Por quê essa garota está em cima de mim? Ela não tinha ido dormir na cama? Ah, tanto faz, ela vai embora logo. Sem muita calma, empurro ela pro lado enquanto tento me levantar.
Essa garota pesa mais do que eu imaginei, isso que dá comer 5 pedaços de pizza.
— Levanta aí, você pode tomar um banho se quiser, acho que ainda tem um tempo até a aula… Que?!
Enquanto coçava meus olhos eu olhei pro relógio, já passava das nove. Minha aula às quintas começa 8h.
Eu estou atrasado.
Tenho quase certeza que hoje era alguma coisa importante na primeira aula.
— Eei Lucas… — uma voz sonolenta e feminina me chamou — Eu to com fome…
— E eu com isso? Vou tomar banho primeiro, já que você não se importa, certo?
Não importa se eu acabei acordando atrasado porque esqueci de ligar o despertador, não importa se eu não tenho nada pra tomar café da manhã porque esqueci de comprar coisas, não importa se não escovei os dentes antes de dormir, vou seguir minha rotina normalmente igual sempre faço.
Primeiro me levanto; não arrumo a cama pois vou dormir nela ainda hoje, apesar de ninguém ter dormido, visto que a garota caiu dela durante a madrugada. Depois disso vou ao banheiro e tomo banho para acordar melhor, normalmente eu iria fazer tudo com pressa mas agora, nesse ponto, nem adianta. No fim eu tomo café da manhã, escovo os dentes e saio de casa.
Mas tem um empecilho aqui.
E ela ainda por cima voltou a dormir!
Não tenho café nenhum pra tomar, então só escovei meus dentes e vim para a porta colocar os sapatos. Claro, fiz questão de acordar “Aira” pra ela ir embora.
— Eei Lucas, tem certeza que preciso ir embora? Eu to com fooomeeee.
Após ela falar isso, um ruído esquisito pôde ser escutado. Talvez fosse um inseto monstruoso? Não, na verdade era só a barriga dela roncando. Descobri isso porque o barulho se repetiu logo depois e ela fez cara de envergonhada.
Sério, de onde ela tira espaço na barriga pra ter tanta fome?
— Olha… Pega esses vinte reais e compra algo pra comer na padaria, fica à duas quadras seguindo a esquerda daqui. Agora, se me dá licença, eu vou indo. Boa sorte pra encontrar algum lugar.
— Mas Luucaas.
— Tchaaau — disse enquanto fechava o portão.
Enquanto ela ia seguindo triste e emburrada para a esquerda, eu, pelo contrário, fui pra direita, a caminho do ponto de ônibus. O percurso que o ônibus faz é bem simples, na verdade, ele segue a avenida principal da cidade e vai até a universidade.
Sempre que espero meu ônibus, me sento em uma das cadeiras do ponto e puxo meu telefone. Gosto de checar as redes sociais pela manhã, principalmente o twitter, que é um lugar no qual sempre discuto com o usuário @Ghaamora.
— Ei você viu que a …. terminou com a …. por causa de ….ão?
— É, eu fiquei sabendo, também soube que o …. não quis mais fazer o ….
O quê elas estão conversando?
Não sou extrovertido e, por conta disso, acabei não fazendo muitos amigos… na verdade só fiz um até agora, Gustavo Martinelli. Ele era o tipo de cara que qualquer mulher iria querer ter por perto, e por incrível que pareça ele me pediu ajuda na calourada, mas não vou entrar em detalhes agora. Voltando ao assunto, muitas fofocas rolam soltas por aí e, como sou um pouquinho curioso, gosto de escutar. Não que eu vá repassá-las para ele ou qualquer outra pessoa, apenas gosto de saber e formar minhas opiniões fortes e corretas.
Resolvi chegar mais perto enquanto tento disfarçar que é apenas para ouvir a conversa.
— …
— É por causa do …
Não funcionou.
Quando olhei, elas tinham dado alguns passos na direção oposta à minha. Talvez eu não fosse tão bom de disfarce quanto pensei.
Felizmente, vejo o ônibus chegando perto do ponto. Sempre espero alguém mais proativo acenar para ele, e como de costume, alguém o fez. Por sinal, foram as duas garotas fofoqueiras de antes, vou me sentar na cadeira atrás delas para ouvir o resto da fofoca.
Lotado.
O ônibus está extremamente cheio.
Ouvi alguns veteranos falarem sobre os ônibus ficarem mais cheios no primeiro semestre, mas isso aqui é cheio até demais. Acho que realmente tinha algo importante hoje. Mas, deveria ser apenas na primeira aula… certo?
Enquanto sofria de ansiedade pelo que me aguardava acabei notando, muito mal escondida, uma figura que eu tenho certeza já ter visto antes. Cabelos ruivos — Não, são realmente bem vermelhos, mais do que parecia ontem de noite — voando com o vento e tentando se esconder atrás da coluna de sustentação dos assentos do ponto de ônibus.
— Eu já te vi, o quê você tá fazendo aqui ainda?
— Eu…
— Você o que? Hein? Será que não pode me deixar em paz um instante?
Por incrível que pareça, não estava gritando com ela, apenas falei em tom duro e sério.
— Eu acho que você vai perder o ônibus se não subir logo.
— Ah droga!
Não sei se é necessário comentar, talvez dê pra imaginar o que me ocorreu, certo?
— …
Eu consegui entrar no ônibus, óbvio. O problema é que na hora do susto eu acabei puxando ela pra cá.
Por quê eu? O que fiz pra merecer isso?
— Por que acho que está angustiado e se lamentando em sua cabeça?
É, eu realmente estava, como adivinhou?!
Mesmo com o ônibus lotado fomos capazes de entrar, o que me surpreendeu bastante, visto que estou praticamente sendo feito de “hambúrguer” com a porta e o resto das pessoas. “Aira” inclusa!
— Pode por favor parar de tentar se mexer, eu to sentindo algo bem macio nas minhas costas.
Não disse antes, mas gosto de usar uma bolsa transversal masculina porque acho que tem mais cara de universitário. Então sou capaz de sentir tudo o que é encostado nas minhas costas, até mesmo esses peitões dela!
— Pare de ser um pervertido, você me trouxe aqui então a culpa é sua! — ela falou isso bem alto, mas com toda a barulheira acho que só eu fui capaz de ouvir.
Mais uma mexida. Pare com isso imediatamente!
— Quem que repentinamente apareceu no meu quarto ontem de noite?
— Eu já te falei umas mil vezes, eu não sei como acabei parando ali.
O ônibus passou por uma lombada, então todos em pé se moveram com a inércia para cima e depois para baixo. E então teve mais uma mexida.
— E por que você decidiu me seguir? — Resolvi perguntar enquanto tentava ignorar a massagem que sentia nas costas.
— O que?
Ela chegou mais perto, estou sendo esmagado. Na verdade, seu par de amigos está! Nas minhas costas.
— Eu disse: Por que decidiu me seguir?
— Por que eu comi jabuti?
— Por… que… decidiu… me seguir
— Desculpa, ainda não entendi.
Então eu acabei gritando a frase. É claro que, na minha vez, iria ter um pequeno momento silencioso ao qual todos pudessem escutar caso alguém falasse mais alto. E esse alguém fui eu, Lucas Souza.
Me recuso a comentar que todos me encararam por 2 segundos. Dois longos segundos. Talvez os outros nem fossem se lembrar disso na próxima hora, mas eu… eu me lembrarei disso por anos.
— Ah tá, eu fui até a tal padaria mas ela tava fechada, daí eu voltei correndo e vi você parado, sozinho e se inclinando de forma esquisita na direção das meninas atrás de mim.
Agora eu admito que realmente não sou bom de disfarce. Confesso também que o “sozinho” na frase me entristeceu.
Espera um segundo…
— Como assim a padaria está fechada?
— A padaria é uma loja que tem um cachorrinho mordendo um osso bem grande, né?
Não é possível. Ela não se confundiu com o Pet Shop, não é?
— O que estava escrito no letreiro, logo abaixo do cachorro?
— Não lembro bem, só sei que tinha P na frente, então pensei que fosse a padaria.
Era realmente o Pet Shop.
— Que padaria tem “um cachorro mordendo um osso” como mascote?
— Alguma padaria que gostasse de cãezinhos, eu acho.
— Nem você acredita nisso!
Tenho quase certeza que a padaria ficava virando à esquerda… bom, o pior já passou, estou atrasado de qualquer forma, mas estou no ônibus e à caminho da universidade, certo? E como ainda tem um tempo até a aula começar, posso apenas deixá-la em um canto e depois sumir, assim ela nunca mais vai aparecer na minha casa, he he he.
— Que rosto malvado é esse?
— Ah, nada não…
Talvez eu não fosse o melhor em me disfarçar, mas de lábia eu definitivamente sou bom.
— Olha Lucas, olha, o portão da universidade. — Ela disse enquanto se remexia para tentar ver melhor, ela percebe onde “eles” estão encostando né?
— Oh, realmente chegamos.
A viagem parece ser mais rápida quando se conversa com alguém do que ficar scrollando o twitter.
Finalmente parando no ponto que precisava, desci do ônibus… Corrigindo, fui expurgado dele.
Melhor andar logo e levar ela pra algum lugar. Deixe-me ver, qual parece melhor? Perto do Departamento de Genética, no qual poderia fingir que ela é um humanoide e acabou se desenvolvendo demais, ou perto do Restaurante Universitário? Acho que perto do restaurante é mais fácil convencê-la a ficar.
— Então… erm… Aira… v-vamos por aqui, você quer comer, não quer? Pra lá fica o Restaurante Universitário.
— Esse seu tom de voz é bem suspeito — indagou enquanto franzia a sobrancelha — ,mas se tem comida eu vou!
Hah, fácil, fácil.
— Então me siga, é descendo por ali.
Postas as pernas para andar, nós seguimos adiante… Até uma voz masculina me chamar.
— Oi Lucas, quanto tempo!
Eu reconheço essa voz. Eu reconheço esse jeitão carismático de protagonista de anime. Eu reconheço essa figura mais alta e mais bonita do que eu. Você é…
— Oi, Gustavo.