
HARUD
CAPÍTULO II - O CONCÍLIO
Agulhas de vento úmido golpeavam a pele. A chuva de verão, densa e fúnebre, caía sob um céu negro dilacerado por trovões — a própria voz raivosa de Wōdaz.
Enquanto caminhava, Harud ruminava o desprezo potestiano: “Rúter”. Usavam o nome de sua tribo para denominar a todos a leste de seu império, apagando a identidade de múltiplos povos com um só termo de desdém.
Ao chegar na entrada da fortaleza, os dois guardas que abriram passagem para Harud tinham lenços pretos amarrados às lanças, um sinal de respeito pela sua perda recente. Uma jovem vestida também de preto, com seus cabelos cobertos por um véu, veio recebê-lo.
— Saudações, lorde Harud. — disse a moça com voz aveludada — Teu luto é honrado nesta casa.
— Fico grato, lady Tina. — respondeu Harud — Cada dia mais à imagem de tua mãe!
Harud esboçava um sorriso falhado, os dois deram um breve aperto de mão cruzado e se direcionaram para o salão de reunião. Ao adentrar, Tina o deixou, no salão estavam mais três homens que o vieram cumprimentar.
— Harud, velho companheiro de guerra! — o homem lhe deu um forte aperto de mão, vestia um casaco grosso marrom-avermelhado e botas de couro de nidhogg, sua longa barba loira já um pouco grisalha estava adornada com dálias negras, seus olhos ciano levemente marejados fitavam Harud com pesar e indignação. — Dunningard inteira está chorando por você, meu irmão.
— Grato, Egil — sussurrou Harud, a voz carregada da emoção que seus olhos secos não mostravam — É bom revê-lo.
— Sinto muito pela sua perda, lorde Harud. — o elfo manteve a distância cerimoniosa de seu povo, vestia vestes simples de lã tingido de verde, sua tiara prateada cravejada de pedras preciosas contrastava com seu corte tradicional: um moicano ruivo com as laterais raspadas, utilizava um broche em forma de serpe, símbolo da Breáxia.
— Aprecio muito sua consideração, Príncipe Godric. — Harud virou-se para o último convidado — É um deleite vê-lo, lorde Aldara.
Aldara vestia apenas calças de pele de lobo, seus cascos fendidos estavam sujos de lama e seu peito nu ostentava uma tatuagem pugnaz: o Urso de Wōdaz. Era um Grutingo, um sátiro das estepes, e sua presença ali, tão distante de suas terras austrais, era um testemunho silencioso da gravidade da ameaça potestiana.
O sátiro bateu os punhos traçados no peito e fez uma reverência leve a Harud, seu povo tinha o hábito de ter um discurso retido. Todos então sentaram-se nas cadeiras da mesa principal em uma espera silenciosa que os minutos alongavam, ainda sem o anfitrião, o grupo observava o salão: um local amplo , com candelabros caliginosos cujas flamas balançavam com os ventos da tempestade, na parte interna da entrada duas estátuas de pedra-sabão adornavam o ambiente, de um lado um urso em posição de ataque e do outro um homem portando lança e escudo, totalmente vestido de pele com uma capa e um capuz de urso. Dois guardas adentraram o recinto, anunciando a chegada do anfitrião.
— Apresentando sua majestade o Rei Höskuldr de Hovítingar.
O anão entrou na sala, completamente vestido de linho e couro pretos, ele retirou sua capa esvoaçante e entregou a um dos guardas, sentou-se com certo estorvo na cadeira principal, retirou sua coroa dourada e colocou-a na mesa.
Höskuldr pôs a mão sobre o braço de Harud e sorriu timidamente, balançou a cabeça e balbuciou um “sinto muito” para o lorde enlutado.
— Perdão pelo atraso, companheiros. — disse Höskuldr coçando sua volumosa barba branca — A vistoria nas fronteiras demorou mais que o esperado, creio que entendem a necessidade de maiores precauções nestes tempos belicosos.
— Vamos direto ao ponto, Höskuldr. — disse Godric — Nossos reinos também estão desprotegidos conosco aqui.
— Certo, certo. — Höskuldr pigarreou — Inicio o Terceiro Concílio de Jöruvík, a pauta de hoje é a terrível baixa que sofremos na última missão de infiltração e a união das coroas…
— De novo essa história, Höskuldr — Egil resmungou impaciente — Não há a menor possibilidade de unificarmos os territórios, sangue vem sendo derramado há séculos, nossos povos têm discrepâncias enormes — ele apontou discretamente para o sátiro — Quer controlar todas as nossas terras enquanto Filhos de Wōdaz estão morrendo…
— Meu filho! — Harud que até então estava retraído gritou, surpreendendo a todos no recinto — Foi o meu filho Hartmut que morreu pelas mãos daqueles potestianos atrozes! Sabe como eles chamam a todos nós? “Rúteres nojentos”, o MEU povo! Um terço das terras de Potestas era do povo rúter, não perdemos apenas filhos nesses últimos anos, perdemos também pais, mães, esposas, perdemos quase tudo!
— O que sugere que façamos, Harud? — Aldara falava mais que o comum, o que era ainda mais surpreendente.
— Devemos sim nos unir. — Harud se recompôs — Mas não nos unificar.
— O que quer dizer, meu amigo? — indagou Egil
— Um acordo de cooperação estratégica e militar, compartilharemos recursos importantes, soldados e passagem livre entre nossos territórios. Se um for atacado, os outros ajudam a defender. — Harud
— E caso um de nós ataque Potestas? — Godric
— O tratado serve apenas para defesa, um ataque conjunto contra um inimigo em comum deve ser decidido por votação e deve ser unânime. — Harud — Quem concorda?
Aldara foi o primeiro a levantar a mão, seguido de Egil e Godric. Um silêncio pesado pairou sobre a mesa, quebrado apenas pelo tilintar da coroa de Höskuldr que ele ainda rolava sobre a mesa. Então, lentamente, o rei anão assentiu.
— Muito bem, então está decidido, firmamos aqui a Confederação de Wōdaz.
Os presentes então comemoraram, apertaram as mãos e beberam hidromel recém-trazido pelos copeiros de Höskuldr, a cerimônia foi interrompida pela chegada de um convidado inesperado, sua voz grave ecoou pelo salão.
— Com sua licença, majestades.
A figura que interrompia a assembleia era alta, tendo que curvar-se para atravessar a porta, extremamente peluda-albina, corpulenta e robusta, tinha cascos lisos e uma cauda de ponta felpuda. Tinha argolas em suas orelhas e nariz bovino, caules de flores secas adornavam seus chifres cor de ébano. Ele vestia um manto verde com linhas douradas de diferentes padrões, em sua mão esquerda havia um cajado de carvalho.
— Peço perdão por interromper a reunião. — disse o minotauro — Me chamo Nörm.
— Ah, bem-vindo mestre Sacerdote. — disse Höskuldr com alegria
— Minha passagem é rápida. Identificamos a causa da morte do jovem Hartmut. — Nörm
— Mas o que mais há de ser identificado? Meu filho foi incinerado vivo. — Harud
— O pingente encantado que ele utilizou para se infiltrar no exército potestiano voltou para nós assim que ele faleceu. Demorou um pouco para analisarmos mas não há dúvidas, aquele garoto que o matou estava usando magia divina. — Nörm falou exalando tormenta em sua voz
— Mas… como? — Höskuldr caiu pálido em sua cadeira — Há séculos os deuses não interferem mais no mundo terreno.
— Seria um semideus? — Godric questionou — O atual tirano de Potestas não se auto proclama um semideus?
— Ele diz ser o próprio deus do Sol encarnado. — Egil desdenhou gargalhando — Não sei que tipo de bruxaria eles estão usando, mas eu duvido muito que tenha sido proposital.
— Elabore, Egil. — disse Aldara de forma austera
— Ora, Aldara, você acha mesmo que se Potestas realmente tivesse um semideus ou um deus encarnado estaríamos sequer discutindo nesta mesa? Se o exército potestiano realmente dominasse a magia ancestral dos deuses eles já teriam conquistado todo o continente. — Egil retrucou
— Concordo com Egil. — disse Godric — Inclusive no último concílio discutimos a estrutura militar deles, as mensagens de Hartmut eram bem claras sobre uma das legiões só receber os piores cadetes do acampamento, soldados desengonçados que só servem como escudo humano.
— Então temos uma oportunidade de ouro. — Höskuldr sorriu maliciosamente — Temos que localizar o garoto que matou Hartmut e usar o poder dele contra Potestas, com o auxílio dos xamãs talvez possamos ensiná-lo a controlar esse poder divino e acabar de vez com essa barbárie.
— Você quer trabalhar com o inimigo, Höskuldr! — Harud rugiu furioso — E ainda por cima usar magia profana!
— É nossa única chance, Harud! — Höskuldr rebateu
— Sabemos que é difícil para você, meu amigo, mas é um bom plano. — Egil disse tentando tranquilizar seu companheiro
— Eu também concordo com a ideia de Höskuldr. — disse Godric
Aldara apenas assentiu com a cabeça.
— Entendo perfeitamente sua revolta, Harud, mas não temos mais alternativas. E como prova de minha lealdade a esta união mandarei Tina, minha única filha, para se infiltrar em Potestas e raptar o moleque solar. — Höskuldr disse em tom sério e grave
O silêncio que se seguiu não era de aceitação, mas de estupefação. Harud olhou para cada rosto ao redor da mesa: o pragmatismo frio de Höskuldr, a lealdade conflituosa de Egil, a lógica implacável de Godric, a resignação silenciosa de Aldara. Todos haviam cruzado um rio no qual ele ainda hesitava com os pés na margem. Aceitar significava compactuar com a magia que reduziu Hartmut a cinzas. Recusar significava trair a confederação que acabara de nascer e, talvez, condenar seu povo à extinção.
— Muito bem — a voz de Harud saiu rouca, como se arrancada de suas entranhas. Ele não abriu os olhos. — Mas farei sob uma condição. Eu mesmo escolherei um grupo para acompanhar Tina. E se esse poder se voltar contra nós… eu o destruirei com minhas próprias mãos.
Enquanto a decisão de Harud ecoava na sala, Nörm, que permanecera imóvel como uma estátua, ergueu lentamente o cajado. As flores secas em seus chifres pareceram murchar ainda mais, liberando um último aroma fantasma de terra e ervas e antes de virar-se, disse:
— Wōdaz observa. E o Urso não esquece — murmurou, não como uma bênção, mas como um lembrete. Então, tocou o cajado no chão uma vez. Um silêncio sobrenatural abafou até o som da tempestade lá fora por um breve instante. Quando os trovões retornaram, ele já havia desaparecido pela porta, deixando para trás apenas o cheiro de ozônio e bosque.
— Meu povo vem treinando águias mensageiras. — Aldara retomou a atenção de todos — Posso tentar me comunicar com os gigantes e os orques montanheses, no passado o Deus Wōdaz lutou junto de seu povo.
— As terras deles ficam do outro lado do oceano, demoraria muito para algum reforço chegar. — disse Godric — Mas não custa tentar.
— Está decidido então, Tina liderará uma nova missão para se infiltrar no território inimigo, desta vez acompanhada por um grupo escolhido por Harud, a Confederação se dispõe a fornecer todos os suprimentos necessários para a ida e para a volta do grupo, incluindo resgate em caso de retirada emergencial e Aldara tentará buscar aliados no outro continente. Alguém tem algo contra? — indagou Höskuldr
Não houve nenhuma manifestação contrária, o rei então levantou-se de sua cadeira e disse alegre:
— Já está tarde para vocês irem embora, irei hospedá-los esta noite e partirão amanhã de manhã, é mais seguro nesta época sombria. Venham comigo, companheiros, a ceia já deve estar para ser servida.
Enquanto os outros seguiam o anão para a ceia, Harud era o único que arrastava os pés. Seu olhar pesado varria a sala vazia, mas não a enxergava. O cheiro fantasma de lama e ozônio ainda lhe arranhava a garganta, e a visão do filho carbonizado — não uma memória, mas um fantasma palpável — queimava atrás de suas pálpebras. A profecia do minotauro soara como uma sentença. Agora, só restavam o martelar das dúvidas e o açoite de uma angústia sufocante.
A ceia findou num rumor de hidromel e vozes elevadas. Harud, porém, carregava consigo um silêncio ensurdecedor. Enquanto os outros rumavam aos aposentos, um servo guiou-o a um quarto onde um banho já o aguardava — o vapor subia da banheira de mármore, um conforto anônimo e inútil. Mal o homem saiu, Harud arrancou as roupas, que cheiravam a fumaça e humildade alheia. Na bacia de bronze, molhou o rosto, a água fria não lavou a névoa dos seus pensamentos. Ergueu os olhos para o espelho.
E lá, por trás do bigode volumoso e dos fios grisalhos, estava o fantasma de Hartmut. Não o jovem, mas o homem em que ele se tornaria, um retrato fiel e envelhecido do filho que morrera. Ficou paralisado, roubando do futuro um rosto que nunca existiria. Até que, com um gesto brusco, afastou a bacia e virou-se, como se pudesse deixar a própria imagem para trás.
A água escaldante foi um fraco logro. Não lavou nada, não aqueceu nada. Harud cerrou as pálpebras, e a única imagem foi a do filho transformado em labareda por uma magia intrusa, estrangeira, injusta. Morto não em batalha, mas apagado, como se nunca tivesse existido. Não preocupou-se com o passar penoso dos minutos, tentou aproveitar o apogeu daquele momento para simplesmente não sentir.
Secou-se e vestiu as roupas de dormir, os movimentos de pura inércia. Antes de ceder à cama, ajoelhou. A oração não foi um pedido, foi uma coroação póstuma. "Recebe-o, Pai-Urso", murmurou para as sombras. "Entre os teus bravos, ele tem lugar na vossa mesa." Era a última coisa que podia fazer por Hartmut: garantir que, no reino dos deuses, seu filho fosse tratado como o herdeiro e guerreiro que sempre deveria ter sido.
Deitou-se, e o peso do corpo afundou no colchão. Permitiu que as pálpebras, por fim, cedessem. Foi então que as memórias vieram, não como um soco, mas como uma maré — o calor do corpo da esposa ao seu lado na cama, o peso minúsculo de Hartmut adormecido em seu peito. O tempo desfez-se. E quando a vigília se desprendeu dele, o sonho que o recebeu foi simples e completo: ele os abraçava, e nada mais existia.
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Um grito estridente e antinatural rasgou o vale — o canto do basilisco. Harud arquejou, arrancado do sono como se tivesse caído da cama. A sensação no corpo era de quem dormira por uma era. A mente, ainda presa aos rostos do sonho, lutou para se ancorar na escuridão do quarto estranho.
Permaneceu imóvel, a respiração presa. Procurou no corpo a dor fantasma da perda, aquele frio nos ossos que a água quente não levara. Era real. Tudo era real.
Só quando as batidas secas na porta e a voz do servo cortaram o silêncio é que ele se ergueu. A luz da manhã, surpreendentemente morna e límpida, invadiu o quarto — um insulto de normalidade após a tempestade e a noite de luto. Na bacia, a água agora estava tépida. Lavou o rosto, o ritual matinal apagando os últimos vestígios do sonho. Vestiu as roupas de pele de bisão e, por fim, pendurou ao pescoço o pingente de madeira — a cabeça de urso de Wōdaz escura e gravada, um ponto focal severo contra o pardo simples do linho.
Ao descer, Harud foi recebido pelo ar quente carregado do cheiro de pão de centeio, bacon de javali fumado e cerveja fraca. Na sala, os outros membros da Confederação já ocupavam a longa mesa, o burburinho baixo de suas vozes preenchendo o espaço. Egil dava uma gargalhada grossa, Godric comia com precisão elfa e Aldara, em silêncio, observava a sala com seus olhos amendoados. Foi Höskuldr quem o viu primeiro. O rei anão interrompeu uma conversa, ergueu a caneca e sua voz bojuda rolou pela sala:
— Lorde Harud! Que a presença d'O Ursino ilumine teu dia! Sirva-se à vontade!
Harud inclinou a cabeça, o gesto era um reflexo arraigado de sua fé, mesmo que naquela manhã a palavra "iluminação" soasse como uma ironia amarga:
— E que seus passos sejam firmes, Rei Höskuldr! — respondeu, a voz ainda áspera do sono.
Com os estômagos aquecidos e os acordos selados, deu-se início aos preparativos de partida. Foi a rainha Hildr quem tomou a frente, e sua simples presença alterava o ambiente. Enquanto se movia, um leve aroma a musgo e flor de sabugueiro — distinto do cheiro de fumo e pedra do castelo — parecia pairar ao seu redor. Sua estatura esguia e serena fazia o rei anão ao seu lado parecer uma robusta raiz da qual ela, graciosa, havia brotado. Com dedos longos que pareciam conhecer o ritmo secreto do crescimento, transformou os restos do desjejum em provisões: envolveu os pães em folhas de parra ainda úmidas de orvalho, acomodou o bacon frio em cascas de bétula lavadas e tampou os odres de hidromel com rolhas de cortiça entalhadas com runas verdes. À sua volta, como uma aprendiz de ritos antigos, lady Tina juntou-se ao grupo. Juntos, os soberanos e a princesa acompanharam os convidados até aos grandes portões de carvalho. Sob a luz clara da manhã, trocaram os derradeiros cumprimentos. Harud foi o último a montar. Seu garanhão negro, uma massa de músculos inquietos, bufou ao sentir o cavaleiro no lombo.
Sem uma palavra, Harud apertou os joelhos e partiu ao galope, a figura solitária diminuindo rapidamente na estrada poeirenta que o levaria de volta ao coração do seu povo.
A viagem consumira a metade da manhã num galope constante. Quando os paliçados familiares da sua aldeia finalmente surgiram no horizonte, um cansaço surdo já se fundia à ansiedade no peito de Harud.
Mal os cascos ecoaram no pátio de terra batida, um dos cavalariços surgiu à sua frente, os olhos arregalados, as mãos sujas de palha tremendo ligeiramente.
— Milorde! Pelas garras do Urso, o senhor chegou!
Harud desmontou num movimento fluido, agarrando o homem pelo ombro com uma mão ainda enluvada.
— Fala. O que aconteceu? — rogou, a voz um comando baixo que cortava a agitação do homem.
O cavalariço engoliu em seco, uma gota de suor escorrendo pela têmpora.
— São os potestianos, milorde! — o homem cuspiu a palavra como um veneno. — Três deles, com armaduras brilhantes e ar de donos do mundo, perguntam pelo senhor desde o nascer do sol!
— Onde? — rugiu Harud, já girando sobre os calcanhares.
— Na tenda principal, senhor! — gritou o cavalariço para suas costas.
Harud partiu em disparada, os dedos já cerrando o cabo da espada. Ao arrancar a aba da tenda, a cena o golpeou: dois homens altos, de feições austeras, trajados em platina da cabeça aos pés. Seus elmos esbanjavam plumas roxas — a insígnia da Guarda Pretoriana. E, no centro, desarmado como um insulto calculado, estava o terceiro: enfaixado numa camisa de seda branca imaculada e uma toga roxa que escorria até o chão de terra. Seus cabelos eram loiros e lustrados a óleo, repartidos com uma precisão que doía. Mas eram os olhos verdes a verdadeira armadura: percorriam o interior da tenda, os couros, os odres, o totem simples a Wōdaz, com um nojo tão profundo que era quase um cheiro no ar.
— Ah, finalmente. O lorde dos rúteres — Cornelius não se moveu, apenas inclinou a cabeça, num exame lento que ia dos botas sujas de Harud até seu rosto enrugado. — Já pensava que teu povo havia aprendido a… se recolher.
Um sorriso fino, de canto de lábio, estava gravado em seu rosto.
— O que você quer? — a pergunta de Harud cortou o ar como um estalo.
— Que… rusticidade — Cornelius esfregou o polegar e o indicador, como se removesse um grão de poeira imaginário da manga. — Não esperava nada diferente. Vou direto ao ponto. Sou Cornelius Afranius, Emissário da Chancelaria Imperial. Venho em nome de Sua Majestade Sacratíssima, Octavius Viramax-Augustus Secundus, Imperator Potestanus, o—
— Sol Invictus, sim, sim — Harud cortou-lhe a fala com um gesto brusco da mão. — Poupe-me do cerimonial e cuspa o que veio cuspir.
— Barbarus… — o sussurro saiu entre os dentes de Cornelius como um vapor venenoso. Ele recuperou a compostura. — Enfim. Sua Majestade, em sua misericórdia infinita, propõe um acordo de paz.
— Que tipo de acordo? — a voz de Harud soou plana, o olhar fixo em Cornelius como se observasse um animal peçonhento.
— Não é óbvio, selvagem? — Cornelius abriu os braços, num gesto de falsa oferta magnânima. — Você se entrega. E nós… poupamos o seu "povinho".
— Brankvürduz.
Harud deu um passo à frente. Os pretorianos moveram as mãos para as espadas.
— Markaupō.
Outro passo. A voz era baixa, mas cada sílaba soava como o badalar de um sino fúnebre no ar carregado da tenda.
— Nurwasbōrg.
Ele parou, a meio passo da distância de um golpe. Cornelius recuou uma polegada imperceptível.
— O que é isso, bárbaro? — o tom do emissário perdeu um grau de confiança, ganhando um fio de irritação nervosa. — Alguma bruxaria da tua floresta?
— São os nomes — a voz de Harud era um rosnado agora, vindo de um lugar profundo do peito — da tua dívida de sangue.
— Insolente! — um dos pretorianos avançou, mas Cornelius ergueu uma mão para contê-lo, os olhos fixos em Harud.
— Pode voltar ao teu tirano. E dizer-lhe…
Harud cuspiu no chão de terra, entre suas botas e as sandálias imaculadas de Cornelius.
...que pode enfiar a proposta no lugar escuro onde a luz do teu Sol Invictus nunca há de chegar.
Cornelius não gritou. Não deu o comando. Em vez disso, fez algo infinitamente mais ameaçador: ajustou a prega da toga com um puxão preciso. Só então falou, e a voz era de gelo polido:
— Pois bem, lorde Harud — o título saiu como um veneno doce. — Garanto-te: o arrependimento será uma sombra mais constante que a do teu deus-urso. Ah, mas antes que eu me esqueça...
O emissário levou a mão à dobra da toga. Sua mão desapareceu e reapareceu num movimento fluido e antinatural. O objeto que depositou com um “claque” seco e definitivo na mesa próxima era uma urna funerária de cerâmica negra, lisa e sem adornos.
Fez uma pausa, deixando o silêncio e o objeto negro falarem por um instante que arrancou o fôlego da tenda.
— Isto — apontou para a urna com a ponta de um dedo, como se apontasse uma prova de crime — são os restos do espião que ousaste mandar para nosso áureo império.
Cornelius sorriu, um lampejo de dentes perfeitos. — Passar bem, lorde Harud.
Os três viraram-se e saíram, a toga roxa esvoaçando como uma bandeira de vitória. O “claque” das botas metálicas dos pretorianos no chão foi a única despedida.
Harud não se moveu. Seus olhos estavam cravados na urna negra. Por dentro, porém, rugia a tempestade. O grito do Urso entalava sua garganta, os músculos tremiam com a força brutais contida. Cada instante de inação era um músculo sendo dilacerado. Mas ele era o Rüthering. E um líder não entrega sua tribo ao massacre por vingança pessoal.
Quando o som dos cavalos se dissipou, um gemido saiu de seus lábios — não de dor, mas de fúria engasgada, compactada no peito até virar um diamante negro de ódio. Ele se aproximou da mesa e, com uma mão que não tremia, tocou a urna fria.
A Confederação de Wōdaz não era mais uma aliança. Era uma promessa de guerra. E Harud acabara de encontrar seu motivo sagrado.
Continua…