
ROMULUS
CAPÍTULO III - O INQUÉRITO
Romulus olhou para a marca em seu braço, o Sol gravado na pele, como uma tatuagem de nascença que nunca tivera, e não soube o que dizer. Foi Claudius quem quebrou o silêncio, a voz rouca pela dor dos joelhos feridos:
— Alteza, o rapaz acabou de despertar. Nem ele mesmo compreende o que aconteceu.
— Com todo respeito, alteza, mas estás comprometendo o tratamento do meu paciente! — Theophilus resmungou
Felicia fitou Romulus, seu olhar penetrante como uma adaga recém forjada, Romulus sentia novamente um calor, não aquele de seu braço, mas o que emanava do fundo da alma da princesa guerreira.
— A única coisa que eu me lembro é querer que a dor parasse, alteza… — Romulus segurava o braço marcado, seus olhos marejados desviaram-se de Felicia e encaravam o chão da tenda
Felicia relaxou os ombros, jogou a sua trança ruiva para trás e inspirou profundamente, prendeu seu machado nas costas da armadura e disse serenamente:
— Pois bem, deixarei que descanses. Afinal, amanhã terás de responder a muitas perguntas.
— O quê? — espantou-se Romulus — Do que está falando, alteza?
— Você é um cadete… bem… medíocre… — Claudius coçou a cabeça, desconfortável — E do nada demonstrou habilidades extraordinárias em combate e magia, você foi convocado para um inquérito no Senado.
— Será uma comissão mista de inquérito, também terá representantes do clero e de Vossa Majestade. — Felicia
— O Imperator estará lá? — Romulus engoliu em seco com olhos esgazeados
— Quem sabe… — Felicia sorriu maliciosamente — Bom, deixarei que descanses, amanhã ao canto do galo deverás estar pronto, durma bem.
Felicia não simplesmente saiu, ela se retirou como quem encerra um capítulo. Seus passos ecoaram nas tábuas do chão, cada um marcando o fim de uma interrogação e o início de um destino. A armadura de platina tilintou suavemente, não como barulho de guerra, mas como o som de chaves rodando em uma fechadura invisível.
Na entrada da tenda, ela parou, virou-se pela última vez, e a luz das lamparinas que vinha de fora moldou seu perfil, transformando-a por um momento numa figura mítica, não mais somente a princesa, mas portadora de julgamento. Então desapareceu, deixando para trás um vácuo carregado de dúvidas.
Theophilus suspirou, recolhendo suas ervas com movimentos cansados.
— Ela é como chuva torrencial — murmurou, mais para si mesmo. — Vem fugaz, muda tudo, e se vai deixando o ar virado.
Claudius assentiu, apoiando-se na bengala.
— E nós somos as árvores que têm de suportar o tufão. — olhou para Romulus. — Descanse, rapaz. Amanhã será um dia longo.
Os dois saíram juntos, arrastando os pés. A cortina da tenda balançou e ficou parada.
Romulus ficou sozinho com o zumbido de seus próprios pensamentos. Deitou-se e encarou o teto da tenda, o que o dia seguinte o aguardava? Seria preso, executado ou usado como arma?
Talvez fosse o cansaço ou o remédio de Theophilus, mas o sono chegou e com ele o fogo sonhado.
Primeiro, veio o calor. Não o anterior, violento e invasivo, mas um aconchego dourado que envolveu seus membros como um cobertor de luz. Ele já não estava na tenda. Flutuava num céu noturno que não era escuro, mas cor de âmbar, como seus próprios olhos.
A sensação de paz absoluta navegava sua mente, não mais se preocupava com lições, inquéritos ou guerra iminente, nada doía e nada queimava sua pele. À sua frente, uma chama dançante e imponente brilhava em laranja e ouro, exalava o calor aconchegante de uma lareira e o aroma doce do crepúsculo.
“Aproxima-te, meu filho.”
Romulus obedeceu o fogo, a marca em seu braço brilhava intensamente e não machucava, ele não sabia quem era aquele ser, mas sabia que era familiar.
— Quem é você? — indagou o garoto
“Filho do fogo, conhece-te a ti mesmo!”
A chama então circulou Romulus como se o engolisse em um redemoinho flamejante, ele viu soldados de diferentes nações em uma batalha sangrenta, uma figura nobre de toga roxa cortando os céus, um guerreiro de tranças e por fim uma cidade em chamas.
De repente, ele acordou.
Sentou-se na cama com um pulo, ofegante porém revigorado. A sensação de calor dissipara-se. À sua frente estava uma moça de sua idade, com uma túnica vermelha e detalhes amarelos, o cabelo coberto por um capuz justo. Seus olhos demonstravam espanto; ela abraçava uma trouxa como se fosse cair.
— S-Senhor soldado… eu o acordei?
— Não… mas parece que te assustei. Desculpe.
A jovem corou, deixou o saco na mesa próxima, fez uma rápida reverência e saiu com pressa.
Ainda estava escuro lá fora. Romulus acordara antes do canto do galo. Dirigiu-se à área de banho da tenda e limpou-se rapidamente; a água fria no rosto era revigorante.
Vestiu então as roupas que haviam sido deixadas para ele: túnica branca de linho e toga púrpura. Olhou-se no espelho: era a primeira vez que se vestia com tal elegância. Parecia um patrício.
— Pareces até um senador! — Claudius entrara na tenda sem fazer barulho. — Nervoso?
— Muito… — Romulus engoliu seco. — Senhor, eu realmente não sei o que aconteceu ontem…
O centurião ergueu a mão.
— Não me deves satisfações, rapaz. Conheço-te desde que eras criança. Sei da tua índole.
Romulus sorriu, aliviado.
E então o galo cantou.
Felicia irrompeu na tenda como um ciclone carregado.
— Vamos, cadete. É hora.
A princesa não vestia sua armadura de platina. Trajava uma túnica dourada e uma toga púrpura como a dele — mas as vestes dela exibiam padrões em ouro brilhante. Seus cabelos ruivos estavam presos em um coque apertado com tranças laterais. Na cabeça, uma coroa de louros platinada.
— Certo, alteza. — Romulus obedeceu, encabulado
— Mas antes, precisas usar isto. — Felicia cobriu o braço marcado de Romulus com faixas roxas — Isso ocultará sua marca evitando que curiosos levantem suspeitas, também simboliza que agora estás sob custódia da Corte, ou seja, sob minha supervisão.
Ao saírem da tenda, uma multidão os aguardava, seus colegas do Dormitório III aplaudiam Romulus e gritavam elogios a ele.
— Se não é o herói do III! — disse Adipos dando tapas em suas costas
— Eu tentei impedir, mas eles insistiram em se despedir de você. — Felicia
Dominus deu-lhe um abraço apertado, era um grandalhão que às vezes não tinha noção da sua própria força.
— Sentiremos tua falta no campo de batalha, Romulus! — disse Dominus
— Certo, cadetes, saiam do caminho pois teremos uma viagem longa! — Felicia ordenou, e os cadetes abriram caminho numa espécie de “corredor de honra”, prestando a continência tradicional do Império.
Romulus e Felicia entraram em uma carruagem imperial, guiada por um cocheiro e dois parrudos cavalos brancos. Quando partiram, Romulus pôde ver seus colegas berrando e acenando, ele acenou de volta, sabendo que provavelmente nunca mais os veria de novo. Felicia fechou as cortinas da carruagem para evitar especulações de transeuntes.
— Chegaremos à Praça do Sol em aproximadamente uma hora. Você já esteve em um inquérito antes? — Felicia
— Não, alteza. — Romulus pigarreou
— Certo, é um pouco diferente de um julgamento, pois você não terá direito à defesa e não será emitido um veredicto por um magistrado. A comissão mista inquisidora lhe fará algumas perguntas e decidirá se irá dar início a um processo formal ou, se for julgado que seu caso é muito grave, poderá ser emitida uma sentença extraordinária imediata. — Felicia
— Que tipo de sentença, alteza? — Romulus indagou com voz trêmula
— Depende da gravidade do seu caso, pode ser reclusão, pena capital ou custódia temporária. — Felicia respondeu calmamente — Mas o mais importante é falar somente a verdade e não entrar em contradição.
— Certo… — Romulus ficara ainda mais tenso
Um silêncio constrangedor tomou conta da carruagem, Felicia olhava serenamente para uma fresta na cortina, como se fosse apenas mais um dia. Romulus, inquieto, balançava a perna e coçava os ombros.
— Diga logo o que quer dizer, cadete. — Felicia
— Os meus amigos do Dormitório III, disseram que vão sentir minha falta na batalha… Eles irão para o fronte oriental lutar com os rúteres, certo? — Romulus perguntou cabisbaixo
— Sim, a expansão estagnou. Parece que os bárbaros conseguiram ajuda de outros reinos ao leste. — Felicia retrucou — A XVII e a XVIII Legiões já se juntaram a eles, mas agora a estratégia de batalha é defensiva, um cerco à cidade de Brancovadum foi formado, os rúteres estão tentando retomar o território. Seus amigos são cadetes recém-formados, os bárbaros podem ser incivilizados mas estão dispostos a morrer em batalha.
— Entendi. — Romulus sentiu alívio e culpa ao mesmo tempo, culpa por não ajudar seus companheiros e alívio por não participar da carne de cerco
Mais silêncio reinava no veículo, após quase uma eternidade a carruagem desacelerou até parar.
— Chegamos. — disse Felicia, ajustando a coroa de louros. — Lembre-se: fale só a verdade. Mas não toda a verdade. Algumas perguntas são armadilhas.
A porta se abriu. A luz do sol invadiu o interior, cegante.
Romulus olhou para fora e prendeu a respiração.
A Praça do Sol estendia-se à sua frente, tão vasta que parecia um deserto de mármore. No centro, a estátua de Viramax lançava uma sombra que cortava a praça ao meio. À esquerda, o Palácio; à direita, o Templo Solar; e à frente, uma construção baixa, séria, com colunas grossas e granito negro: o Senado.
— Veja — sussurrou Felicia, apontando para os degraus. — Os dois cães de guarda já nos esperam.
No topo da escadaria, duas figuras estavam estáticas: um homem de túnica marrom grossa e bordados em creme com um chapéu mitra, e outro de toga de verde e listras prateadas com um barrete também verde em sua cabeça, cada um com comitiva própria. Guardas pretorianos estavam à postos e patrulhando toda a Praça, os que passavam perto da Princesa paravam e se curvavam antes de retomar a caminhada. Quando Felicia e Romulus pisaram no primeiro degrau, as figuras já adentraram o Senado.
— Augustus Fabius, em verde, Príncipe do Senado. Lucius Valerius, o bispo de chapéu pontudo. — Felicia falou como se recitasse um campo de batalha. — Dois patrícios com mais linhagem que lealdade. Hoje, vão tentar transformar você numa heresia ou numa ameaça. Depende de qual for mais útil para seus interesses.
Felicia e Romulus subiram as escadas em silêncio. Os corredores do Senado eram gélidos e ecoantes, e cada passo soava como uma sentença sendo medida. Para Romulus, aquela caminhada exigia uma coragem que nenhum treino militar poderia ensinar — não havia inimigo visível para enfrentar, apenas o peso invisível do poder.
Ao adentrar a sala do inquérito, um vastíssimo recinto circular com arquibancadas que subiam como degraus de um anfiteatro imperial, Romulus sentiu o ar faltar. O teto era tão alto que parecia uma abóbada celeste falsa, pintada de sombra. No centro, uma única cadeira de madeira clara aguardava, iluminada por um foco de luz pálida que caía de uma claraboia.
O peso dentro do peito tornou-se físico, como se alguém houvesse colocado uma pedra sobre seu esterno. Aquela não era uma sala, era um aquário de poder, e ele, o peixe exposto.
— Boa sorte, cadete. — sussurrou Felicia, antes de se afastar.
A princesa subiu até a bancada elevada e acomodou-se na cadeira mais alta. À sua frente, um tampo circular de ébano reluzente e um martelo de cabo prateado aguardavam. À sua esquerda, o Senador Augustus e sua comitiva de assessores severos; à sua direita, o Bispo Lucius e seus irmãos do Templo, com expressões de pedra.
Romulus ficou sozinho no centro do círculo, sob o olhar de todos.
— Vossa Alteza — a voz do Senador soou mais como um rasgo de tecido fino do que uma pergunta — a senhora irá… presidir esta sessão?
Felicia ergueu o queixo, os olhos verdes fixos nele.
— Sua Majestade Imperial presta seus respeitos a Julius, seu falecido Conselheiro. Meu irmão Félix comanda a campanha no oriente. — Ela deixou a pausa pesar. — Isso me torna a única membro da Família Imperial na capital e, por dever, a Regente interina de todos os assuntos de Estado. Algum problema, Senador?
Ele engoliu seco.
— De forma alguma… Regente. — A palavra saiu entre dentes, mas clara o suficiente para ser registrada.
Voltou-se então para Romulus, e sua voz recuperou a frieza burocrática:
— Cadete, identifique-se para os registros desta comissão.
— Romulus, filho de Marcus e Lívia, egresso da Academia Octavius Primus.
— E confirma — o Senador folheou o pergaminho com um gesto seco — que, no ataque do espião rúter, manifestou habilidades mágicas fora de qualquer registro, treinamento ou precedente aceitável?
Romulus sentiu a pergunta do Senador como um golpe físico. Fora de qualquer registro, treinamento ou precedente aceitável. As palavras ecoavam com a mesma frieza dos corredores do Senado.
— Eu… — a voz de Romulus saiu fraca, e ele forçou-se a engolir. — Não sei o que aconteceu, excelência. Não foi algo que eu controlasse. Foi como… como acordar no meio de um incêndio que eu mesmo, sem querer, comecei. Aquele dia, foi como se algo externo tivesse respondido por mim.
Antes que o Senador pudesse continuar, o Bispo Lucius ergueu-se. Seu movimento foi lento, calculado, e sua voz encheu a sala com a autoridade de quem está habituado a falar por um deus.
— Algo exterior a você — repetiu, com um sorriso fino e amargo. — Que descrição conveniente para uma verdade inconveniente.
Ele olhou para Felicia, e seu tom teve um fio de provocação sutil:
— Regente, este jovem descreve não um milagre, mas uma usurpação. O poder divino não é um cão de guarda que "responde" quando chamado por um cadete medíocre. É uma dádiva concedida após décadas de devoção, ritual e pureza de sangue.
Ele apontou para Romulus.
— O que ele manifestou foi fogo selvagem. Fogo de caos, não de ordem. Fogo que consome sem discriminação, assim como consumiu o espião. — Fez uma pausa dramática. — Isso não é uma bênção. É uma maldição. Ou pior: uma profanação. Ele pegou o símbolo mais sagrado do Império, o próprio Sol de Viramax, e o usou como um machado de guerra. Isso é heresia pura. E a heresia, como bem sabemos, precisa ser cauterizada antes de se espalhar.
Seus olhos pousaram em Felicia novamente, desafiando-a implicitamente, não era um desafio verbal, mas uma provação: iria a honrada princesa-guerreira defender um herege?
Foi então que, do lado do Bispo, um homem muito idoso se levantou. Irmão Aquilius. Seus movimentos eram lentos, mas não pela fraqueza — pela ponderação. Sua túnica branca simples e seu pingente solar de bronze contrastava com as vestes bordadas dos outros clérigos. O silêncio que se seguiu ao seu levantar foi ainda mais profundo.
— Com a devida vênia, Eminência. — começou Aquilius, com uma voz surpreendentemente clara para sua idade. — Mas a história, quando consultada, nos oferece uma visão mais… nuanceada da vontade divina.
Ele não olhou para Romulus. Olhou para o anel no dedo do Bispo, um sol de ouro, e depois para o tampo de ébano da mesa, como se visse registros invisíveis ali.
— Meu ancestral, Octavius Primeiro, recebeu a Marca Solar não em um templo, mas no campo de batalha, coberto de lama e sangue do inimigo. Recebeu não por pureza ritual, mas por necessidade do Império. — Aquilius fez uma pausa, deixando o peso da linhagem pairar. — Viramax não é um deus de bibliotecas. É um deus de ação. E às vezes age através dos canais mais… improváveis.
Agora, finalmente, seus olhos pálidos e profundos pousaram em Romulus.
— O jovem não entende o que aconteceu. Isso é óbvio. Mas a ignorância do recipiente não invalida a origem do dom. — Ele virou-se novamente para o Bispo, com uma expressão quase pedagógica. — Chamar isso de heresia, Eminência, é presumir que conhecemos todos os caminhos do Sol. E o último homem que presumiu isso… bem, seu nome foi riscado dos registros do Templo, não foi?
A referência era clara para todos na sala: o último que tentara limitar os milagres às suas próprias convicções fora deposto por "falta de fé".
Aquilius concluiu, suave mas firme:
— Sugiro que, em vez de condenarmos o que não compreendemos, observemos. O fogo divino não se acende por acidente. Se Viramax acendeu esta centelha… talvez estejamos diante de um sinal. E não cabe a nós apagá-lo, mas sim decifrá-lo.
O Senador Augustus, que observara o embate teológico com crescente impaciência, interveio com voz seca:
— Toda poesia teológica à parte — disse, batendo levemente os dedos no balcão —, o fato prático permanece: temos um cadete que manifestou poder incontrolável e imprevisível. Irmão Aquilius, seu conselho é “observar”. Muito bem. Mas como garantimos que, no próximo “sinal”, não perdemos meio quartel em chamas?
Ele olhou diretamente para Romulus:
— Cadete, em algum momento entre sentir o “calor” e carbonizar o espião, você sentiu que controlava o fogo? Ou era como segurar as rédeas de um dragão cego?
Antes que Romulus respondesse, Felicia tomou a palavra. Seu tom era diferente agora: menos regente, mais investigadora.
— Há outro ângulo que exige clareza — disse, fixando Romulus. — O espião que você matou, Hartmut, infiltrou-se como Tirius. Pelo pingente encantado que ele usava, um artefato de ilusão complexa que desapareceu após sua morte, conseguimos especular que sua infiltração real não dura mais de seis meses. No entanto, a magia do pingente fez todos, desde cadetes a centuriões, acreditarem que ele estava entre nós há anos.
— O monitor Tirius? — Romulus pareceu confuso, como se a pergunta não fizesse sentido. — Ele falava pouco. Corrigia a postura, mostrava o movimento. Nada mais.
Ela inclinou-se para frente, os olhos verdes perfurantes:
— Você, Romulus, treinou com ele e comeu com ele. Em nenhum momento, durante esses meses, nada lhe pareceu estranho? Nenhum sotaque diferente, nenhum conhecimento faltante, nenhum olhar deslocado? — Sua voz baixou, mas tornou-se ainda mais intensa. — Ou você percebeu algo… e escolheu calar?
— Com respeito, alteza… — ele engoliu seco — …mas o centurião Claudius viveu mais guerras que eu anos de vida. Se ele não viu nada, que chance teria eu? Mal conseguia lembrar os golpes de espada, quanto mais desconfiar de um monitor.
A resposta de Romulus pairou no ar, simples e desarmante em sua humildade. O silêncio que se seguiu foi quebrado por um som baixo — o Bispo Lucius batendo a ponta dos dedos no balcão, lentamente, como se contasse os segundos até sua próxima investida.
— Humildade conveniente — disse ele, a palavra saindo como um cuspe. — “Não sabia”, “não percebi”, “não sou digno de nota”. Uma ladainha de ignorância para encobrir um ato de usurpação. — Seus olhos brilharam com fervor dogmático. — O que você chama de “acidente divino”, Irmão Aquilius, eu chamo de porta aberta para o caos. Se qualquer um, em qualquer momento, pode ser “usado” pelo Sol sem entendimento, sem ritual, sem hierarquia… o que resta do nosso lugar como guardiões da fé?
O Irmão Aquilius não se alterou. Quando falou, sua voz soou como a de um avô corrigindo com paciência um neto impetuoso.
— O que resta, Eminência, é fé. Fé de que Viramax sabe o que faz. Fé de que um deus não precisa de nossa permissão para agir. — Ele olhou para Romulus, e seu olhar era pesado, mas não hostil. — O menino não é um teólogo. É um cadete assustado. Julgá-lo por não entender o que nem nós, com nossos livros e nossos debates, compreendemos… é como culpar o solo por receber a semente.
O Senador Augustus soltou um suspiro audível, de quem já perdeu a paciência com divagações.
— Fé, teologia, sinais — enumerou, com um gesto brusco. — Palavras que não defendem fronteiras, não enchem celeiros, não controlam poderes despertos. — Ele se voltou para Felicia, ignorando agora os clérigos. — Regente, o cerne da questão é este: ele é um recurso ou uma ameaça? Se for recurso, como o domamos? Se for ameaça, como nos livramos dele sem criar um mártir ou ofender supersticiosos?
Todos os olhos se voltaram para Felicia. Ela não se apressou. Deixou o peso da pergunta do Senador assentar, mostrando que a decisão, quando viesse, seria calculada, não reativa.
— Nenhum dos dois, Senador — disse ela, finalmente. — Por enquanto, ele é uma incógnita. E incógnitas, no Império, pertencem à Coroa para serem decifradas. — Ela ergueu o martelo, não para bater, mas para marcar sua autoridade. — Portanto, assim decreto, como Regente Interina: o cadete Romulus ficará sob custódia imperial direta. Será transferido para a Primeira Legião, não como soldado comum, mas como caso especial de observação. Seu treinamento será supervisionado por mim. Seus progressos, e seus perigos, serão avaliados por um comitê composto por um representante meu, um do Senado… — Ela fez uma pausa minúscula, olhando para o Bispo. — …e um observador do Templo, a ser designado por Sua Eminência.
O Bispo Lucius abriu a boca, mas Felicia continuou, sua voz ganhando uma lâmina de aço:
— Este não é um convite para debate, Eminência. É uma ordem de regência. O assunto é de segurança imperial e permanecerá em sigilo absoluto. — Seu olhar varreu a sala. — Um vazamento, uma fofoca, um sussurro indevido sobre este caso será tratado como traição. E todos nesta sala sabem como Potestas trata os traidores.
O silêncio que se seguiu era de submissão forçada. O Bispo engoliu o que queria dizer, seu rosto um manto de fúria contida. O Senador anotou algo em seu pergaminho, o rosto inexpressivo. Aquilius apenas assentiu, uma inclinação de cabeça respeitosa.
Felicia baixou o martelo. O baque surdo no ébano ecoou como o fechar de uma tumba.
— O inquérito está encerrado. — Ela se levantou. — Guardas, escoltem o cadete até os aposentos que preparei para ele no complexo da Primeira Legião. Ele não deve falar com ninguém no caminho.
Romulus foi puxado para cima pelos pretorianos. Suas pernas estavam bambas, mas o coração batia num ritmo mais lento de alívio. Não era livre. Longe disso. Era uma propriedade, uma incógnita, um problema adiado. Mas estava vivo.
Enquanto era levado para fora, seus olhos encontraram os de Aquilius. O velho clérigo o observava, e em seu olhar não havia triunfo, nem pena. Havia reconhecimento. E, talvez, um último sussurro silencioso que apenas Romulus pôde sentir na marca pulsante de seu braço: Agora começa a verdadeira prova, filho do fogo.
A porta do salão se fechou atrás dele, cortando o mundo do poder e deixando-o só com o som de seus próprios passos e do início de um destino que ele nunca pediu.
Continua...