Os três astronautas ainda conversavam quando o som de passos ecoou pelo ambiente.
O silêncio caiu de imediato, enquanto todos voltavam o olhar na direção de onde vinha o ruído.
Um jovem surgiu.
Ele aparentava ter pouco mais de vinte anos. Possuía cabelos negros e uma expressão serena, porém firme. Ainda assim… havia algo além disso — uma elegância natural, uma autoridade silenciosa, como se nada no mundo fosse capaz de abalá-lo.
Seus olhos azuis eram profundos… impossíveis de decifrar.
Ele era bonito — inegavelmente.
Mas não era isso que mais chamava atenção.
Era sua presença.
Um peso invisível tomou conta do ambiente no instante em que ele entrou. Sutil… porém esmagador.
Agora vestido com um terno preto, ele parecia ainda mais imponente.
Por um breve instante—
Ninguém se atreveu a falar.
°°°
Daniel caminhou calmamente até uma poltrona de couro a poucos metros e se acomodou.
Apoiou levemente o queixo na mão direita, enquanto o cotovelo repousava no braço da poltrona. Uma perna cruzou sobre a outra.
Seu olhar recaiu sobre o homem chamado William.
O terno não era ideal. Em termos práticos, deixava a desejar. Mas, por ora… era aceitável.
Daniel não era o tipo de homem que tomava algo de alguém sem motivo.
E aquele homem havia cedido algo valioso sem hesitar.
Ele iria retribuir.
Desde o momento em que entrou no satélite, Daniel já havia percebido algo estranho.
Duas mulheres e um homem, isolados no espaço…
Era incomum.
Por isso, observou com mais atenção.
Usando sua energia interna, analisou o corpo de William.
E o que encontrou…
Até mesmo ele achou surpreendente.
°°°
Desde o instante em que Daniel surgiu, as duas mulheres não desviaram os olhos dele.
Jéssica engoliu em seco.
— …Como alguém assim pode existir…? — murmurou, quase sem voz.
Apesar do fascínio evidente em seu olhar, ela não ousava se mover.
Seu corpo simplesmente não permitia.
Um instinto — profundo, primitivo — repetia a mesma ordem.
Não se aproxime.
Aquilo não era apenas atração.
Era medo.
O mesmo tipo de temor que uma presa sente diante de algo muito acima de si.
Ouvindo o murmúrio dela, Estela pressionava ambas as mãos contra a virilha com força, enquanto cerrava as coxas brancas uma contra a outra.
Ela também suava frio.
Era como se estivesse com uma urgência incontrolável para ir ao banheiro.
Jéssica não deixou de encará-la ao notar sua estranheza, e sua expressão logo se encheu de perplexidade.
— Você... não me diga que você...?
Jéssica não quis sequer concluir a frase.
Ela sabia e admitia que tinha uma mente questionável, mas sua amiga parecia pior em vários níveis.
— Ah... desculpe-me! Eu não sei o que aconteceu... quando o vi eu... tenho medo, mas sinto um anseio estranho.
Pela resposta, Estela parecia desamparada sob o olhar acusador de Jéssica.
Contudo, seu rosto tomado por desejo revelava outra coisa, fazendo Jéssica fitá-la com certo desprezo pela expressão descarada.
— Como... um homem desses pode existir?
Exclamou ela, repetindo o pensamento de Jéssica.
Os murmúrios baixos, seguidos de um gotejar contido de Estela, podiam ser ouvidos com clareza.
Ela falava baixo, mas Jéssica percebia o movimento de seus lábios.
“Hmp! Se você é tímida, eu sou a presidente dos Estados Unidos!”, pensou Jéssica com ironia.
A máscara de sua amiga havia se desfeito diante daquele homem.
Um leve sorriso surgiu no rosto de Jéssica.
— Por que você não tenta a sorte, Estela? — perguntou, encorajando-a.
— E-Eu queria, mas... sinto que posso morrer se me aproximar!
Jéssica a encarou, mas permaneceu em silêncio.
Ela também sentia algo parecido.
Ainda assim, passou a observá-lo com mais atenção.
°°°
William escutava a conversa e seu rosto ficou ruborizado de vergonha.
Ele queria dizer que não as conhecia.
Se não fosse por sua condição, jamais teria aceitado permanecer no espaço com duas garotas, ainda mais depois de descobrir a verdadeira face delas.
William tinha trinta e cinco anos e havia se casado com o amor de sua vida dois anos atrás.
Sentiu-se verdadeiramente o homem mais feliz do mundo, mas um ano após o casamento descobriu dois problemas em seu corpo.
Primeiro, era estéril; segundo, sofria de impotência sexual.
Era algo tão grave que nem o mais potente dos estimulantes surtiria efeito.
Consultou diversos especialistas renomados.
Disseram-lhe que, aparentemente, era um caso raro que a medicina nunca havia registrado.
Depois disso, começou a engordar de forma descontrolada e sua aparência passou a envelhecer mais rápido, ao ponto de hoje parecer alguém na casa dos cinquenta, mesmo tendo apenas trinta e cinco anos.
Seu peso era de cento e oitenta quilos.
Passou a evitar a esposa, sem coragem de revelar a verdade ou encará-la.
Voltava para casa uma vez a cada dois meses e sempre usava a desculpa de estar exausto para fugir de qualquer contato íntimo.
Ela sonhava em ter filhos, e ele também. Mas, mentindo, dizia que não queria — apenas para esconder sua vergonha.
Sua esposa era oito anos mais jovem; ainda era tão bela quanto antes.
Mas esses anos de casamento trouxeram apenas sofrimento para aquela que ele jurara fazer a mulher mais feliz do mundo.
Ele não esquecia o som do choro dela durante a madrugada, nem o olhar entristecido ao encará-lo.
Ela perguntava se era feia, se não o agradava, se havia algo que pudesse fazer para reconquistá-lo.
No início do casamento, eram como coelhos, a ponto de ela pedir para reduzir a frequência por não suportá-lo. Porém, tudo mudou subitamente, e ela passou a se culpar, acreditando que o problema era dela.
O coração de William doía sempre que era confrontado por ela.
Ele queria dizer a verdade — que ela era a mulher mais linda e perfeita do mundo, e que o problema era ele, que não a merecia — mas não conseguia.
Seu casamento estava à beira do divórcio.
Na verdade, em dez horas ele retornaria à base da NASA e voltaria para casa.
William havia tomado sua decisão.
Abriria o jogo, contaria tudo e a deixaria livre para encontrar um homem de verdade que a fizesse feliz... depois disso ele... iria para um lugar distante onde ninguém o conhecesse e encerraria sua vida, pois não suportaria vê-la nos braços de outro homem.
°°°
Suspiro~
Daniel soltou um suspiro profundo enquanto analisava a constituição de William por alguns instantes.
“Que talento desperdiçado!”, pensou.
Jamais imaginara encontrar uma constituição que, no mundo Murim, dizia-se surgir uma vez a cada mil anos: a “Constituição Extremo Yang”.
Uma constituição rara, quase no mesmo nível de seu físico Caótico.
Ele utilizaria energia interna de atributo fogo, podendo se tornar um verdadeiro pequeno Sol no futuro.
Daniel percebia claramente: William possuía potencial para superá-lo, se comparado à sua antiga versão.
“Pensar que alguém com esse físico estaria diante de mim... e ainda por cima alguém deste mundo.”
Apesar disso ser algo positivo, Daniel soltou um leve suspiro amargo.
Era um desperdício enorme — e uma grande infelicidade para a humanidade perder um prodígio assim.
“No mundo Murim ele seria um gênio incomparável, tendo apenas os de físico especial como rivais, enquanto os Físicos Supremos poderiam superá-lo em talento.”
Daniel lembrou-se de alguém de seu passado que possuía algo semelhante.
Embora fosse de Murim, aquela figura não era exatamente um inimigo; na verdade, havia sido uma grande ajuda. Ainda assim, Daniel não tinha boa relação com ele.
“Aquele indivíduo arrogante se inflava por possuir um Físico Marcial Puro Yang, mas nem chega perto do lendário Físico Marcial ‘Extremo Yang’, o famoso Sol Abrasador.”
Pensou que seria interessante devolver o favor àquele colega irritante.
°°°
William, sob o olhar daqueles olhos azuis, suava intensamente e sentia-se profundamente envergonhado.
Por algum motivo, tinha a sensação de estar completamente exposto, como se nada nele estivesse oculto.
— William é o seu nome? — perguntou Daniel, rompendo o silêncio.
— S-Sim, senhor! — respondeu rapidamente, surpreso.
— Bem, não sou um homem que gosta de ficar em dívida com ninguém...
Percebendo a intenção, William o interrompeu.
— N-Não, Sr. Daniel! Não há necessidade... além disso, logo isso se tornaria apenas uma lembrança dolorosa, então não precisa pagar. Na verdade, fico feliz que possa ter uma utilidade maior no final.
William estava meio atordoado.
Aquela figura aterradora simplesmente surgiu no espaço, entrou no satélite, pediu para tomar banho e solicitou um terno.
Como o único capaz de atender ao pedido e preocupado com a segurança das colegas, não teve escolha senão entregar o terno que usara em seu próprio casamento.
Temia que, caso o irritasse, não restaria nem poeira dele e das duas companheiras.
Além disso, aquele terno estaria melhor longe dele de qualquer forma — não era uma perda.
°°°
Daniel o observava profundamente.
Estava avaliando o caráter do homem à sua frente.
Ele possuía uma habilidade chamada “Desvendando o Oculto”.
Se alguém mentisse ou nutrisse intenções maliciosas, ele veria um brilho roxo em seu coração.
William era sincero. Não desejava ser recompensado.
Era um tipo raro de pessoa — alguém que dizia o que sentia sem máscaras.
Diante disso, decidiu ir direto ao ponto.
Já havia tomado sua decisão: William seria seu primeiro discípulo nesta linha do tempo.
Uma peça necessária.
— Por acaso você transpira constantemente sem motivo mesmo estando extremamente frio? — perguntou, fazendo os olhos de William se arregalarem.
— Isso... como você...?
— Também tem dificuldade ao urinar e sai uma cor avermelhada como sangue, além de fortes dores?
William ficou perplexo e apenas assentiu.
— Também... passou a engordar de forma descontrolada e se tornou estéril, além de impotente sexualmente?
Na última frase, sentiu-se envergonhado, mas ainda assim confirmou com a cabeça.
Uma pequena fagulha de esperança, antes extinta, voltou a acender em seu peito.
Não conseguiu conter a emoção. Seus olhos se umedeceram.
Logo, lágrimas começaram a escorrer por seu rosto.
Seus lábios tremiam e seu corpo inteiro estremecia enquanto avançava alguns passos em direção a Daniel, que ainda estava sentado na poltrona.
William sentia um medo instintivo ao se aproximar daquele homem.
Mas depois de percorrer o mundo em busca de cura com os melhores especialistas — os mesmos que sequer conseguiam identificar seus sintomas — ele se sentia completamente abandonado.
Diziam que não havia nada errado, apenas estresse. Mas ele apenas piorava com o tempo.
Sua esposa sofria cada vez mais por sua causa.
Ele nunca mais viu o sorriso pelo qual se apaixonara.
Nesse momento, William não se importava se ele era alienígena, terrorista ou qualquer outra coisa — nada importava.
“Esse homem foi o único que descreveu meu problema apenas com um olhar... e se pode descrevê-lo... talvez também possa curá-lo?”
A dúvida, junto ao lampejo de esperança, dominou sua mente.
Sem hesitar, tomou sua decisão.
Um som abafado ecoou.
Ele caiu de joelhos diante de Daniel.
As lágrimas continuavam.
Ele havia perdido tudo, até mesmo a vontade de viver... mas talvez aquele homem fosse sua última esperança.