
FARUK
CAPÍTULO V- O EMISSÁRIO ESTRANGEIRO
Uma semana atrás…
Faruk saiu do Templo de Nur'Aql, no coração de Tahramash. Os sinos de bronze tilintavam suavemente nas torres octogonais, espalhando pelo ar o som que anunciava a oração do meio-dia. A carruagem já estava a postos, puxada por dois corcéis brancos de crinas trançadas com fios de prata.
Enquanto as rodas rangiam sobre o arenito claro das ruas, pessoas acenavam de janelas e barracas. Vendedores de especiarias interrompiam suas negociações para curvar-se à passagem do Grão-Vizir. Pergaminhos com selos de mercadores estrangeiros descansavam ao seu lado no banco estofado, ao lado de uma bolsa de moedas de ouro — cada uma cunhada com a imagem de uma coruja em voo sob a lua crescente. A luz do sol, generosa sobre Hikmah, fazia o metal brilhar como fogo líquido.
Faruk não era um simples funcionário público. Era o braço direito do Sultão, o segundo em comando de um reino que sobrevivera séculos não pela força bruta, mas pela sabedoria de seus governantes. Naquele dia, ele e Esmail al-Hadid receberiam um emissário do norte — um representante do Império de Potestas, aquela máquina de guerra em expansão que agora ousava lançar olhares cobiçosos para além do Deserto de Hariqamaal.
O Grão-Vizir fechou os olhos por um instante, sentindo o balanço da carruagem. Se falharmos hoje, pensou, as chamas do Sol potestiano podem alcançar até mesmo os jardins de Nur'Aql.
Quando a carruagem parou, um servo aproximou-se com passos rápidos, o rosto crispado pela apreensão. Ajudou o Vizir a descer e disse, quase sem fôlego:
— Graças ao Sapientíssimo, chegaste, Excelência! Sua majestade e o potestiano estão ficando impacientes...
Faruk sorriu, um gesto sereno que contrastava com a agitação do jovem.
— Acalme-se. Estava orando, como faço todos os dias ao apogeu do Sol. Sua Majestade sabe disso, e o estrangeiro deve aprender a esperar. Ele não está em Potestas, está em Hikmah, e respeitará nossos costumes. Leve-me ao escritório do Sultão e a reunião pode começar.
Ao entrar, Faruk inclinou-se em reverência, depois levou a mão direita à testa — os dedos tocando a pele por um instante — e estendeu o braço à frente, a palma aberta voltada para o Sultão, como se oferecesse a própria luz que acabara de invocar.
— Que a Luz Sapiente nos cubra.
O Sultão repetiu o gesto com a mesma solenidade.
— E ela nos cobre.
O Sultão Esmail al-Hadid estava sentado em sua cadeira de ébano, incrustada com madrepérola formando constelações. Seus olhos, da cor do aço envelhecido, fixaram-se em Faruk com a calma de quem já previra cada palavra que seria dita. Ao lado, sobre uma mesa baixa, duas taças de vinho de romã esperavam intocadas. Diante delas, um mapa do Deserto de Hariqamaal estava desenrolado, com marcações a tinta vermelha nos oásis da fronteira norte.
— Sente-se, meu amigo. — A voz do Sultão era grave, mas não pesada; tinha a textura de quem governava mais pela palavra do que pela espada. — Nosso visitante está impaciente. Excelente sinal.
Faruk acomodou-se na cadeira oposta, os olhos percorrendo o mapa antes de encontrar os do soberano.
— Impaciência revela fraqueza. — concordou Faruk. — Ou medo. Em ambos os casos, jogamos com vantagem.
— Não tanto quanto gostaríamos. — Esmail al-Hadid tocou o mapa com a ponta do dedo, sobre uma marcação vermelha. — Enquanto oravas, recebi mensagens dos nossos espiões em Potestas. O Imperador não enviou um diplomata qualquer. Enviou um militar. Um tal de Cornelius Afranius, emissário da Chancelaria Imperial. Pelos relatos, um homem que prefere a ponta da espada à ponta da pena.
Faruk franziu o cenho. O nome ecoava familiar, mas não agradável.
— Então não vieram negociar. Vieram impor condições.
— Ou estudar nossas defesas. — completou o Sultão. — Por isso te chamei antes da audiência oficial. Quero que observes cada movimento dele. Cada olhar, cada pausa. Homens como Cornelius falam mais pelo que não dizem do que pelo que dizem.
Faruk inclinou a cabeça, o pingente da coruja lunar balançando suavemente.
— E se ele exigir respostas imediatas? Se tentar nos pressionar com a sombra das legiões?
Esmail al-Hadid sorriu. Era um sorriso fino, que não chegava aos olhos.
— Então lembraremos a ele que sombras, por mais longas que sejam, só existem enquanto há luz. E aqui, meu amigo, a luz que governa é a de Nur'Aql. O Sol de Potestas, lá, é apenas um visitante.
Bateram à porta. Um servo anunciou, com a voz trêmula:
— Majestade... o emissário potestiano exige audiência imediata. Diz que esperar é um insulto ao Império.
Faruk e o Sultão trocaram um olhar. O mesmo pensamento cruzou a mente de ambos: a dança começou.
— Traga-o — ordenou Esmail al-Hadid, endireitando-se na cadeira. — E que entre sozinho. Aqui, ele aprenderá que até imperadores se curvam à Sabedoria.
Faruk ergueu a taça de vinho de romã, provando o líquido doce e ácido. A porta se abriu e Cornelius Afranius entrou como se adentrasse um território conquistado. Sua toga roxa, impecável mesmo após a viagem, contrastava com o mármore claro e as colunas de alabastro. Atrás dele, dois guardas pretorianos tentaram segui-lo, mas o Sultão ergueu a mão.
— Apenas o emissário. Meu palácio não é um quartel.
Cornelius dispensou a escolta com um sinal de mão.
— Finalmente. — A palavra saiu entre dentes. — Aguardei mais tempo nesta antecâmara do que em toda a viagem desde Potestas. E este calor... Como vossos corpos suportam sem definhar?
Faruk observou em silêncio. O potestiano sentara-se sem aguardar permissão, ignorando qualquer protocolo. O Sultão, imperturbável, manteve as mãos entrelaçadas sobre o mapa.
— O calor é generoso conosco, emissário. Ensina paciência. — A voz de Esmail al-Hadid era calma como água de nascente. — Virtude que vossas legiões talvez devessem cultivar, caso um dia ousem cruzar nosso deserto.
Cornelius esboçou um sorriso de orelha a orelha.
— Palavras ousadas para quem jamais viu o poder de Potestas de perto. Meu Imperator poderia...
— Poderia o quê? — interrompeu Faruk, com suavidade. — Enviar exércitos para morrer de sede antes de avistarem nossas muralhas? Ou desviar legiões da guerra que já consome vosso norte?
O silêncio de Cornelius foi a única resposta.
Esmail al-Hadid ergueu uma taça de vinho de romã, observando o líquido rubro contra a luz.
— Sim, emissário. Sabemos dos rúteres. Sabemos que vosso Imperador já gasta ouro e sangue para conter uma rebelião que só cresce nas fronteiras do nordeste. E sabemos também que não pode se dar ao luxo de abrir uma segunda frente. — Depositou a taça com um baque suave. — Portanto, vamos ao que interessa. Negociemos.
Cornelius crispou os dedos sobre os braços da cadeira, mas manteve o queixo erguido.
— O que pretendeis?
Faruk inclinou-se ligeiramente. O pingente da coruja lunar balançou.
— Sabemos do Cianélio. O minério azul que vossos mineiros encontraram nas profundezas das minas de sal do oeste. Metal raro, mais duro que aço, capaz de conduzir magia como o vidro conduz a luz. Sabemos que Potestas não domina a arte de o lavorar. — Seus olhos escuros fixaram-se nos de Cornelius. — E sabemos que, sem nosso saber, esse tesouro continuará apenas pedra bruta apodrecendo em vossos porões.
Cornelius empalideceu. A informação era sigilosa; como aqueles do sul a obtiveram?
— Suponhamos que isso seja verdade. — concedeu, cauteloso. — Que propõem?
Esmail al-Hadid ergueu a taça novamente, como quem brinda a um acordo ainda não firmado.
— Propomos um acordo justo. Potestas nos enviará o Cianélio bruto. Nossos artífices, os mais hábeis do mundo conhecido, transformarão o minério em canhões de luz: armas que nenhum exército pode enfrentar. Recebereis parte da produção, o bastante para esmagar vossos inimigos no norte e garantir vossas fronteiras.
— E em troca?
— Em troca, Hikmah manterá a paz. Não atacaremos vosso flanco sudoeste. E mais: Faruk al-Murshid, meu Grão-Vizir, acompanhará o primeiro carregamento até Potestas. Servirá como conselheiro do Imperador, garantia viva de nossa boa-fé.
Cornelius franziu o cenho.
— Um refém.
— Um hóspede ilustre!— corrigiu Faruk, com um sorriso que não tocava os olhos. — Símbolo da aliança entre nossas nações. Levarei escribas, médicos e astrônomos. Aprenderemos convosco, e vós conosco. Todos ganham.
O potestiano ficou em silêncio por um longo momento, o orgulho lutava contra o pragmatismo. Por fim, falou:
— E se o Imperator recusar?
Esmail al-Hadid depositou a taça sobre a mesa.
— Então o Cianélio continuará apodrecendo em vossas minas. Os rúteres continuarão avançando. E Hikmah... — ergueu uma sobrancelha — ...Hikmah talvez precise reconsiderar a quem vende seus serviços. Consta que os bárbaros do norte também pagam bem. Em ouro ou em sangue.
A ameaça pairou no ar como nevoeiro. Cornelius ergueu-se, os punhos cerrados, mas controlou-se.
— Levarei a vossa proposta ao Imperator.
— Já levamos. — Faruk também se ergueu, num movimento fluido. — Esta conversa é mera formalidade. O mensageiro que enviamos há duas semanas já chegou a Aurora Cor. Vosso Imperador, suspeito, já deu sua resposta. Cabe a vós apenas... aceitar os termos.
Cornelius sentiu o chão tremer sob os pés.
— Isto é uma afronta. — murmurou, mas sem convicção.
Esmail al-Hadid levantou-se. Sua estatura era imponente, a armadura de couro envernizado rangeu suavemente.
— Afronta, não, emissário, sobrevivência. Nosso povo existe há mais tempo que o vosso, não por acaso. Aprendemos que a guerra é o último recurso dos néscios. O sábio vence antes de a primeira espada ser desembainhada. — Estendeu a mão. — O acordo está firmado?
Cornelius olhou para aquela mão, para o selo no anel do Sultão, para a coruja lunar gravada no pingente de Faruk. Pensou nas legiões, nos rúteres, na guerra que não podia vencer em duas frentes.
Apertou a mão.
— Firmado.
Faruk inclinou a cabeça, o sorriso finalmente alcançando seus olhos.
— Então, Excelência, nos veremos em breve. Em Potestas. — Fez uma pausa quase imperceptível. — Dizem que a corte de Aurora Cor é... fascinante. Mal posso esperar para conhecê-la.
Cornelius saiu sem se despedir. A porta fechou-se com um baque seco.
O Sultão e Faruk ficaram em silêncio por um momento.
— Ele não faz ideia do que aceitou. — murmurou Esmail al-Hadid.
— Nenhuma. — concordou Faruk. — Mas descobrirá. Todos descobrirão.
Lá fora, o sol de Hikmah continuava a brilhar, generoso e implacável, sobre um reino que acabara de mover uma peça decisiva no grande tabuleiro do mundo.
No dia seguinte, toda a corte e o alto escalão do Estado de Hikmah estavam reunidos no Salão dos Espelhos no Palácio do Sultão. Era o dia em que Faruk al-Murshid passaria o título de Grão-Vizir para seu filho, Samir al-Murshid.
O Salão dos Espelhos ainda estava envolto na penumbra quando os primeiros convidados chegaram. As sete colunas de alabastro absorviam a luz que vinha de leste, transformando-a em um véu pálido e difuso que se espalhava pelo chão de mármore polido. Não havia tochas acesas. A cerimônia, por tradição, dependia apenas da luz natural — um lembrete de que a verdade, como o sol, não precisa de lamparinas para ser vista.
Os convidados alinharam-se em semicírculo diante do pequeno pedestal de mármore negro. Os Vizires — conselheiros de menor hierarquia — ocupavam as laterais, suas vestes escuras e austeras contrastando com a solenidade do ambiente. Os Ministros de Estado, cada um responsável por uma pasta (Finanças, Defesa, Comércio, Justiça), formavam a fileira central, suas túnicas bordadas com os símbolos de seus ofícios em fios de prata. Todos em silêncio. Todos imóveis.
Faruk já estava de pé, diante do pedestal. Vestia uma túnica simples de linho branco, sem adornos, como convinha a quem estava prestes a se despojar de um título. O Colar da Sabedoria repousava sobre um gancho de prata ao lado, seus elos de ouro branco imóveis, o pingente de lágrima de lua capturando um único raio de sol que penetrava pela claraboia.
Ao fundo, perto da coluna mais próxima ao trono, a princesa Amira al-Hadid observava. Vestia uma túnica azul-marinho, cor da noite que antecede o amanhecer, e um véu de seda prateada cobria-lhe os cabelos escuros, mas não o rosto — um rosto que, aos vinte anos, já aprendera a não demonstrar o que pensava. Seus olhos, cor de canela, percorriam a sala com a calma de quem estuda um mapa antes da batalha. Não era ali uma herdeira assistindo a uma cerimônia. Era uma governante em treinamento, absorvendo cada gesto, cada pausa, cada vírgula no ritual do poder.
Samir aguardava ao lado do pai. Trajava a mesma túnica branca, mas seus ombros pareciam mais largos sob o tecido, e suas mãos — postas à frente, como um escriba diante do código — estavam perfeitamente imóveis. Um cinto de couro marrom prendia a túnica junto da capa, seu turbante branco contrastava com seus cabelos e bigode negros. Faruk notou, com uma pontada que misturava orgulho e melancolia, que o filho já não respirava como um aprendiz prestes a receber um fardo. Respirava como quem já carregava o peso antes de lhe ser dado. Seus olhos, azuis claros como os do pai, fixavam o colar com uma intensidade que não era ambição, mas reconhecimento.
Foi então que ele chegou.
O Sultão Esmail al-Hadid entrou sem alarde, mas a sala pareceu encolher com sua passagem. Vestia uma túnica interior de seda tão branca que doía aos olhos, e sobre ela uma sobreveste aberta cujos bordados em ouro desenhavam padrões que subiam da barra até o peito como uma videira sagrada. A capa curta de veludo branco, forrada em seda dourada, repousava sobre seus ombros como asas dobradas. Presa por cordões de seda com borlas, balançava a cada passo — e Faruk, que o conhecia há décadas, notou que hoje os passos eram mais lentos, mais solenes.
O turbante branco, envolto com perfeição geométrica, era encimado por uma lua crescente de ouro cravejada de diamantes, e três plumas de garça branca com pontas douradas erguiam-se ao lado como penachos de um exército imaterial. Na mão esquerda, nenhum cetro. Apenas o anel de ouro branco com a pedra lua, que capturou a luz e a devolveu em um feixe pálido quando ele ergueu a mão para abençoar a sala.
Não disse nada. Apenas assentiu com a cabeça, uma vez, e tomou seu lugar diante do trono — não sobre ele, como fazia nas audiências comuns. Na cerimônia de transmissão, o Sultão não se sentava. Permaneceu de pé, testemunha e fiador, como um escriba que autentica o que não escreveu.
O silêncio se alongou. A luz do sol, agora mais alta, começava a descer pelas colunas, tingindo o mármore de tons mornos.
— Trazei o colar — disse o Sultão, a voz metálica ecoando nas paredes.
Faruk moveu-se. Seus dedos tocaram o gancho de prata, sentiram o frio do ouro branco, o relevo das inscrições: “Quem conhece a si mesmo, conhece seu Senhor”. A frase ecoou em sua mente como um sussurro antigo. Retirou o colar e ergueu-o com as duas mãos. O peso era o mesmo de sempre — mas hoje parecia mais pesado, ou talvez fossem apenas os braços que já não tinham a mesma força.
Antes que pudesse se virar para o filho, um movimento suave desviou sua atenção.
Amira deixou a coluna e caminhou até ele. Seus passos não faziam ruído no mármore. O véu de prata balançava como uma lâmina de luar, e seus olhos âmbar estavam fixos no colar — mas não no objeto em si. Fixos no que ele representava. Na lição que o pai lhe ensinava naquele momento: O poder não se toma. Entrega-se. E quem o entrega escolhe a quem confiar o peso.
— Senhor Grão-Vizir — disse Amira, a voz baixa e clara — Me permita.
Faruk olhou para o Sultão. Esmail al-Hadid assentiu, um movimento quase imperceptível. Faruk então inclinou a cabeça e, com um gesto lento, soltou-o com um clique seco.
Amira recebeu o colar com reverência, segurando-o com ambas as mãos como quem segura um texto sagrado. Por um instante, seus dedos tocaram os elos de ouro, e seu olhar encontrou o de Faruk. Não havia orgulho ali, nem afetação. Havia a consciência de que aquela cena — o pai despojando-se do poder, a herdeira conduzindo a transmissão — seria lembrada por décadas nos anais de Hikmah.
Ela então se voltou para Samir.
— Grão-Vizir Samir al-Murshid — disse, e sua voz carregava agora um timbre mais formal, quase ritual — recebei o que vos é devido.
Samir inclinou-se sobre um joelho, como era tradição. Amira ergueu o colar, e seus dedos ágeis desceram o metal sobre a cabeça dele, ajustando os elos contra a túnica branca. O pingente de lágrima de lua repousou sobre seu esterno, capturando a luz e tingindo seu rosto de um azul pálido.
— Aquele que recebeu a luz, que a transmita — disse o Sultão, a voz firme.
Amira deu um passo para trás, unindo as mãos à frente, e seu olhar percorreu a cena com a atenção de quem arquiva cada detalhe para o futuro.
Samir ergueu-se lentamente. Seus olhos azuis encontraram os do pai. Não havia ali a euforia de quem alcança o que deseja, nem a urgência de quem quer provar algo. Havia o reconhecimento silencioso de quem compreende, enfim, o que o outro carregou por tantos anos.
— Aquele que recebeu o peso, que o carregue com justiça — completou o Sultão.
Os presentes curvaram-se em uníssono, um gesto seco e simultâneo de cabeças e ombros. Os Vizires, os Ministros, os guardas cerimoniais. Todos, em silêncio. Em Hikmah, o poder não se celebra com alarido; aceita-se, como se aceita a gravidade.
O Sultão então deu um passo à frente, e sua voz, antes metálica, ganhou um tom mais humano.
— A cerimônia está concluída. Que esta luz que passou de mãos sábias ilumine nossos passos. Agora, acompanhai-me ao Salão das Colunas. O banquete espera por vós e eu, pessoalmente, brindarei à saúde do novo Grão-Vizir.
Os convidados começaram a se mover em direção à saída, o murmúrio contido das primeiras conversas rompendo o silêncio cerimonial. Os Ministros trocavam olhares de aprovação; os Vizires, sussurros de cortesia.
Faruk permaneceu onde estava. Samir também.
Por um longo instante, pai e filho se olharam em silêncio. O Salão dos Espelhos, agora vazio, parecia maior, as colunas de alabastro mais altas, a luz mais difusa.
— Está pesado — disse Samir, tocando o colar.
— Vai pesar mais — respondeu Faruk. — E depois, um dia, vai pesar menos. Quando você entender que não está carregando sozinho.
Samir baixou os olhos, e Faruk viu ali o menino que um dia lhe pedira para ensinar a ler os códigos antigos. Não disse nada. Apenas colocou a mão no ombro do filho, apertou uma vez, e sentiu o calor do corpo jovem sob a túnica.
— Vai — disse Faruk, a voz mais suave do que pretendia. — O Sultão espera.
— E o senhor?
Faruk sorriu. Um sorriso cansado, mas verdadeiro.
— Vou tomar um ar. A estrada é longa.
Samir hesitou, como se quisesse dizer mais. Mas o gesto do pai — uma leve pressão no ombro, depois o afastamento — disse o que as palavras não precisavam.
Quando Samir se virou para seguir os outros, seus passos ecoaram firmes no mármore. Faruk observou-o até que a porta se fechasse.
Só então voltou-se para a janela. O sol já estava alto, e a estrada para oeste desenhava uma linha de poeira dourada contra o azul-pálido do horizonte. Potestas ficava além da curva, além do que os olhos podiam ver.
A mão no ombro, o aperto, o calor que ainda sentia nos dedos — isso levaria consigo. O resto, deixaria ali, no Salão dos Espelhos, com o eco do clique seco do colar se soltando.
Do outro lado da porta, o som do banquete começava a se elevar. Risos baixos, o tilintar de taças. Samir, em breve, estaria no centro, recebendo as homenagens que eram suas.
Faruk respirou fundo. O ar da manhã era mais leve sem o peso do ouro no peito. Retirou do bolso da túnica o medalhão de prata que sempre trazia consigo, um pequeno círculo gravado com versos do Livro Sagrado. Pressionou o botão de rubi, e a tampa se abriu, sua falecida esposa Fátima sorria com uma serenidade que ele nunca vira em outra face. Era como se a luz de Nur’Aql houvesse se detido ali, naquele pedaço de marfim pintado. Pensou nos dias em que Samir mal alcançava sua cintura e já queria entender os códigos de justiça. Agora, o mesmo Samir vestia o colar que Faruk recebera do Grão-Vizir anterior. O tempo, pensou, era um ladrão educado: roubava devagar, mas deixava um legado no lugar.
Resolveu, então, adentrar o Salão das Colunas e aproveitar a celebração.
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Uma semana depois…
A carruagem que entrou em Aurora Cor pelo Portão Octaviano não trazia as cores guerreiras de Potestas. Trazia o branco e o dourado de um reino que os mapas imperiais ainda marcavam como "terras além do deserto". Faruk al-Murshid observava as estátuas dos imperadores passados, cada uma erguida sobre os ombros de bárbaros vencidos, e pensou: “Eles esculpem na pedra o que não conseguiram domar no mundo.”
Ao estacionar a carruagem, dois guardas pretorianos ajudaram Faruk a descer, Cornelius Afranius já o aguardava na entrada do palácio imperial. O potestiano vestia uma túnica de linho branco, sem os excessos da toga roxa que usara em Hikmah, mas o sorriso — aquele sorriso que não aquecia nada além dos próprios dentes — continuava o mesmo.
— Conselheiro Imperial — saudou Cornelius, com uma inclinação de cabeça que não chegava a ser reverência. — Que o Sol de Potestas o receba.
— Que a Luz Sapiente o ilumine — respondeu Faruk, repetindo o gesto de saudação de seu povo, sem se curvar ao sol alheio.
O olhar de Cornelius crispou-se por um instante, mas ele apenas estendeu o braço em direção ao portal.
— O Imperator vos aguarda, Emissário Estrangeiro.
Faruk sorriu, um sorriso que também não alcançava os olhos.
— Naturalmente.
Acompanhou Cornelius pelos corredores de mármore branco, onde bustos de generais passados vigiavam cada esquina e as tochas projetavam sombras que pareciam mover-se por conta própria. O ar era pesado, impregnado de incenso e de um perfume metálico que Faruk não soube identificar — talvez o cheiro do próprio poder, pensou.
Cornelius ergueu a mão. As sentinelas abriram as portas.
— Anuncio o novo Conselheiro Imperial de Potestas — ordenou.
Faruk endireitou os ombros. O pingente da coruja lunar repousava frio contra seu peito. Por um instante, pensou nos jardins de Nur'Aql, no rosto de Samir ao receber o colar, no sorriso de Fátima no medalhão de prata.
Depois, adentrou a sala onde o Império do Sol o aguardava.
A sala era vasta, iluminada por tochas de óleo que projetavam sombras dançantes nas paredes revestidas de mármore escuro. No centro, um mapa de Telluria — maior que qualquer que Faruk já vira — cobria a mesa principal, suas marcações a tinta vermelha espalhadas como feridas abertas. Mas Faruk não olhou para o mapa. Seus olhos foram imediatamente atraídos para a cadeira ao fundo, onde um homem estava sentado de costas para a entrada.
Octavius II não se moveu quando Faruk entrou. Apenas a mão direita, pousada sobre o braço da cadeira, ergueu-se em um gesto seco — um sinal para que Cornelius se retirasse. O emissário curvou-se e saiu, fechando a porta atrás de si.
O silêncio se alongou. Faruk manteve-se de pé, as mãos unidas à frente, o pingente da coruja lunar imóvel contra o peito.
— Conselheiro — a voz veio das sombras que envolviam a cadeira, grave e áspera, como metal sendo forjado. Não havia calor nela, nem cortesia. — Dizem que és um homem de saber.
— Sou, majestade — respondeu Faruk, a voz serena. — E de paciência. Virtudes que vosso império, ao que me consta, também cultiva.
O Imperador não respondeu de imediato. A mão sobre o braço da cadeira tamborilou uma vez, duas.
— Tua paciência será testada. Vais conhecer minhas legiões, minhas armas, meus... projetos. Cornelius te guiará. — Fez uma pausa. — E deves me dizer, ao fim de cada dia, o que viste. Não o que pensas que devo saber. O que viste.
Faruk inclinou a cabeça.
— Assim o farei.
— E mais — a voz do Imperador cortou o ar — não interfiras. Observas, aprendes, aconselhas quando fores consultado. Potestas não é Hikmah. Aqui, a espada fala mais alto que o pergaminho. Até que proves que o pergaminho pode temperar o aço.
— Compreendo.
— Espero que sim. — O Imperator fez um gesto com a mão, um movimento brusco de dispensa. — Cornelius te espera. Que o Sol te ilumine, conselheiro.
Faruk levou a mão à testa, à palma aberta — o gesto de seu povo.
— Que a Luz Sapiente nos cubra a todos, majestade.
Ao sair, viu Cornelius recostado na coluna oposta, os braços cruzados.
— Impressionado? — perguntou o potestiano, com um sorriso que não escondia o sarcasmo.
— Pela economia de palavras — respondeu Faruk, impassível. — Em Hikmah, os sábios falam pouco. É sinal de respeito pelo ouvinte.
O sorriso de Cornelius congelou.
— Vamos. O Imperador quer que vejas tudo. — Afastou-se corredor adentro, os passos ecoando no mármore. — As fortificações, os arsenais, os canis de guerra e as arenas de treino.
Acompanhou Cornelius pelos pátios internos, onde as armaduras platinadas dos pretorianos refletiam a luz do sol em estilhaços ofuscantes. Cada esquina do palácio parecia esculpida para lembrar quem ali mandava: estátuas de imperadores vitoriosos, baixos-relevos de bárbaros subjugados, inscrições em potestiano louvando a glória eterna do Sol. Faruk notou que não havia uma única representação de outra divindade em todo o percurso.
— A Primeira Legião treina hoje — disse Cornelius, sem olhar para trás. — Será uma boa oportunidade para veres como forjamos nossos soldados. Dizem que vossos artífices são hábeis com metais. Mas homens, conselheiro, só Potestas sabe fazer.
— Em Hikmah também acreditamos que a guerra é uma arte — respondeu Faruk, os olhos percorrendo as muralhas de pedra polida. — A diferença é que nós a praticamos quando todas as outras artes já falharam.
Cornelius riu, um som curto e seco.
— É por isso que ainda sois um punhado de mercadores no deserto, e nós um império que vai do mar ao deserto.
— Do mar ao deserto? — repetiu Faruk, com um tom que não era pergunta. — Dizem que vossos rúteres discordam.
O silêncio do potestiano foi a única resposta.
Chegaram ao pátio que antecedia o Anfiteatro Central. Cornelius deteve-se diante de uma varanda elevada, de onde se avistava toda a arena. Lá embaixo, os novos recrutas da Primeira Legião formavam em fileiras impecáveis, suas armaduras douradas brilhando como um só corpo de luz.
— Ficai aqui — ordenou Cornelius. — O Imperador quer que vejais tudo, mas não que sejais visto. Por ora.
E se afastou, deixando Faruk sozinho na varanda.
O conselheiro de Hikmah apoiou as mãos no parapeito de mármore e observou. Lá embaixo, um homem de crista negra — o Decano Emilius, segundo reconheceu pelos relatos dos espiões — arengava os recrutas. A voz do veterano subia até a varanda como um trovão distante.
“Vejam este plebeu! Ele tem algo que nenhum de vocês tem: a atenção do Império. Invejem-no ou desprezem-no, mas não o subestimem!”
Faruk inclinou a cabeça, curioso. Seus olhos percorreram a arena até encontrarem o objeto da fala do Decano: um rapaz franzino, de armadura dourada com crista vinho, que se destacava entre os demais não pela postura — que era insegura — mas pela marca que Faruk podia sentir, mesmo à distância.
O tocado pelo Sol, pensou. Romulus.
Não era a primeira vez que ouvia o nome. Os relatórios dos espiões mencionavam um cadete que matara um infiltrado rúter com uma magia impossível. Mas vê-lo ali, na carne, era diferente. A marca queimava, Faruk tinha certeza; a aura ao redor do rapaz era como a do sol refletido em uma lâmina — cortante, mas ainda descontrolada.
Observou o duelo que se seguiu: a humilhação inicial do plebeu, o grito de Felicia que parecia cortar o ar, e então — a chama. Faruk viu os arcos de fogo deixarem a lâmina do rapaz, viu o crasipolita Drusus criar a nuvem de vapor, viu a cambalhota improvável e o golpe nos calcanhares. Viu o garoto se erguer, viu a espada flamejante, viu o arremesso final que nocauteou o adversário.
Quando o silêncio se instalou na arena, Faruk não aplaudiu. Apenas observou, os dedos tamborilando suavemente no parapeito.
Impressionante, pensou. Mas será que ele sabe o que carrega? Ou apenas obedece à chama como um cego obedece ao eco?
O rapaz ajudou Drusus a se levantar. Faruk viu o aperto de mãos, viu o respeito nascer entre os dois. Aprovou. Homens que sabem perdoar e aprender são mais úteis do que cem soldados de coração duro.
Então, uma ideia lhe ocorreu.
Não era um teste para os recrutas, aquilo que o Imperador lhe pedira? Observar, aprender, aconselhar. Mas para aconselhar, primeiro era preciso saber o que aqueles homens valiam quando a segurança do protocolo lhes era arrancada. Cornelius e seus pretorianos mostravam apenas o que queriam mostrar. O que aconteceria, pensou Faruk, se algo os pegasse de surpresa? Se o medo verdadeiro, e não o medo ensaiado, invadisse aquelas fileiras impecáveis?
Afastou-se da varanda, encontrou um canto escuro onde as sombras das colunas o ocultavam. Ajoelhou-se sobre o mármore frio e tocou o pingente da coruja lunar. Fechou os olhos e concentrou-se.
Em Hikmah, a ilusão não era mentira. Era uma pergunta que se fazia à realidade: até onde podes ser dobrada antes de te partires?
Sussurrou as palavras antigas, aquelas que aprendera nos pergaminhos de Nur'Aql, aquelas que usara para entreter a corte do Sultão quando menino. Sentiu a energia fluir de seus dedos, descendo pelas colunas, infiltrando-se nas rachaduras do chão da arena, tomando forma.
Não um dragão alado, algo mais antigo, mais terrível. Algo que rastejava e escalava, que saía das entranhas da terra: o drakon.
No centro da arena, as lajes começaram a tremer.
A cena se desenrolou exatamente como Faruk planejara. O pânico, a correria, os gritos. E no meio do caos, quatro figuras não recuaram. A princesa, o Decano, o crasipolita e — o que mais o impressionou — o garoto de crista vinho, que empunhava sua espada flamejante como se fosse a última linha entre o mundo e a escuridão.
Faruk sustentou a ilusão por tempo suficiente para vê-los posicionados, prontos para morrer. Para ver Romulus e Drusus trocarem um olhar e avançarem juntos, lado a lado, contra a fera que não existia.
Então, ele desfez o feitiço.
A fumaça se dissipou, as lajes voltaram ao lugar, e Faruk ergueu-se das sombras, descendo as escadas da varanda em direção à arena. Sentiu os olhos dos quatro sobre ele — uns furiosos, outros surpresos, um, o do rapaz, apenas perplexo.
— Uma simples ilusão — disse, com a voz que usava para ensinar os noviços em Tahramash. — Para testar se a fama da Primeira Legião corresponde à realidade. Fico satisfeito em ver que sim.
Emilius cravou a lança no chão.
— Faruk al-Murshid. — Não era pergunta. O nome saiu como um rosnado.
Felicia baixou o machado, mas não o embainhou.
— O emissário do Sultão de Hikmah. Sabia que havia chegado à corte, mas não esperava uma recepção tão… teatral.
Faruk sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos.
— Teatral, princesa? Eu diria educativo. O medo revela o caráter mais rápido que qualquer treino. — Seu olhar pousou em Romulus e Drusus, ainda ofegantes. — E estes dois… impressionaram. O plebeu que canaliza o Sol e o crasipolita que invoca a Lua. Jovens que preferem morrer de pé a recuar um passo. O Império está em boas mãos.
Viu o rapaz franzir o cenho, tocar o braço onde a marca pulsava. Aproximou-se dele, ignorando o olhar de alerta de Felicia.
— Você é o tal “tocado pelo Sol”. — Não era uma pergunta. — Em Hikmah, estudamos esses fenômenos há séculos. Talvez um dia possamos conversar. Tenho perguntas. E você, suspeito, tem respostas que nem imagina.
Antes que o garoto pudesse responder, Faruk já se afastava, deslizando entre as sombras das colunatas. Sentia o peso do olhar do Decano nas costas, a fúria contida de Cornelius, a desconfiança da princesa. Mas também sentia, na palma da mão ainda tingida de luz, que a semente estava plantada.
Na arena, o treino recomeçava. Emilius berrava ordens, os recrutas se reagrupavam, e Romulus e Drusus, agora lado a lado, encaravam o espaço onde o drakon estivera.
Faruk alcançou a saída do anfiteatro e, antes de desaparecer no corredor, olhou para trás uma última vez. Seus olhos encontraram os do rapaz de crista vinho, e por um instante, a marca no braço de Romulus pareceu brilhar mais forte.
Vais aprender, filho do fogo, pensou Faruk. Vais aprender o que és, e o que podes ser. E quando chegar a hora, escolherás entre a espada que te querem dar e a luz que já carregas.
Virou-se e entrou nas sombras.
Continua…