente, algo chamou minha atenção. Do outro lado da rua, uma mulher idosa se destacava como uma única flor em um campo de ervas daninhas. Seu cabelo, branco como o luar, brilhava na luz do sol. Mas foi a maneira como ela estava, curvada e arrastando os pés, que me fez parar. Ela estava presa, claramente querendo atravessar.
Eu estava em um verdadeiro dilema. Parte de mim queria apenas seguir em frente antes que eu me atrasasse. Mas vê-la tão perdida na pressa me fez sentir pena dela.
Com um suspiro abafado, um som quase inaudível acima do barulho, estalei a língua em um gesto de aquiescência relutante.
— Tudo bem, tudo bem. — murmurei para mim mesmo, forçando uma aparência de calma. — Apenas um desvio rápido. Espero que sim.
Não era o ideal, mas eu não podia deixá-la ali.
Meus passos se aceleraram, com uma estranha urgência me atraindo, em direção à mulher, com o braço esquerdo dobrado desajeitadamente nas costas.
Respirando fundo, forcei um sorriso que parecia apertado nas bordas.
— Me desculpe, senhora. — falei, com a voz um pouco mais ansiosa do que o normal. — Talvez você precise de uma mão para atravessar?
Seu olhar de safira desbotada passou do meu rosto para o meu braço escondido, um lampejo de surpresa dando lugar a uma onda de alívio que tomou conta de suas feições envelhecidas.
— Oh, claro.
Estendendo a mão livre, ela segurou a minha com uma força surpreendente, a pele calejada como prova de uma vida bem vivida.
Juntos, navegamos pela rua movimentada, com os passos medidos e lentos.
Antes mesmo de chegarmos à faixa, um som agressivo rasgou o ar.
Beeep!
Um carro estava parado. O motorista colocou a cabeça para fora da janela.
— Ô, vão ficar parados aí até quando? Sai da frente, porra!
Olhei de relance para a idosa ao meu lado, que encolheu levemente os ombros. Aquilo me incomodou mais do que deveria.
— Calma aí, campeão. A rua não é só tua, não.
— Anda logo, moleque. Não tenho o dia todo pra ficar esperando gente lenta.
Inclinei um pouco o corpo pra frente, o suficiente para que me ouvisse bem.
— Engraçado, porque parece que você tem tempo sobrando pra ser um arrombado.
Seguiu-se um momento de silêncio pesado.
— O quê que você disse?
A senhora puxou minha mão de leve.
— Não vale a pena, querido.
Algumas pessoas que estavam na calçada pararam para ver o que se passava. O motorista bateu com a mão no volante, praguejando algo inaudível, mas não se moveu do lugar. O semáforo estava contra ele e aquilo parecia ferir profundamente o seu frágil orgulho.
Não esperei mais.
— Tá. Vamos.
Dei o primeiro passo para a rua, a ritmo com ela, fazendo ouvidos de mercador quanto ao carro e ao olhar atravessado do que lá dentro me fitava. A buzina não voltou a soar, mas era possível sentir o rancor no ar.
Chegando à calçada oposta, eu disse gentilmente:
— Aqui está.
Sua sobrancelha se franziu levemente, com uma pitada de confusão obscurecendo seus olhos gentis.
— Obrigada, querido. Gostei da sua atitude.
O calor em sua voz pouco fez para descongelar o nó de desconforto que se apertava em minhas entranhas.
— Sem problemas. — respondi, o sorriso se transformando em uma careta. — Só tome um pouco mais de cuidado da próxima vez.
Seu olhar, afiado como o de um falcão, manteve o meu por mais tempo do que o necessário. Então, com uma mudança sutil, seus olhos pousaram em meu membro oculto.
A pergunta não dita pairou pesadamente no ar.
— Está tudo bem contigo?
Meu coração martelava em um ritmo frenético contra minhas costelas.
— Oh… hã… S-sim, senhora! — gaguejei, as palavras saindo com pressa. — Tá tudo bem. Eu só, uhm…
Minha mente se embaralhou em busca de uma desculpa, qualquer desculpa.
— Tenho que ir agora! Tchau!
Com um aceno que mais parecia um movimento frenético de empurrar, eu me virei e praticamente fugi, o eco de sua pergunta sem resposta sendo uma batida constante em meus ouvidos.
Suas palavras de despedida, “Que Deus o abençoe”, foram levadas atrás de mim como uma pena na brisa enquanto eu acelerava o passo, seguindo a direção do meu trajeto traçado.
Uma olhada para trás revelou seu rosto gravado com um sorriso tão genuíno, tão afetuoso, que até mesmo minhas próprias inclinações não religiosas não conseguiram impedir que uma resposta se formasse.
— Valeu!
Talvez seja isso. A empatia, a capacidade de ver o mundo como os outros veem e dar uma ajuda, talvez devesse ser a emoção mais importante que eu podia ter. Era necessário abandonar a própria individualidade, relegando para segundo plano as preocupações pessoais, para compreender as necessidades alheias.
Meus pés batiam na calçada, impulsionando-me para mais perto do portão. Virando a esquina, estava chegando próximo.
Respirei fundo, no entanto, quando minha frequência cardíaca começou a diminuir, meu olhar se desviou para o meu braço.
— Hm?
Aquela marca, a fonte do meu constrangimento anterior, felizmente parecia ter desaparecido sem deixar vestígios.
Apesar de a evidência física ter se dissipado, um nó de desconforto permaneceu alojado em minhas entranhas.
— Aquilo que…
De repente, uma voz cortou o ar.
— Krynt!
Eu levantei o olhar para vê-lo. Um sorriso se estendeu em meu rosto quando reconheci a figura familiar que se aproximava.
— Olha ele! E aí, Ed!
O tempo parecia ter se parado quando seu rosto se iluminou com um sorriso que poderia rivalizar com o sol do meio-dia.
Seus olhos, da cor turquesa, brilhavam contra seus cabelos castanhos escuros. Um contraste gritante que sempre chamava a atenção. Tínhamos praticamente a mesma altura e idade, um fato que solidificou o vínculo fácil e fraternal que compartilhamos.
Um high five se materializou no ar quando chegamos perto. Nossas palmas se conectaram com um estalo satisfatório.
— Oooh! — Meus olhos se arregalaram de surpresa, uma genuína centelha de diversão substituindo a apreensão persistente. — Carai, cê viu isso?!
— Sim, mano! — respondeu, com uma voz cheia de admiração que refletia a minha.
O acidente anterior, a adrenalina, a estranha marca em meu braço – tudo isso ficou em segundo plano quando a alegria do reencontro assumiu o centro do palco.
Rimos ainda por mais um segundo, embalados por aquela euforia boba de quem se conhece desde sempre. Só então foi que o meu olhar desceu ao seu conjunto completo, espreitando como quem avalia uma obra duvidosa numa galeria.
Edward estava vestido todo de preto. Vestia calças cargo largas. Por cima, uma jaqueta escura com forro felpudo e volumoso, sobre uma blusa branca, que fazia pensar que ele estava se preparando para enfrentar o inverno no meio do calor.
No pescoço, colares prateados em camadas, que pendiam soltos e refletiam a luz sempre que se mexia.
Inclinei a cabeça ligeiramente, apertando os olhos.
— Edward… — falei, segurando o riso. — Tu não tá com calor, não?
— Estilo exige sacrifícios.
— Sacrifício térmico, né? Tá parecendo que vai derreter antes do intervalo.
— Inveja é foda mesmo — respondeu, ajeitando um dos colares, como se aquilo fosse parte de um ritual sagrado.
Revirei os olhos, mas acabei rindo. Antes que eu pudesse retrucar, Edward fez um gesto rápido com a cabeça em direção à entrada.
— Vambora antes que seja tarde.
Olhei por cima do ombro. Os portões da escola já estavam praticamente fechados.
Espalhados em pequenos grupos, alguns encostados aos armários, outros sentados no chão, os alunos falavam todos alto demais, que nem se o volume compensasse o vazio das primeiras semanas.
— Aliás, tu tem noção de que sumiu por uma semana inteira, né?
— Tenho. — respondi. — Tava planejado.
Ele virou o rosto pra mim, desacreditado.
— Planejado?
— Primeira semana depois das férias, mano. Não tem nada. Professor passando lista, falando do cronograma, ameaçando prova que nunca acontece. É praticamente um aquecimento social.
— Aquecimento social é o meu piru. A coordenação não vê assim. Teu nome já rodou na sala deles.
— Interessante. — Dei uma risada curta.
— Relaxa, uma semana não mata ninguém.
— Mata, sim. — Deu-me um leve chute na canela. — Mata minha reputação de amigo responsável que anda contigo.
— Tu nunca teve essa reputação.
— Justamente por tua causa.
Entramos no corredor principal. O barulho ecoava nas paredes, misturando-se vozes num caos familiar. Pouco depois, um grupo passou apressadamente, tendo quase colidido contra nós. Alguém pediu desculpa sem parar de andar.
Edward abrandou o passo, andando de lado.
— O que ainda me impressiona é como você tá no terceiro ano.
— Ué, é mérito.
— Mérito o cacete. — Ele riu.
— O sistema educacional que é falho falho. Eu só me adaptei.
— Você quebrou o sistema pelo cansaço. Os professores desistiram de tentar te reprovar. Foi isso.
— Pegou a visão.
Viramos no corredor que levava às salas do terceiro ano, mas Edward parou no meio do caminho. Ficou ali, parado demais, mudando o peso de uma perna pra outra.
— Pera, preciso mijar.
Primeiro olhei para ele, depois para o corredor e, por fim, de novo para ele.
— Belê, vou te esperar na sala.
— Ainda dá tempo antes do sinal. — Apontou com a cabeça para a direção dos banheiros. — Bora?
— Não.
— Não o quê?
Franzi a testa.
— Não vou segurar pau de macho.
O garoto deixou sair uma gargalhada alta.
— Deixa de ser doente! — disse, puxando-me pelo braço. — É só pra conversar enquanto eu salvo a bexiga.
— É assim que começa — retruquei, me permitindo ser arrastado. — Gosto disso não.
O cheiro característico bateu-me logo nas narinas com a sua mistura de produto de limpeza barato e azulejo úmido. O local estava vazio. Edward dirigiu-se diretamente para uma das cabines no fundo, batendo a porta atrás de si.
Cruzei os braços, confrontando o meu reflexo distorcido no espelho manchado. Respirei fundo. Aquele desconforto estranho ainda se fazia sentir, como uma cutucada por dentro.
A porta da casa de banho abriu novamente.
Dois alunos entraram conversando em voz baixa, mas interromperam a frase quando me viram. Um deles reconheceu-me quase de imediato.
— E aí, Krynt. — disse, erguendo a mão. — Sumido, hein?
— É, dei um tempo do mundo.
— Pensei que tu tinha largado a escola. —
Olhou em volta. — Ou pior.
— Ainda não, tô tentando aos poucos.
— Justo. — disse, seguindo com o amigo para os mictórios.
Fiquei quieto, ouvindo sem querer o que estavam conversando.
— Tu viu aquele bagulho da avenida? — Um deles comentou, abaixando a voz. — O carro capotou do nada.
Meu estômago deu um tranco seco.
— Sim, eu vi isso agora pouco. — O outro respondeu. — Ninguém sabe como aconteceu. Não bateu em nada.
— Disseram que foi tipo arremessado. Alguém falou que parecia que viu um cara que empurrou.
O som da descarga da cabine de Edward ecoou alto naquele momento.
Engoli em seco.
— Essas coisas estranhas que tão rolando são bizarras.
Eles terminaram ali, lavaram as mãos rápido e saíram do banheiro ainda conversando, as vozes sumindo pelo corredor.
Fiquei parado, encarando o chão por um segundo longo demais.
Senti um formigamento familiar a subir pelo braço, de forma discreta, mas impossível de ignorar. Apertei os dedos, como se isso fosse convencer o corpo a ficar quieto, mas não adiantava de nada. Não se tratava de medo do castigo, mas de algo pior. A noção de que aquilo podia voltar a acontecer. A qualquer momento.
— Ei.
Quase dei um pulo.
Edward saiu da cabine, fechou a porta atrás de si e ajeitou a jaqueta. O seu olhar cruzou-se com o meu por um instante, e a sua expressão transmitiu uma mudança, do deboche habitual para uma atenção mais acentuada.
— Tu tá com cara de quem viu um fantasma.
Balancei a cabeça rápido.
— Nada, só… pensando demais. Vamos pra sala logo.