ROMULUS
CAPÍTULO I - DEPOIS DAQUELE DIA
Os primeiros raios de luz adentraram no dormitório número III, que abrigava os jovens com as notas mais baixas da Academia Militar Octavius Primus, situada no extremo norte da cidade de Aurora Cor, capital do Império de Potestas. Dentre estes jovens estava Romulus, o pior entre os piores, e que assim como seus colegas seria enviado para a XX Legião Imperial, conhecida como os “restos do Exército”.
Todos os jovens do sexo masculino nascidos-livres eram enviados para as academias militares ao completar dez anos de idade, o curso tem duração de sete anos e aqueles que mais se destacam conseguem os melhores postos militares, na prática, os filhos dos nobres sempre ocupavam o oficialato maior. Romulus era filho de pequenos comerciantes ambulantes que mal conseguiam o sustento básico, era magro e não muito alto, com um corpo que falhava tanto no combate quanto nos exercícios de magia intensa, refletindo suas notas miseráveis.
Os primeiros raios do sol ainda não haviam dissipado o silêncio do dormitório quando Romulus abriu os olhos. Dormira mal, como sempre nas vésperas de avaliação, seu corpo franzino ainda dolorido da noite anterior passada esfregando o chão dos estábulos – castigo por quase cegar o mestre de esgrima com um golpe desastrado. Enquanto os outros cadetes do Dormitório III, os piores da Academia, roncavam, ele deslizou para fora do beliche. A ansiedade, uma companheira velha, era preferível ao desdém no olhar do centurião ao acordá-los.
Na sala de banho deserta, o frio cortava a pele. Ele aqueceu as mãos uma contra a outra e, por um instante, concentrou-se. Da palma esquerda, brotou não o jorro violento que falhava nos treinos, mas uma pequena e controlada labareda dançante. Com um suspiro de alívio – era uma das poucas magias que não o traía –, lançou-a pela portinhola do forno, ouvindo o crepitar satisfatório do carvão que aqueceria a terma. Era um ritual seu, um pequeno triunfo privado antes de um dia de fracassos públicos.
Enquanto a água esquentava, ele confrontou sua imagem no espelho: cabelos castanhos em desordem, olheiras profundas sob os olhos âmbar que sua mãe dizia cor de mel, mas que a ele pareciam apenas cansados. Um corpo magro, sem a massa muscular que o Império valorizava e seus amigos ostentavam. Abriu seu cofre e pegou o sabão barato, de odor forte a gordura de javali — o mesmo que seu pai vendia nos mercados. Esfregá-lo no corpo era um lembrete mensurável da distância que o separava dos filhos dos patrícios, com seus unguentos perfumados.
O banho rápido sob a água fria foi mecânico. O raspador removeu a sujeira, mas não a sensação de inadequação. Só quando mergulhou na terma agora quente, envolvido pelo vapor que sua própria magia criara, é que seus fracos músculos relaxaram. Aqui, na solidão aquecida, sua mente podia escapar. De olhos fechados, não pensando em manobras de batalha ou encantamentos complexos, mas nas histórias de viajantes que seu avô contava, em mapas de terras distantes onde um garoto fraco e pensativo talvez tivesse lugar. Por alguns preciosos minutos, Romulus não foi o pior cadete da Academia: foi um explorador de seus próprios pensamentos. Nos raros dias de recesso do Solstício de Verão, enquanto os outros cadetes poliam espadas e exercitvam o corpo, Romulus criava em seu quarto. Lá, longe dos olhares, seus dedos inquietos davam forma a dragões e torres esquecidas no barro úmido que recolhia do riacho. Com as sobras de tinta ocre e carvão que seus pais vendiam na feira, ele pintava criaturas de olhos luminescentes em pedaços de madeira – obras modestas que, para sua surpresa, rendiam alguns trocados aos domingos. Seu segredo mais profundo, porém, era o caderno de couro cru escondido sob a palha. Nele, rabiscava versos sobre o pôr-do-sol atrás das muralhas, um hábito que jamais confessaria a um colega. Na Academia, onde o valor de um homem se media pelo corte de sua espada, um poema era mais do que uma fraqueza; era uma vergonha.
O soar distante da tuba trouxe-o de volta à realidade, mais afiada e cruel que a água fria. O dia, e seu destino inevitável, começavam.
— Acordaste cedo, Romulus! — exclamou Adipos, um gorducho narigudo que era o “menos pior” da turma — E já deixou a água quente para nós!
Os outros colegas comemoraram em concordância, enquanto alguns passavam pela água corrente, outros entravam direto na terma, um dos motivos pelos quais Romulus preferia ser o primeiro no banho.
— Ao menos isto consegue fazer direito! — ironizou Dominus, um loiro corpulento que sobrava músculo enquanto faltava cérebro
— Não me importune, Dominus — respondeu Romulus com melancolia na voz — Como podem estar tão calmos? Não percebem que hoje é o último dia de acampamento e que na próxima semana seremos oficialmente soldados?!
— Não precisa ficar assim, Romulus. Só precisamos servir por um ano e depois somos livres para mudar de carreira. — Adipos — Eu mesmo irei me mudar para Occidens e trabalhar com meu tio no campo.
— Pelo menos você tem essa opção, eu vou continuar no Exército, minha única alternativa é ir para as minas de sal no oeste e eu prefiro beber cicuta a isto! — Dominus — E você Romulinho, vai fazer o quê?
— Não sei. — respondeu Romulus com tristeza, saindo do recinto em seguida
Romulus voltou ao dormitório, vestiu-se, equipou seu peitoral e a gálea, prendeu seu gládio ao cinto e saiu para o pátio. Os internos de outros dormitórios já estavam na formação aguardando os centuriões monitores, mas ao contrário dos outros dias, naquela manhã cochichavam entre si e olhavam para o dormitório III com pena. O jovem percebeu que as edificações tinham faixas e enfeites na cor roxa, a limpeza estava muito mais asseada do que nos outros dias e até mesmo os cavalos estavam com o pelo escovado e com as crinas trançadas. Isso só podia significar uma coisa: visita de alguém da realeza.
Por que hoje? A última vez que algum nobre visitara o acampamento foi no dia de sua fundação, com o próprio Imperator Octavius inaugurando o Acampamento. E por qual motivo os campistas dos outros dormitórios olhavam para o III com pena ao invés de asco? Romulus sabia que uma campanha militar contra os bárbaros rúteres do oriente estava em curso, o que podia significar que os formandos seriam mandados para o campo de batalha de imediato, e como o III Dormitório seria enviado para a XX Legião, seriam a “carne de cerco” da guerra. Subitamente a visão de Romulus ficou turva, ele cambaleou e sentiu pressão na lombar.
— Você está bem, cadete?
Um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos curtos o observava, a barba recém-feita e uma cicatriz que percorria seus olhos rubros o segurou. Sua armadura dourada com 15 contas de prata mostravam seus anos de serviço ao Império. Era Claudius, o antigo Decano da I Legião, que após servir como líder militar e herói de guerra, decidiu ensinar os futuros soldados no Acampamento como o Centurião Supervisor.
— Sim senhor, senti um calor estranho de repente… — disse Romulus recuperando o fôlego
— Estanho, não está suando e não parece estar com febre. — Claudius pôs a mão na testa do rapaz — Quer ir à tenda do curandeiro por precaução?
— Não senhor, obrigado, já estou melhor. — Romulus
— Deve ser ansiedade — Claudius — afinal hoje é o grande dia.
— Senhor, por que o acampamento está com estes enfeites? — Romulus
— Teremos uma visitante especial hoje. — Claudius sorriu — Não posso dizer quem é, antes que pergunte.
Claudius continuou a vistoriar o acampamento, Romulus preocupou-se com o mal súbito, provavelmente Claudius estava certo, a junção da ansiedade e a falta da primeira refeição do dia eram os responsáveis. Após seus colegas de dormitório saírem e se juntarem a ele na formação, uma tuba tocou três vezes, indicando que todos deveriam marchar para o centro do pátio. Após todas as turmas se formarem, todos se posicionaram na saudação oficial, com o braço esquerdo reto junto ao corpo e a mão direita fechada junto ao peito.
No palanque estava Claudius, os outros centuriões monitores e a atração principal: a visitante misteriosa, uma mulher de trinta e poucos anos com a armadura completa de platina, a crista do elmo era longa até a altura da nuca e de cor púrpura. Seus longos cabelos ruivos se encontravam em uma única trança repousada sobre o ombro, sua arma era um machado de guerra apoiado aos seus pés calçados com botas de couro de dragão, presa às costas uma capa roxa que balançava com o vento. Ela retirou seu elmo revelando severos olhos verdes.
— Apresento vossa alteza imperial Felicia Victoria Octavia Bellatrix, filha do Imperator Octavius Viramax-Augustus Secundus, Sol Invictus Potestae! — gritou Claudius com ímpeto
Felicia era a filha mais nova do Imperator Octavius II, nasceu apenas dois minutos após seu gêmeo Félix Victor Octavius Luxferres. Contudo isso não fazia diferença na monarquia potestiana, pois o Imperator era indicado pelo Consulado e eleito pelo Senado Imperial. Porém, desde que o Império de Potestas fora fundado há mais de 900 anos, o Imperator atual fora o único a autoproclamar-se a encarnação viva do deus padroeiro Viramax Luxor Rex, o Sol Invicto.
— Atenção, cadetes! — apesar de feminina, Felicia possuía uma voz potente e autoritária — Hoje vocês se formam na Academia Militar Octavius Primus como Legionários do glorioso Império de Potestas! A partir de hoje serão soldados dedicados a serviço de vossa majestade o Imperator!
Enquanto a Princesa falava, Romulus começou a sentir seu braço esquerdo quente, uma coceira insuportável e formigante tomava sua atenção. Romulus suava e na iminente ação de comichar, um gritou tomou a atenção de todos.
No palanque, um dos centuriões monitores estava com seu gládio no pescoço de Felicia, fazendo-a de refém. Os outros dois já inconscientes e Claudius de joelhos, com um corte profundo no ombro direito.
— O que pensas estar fazendo, Tirius? — indagou Claudius
Tirius era o monitor do Dormitório I, sempre fora reservado e mal-encarado, tinha cabelos pretos muito escuros e olhos verdes, incomum no Império, porém nunca dera suspeitas sobre seu caráter.
— Meu nome não é Tirius — disse o traidor, cuspindo no chão — me chamo Hartmut de Seltsam e vou cumprir meu dever como servo de Wōdaz, o Grande Urso que Devora o Sol!
— Você é um verme rúter infiltrado! — disse Felicia com dentes cerrados — Será punido com sentença capital!
— Calada, princesa! — o gládio cintilante de Tirius/Hartmut pressionava os pontos críticos da garganta de Felicia — Vocês potestianos por anos saqueiam nossas vilas e escravizam nosso povo, todo o território oriental do seu “império” foi usurpado do povo rúter, hoje provarei meu valor como fiel guerreiro e conquistarei meu lugar na mesa de Wōdaz!
Hartmut deu alguns passos para trás, Claudius tentou se levantar mas caiu, o espião havia lesionado seus joelhos. O calor intenso que Romulus sentia explodiu e ele pareceu transpor em transe, saltou no palanque, que estava a dois metros do chão e caiu em frente ao traidor, já com seu gládio desembainhado.
— O que é isso, pequeno Romulus? — Hartmut riu, durante o tempo que atuara como monitor no acampamento ele sabia da falta de habilidade de Romulus — Um inútil como você vai tentar bancar o herói logo agora?
Romulus nada dizia, apenas apontou sua mão esquerda para Hartmut, a quentura que outrora causava cãibra em seu braço tornou-se um fulgor que deslizava suavemente em suas veias. Hartmut hesitou e, num grito de dor, largou a espada. Felicia saltou para longe do agressor e quando pegou seu machado no chão, Romulus avançou contra o pária,
— De onde veio este poder, seu verme? — Hartmut estava de quatro, sua pele fumegava exalando um odor forte de carne queimada — Nos treinos você nunca demonstrou talento algum.
Um berro estrepitoso tomou o pátio, Romulus ainda sem nada dizer agarrou Hartmut pelos cabelos e ergueu-o, todos assistiam à cena bestializados: um adolescente franzino erguendo sem dificuldades um homem de quase dois metros no chão e com o dobro de seu peso.
Romulus hasteou a espada cuja lâmina acendeu em flamas, ele enterrou lentamente a arma no estômago de Hartmut, que contorcia-se em agonia.
— Sinta a Ira do Sol. — Romulus disse com uma voz calma e grave, que não era natural a ele
Hartmut ardeu em fogo, quando o gládio foi retirado de sua barriga, nada sobrou além de um corpo carbonizado que caiu de joelhos dobrados, batendo a cabeça no chão com força. A força e o calor que Romulus sentia se dissipou, ele embainhou seu gládio e de repente tudo ficou escuro.
Romulus abriu os olhos, estava deitado em uma cama limpa e macia, bem diferente do beliche do dormitório, usava apenas um pano de linho atado à cintura e seu braço esquerdo estava enfaixado. O teto branco de pano e os suportes de madeira revelavam que estava na tenda dos curandeiros, os lampiões acesos indicavam que já era noite. Por quanto tempo dormira? Por que teve um apagão? Os pensamentos inquietantes fizeram sua cabeça doer, ele gemeu e se sentou na cama.
— Até que enfim acordou. — Felicia sentava ao seu lado, afiando seu machado — Como está?
— B–bem, alteza… — Romulus gaguejava e tremia, visivelmente nervoso
— Para quem estava com tanta pompa e performance mais cedo… — Felicia agora olhava fixamente para Romulus — Eu fiz uma pesquisa sobre você Romulus, as menores notas em esgrima, atletismo e prática de magia… Como alguém tão medíocre conseguiu manifestar tamanha proeza em combate e poder mágico?
— Do que está falando? — Romulus indagou
— Não se lembra do que fez de manhã? — Felicia agora mostrava espanto — Você por acaso sabe por que veio parar aqui?
— Só me recordo de sentir muito calor e tontura, e apaguei. — Romulus levou a mão à cabeça
Quando Felicia estava para retrucar a cortina do privativo se abriu, um velho careca e barbudo com uma longa túnica branca adentrou no recinto, atrás dele estava Claudius, com o ombro enfaixado e o braço imobilizado, seus joelhos também estavam enfaixados e ele andava com o auxílio de uma bengala.
— Com licença, princesa, mas preciso avaliar meu paciente. — disse o velho
— Você que é o morimbundo ambulante e eu que uso bengala. — ironizou Claudius — Romulus, este é Theophilus, o Curandeiro Chefe do acampamento.
— Um dia você também será velho, apesar de já ser morimbundo! — Theophilus retrucou à Claudius — Meu jovem, você fez um esforço físico e energético muito maior do que consegue aguentar. O que está sentindo?
— Minha cabeça dói… E eu não me lembro de nada antes de apagar, só senti muito calor e fiquei zonzo. — Romulus — Estou com muita sede também.
— Perda de memória recente, vertigem e sequidão, são sintomas comuns após um evento destes. — Theophilus encheu um copo de barro com um líquido amarelado translúcido e entregou Romulus — Beba isto e irá se sentir melhor, mas quero que fique aqui em observação até amanhã.
— Vamos falar do que interessa. — interrompeu Felicia, o curandeiro a olhou com desdém — Esse moleque que até ontem não conseguia manejar um gládio leve e mal criar uma simples esfera de fogo simplesmente salta mais de dois metros, levanta e incinera um homem mais alto e mais forte do que ele como se abatesse uma ovelha. Quem e o que você é?
— Alteza, ele está cansado e confuso, talvez devêssemos… — Claudius argumentou mas Felicia o interrompeu
— Talvez devamos falar disto — ela agarrou o braço supostamente ferido de Romulus e removeu as faixas
A sala se tornou silenciosa, Claudius tentava desviar o olhar e Theophilus pigarrou.
— Você deveria ver com os próprios olhos. — Theophilus pegou um espelho redondo e colocou em frente ao braço de Romulus, o jovem viu uma marca que não estava ali antes. No mesmo lugar onde sentira a coceira e calor estava uma marca como se tivesse sido feita com ferro quente: o desenho do Sol.
— Então, gostaria de explicar? — Felicia
Depois daquele dia, o rio da vida de Romulus mudaria radicalmente seu percurso.
Continua…
