Era ele mesmo, o mesmo Gustavo Martinelli que eu conheci nos dias de calourada. O mesmo que me pediu ajuda, assim como um protagonista de anime pede ao seu amigo quando ele tem problemas com muitas garotas gostando dele. O que será que ele quer comigo agora?
— Então… Heh, é meio difícil explicar isso agora… mas….
Vamos, desembucha, você quer pedir outro favor não quer? Apenas diga logo o que quer.
— A Giulia Novaes… está esquisita.
— Hãn?
— É, eu também não sei direito, mas quando a encontrei na rua ela parecia estar com algum problema, só que ela não quis me contar quando perguntei.
Você é tapado, por acaso? É óbvio que ela não falaria logo de cara, caso contrário não haveria história, nem mistério.
— Espera um pouco aí — com voz irritada,”Aira” interrompe nossa conversa — , eu ainda estou aqui, e to com fome!
É verdade, eu estava a levando para o restaurante universitário e a deixaria lá.
— Olá, moça bonita, qual seu nome?
— Eu sou a Aira.
— Oh, que nome legal, se parece com a garota da camiseta que o Lucas usou na Calourada.
— É, é exatamente igual o nome dela, legal né? — Aira abre um sorriso orgulhoso.
Como se ela sequer conhecesse quem é a cantora.
— É realmente bem legal, aliás, como vocês dois se conheceram? De qual curso você é? Nunca a vi antes por aqui, entrou nas chamadas posteriores?
Gustavo tinha um problema. Ele fazia perguntas demais, tantas que deixaria qualquer introvertido com vontade de vomitar só de pensar qual deveria responder primeiro. E dessa vez não foi diferente. Mas, mesmo com uma torrencial de perguntas Aira respondeu à todas elas.
— Ah, então você não faz faculdade aqui… certo. — Parecendo assimilar as informações, Gustavo assentiu com a cabeça enquanto fazia uma expressão de pessoa inteligente.
Você não engana ninguém!
— Espera aí, Lucas, ela disse que você estava a levando pro restaurante, mas ele fica pro lado contrário de onde estão indo.
Ah.
O caminho mudou, de novo.
Mas não posso falar isso pra eles.
— LU-CAS! — Uma voz feminina e irritada surgiu do meu lado esquerdo. — Você me disse que estávamos indo para o restaurante universitário.
E agora? Não posso apenas dizer que o caminho mudou. Droga, vou ter que inventar algo.
— Então… erm… é que…
— O Lucas estava indo pra lanchonete, já que o restaurante só abre às 11 horas.
Muito obrigado por ser boca aberta desse jeito. Sua bondade será recompensada em breve… não, na verdade eu só estou exagerando.
— É… é exatamente isso, acabei me lembrando disso e apenas esqueci de te contar.
— Hunf, bom mesmo que seja verdade.
Como eu adoro pessoas fáceis e burras. Elas são tão simples de manipular que até mesmo antissociais como eu podem inventar algo imbecil que elas vão acreditar.
— Bom — Gustavo interrompe com voz animada — Já que estamos indo para o mesmo lugar, podemos ir juntos.
— Pode ser, vamos até a lanchonete juntos então!
Não. Não. Não. Não. Isso é ruim. Se formos nós três, não terei nenhuma chance de largar a garota lá. E agora? E agora? E agora?
— Ei Lucas, está tudo bem? Você parece bem aflito com alguma coisa.
— Ah, não é nada. Vamos para a lanchonete.
A lanchonete não ficava longe, apesar da Universidade ser grande, o ponto de ônibus principal nos deixava bem no meio dela, onde a maioria das coisas a qual se precisava utilizar ficava, como a Biblioteca Universitária. Admito que só fui lá uma vez, para procurar um mangá. Não encontrei o que queria, então peguei Dragon Ball pra ler.
Percebi agora que não cheguei a descrever o Gustavo, e olhando bem pra ele, acho que não há nada muito que chame atenção à primeira vista, exceto seu cabelo incrivelmente bem penteado e sedoso.
Falando em cabelo, me pergunto como, com tantas perguntas feitas a garota, ele não fez uma única sobre o seu cabelo extremamente vermelho. Talvez ele não se importasse tanto quanto eu, ou só talvez fosse mais comum, visto que muitas pessoas, assim que saem para morar sozinhas, decidem tomar ações que contrariam com a doutrina que seus pais lhes deram.
Será que deveria pintar meu cabelo também?
Nah. Não acho que qualquer cor, além da natural dele, combinaria .
— Aquela ali é a lanchonete? Aqui também tem aquele doce super gostoso que eu comi ontem, Lucas?
Uma boa pergunta.
Também estou com fome, já que não tomei café da manhã, então acho que vou acabar gastando mais dinheiro do que eu imaginava.
— Não sei, talvez tenha.
— Então eu vou indo na frente ver
E ela saiu correndo.
— Luquinhas.
Luquinhas? Desde quando você me chama desse jeito?
— Você e a Aira estão namorando ou algo do tipo? Eu fiz algumas perguntas pra ela, mas quase todas ela olhava um pouco pra você antes de responder.
Espera um pouco ai, acho que tive uma ideia.
— Por que a pergunta Gustavo? Ficou interessado? Nós não namoramos, não.
— O-o q-que? Claro que não, cara, eu nunca iria furar o olho de algum amigo meu.
Ele realmente parece ter ficado bem chocado com o que eu disse. Bom, de qualquer forma, eu preciso que ele faça a coisa de protagonista e chame a atenção da garota pra ele e assim ela vai querer ficar junto dele.
— Fica tranquilo, a gente mal se conhece, também não acho que vai acontecer alguma coisa entre nós dois, nem nos damos bem.
— Sério? Eu não diria isso, ela está usando até mesmo suas roupas.
— Você ouviu o que ela disse, ela simplesmente pegou algumas roupas minhas, o que se pode presumir…
— Ha ha ha, você ficou todo envergonhado!
É bem vergonhoso imaginar que uma garota estava pelada na sua casa, sabe. E se eu tivesse chegado um pouco antes?
— Parece que você pensou um pouco mais né, ha ha ha?
— Não é nada disso!
— Sobre o que vocês estão conversando?
Ah, chegamos na lanchonete. O que será que tem para pedir aqui? Estou com vontade de comer uma esfiha de pizza, já que ontem um certo alguém comeu a minha.
— Eles não tem aquele doce de ontem, Lucas, então decidi te esperar pra pegar um igual o seu.
— Ah certo, deixa eu ver o que tem.
— Vou me sentar enquanto isso — Gustavo fala enquanto vai caminhando até uma mesa vaga.
Coxinha, quibe, empada de frango, torta salgada, hambúrguer, brigadeiro, quindim. Não tem tantas opções igual a padaria, também não tem a esfiha de pizza, mas diz aqui que eles fazem suco natural na hora. É, um suco cairia bem.
— Moça, eu quero uma coxinha e um suco natural
— Suco do que? — A moça apontou para o cardápio na parede — Tem de lichia, manga, acerola e cupuaçu.
— Hmm — Estreitei meus olhos enquanto pensava no sabor menos detestável dali — O de acerola.
— Certo, então vai ser o dobro disso! — disse Aira enquanto passava na minha frente, o quão gulosa essa garota pode ser?
Rapidamente, a moça da lanchonete pegou dois saquinhos e colocou as coxinhas, uma em cada um, também nos deu um guardanapo e disse para aguardarmos o suco ficar pronto.
Hora de se sentar e colocar o plano “Gustavo protagonista atrator de mulheres de faixa etária semelhante a sua por que ele é quase como um personagem principal de anime harém escolar” em ação. Note que não há vírgulas pois o plano não deve ser falado de outra forma a não ser na mente, ou seja, apenas eu sei que ele existe e serei o único. he he he he
— Ele tá com essa cara estranha de novo…
— Na calourada ele estava assim também.
— Calourada? — ela fez uma cara confusa enquanto inclinava levemente seu rosto pra direita direita.
— É, foi o momento em que as pessoas que entraram na faculdade tiveram para conhecer os veteranos e entender melhor sobre os cursos. Inclusive, como está indo seu curso, Lucas?
— Meu curso? Está indo bem… na verdade, não está nada bem. Desconsiderando você, não tenho nenhum outro colega e os trabalhos em grupo são muito difíceis para mim.
— Vocês dois, o suco está pronto.
A moça disse alto o suficiente para nós, que sentamos em cadeiras relativamente longe do balcão, pudéssemos ouvir. Outras pessoas próximas também pararam de comer seus lanches e deram uma olhada rápida para nossa direção.
— Eu vou buscar!
E a Aira se levantou bruscamente, arrastando a cadeira, e foi até a cantina.
Ela nem começou a comer a coxinha ainda.
— Sério, como alguém pode ser tão animado e empolgado pela manhã?
— Ha ha ha, você que é muito desanimado, não só pela manhã, mas em outros momentos do dia também. Mas, pensando no que você disse sobre ser solitário e sem amigos além de mim, isso explica muita coisa sobre o porquê não o vejo há pelo menos 1 mês e meio. Você deve sair da aula e ir pra casa bem rápido, não é?
Valeu por usar “solitário” e “sem amigos” em sequência num mesmo período. Só me fez parecer um ser humano incapaz de me dar bem com os outros. Eu poderia ter 1 milhão de amigos se quisesse, só que as pessoas não compreendem a minha genialidade secreta.
— Lucas, você chegou a emprestar chinelos para Aira? — Gustavo me perguntou enquanto olhava para ela andando.
— Não, na verdade.
— Ela está andando de meia por aí até agora? As meias são brancas, elas vão ficar encardidas!
— Hunf — Dei de ombros — O que posso fazer, meu chinelo não cabe nos pés dela.
Na verdade eu deveria me preocupar mais, já que as outras roupas são minhas, significa que o par de meias também é, então terei de lavá-las mais tarde.
— Eu posso pedir pra Giulia emprestar… A GIULIA! — ele gritou e bateu as mãos na mesa, minha coxinha deu um salto — É por isso que eu vim aqui falar com você!
E VOCÊ SÓ LEMBROU DISSO AGORA?!