
ROMULUS
CAPÍTULO IV- ENTRE A LUZ E A ESPADA
Os aposentos preparados por Felicia ficavam do lado externo da Cidadela da I Legião, entre os alojamentos dos serviçais e funcionários menores. O quarto era maior e mais mobiliado do que qualquer lugar onde Romulus dormira: uma cama para duas pessoas com lençois novos, uma banheira de granito, até uma poltrona no canto.
Ainda era cedo. O Sol ainda não atingira o zênite. Romulus tirou a toga púrpura, desfez as faixas roxas e encarou a marca no antebraço. Ela não doía. Apenas existia, vermelha e silenciosa, um veredito gravado na carne.
Dirigiu-se à bacia de bronze e lavou o rosto com água fria. No espelho embaçado, seus olhos pareciam mais velhos. Sentou-se na beira da cama, fechou os olhos, tentando não ver Hartmut carbonizado outra vez. Batidas na porta fizeram-no levantar de um salto.
Um servo entrou, vestindo uma túnica simples, mas de corte impecável.
— Sua refeição, senhor.
Deixou uma bandeja com frutas frescas e carne de ganso recém-assada. O aroma era rico, quase indecente.
— Obrigado — murmurou Romulus.
Romulus sentou-se à mesa. Nunca comera tão bem. Cada pedaço de fruta, cada lasca de carne assada, tinha um sabor vívido, quase agressivo. Mas cada mastigada vinha com um pensamento intrusivo:
Isto é o preço.
Isto é o começo da minha custódia.
Meus amigos estão a caminho de uma guerra, e eu estou comendo ganso em um quarto silencioso.
A fome física foi saciada. A outra, a que vinha do peito, apenas crescia. O servo, que permanecera discreto ao lado da porta, limpou a garganta:
— A Princesa Felicia solicita sua presença ao meio-dia solar, senhor. — Sua voz era neutra, profissional. — Ela o apresentará ao Decano Emilius e iniciará sua integração à Cidadela. Será… aconselhável que esteja vestido adequadamente.
O homem indicou com um leve gesto um conjunto de equipamentos dispostos sobre um baú: armadura legionária completa, mas como ele nunca vira, as peças eram de latão dourado polido até espelhar seu próprio rosto perplexo. O peitoral era gravado com o Sol Radiante de Viramax, mas de um modo mais sóbrio, mais antigo, do que os ornamentos vulgares das legiões menores. O que mais chamou a atenção foi o elmo: um capacete de ferro com grades douradas nas bochechas e, no topo, uma crista de penas de cor vinho, não o púrpura imperial ou o branco dos oficiais.
— O Decano Emilius… — Romulus engoliu seco, tentando soar mais confiante do que se sentia. — Ele é…?
— O comandante da Primeira Legião, senhor. — O servo fez uma pausa quase imperceptível. — Um homem que valoriza mérito acima de nome. Boa sorte.
Com um último aceno de cabeça, o homem retirou-se, deixando Romulus sozinho com as roupas novas e a hora marcada.
O meio-dia, tempo suficiente para vestir-se, para ruminar seus medos, para sentir o peso da marca em seu braço, agora novamente envolta nas faixas roxas que Felicia lhe dera.
A Cidadela da Primeira o aguardava. E com ela, o verdadeiro teste: não de fogo divino, mas de sobrevivência num mundo onde seu sangue era errado, e seu poder, uma pergunta perigosa.
A crista vinho o marcava como diferente: um experimento, o intruso dourado.
Vestir-se foi uma batalha silenciosa. O couro dos tirantes era rijo, não amaciado pelo uso. O peitoral, pesado como uma pedra de moinho sobre seus ombros franzinos. Cada fivela que fechava era uma confirmação: isto não foi feito para você.
O som de passos firmes e o tilintar metálico de armaduras pesadas do lado de fora anunciaram sua chegada antes das batidas na porta. Ao abrir, Felicia estava lá, imponente em sua armadura de platina, a capa púrpura drapejando levemente. Flanqueando-a, dois Pretorianos de armaduras platinadas e elmos com cristas púrpuras. Eles eram montanhas de músculo e aço, e seus olhos, invisíveis sob os elmos, pareciam perfurar Romulus. Ele notou um tremor quase imperceptível nos ombros de um deles, um esforço para conter o riso?
— O Decano Emilius não gosta de esperar, soldado — disse Felicia, sua voz neutra, mas seus olhos verdes avaliaram rapidamente a armadura em Romulus. Um aceno de cabeça quase imperceptível. Aprovava o ajuste, não o portador. — Siga-me.
A caminhada do alojamento dos serviçais até os portões principais da Cidadela da Primeira foi uma procissão silenciosa e constrangedora. Mas ao atravessar o grande portal de bronze, o mundo se transformou.
Romulus esperava um quartel. Encontrou uma cidade dentro da cidade.
Ruas largas e pavimentadas com lajes regulares ladeadas por colunatas elegantes. Lojas exibindo não equipamento militar comum, mas espadas de aço damasco, vinho de ânforas, unguentos importados e tecidos finos. Patrícios vestidos com túnicas caras, muitos com anéis de família visíveis, conversavam em grupos, ignorando completamente a patrulha da qual Romulus fazia parte. Havia até uma pequena fonte pública onde a água jorrava de uma estátua de Viramax. O ar cheirava a mármore polido, flores cultivadas em jardins privados e o incenso caro que saía de um pequeno templo consagrado aos ancestrais da legião.
Era um bairro de elite, uma exibição viva do poder e da riqueza da classe que compunha a Primeira Legião. Onde os soldados das outras legiões viviam em barracões, aqui eles moravam em palacetes compartilhados, com átrios e mosaicos. O próprio status era a primeira linha de defesa.
Romulus sentiu-se ainda mais deslocado. Sua armadura dourada, que o fazia sobressair entre os plebeus, aqui quase o camuflava, era o uniforme do clube. Mas a crista vinho e seu rosto desconhecido eram como bandeiras anunciando: intruso.
Sussurros o seguiam. Não os gritos de desprezo dos estábulos, mas murmúrios calculados, olhares de soslaio de senadores aposentados e de matronas curiosas.
— É o garoto do incidente no acampamento? — ouviu de uma varanda.
— Dizem que o próprio Sol o tocou. Ou talvez tenha feito um pacto.
— Parece um rato vestido de leão.
Felicia ignorou tudo, avançando com passos firmes em direção ao coração da cidadela: o Anfiteatro Central. Era uma construção menor que o grande Circo da capital, mas infinitamente mais intimidadora. Feito de mármore branco veiado de ouro, suas arquibancadas já estavam cheias.
Não era um evento público. Era uma cerimônia de incorporação. As fileiras estavam cheias de legionários veteranos da Primeira, de armaduras polidas. No centro da arena, formados em linhas impecáveis, estavam os novos recrutas: os egressos dos vários Acampamentos que haviam sido selecionados para a elite.
E entre eles, Romulus reconheceu alguns rostos.
Lá estavam os cadetes do Dormitório I. Os melhores dos melhores. Os que sempre olharam para o Dormitório III com nojo ou, no máximo, com pena divertida. Eles agora vestiam a armadura da Primeira com cristas brancas de novato, mas seus portes eram de quem sempre soube que aquele destino era seu por direito.
Quando Romulus entrou na arena ao lado de Felicia, seguido pelos Pretorianos, todas as conversas cessaram.
Centenas de olhos se voltaram para ele. Para a armadura dourada com crista vinho. Para o rosto do plebeu sob o elmo.
Ele procurou os olhos dos ex-colegas do Dormitório I. Viu surpresa, confusão, inveja e ,em alguns, um brilho de reconhecimento genuíno. Eram os mesmos que aplaudiram seu suposto heroísmo após o ataque de Hartmut. Para eles, aquele plebeu desajeitado não era mais apenas o pior cadete. Era o matador do espião rúter. O garoto que, por um instante, canalizara o próprio Sol. E agora estava aqui, ao lado da princesa, vestindo a dourada.
Um deles, Gaius, um loiro alto que fora o primeiro da classe, deu um leve aceno de cabeça para Romulus. Não era amizade. Era reconhecimento de status. Romulus havia, de alguma forma inexplicável, cortado a fila. E nesse mundo, mesmo que por razões erradas, isso exigia um mínimo de respeito tático.
Felicia parou diante de um palanque onde um homem aguardava. Era o Decano Emilius, um homem parrudo de meia idade com cabelos brancos e barba curta porém volumosa. Seu rosto era como uma escultura de granito, seus olhos cinza varriam a multidão como a lâmina de um gládio. Vestia uma armadura simples, sem dourados, apenas o aço cinzento e as cicatrizes de uma vida de combate e no topo de seu elmo a marca do comandante: a crista negra.
Seus olhos pousaram em Romulus, e não houve desdém, nem curiosidade. Apenas avaliação. A avaliação de um homem que sabia o peso real do aço e do sangue, e media tudo pelo mesmo padrão implacável.
— Cadete Romulus — Felicia disse em tom baixo — Apresento-lhe o Decano Emilius Adventianus, Comandante da Primeira Legião e instrutor da Guarda Pretoriana. A partir de hoje, sua integração e treinamento estarão sob seu olhar.
Emilius não sorriu. Apenas inclinou a cabeça um centímetro.
— Vi sua ficha do Acampamento — disse sua voz, rouca como pedras sendo arrastadas. — Notas miseráveis. — Fez uma pausa, deixando as palavras cortarem. — Mas também vi o relatório do ataque. Uma única ação não faz um legionário. O suor constante faz. Você suará mais do que qualquer homem aqui para provar que merece este dourado. Ou ele se tornará seu caixão. Entendido?
Romulus engoliu seco e tentou endireitar os ombros sob o peso da armadura.
— Sim, senhor!
Um sorriso minúsculo, quase cruel, apareceu nos cantos da boca de Emilius.
— Bom. — Ele então voltou-se para os novos recrutas, sua voz trovejante. — E quanto a vocês, orgulhosos filhos de senadores? Vejam este plebeu! Ele tem algo que nenhum de vocês tem: a atenção do Império. Invejem-no ou desprezem-no, mas não o subestimem. A guerra não pergunta por sua ascendência, apenas por seu sangue derramado. O treinamento começa agora!
Os cadetes foram divididos em duplas. A primeira atividade era um duelo simples com gládios, um exercício básico que, para Romulus, representava um abismo de terror. Ele sempre apanhara nos treinos com espadas de madeira; agora, a lâmina à sua cinta era verdadeira, e o olhar de seu oponente, mais cortante que qualquer metal.
O Decano Emilius designou pessoalmente o parceiro de Romulus. O garoto tinha apenas dezoito anos, mas era alto como um orque e largo como um bisão. Seus músculos tensionavam a armadura dourada de forma quase obscena. Era Drusus. Romulus nunca o vira nos anos no Acampamento, mas pelas características: a pele bronzeada, a estrutura massiva, a postura desdenhosa e um colar com um pingente de bronze da Lua Cheia sobre o mar, deduziu que vinha de Crasípolis, nas fronteiras ocidentais, famosa por produzir o mais doce vinho do Império mas também guerreiros de força bruta e aptidão mágica própria..
Drusus sorriu ao ver Romulus. Bateu o gládio ainda embainhado contra a palma de sua mão enorme, produzindo um baque seco e promissor.
— Vamos dançar, plebeu.
Romulus inspirou o ar ácido da arena, o gosto metálico de sua boca escorria pela garganta, desembainhou seu gládio num súbito ato de estupidez e avançou contra o brutamontes.
Drusus sequer suou: com a espada ainda embainhada ele bateu nas canelas finas de Romulus derrubando-o. Com o pé direito ele chutou Romulus como se chutasse um cão sarnento, jogando-o para longe.
O garoto bateu com a cabeça em um dos degraus do anfiteatro, teria fraturado-a se não estivesse de capacete. Ele levantou-se, zonzo, com hematomas nas pernas e com princípio de sangramento nasal.
— Cabeça erguida, soldado! — gritou Emilius — Use mais a cabeça para pensar e menos para colidir com o campo de batalha!
Os outros soldados riam, alguns veteranos olhavam com pena e até desviavam os rostos para não ter de assistir àquele massacre.
— Não faça com que eu me arrependa, Romulus. — gritou Felicia
As palavras da princesa atingiram seu peito, ela depositara sua confiança nele e agora estava não apenas a decepcionando, mas também envergonhando-a na frente de veteranos e heróis de guerra do Exército Potestiano. Romulus fora humilhado muitas vezes em sua vida, mas o que Felicia estava para passar, por sua causa, era o pior tipo de vergonha que alguém, principalmente uma mulher, poderia passar: a desonra.
O rapaz então fechou os olhos, tentou focar no sonho que tivera com o fogo: tentou concentrar-se no calor e na labareda dourada que lhe dissera em sono profundo:
“Filho do fogo: conhece-te a ti mesmo!”
Não bastava apenas ser reconhecido como o antigo pior cadete, ele deveria comportar-se como um soldado valoroso. Ao abrir os olhos sua marca agora brilhava e a arena ficou mais quente. Ele se colocou na postura padrão de batalha que lhe fora ensinada no Acampamento, pernas e braços firmes e postura impecável, ele fitava Drusus com o olhar de um predador.
— Está tentando se lembrar das lições do Acampamento Octavius Primus? — Drusus riu — Eu tentei uma vaga lá quando fiz sete anos, mas os habitantes da capital tem preferência aos interioranos. É incrível como essa política de cotas ridícula não cria bons soldados, se você saiu de lá significa que eles aceitam qualquer coisa!
Romulus não revidou as provocações, deu três golpes perfeitos de esgrima no ar, sentiu uma pressão em seus braços como se o instrutor estivesse corrigindo sua postura, e de sua lâmina saíram três arcos de fogo em velocidade absurda. Drusus, que não estava preparado, sentiu o impacto do primeiro. Ele foi arrastado alguns centímetros para trás e, cobrindo os braços com sua magia de água, conseguiu defender os arcos subsequentes criando uma nuvem de vapor.
— Nada mau, soldado! — Emilius — Foi uma magia bem mediana, porém intencional, continue assim!
Romulus aproveitou a baixa visibilidade do adversário para avançar em sua direção, com uma rapidez nunca dantes vista em seus dias de acampamento, ao aproximar-se da nuvem que começava a se dissipar ele jogou-se no chão dando uma cambalhota e passando por debaixo as pernas de Drusus. Ao se reposicionar ele golpeou seus calcanhares.
— Ai! — Drusus gemeu de dor, porém não caiu — Seu merdinha, acha mesmo que isto é o suficiente para me derrubar?
Drusus virou-se para golpear Romulus mas desequilibrou-se e caiu de queixo no chão.
— O que você fez comigo? — Drusus grunhiu com a mandíbula no chão de areia
— Eu posso ser bem medíocre em combate, mas não sou um plebeu iletrado! — retrucou Romulus — Seu povo, os crasipolitas, são excelentes escritores. E sabe qual a principal área de pesquisa deles?
— Seu plebeu imundo! Eu vou te matar! — rugiu Drusus
— Anatomia, tinham vários pergaminhos de Crasípolis na tenda dos curandeiros do Acampamento que eles me obrigavam a ler quando me machucava nos treinos. Lesionei seus tendões do calcanhar, o que vai dificultar seus movimentos por algum tempo! — Romulus vangloriou-se
Palmas vieram das arquibancadas, Felicia ainda fitava Romulus com expressão neutra e Emilius analisava a cena com ceticismo.
— Não cante vitória antes da hora, soldado! — gritou o Decano
Drusus levantou-se, uma corrente fina de água circulava seus ferimentos, fechando-os lentamente. Ele desembainhou sua espada e cravou os olhos raivosos em Romulus.
— Não me interessa se você é a porcaria do “Tocado pelo Sol” ou o cachorro de estimação da Princesa. — Drusus disse entredentes — Eu vou te matar aqui e agora em nome da Mãe Crenura!
O garoto golpeou de uma vez, com força e precisão suficientes para cortar um tronco de tule, Romulus pulou para trás num instinto que nunca tivera. Se este golpe fosse dado meses atrás ele estaria morto.
— Você é muito corajoso invocando outra deusa na capital do Império. — disse Romulus, a cada minuto de batalha ele sentia-se mais corajoso e confiante — Eu fui acusado de bruxaria por muito menos!
O calor da batalha deixava Romulus cada vez mais determinado e colérico, ele segurou a lâmina de seu gládio pela base e alisou a lâmina até sua ponta, à medida que seu palmo acariciava o metal uma chama percorria a arma. A Espada Flamejante que utilizara contra Hartmut agora fora convocada com seu consentimento.
Drusus avançou contra Romulus, berrando em fúria. Ao colidir sua lâmina contra a do rapaz franzino, a mesma derreteu ao toque, o animalesco jovem recuou, bestializado.
— Como? — indagou Drusus, pela primeira vez encontrando um adversário à altura — Como!?
— Eu não sei. — Romulus ergueu seu gládio ao lado de seu corpo, saltou em direção à Drusus que fez um “X” com os braços envoltos de água
Mais uma nuvem de vapor formou-se, agora todos observavam à luta com curiosidade, as outras duplas pararam de lutar para assistir àquele espetáculo. Apenas sons de músculo se chocando eram perceptíveis. Dentro da névoa, Romulus segurou o último soco de Drusus e torceu seu pulso, fazendo-o se ajoelhar com agonia. Ele fincou a espada flamejante no solo e segurou a túnica do adversário nas frestas da armadura. Com o ímpeto do Sol correndo em suas veias, ele apoiou o joelho esquerdo no chão para ganhar alavanca, endureceu seus músculos magros e ergueu o monólito monte de carne maciça. Levantou-se com esforço e, numa última experimentação de força, arremessou o adversário, cujo corpo chocou-se contra a parede, nocauteando-o.
Após a névoa se dissipar, Romulus, invicto, encerrou o fogo na lâmina, embainhou seu gládio e permaneceu de pé, não sentia vertigem nem fadiga. O rapaz olhou para Emilius, que apenas balançou a cabeça em aprovação e Felicia, cuja feição permanecia incógnita.
Romulus aproximou-se de Drusus, que lutava para se levantar, tonto e ofegante. Sem dizer uma palavra, estendeu a mão.
Drusus encarou a palma aberta por um instante que pareceu durar uma eternidade. Na arena, o silêncio era absoluto. Então, com um movimento lento, quase relutante, o enorme crasipolita segurou a mão do plebeu. Romulus sentiu a força bruta daquele aperto, agora desprovida de intenção de machucar.
Ao erguer-se, Drusus limpou o sangue do lábio com as costas da mão e olhou para o garoto franzino. O desdém em seus olhos havia se apagado. No lugar, uma centelha nova: algo entre respeito e perplexidade.
Por um instante, o silêncio pairou sobre a arena. Romulus e Drusus permaneciam lado a lado, o ar ainda pesado do vapor que se dissipava. Então, um som começou baixo, hesitante, palmas isoladas de alguns veteranos nas arquibancadas. Cresceu como onda, espalhando-se entre os soldados da Primeira, até se tornar uma salva estrondosa que ecoou nas paredes de mármore. Romulus sentiu o calor subir-lhe ao rosto, mas não era o fogo da marca; era algo estranho, nunca experimentado: aprovação.
Foi quando a terra tremeu.
Não um tremor distante, mas algo vindo de baixo, das entranhas do anfiteatro. As lajes do centro da arena estremeceram, rachaduras serpentearam o chão como veias negras. E então, com um rugido que parecia vir do próprio inferno, o solo explodiu.
Uma cabeça emergiu. Escamosa, alongada, com olhos que queimavam em amarelo fosforescente. O corpo massivo seguiu-se, esmagando pedras enquanto se erguia. Não tinha asas, suas patas dianteiras eram curtas e musculosas, as traseiras enormes, prontas para escalar. O dorso era uma crista de espinhos que raspavam no teto das arquibancadas mais altas.
— Drakon! — gritou um veterano
O pânico não foi total: os veteranos da Primeira não correram como os novatos, ergueram-se em posição de combate, gládios em punho, formando uma linha defensiva nas arquibancadas. Mas nenhum desceu para enfrentar a fera.
Romulus sentiu as pernas travarem. Mas ao lado, Drusus cuspiu sangue na areia e rangeu os dentes.
— Se vamos morrer, plebeu, que seja lutando.
Antes que pudesse responder, uma figura passou por ele como um raio. Felicia, machado em punho, corria em direção à fera. Do outro lado, Emilius arrancou uma lança das mãos de um fugitivo e avançou sem hesitar, a crista negra imóvel como seu semblante.
Romulus e Drusus trocaram um olhar. E então correram juntos.
Os quatro se posicionaram lado a lado no centro da arena, diante da criatura que agora descia, batendo asas que levantavam redemoinhos de areia. Romulus sentiu a marca queimar, o poder solar fervendo em suas veias. Ele ergueu o gládio, a chama renascendo na lâmina.
— Pelo Império! — bradou Emilius.
Mas quando a fera abriu as fauces para o ataque final, algo estranho aconteceu. Sua forma começou a se desfazer, como tinta na chuva. As escamas negras viraram fumaça, os olhos de brasa se apagaram, e o rugido se dissipou num sibilo inofensivo.
No lugar onde a besta estivera, agora havia um homem.
Aparentava ter mais de sessenta anos, com poucos fios pretos na volumosa e alva barba, uma túnica branca cobria todo seu corpo gorducho, com um manto negro com uma capa por cima. Seus cabelos estavam cobertos por um turbante também preto, com uma safira no meio, além de vários anéis e bijuterias de ouro adornadas. Seus olhos azuis possuíam um contorno preto, como se usasse maquiagem, ele então coçou seu nariz avantajado e sorriu para seus espectadores.
— Uma simples ilusão — disse ele, com voz suave e sotaque arrastado, girando seu pingente: uma coruja em voo, com as asas abertas sob a lua crescente. — Para testar se a fama da Primeira Legião corresponde à realidade. Fico satisfeito em ver que sim.
Emilius cravou a lança no chão, o rosto uma máscara de fúria contida.
— Faruk al-Murshid — rosnou, mais como constatação do que saudação.
Felicia baixou o machado, mas não o embainhou. Seus olhos verdes faiscaram.
— O emissário do Sultão de Hikmah. — Sua voz era gelada. — Sabia que havia chegado à corte, mas não esperava uma recepção tão… teatral.
Faruk inclinou a cabeça, um sorriso quase imperceptível nos lábios.
— Teatral, princesa? Eu diria educativo. O medo revela o caráter mais rápido que qualquer treino. — Seu olhar pousou em Romulus e Drusus, ainda ofegantes, lado a lado. — E estes dois… impressionaram. O plebeu que canaliza o Sol e o crasipolita que invoca a Lua. Jovens que preferem morrer de pé a fugir de joelhos. O Império está em boas mãos.
Drusus franziu o cenho, tocando instintivamente o pingente de Crenura sob a armadura. Romulus sentiu o peso das palavras, mas não soube o que responder.
Nas arquibancadas, os fugitivos começavam a retornar, envergonhados. Alguns veteranos, percebendo o embuste, resmungavam entre dentes. Outros, porém, olhavam para os quatro guerreiros que enfrentaram o dragão com um misto de respeito e inveja.
Emilius bufou, recuperando a lança.
— O treinamento continua! — trovejou, sua voz cortando o murmúrio. — E vocês, novatos, vão suar até esquecerem a covardia que mostraram hoje!
Enquanto os recrutas se reagrupavam, Faruk aproximou-se de Romulus. Seus olhos escuros examinaram o rapaz com uma curiosidade quase científica.
— Você é o tal "tocado pelo Sol". — Não era uma pergunta. — Em Hikmah, estudamos esses fenômenos. Talvez um dia possamos conversar.
Antes que Romulus pudesse responder, Faruk já se afastava, deslizando entre as sombras das colunatas como se nunca estivesse ali.
Felicia tocou o ombro de Romulus.
— Não confie nele. — Sussurrou, baixo o suficiente para só ele ouvir. — E não se distraia. O dia ainda não terminou.
Ela se foi, deixando Romulus com Drusus ao lado. O enorme crasipolita olhou para ele, agora sem hostilidade.
— Ainda te odeio, plebeu. — Disse, mas havia um sorriso torto em seus lábios. — Mas talvez você mereça estar aqui.
Romulus não respondeu. Apenas observou o sol poente refletir na armadura dourada, e sentiu, pela primeira vez, que talvez — apenas talvez — pudesse encontrar seu lugar naquele mundo de ferro e fogo.