
FARUK
CAPÍTULO VI - O BANQUETE
Faruk saiu da arena e encontrou Cornelius Afranius, que corria em sua direção com o rosto crispado:
— Estás louco, homem?
— Pelo contrário, irmão de luz, estou mais são do que nunca! — Faruk respondeu com um largo sorriso
— Tens ideia do que acabaste de fazer? Invocaste um drakon no meio da arena de treino da mais alta cúpula das Legiões Imperiais! — retrucou Cornelius, disfarçando sua respiração pesada
— Nada disso. — Faruk balançou a cabeça em negativa — Criei uma ilusão para testar a bravura de vossa Primeira Legião, a elite do Exército.
Cornelius apertou os lábios. Seus olhos percorreram Faruk dos pés à cabeça, como se o visse pela primeira vez.
— Testar a bravura — repetiu, a voz agora mais contida, mas mais perigosa. — O Conselheiro Imperial chegou ontem e já se permite testar a Primeira Legião? Sem ordem do Imperator? Sem aviso?
Faruk inclinou a cabeça, o sorriso tornando-se mais contido, quase pedagógico.
— O medo, emissário, não avisa quando vai chegar. Por isso é o melhor teste.
Atrás deles, a arena ainda fervilhava. Legionários ajudavam os novatos a se reerguer, alguns rindo do susto, outros ainda pálidos. Emilius bradava ordens para reorganizar o treino. Felicia, ainda com o machado em punho, observava Faruk de longe, o rosto impenetrável.
— Não sei onde sua majestade imperial estava com a cabeça quando concordou em trazer logo tu para vossa corte… — Cornelius alisou os cabelos, um gesto automático de quem tenta restaurar a compostura.
Mas suas palavras ainda ecoavam no ar quando seus olhos se arregalaram.
O sangue pareceu abandonar seu rosto. A mão que alisava os cabelos congelou no ar. Por um breve instante — curto demais para ser notado por um observador comum, longo demais para alguém como Faruk — Cornelius Afranius, emissário da Chancelaria Imperial, homem que nunca perdia o controle de si, perdeu o controle de si.
Sua mandíbula se contraiu num movimento seco, os dentes rangendo por um décimo de segundo. O olhar que encontrara Faruk um momento antes agora se desviava, como se pudesse recolher as palavras de volta com um gesto.
— O que quero dizer… — começou, a voz mais aguda do que pretendia. Engoliu em seco, forçando os ombros a se endireitarem. — O Imperator, em sua infinita sabedoria, naturalmente considerou que sua presença… que vossa presença…
Ele não conseguiu terminar.
Faruk observava em silêncio, os olhos azuis imóveis, as mãos unidas à frente. Não disse nada. Não precisava. O silêncio era mais eloquente do que qualquer palavra.
Cornelius finalmente ergueu o queixo, recuperando a pose de quem nunca vacilou. Mas havia um brilho úmido em sua testa, e seus dedos, ao se entrelaçarem atrás das costas, tremiam levemente.
— O banquete começa ao anoitecer — disse, mudando de assunto com a sutileza de um carro de combate. — O Imperator espera que compareça. Como convidado de honra.
E virou-se, afastando-se com passos que tentavam ser firmes, mas que, para Faruk, pareciam os de um homem tentando não correr.
Faruk seguiu pelos corredores de mármore em direção ao Palácio Imperial. Os passos ecoavam no silêncio, e ele sentia o peso dos olhares dos guardas que cruzava — agora, não mais de um estrangeiro curioso, mas de alguém que havia exposto a elite do Império.
Ao chegar ao gabinete do Imperator, a porta estava entreaberta. Faruk espiou. Vazio. Os pergaminhos ainda sobre a mesa, o tampo de ébano polido refletindo a luz das tochas. Ninguém.
Prosseguiu.
A Sala do Trono ficava no coração do palácio, um espaço tão vasto que a voz do Imperator, diziam, demorava um segundo inteiro para chegar às paredes opostas. Faruk já a vira antes, na chegada, mas agora estava deserta — e diferente.
O sol da tarde derramava-se por uma claraboia de vidro tingido, banhando o chão de mármore em tons de ouro e vermelho. Nas laterais, mesas baixas de prata sustentavam frutas cristalizadas, queijos de fazendas imperiais, pães ainda mornos envoltos em panos bordados. Uma fonte de três camadas jorrava água perfumada com pétalas de rosa. O luxo era tão ostensivo que beirava o grotesco.
E, no centro de tudo, deitado sobre um tapete de pele de urso negro, um velho leão branco roncava.
Sua juba outrora imponente era agora uma melena grisalha e rala. As patas, que deviam ter derrubado touros, estavam inchadas. A barriga, protuberante, subia e descia no ritmo lento do sono. Um mascote de imperador — um símbolo de poder domesticado, engordado até a inutilidade.
Faruk desviou os olhos. O urso negro sob as patas do leão era mais que ostentação. Era uma mensagem: até o símbolo dos rúteres serve de estrado para o Império.
E viu o Imperator.
Octavius II estava de costas para a entrada, diante de uma das grandes janelas que davam para a Praça do Sol. A estátua de Viramax se erguia lá embaixo, lançando sua sombra sobre a cidade. Ele não se moveu quando Faruk entrou. Não se virou.
O silêncio se alongou. O leão ronronou. A água da fonte tilintava como sinos distantes.
Faruk aguardou.
Finalmente, a voz do Imperator veio, grave e lenta, como se saísse das profundezas do trono:
— Disseram-me que houve um ataque de drakon na arena hoje.
Faruk inclinou a cabeça, as mãos unidas à frente.
— Uma ilusão, majestade. Para testar a bravura da Primeira Legião.
Octavius II não respondeu de imediato. Apenas observou a sombra da estátua se alongar sobre o mármore da praça.
— E o que viu?
Faruk pensou antes de responder. No rapaz de crista vinho que empunhara a espada flamejante. No crasipolita que invocara a lua. Na princesa e no Decano que não recuaram.
— Vi que vossa Primeira Legião tem... bons ossos, majestade. Mas foi o rapaz que mais me impressionou.
O Imperator ainda não se virara.
— O "tocado pelo Sol". Dizem que é um plebeu medíocre que, por um instante, brilhou como um deus. — A voz carregava um tom que Faruk não soube nomear. — É uma ameaça?
Faruk sorriu. Um sorriso pequeno, quase íntimo, como se compartilhasse um segredo.
— Uma ameaça, majestade? Não. O rapaz demonstra a lealdade e a bondade dos inocentes. Arriscou a vida por sua princesa antes mesmo de saber que tinha poder. E agora... — fez uma pausa — agora ele a segue como um soldado segue seu general. Ou melhor, como um filho segue sua mãe.
O Imperator moveu a cabeça ligeiramente, como se a ideia o interessasse.
— Mãe? — repetiu. — Nós éramos informados de que havia algo mais... romântico entre ele e minha filha.
Faruk quase riu. Controlou-se a tempo.
— Não, majestade. A princesa Felicia não é para ele um objeto de desejo. É um norte. Um farol. Ela viu nele o que ninguém mais viu, e ele a recompensa com uma devoção que não pede nada em troca. — Faruk juntou as mãos à frente. — Se me permite a ousadia, majestade, é a relação que um jovem tem com aquela que o salva de si mesmo. De mãe para filho.
O silêncio se alongou. A fonte tilintava. O leão roncou.
— Interessante — disse Octavius II, e Faruk não soube se era aprovação ou cálculo. — Minha filha sempre teve... jeito para colecionar almas perdidas.
— Colecionar, majestade? — Faruk ergueu uma sobrancelha. — Diria antes forjar. A princesa Felicia não coleciona. Ela tempera.
A mão do Imperator, apoiada no peitoril, moveu-se um dedo. Apenas um. Mas Faruk viu.
— Vá — disse Octavius II. — O banquete o aguarda. E amanhã, quero mais observações. Parece que o senhor enxerga o que meus generais não veem.
Faruk levou a mão à testa, depois abriu a palma.
— Que a Luz Sapiente nos cubra, majestade.
E retirou-se.
Quando a porta se fechou atrás de si, o leão branco abriu um olho, observou-o por um momento, e voltou a dormir sobre a pele do urso negro.
TINA
A carruagem que entrava em Aurora Cor pelo Portão Oriental não trazia brasões imperiais. Era uma carroça de entregas, carregada de tecidos finos para os alfaiates da corte. Entre os rolos de seda e linho da Túnica, uma mão pálida afastou um pedaço de tecido, e olhos cor de mel observaram a cidade se abrir.
Tina respirou fundo.
A missão era simples, dissera Höskuldr. Infiltrar-se, aproximar-se da princesa, descobrir o paradeiro do garoto marcado. Depois, aguardar ordens.
Ela tocou o pingente de madeira sob a túnica de serva — uma cabeça de urso esculpida, tão pequena que cabia na palma da mão. Wōdaz, pensou, que os teus olhos vejam o que os meus não podem.
Ao lado, acomodada entre os tecidos, uma mulher mais velha ajustou o capuz. Era Gunnhild, uma das espiãs mais experientes de Hovítingar.
— Os outros já estão a postos — sussurrou Gunnhild. — Dois nas legiões, um na alfândega, um no comércio de armas. Tu és a chave, Tina. A princesa Felicia recebeu ordens para aceitar uma nova dama de companhia. O pretexto está pronto. E lembra-te: aqui, não és Tina. És Tullia.
Tina assentiu. A carroça parou diante de um pátio de serviço, e ela desceu com a leveza de quem carregava seda há anos. O rosto, que na fortaleza de seu pai era o de uma princesa guerreira, agora era o de uma serva tímida, olhos baixos, ombros curvados.
— Para os aposentos da princesa — disse o capataz, apontando uma escadaria de mármore. — Não olhe para ninguém. Não fale com ninguém. Só entregue e saia.
Tina pegou o rolo de tecido e subiu.
Os corredores do palácio eram mais altos que os salões de seu pai. Cada coluna parecia um tronco de árvore petrificada. Cada estátua, um rei morto observando-a. Ela manteve os olhos no chão, como lhe fora dito.
Mas quando chegou à antecâmara de Felicia, uma voz feminina a fez erguer o olhar.
— Finalmente. Este tecido era para ontem.
A princesa estava de costas para ela, ajustando o cabelo diante de um espelho de bronze. Vestia uma túnica dourada, simples, mas o tecido brilhava como fogo líquido. Atrás dela, duas servas arrumavam a toga púrpura que usaria no banquete.
— Perdão, alteza — murmurou Tina, entregando o rolo com uma reverência. — Os portões estavam congestionados.
Felicia virou-se. Seus olhos verdes percorreram Tina da cabeça aos pés, rápidos, avaliadores.
— Nome? — perguntou, sem preâmbulos. — E de onde és?
Tina sentiu o coração apertar. Tullia, lembrou-se.
— Tullia, alteza. Das colinas ao norte. Meu pai é alfaiate. Serviu a legião quando jovem.
— Alfaiate — repetiu Felicia, e por um instante seus olhos se estreitaram. — Interessante. Os alfaiates do norte têm uma forma própria de bordar. Mostre-me.
Tina sentiu o chão sumir sob os pés. Não estava preparada para isso. Gunnhild não a avisara. Mas as mãos, treinadas desde criança nos bordados de sua mãe, moveram-se antes que o cérebro pudesse protestar. Tina pegou o tecido, virou a borda, e com o dedo traçou um desenho rápido — folhas de carvalho entrelaçadas, o símbolo dos bosques do norte.
Felicia observou em silêncio.
— Bonito — disse, e Tina não soube dizer se era aprovação ou armadilha. — Fique. Minha dama de companhia anterior pediu demissão. Casou-se com um mercador e foi para o oeste. Preciso de alguém com mãos habilidosas.
Tina curvou-se, o rosto voltando a ser o de uma serva humilde.
— Será uma honra, alteza.
Por dentro, sua mente já corria. Ela desconfia? Ou apenas testa?
Felicia voltou-se para o espelho.
— Visto-me sozinha para o banquete. Tu me ajudarás com os cabelos. Tiveste sorte de chegar hoje, há um evento, e minha dama anterior partiu ontem. O destino, às vezes, é pontual.
Tina juntou as mãos à frente.
Ou o destino é uma armadilha, pensou.
— Senta-te ali — ordenou Felicia, indicando um banco de madeira polida diante do espelho de bronze. — E não me arranques os cabelos. A serva anterior achava que força era virtude.
Tina obedeceu em silêncio, os dedos já deslizando entre as mechas ruivas. O cabelo de Felicia era mais áspero do que parecia — guerreiro, pensou Tina, não acostumado a óleos e perfumes. As mãos de Tina, treinadas desde criança nos bordados e nos cuidados da mãe, moveram-se com a paciência de quem aprendeu que a pressão certa vale mais que a força.
Separou os fios em três seções. Trançou lentamente, puxando de leve, alisando com os dedos as pontas que escapavam. Felicia não disse nada, mas seus ombros, antes tensos, baixaram um dedo. Talvez dois.
Quando a trança ficou pronta, Tina enrolou-a na nuca num coque apertado, prendendo com grampos de marfim que encontrara sobre a penteadeira. Depois, pegou o pó de pérola moída e o aplicou com um pincel de cerdas finas — primeiro nas maçãs do rosto, depois na testa, um toque sutil no queixo. O rosto de Felicia, sempre severo, ganhou uma suavidade que Tina não esperava.
— Os olhos — disse Felicia, sem abrir as pálpebras.
Tina hesitou. O carvão para delinear os olhos era uma intimidade que nenhuma serva comum ousaria sem permissão explícita. Apertou os lábios e escolheu o traço mais fino que conseguiu, um fio escuro que seguia a curva natural das pálpebras, sem ousar prolongá-lo.
Felicia abriu os olhos. Olhou-se no espelho.
Por um longo instante, não disse nada. Apenas observou o rosto que Tina lhe dera — mais suave, mas ainda feroz. Como uma espada polida para uma cerimônia, pensou Tina. A lâmina continua a mesma, mas o brilho agora anuncia o golpe.
— Tua mãe te ensinou bem — disse Felicia, e sua voz não era pergunta.
— Sim, alteza — respondeu Tina, os olhos baixos. — Ela dizia que uma mulher precisa saber duas artes: bordar para emendar o que a guerra rasga, e pentear para que os soldados, quando voltem, encontrem algo bonito esperando.
Felicia riu. Um riso curto, seco, mas não cruel.
— Tua mãe nunca viu um campo de batalha.
— Viu, alteza. — Tina manteve a voz calma. — Por isso sabia que os soldados precisam de algo bonito para lembrar por que lutam.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era o silêncio do interrogatório, nem o da suspeita. Era o silêncio de quem reconhece, em outra, uma verdade que não precisa ser dita.
Felicia ergueu-se. A túnica dourada escorreu sobre seus ombros, e ela ajustou a dobra do tecido com um movimento que não era vaidade, mas hábito de quem sabe que a primeira impressão é uma arma.
— Fica — disse, caminhando para a porta. — Amanhã, mais serviço. Preciso de alguém que não desmaie ao ver sangue.
Tina curvou-se, o rosto ainda de serva humilde.
— Às ordens, alteza.
Quando a porta se fechou, Tina soltou o ar que prendera desde que entrara naquela sala. O coração batia rápido demais, mas as mãos — as mãos que haviam tocado o cabelo da princesa, aplicado pó de pérola em seu rosto — estavam perfeitamente imóveis.
Infiltração bem-sucedida, pensou. Por ora.
No bolso de sua túnica, o pingente de madeira esquentava contra a pele, como se Wōdaz aprovasse.
ROMULUS
O Salão das Águias estava irreconhecível.
As paredes de mármore branco, que Romulus imaginava frias e solenes, agora brilhavam sob o reflexo das tochas. Guirlandas de louro e flores de laranjeira pendiam das arquibancadas, e o ar cheirava a vinho aquecido, mel e o incenso que os sacerdotes do Templo usavam nas grandes festas.
Romulus sentia-se um impostor entre aquelas vestes.
Sua toga púrpura, a mesma do inquérito, agora lhe parecia menos uma roupa e mais uma máscara. A marca sob as faixas roxas pulsava suavemente, como se também se sentisse deslocada.
Felicia estava ao seu lado, impecável em sua túnica dourada, os cabelos ruivos presos num coque de tranças laterais que uma nova serva lhe fizera. Sem a armadura de platina, vestida apenas no ouro e no linho, ela parecia... diferente. Mais próxima, talvez. Ou menos previsível.
— Não coma nada que os servos não provarem primeiro — sussurrou ela, sem mover os lábios. — E não beba o vinho tinto. Só o branco.
Romulus engoliu seco.
— Por que o tinto?
— Porque o tinto é mais fácil de envenenar. As uvas escuras mascaram o sabor do azul. O branco, não.
Romulus olhou para as taças que os servos carregavam em bandejas de prata. Antes que pudesse perguntar mais, uma figura aproximou-se com passos leves, quase silenciosos.
Faruk al-Murshid trajava uma túnica de linho branco com bordados geométricos em fios prateados. No peito, o pingente da coruja lunar balançava suavemente. Seu sorriso era cortês, mas seus olhos — azuis como o céu de Hikmah — percorriam o salão com a precisão de quem avalia cada rosto, cada gesto.
— Princesa Felicia — saudou, com uma inclinação de cabeça. — Que o vosso banquete seja tão iluminado quanto a vossa espada.
Felicia não respondeu de imediato. Seus olhos verdes mediram o estrangeiro com a mesma frieza que usara com Cornelius.
— Conselheiro Faruk. — A voz era neutra. — Acreditava que estaríeis com o Imperator.
— Estive, alteza. — Faruk uniu as mãos à frente. — Sua Majestade Imperial, no entanto, teve de se recolher. Assuntos urgentes reclamaram sua atenção. — Fez uma pausa, e seu sorriso se tornou quase invisível. — Enviou-me para que vos transmitisse seus cumprimentos e para que observasse, em seu lugar, a nobreza que tanto o honra.
O olhar de Felicia endureceu por um instante, mas ela apenas inclinou o queixo.
— O Imperator é generoso em suas delegações.
— É, de fato — concordou Faruk. Seus olhos se desviaram para Romulus, e algo no tom do estrangeiro mudou — não para desdém, mas para uma curiosidade que beirava o estudo. — Ainda de pé depois do drakon. Impressionante. Na arena, muitos correram. Vós e a princesa ficaram.
Romulus não soube o que dizer. Apenas assentiu, sentindo o peso daquele olhar azul que parecia enxergá-lo por dentro.
— Parece que o Senhor da Sabedoria tem um gosto peculiar por seus protegidos — murmurou Faruk, mais para si mesmo do que para os outros. Depois, com uma reverência que não era submissão, mas cortesia precisa: — Que a Luz Sapiente os cubra, alteza. E a vós, cadete, que continueis a surpreender.
E se afastou, deslizando entre os grupos de senadores como a água entre as pedras.
— Ele é estranho — disse Romulus, assim que Faruk se distanciou.
— É estrangeiro — corrigiu Felicia, seca. — E estrangeiros, em Potestas, ou servem ou são servidos. Descobriremos a qual categoria pertence.
Antes que Romulus pudesse responder, um estrondo de vozes anunciou a chegada de alguém. As conversas cessaram. As cabeças se viraram.
No centro do salão, entre os grupos de senadores e generais, um homem abria caminho como quem parte ondas.
Era alto, de ombros largos, e sua armadura — uma obra de escamas de aço polido sobre couro negro — reluzia sob as lamparinas. Mas não era a armadura que chamava a atenção. Era o modo como ele caminhava: fluido, quase preguiçoso, como uma serpente que não precisa se apressar porque já sabe que a presa não tem para onde fugir.
Félix Victor Octavius Luxferres havia chegado.
Seu rosto, tão parecido com o de Felicia, era diferente na expressão. Onde ela tinha rigidez, ele tinha um sorriso de canto de lábio, uma curva que não era humor, mas avaliação. Seus olhos, igualmente verdes, percorreram o salão com a lentidão de quem não tem pressa em encontrar o que procura.
Até encontrarem Romulus.
O sorriso congelou. Os olhos se estreitaram. Félix parou no meio do salão, ignorando as saudações dos senadores que se curvavam à sua passagem. Seus lábios se moveram lentamente, lambendo-os como um lobo que acaba de avistar uma presa.
Romulus sentiu um arrepio descer pela espinha.
— Irmão — disse Felicia, e sua voz era de gelo polido. — Que surpresa. Não esperava teu retorno tão cedo.
Félix não desviou os olhos de Romulus.
— Ouvi falar do teu novo... brinquedo, irmã. — A voz era suave, quase um sussurro, mas Romulus ouviu cada palavra. — Dizem que ele brilha. Eu adoro coisas que brilham.
— Ele não é um brinquedo. É um recurso imperial. Sob minha custódia.
Félix finalmente desviou o olhar para Felicia. O sorriso voltou, mais largo agora.
— Recurso? Custódia? — Riu, um som que não tinha humor. — Tu sempre soubeste dar nomes bonitos às tuas coleções, irmã. Lembra do cavalo que não deixavas ninguém montar? Chamavas de “projeto de criação”. Até que ele morreu de tédio nos estábulos.
A expressão de Felicia não se alterou, mas Romulus viu sua mão fechar-se ao lado do corpo.
— Não compares o que não conheces, Félix. O rapaz está aqui por ordem do Imperator.
— Ah, o Imperator — Félix fez uma pausa, e seu tom mudou, tornando-se quase respeitoso, mas ainda venenoso. — Dizem que anda ocupado com... assuntos imperiais urgentes.
— Sim. — Felicia não mordeu a isca. — Enquanto tu estavas fora, ele cuidava do Império.
O sorriso de Félix finalmente se desfez. Por um momento, seus olhos encontraram os de Felicia, e Romulus viu ali algo que não sabia nomear — ciúme? Inveja? Raiva?
— Cuidado, irmã. — A voz era baixa, só para ela. — Cuidado para não se importar demais com este... recurso. Coisas que brilham demais tendem a queimar quem as toca.
Virou-se, e antes de sair, seus olhos passaram por Romulus mais uma vez. Aquele olhar — lento, calculado, quase íntimo — fez Romulus querer desaparecer dentro de sua própria toga.
— Banquete interessante — disse Félix, para ninguém em particular. — Uma pena que não poderei ficar. Tenho coisas mais... urgentes a fazer.
E saiu, deixando para trás um silêncio constrangedor que levou longos segundos para se desfazer.
Romulus só respirou quando o príncipe desapareceu pelas colunas.
— Ele... — começou, a voz falhando. — Ele sempre olha assim para as pessoas?
Felicia não respondeu de imediato. Observava a porta por onde o irmão saíra, e seu rosto era uma máscara de pedra.
— Ele olha assim para o que não pode ter — disse, finalmente. — E depois destrói só para provar que não precisava.
Romulus engoliu seco.
— Princesa... seu irmão... ele é...
Felicia finalmente se virou para ele, e Romulus viu algo em seus olhos que não esperava: cansaço.
— Diga, cadete.
— Ele é... adorador de rapazes?
O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que Romulus ouviu o tilintar de uma taça a três mesas de distância. Sentiu o rosto queimar. Era uma pergunta que jamais ousaria fazer a um patrício, quanto mais a uma princesa. Mas o olhar de Félix — aquele jeito de lamber os lábios — ainda lhe arranhava a pele.
E então Felicia riu.
Não foi o riso contido, cerimonioso que Romulus ouvira nas audiências. Foi uma risada franca, solta, que arrancou olhares dos convidados próximos. Ela ergueu a mão à boca, como se pudesse recolher o som, mas os ombros ainda tremiam.
— Adorador de rapazes — repetiu, entre uma risada e outra. — Não, cadete. Meu irmão não se limita a... rapazes.
Ela baixou a mão, e o riso se desfez num sorriso que não era feliz, mas cínico.
— Nas casas de orgias de Aurora Cor, Romulus, não existem homens nem mulheres. Existem apenas corpos. E Félix, como bom patrício, aprendeu a saborear todos. Mesmo estando comprometido com a filha do Senador Veturia.
Romulus não soube o que dizer. A informação era estranha, quase obscena, e ele sentiu que havia pisado em terreno que não compreendia.
Felicia, porém, já se recompunha. A máscara voltava ao lugar, e sua voz era novamente a da princesa guerreira.
— Meu irmão se rendeu aos prazeres da carne, cadete. É o único campo de batalha onde ele vence sem esforço. — Seus olhos verdes encontraram os de Romulus. — Por isso ele te olhou assim. Não apenas porque te deseja. Porque quer te possuir. E depois, provavelmente, te esquecer.
— E... e a senhora?
— Eu? — Felicia ergueu uma sobrancelha. — Eu prefiro inimigos que enfrento de frente. Não os que se dissolvem em vinho e perfume antes do amanhecer.
Ela se afastou, deixando Romulus com as palavras ainda ecoando.
Mas antes que pudesse segui-la, seus olhos encontraram, por um instante, os de uma serva que recolhia taças no canto do salão. Cabelos castanhos presos num coque modesto. Olhos cor de mel — mais claros que os seus, mas que capturavam a luz das tochas de um jeito diferente. Ainda assim, havia algo neles que lhe pareceu familiar. Como se, em meio a toda aquela ostentação, ela também fosse um estranho tentando não ser notado.
Ela não sorriu. Não acenou. Apenas o olhou por um segundo, talvez dois, antes de baixar a cabeça e desaparecer entre as colunas.
— Não se perca, cadete — disse Felicia, já ao seu lado. — O banquete ainda não terminou.
— Quem era aquela? — a pergunta escapou antes que ele pudesse contê-la.
Felicia acompanhou seu olhar, mas a serva já se foi.
— Uma das novas damas de companhia. Tullia, creio. Chegou hoje. — Ela fez uma pausa, e Romulus não soube dizer se havia ironia em sua voz. — Por quê? Achou que uma serva não podia ter olhos bonitos?
Romulus sentiu o rosto aquecer.
— Não, alteza. Eu só…
— Só o quê?
Ele não sabia o que dizer. Felicia observou-o por um momento, e pela primeira vez naquela noite, algo em seu rosto se suavizou.
— Seu rosto está vermelho, cadete. É o vinho, ou é a serva?
Romulus não respondeu. Felicia riu, baixinho, e se afastou novamente, deixando-o com a vergonha e com a imagem gravada na mente: dois olhos cor de mel, mais claros que os seus, olhando para ele como se também tivessem encontrado algo que não esperavam.
O banquete continuava. As taças tilintavam. O riso voltara.
Mas Romulus sentia, em algum lugar do peito, que aquela noite era apenas o começo de algo que ele ainda não compreendia.