ATO 1 — A PRIMEIRA TENTATIVA
A rua da periferia de Solarion estava rachada de ponta a ponta. No epicentro do caos, Klyrion permanecia imóvel. As fissuras negras que serpenteavam seu corpo pulsavam com um brilho doentio — como se o próprio abismo tivesse aprendido a respirar.
Kael se moveu por puro instinto de sobrevivência. Com um gesto curto e violento, ele comprimiu o ar ao seu redor, moldando-o em uma lâmina.
— Sai. — rosnou Kael.
A rajada cruzou o espaço em uma fração de segundo, cortando o asfalto no caminho. Klyrion sequer mudou sua base. Ele apenas ergueu a mão direita. Quando a lâmina de vento colidiu com a palma do inimigo, ela não cortou; ela estancou, quebrou no ar como vidro temperado e ricocheteou contra seu criador.
O impacto seco atingiu Kael no peito, arremessando-o dez metros para trás. Ele atravessou a lateral de um carro estacionado e colapsou no asfalto. O ar escapou de seus pulmões em um engasgo mudo.
— Kael! — Nami gritou, o desespero tingindo sua voz.
Kael se levantou devagar, os dedos escorregando no óleo quente do motor que vazava do veículo destruído. Ele estava consciente, mas seu braço esquerdo tremia.
— Tô aqui... — ele cuspiu um coágulo de sangue. — Só não tá legal. Ele... ele rebateu o ar como se a física fosse opcional.
Maira não deu tempo para Klyrion processar o próximo passo. Ela avançou de imediato, socando o chão com as duas palmas em um impacto ruidoso. O subsolo rugiu em resposta. Uma parede de granito ergueu-se do asfalto para separar o monstro do grupo.
— Atrás da barreira! — ela ordenou, o suor escorrendo pesado pelas têmporas.
Klyrion apenas inclinou a cabeça, observando a pedra. As rachaduras negras em sua pele brilharam com uma intensidade devoradora. Diante dos olhos de Maira, o granito amoleceu instantaneamente, perdendo a forma e transformando-se em uma massa de lava incandescente que escorria inútil.
O bloqueio que deveria salvá-los agora era apenas magma no chão.
“Ele não está queimando — Aiden gritou. — Ele está desfazendo tudo.
Nami reagiu, puxando a umidade do ar e erguendo uma cúpula de vapor densa. Funcionou por três segundos. Então, o vapor vibrou violentamente antes de colapsar no nada.
Lyra tentou flanquear pela esquerda, suas mãos brilhando com a energia verdejante da floresta. Raízes grossas irromperam do solo, enrolando-se em fragmentos de concreto para criar uma prisão orgânica em torno de Klyrion. Mas, a um metro dele, as raízes murcharam. Tornaram-se cinzas e retraíram-se em agonia antes mesmo de tocá-lo.
— Ele está anulando a vitalidade ao redor — Lyra disse, engolindo em seco.
Aiden ergueu uma barreira de gelo sólido sob o solo, tentando congelar o avanço. Klyrion deu um passo. O gelo estourou como cristal fino. O chão cedeu. Rachaduras profundas se espalharam pela avenida, engolindo postes e bancos de ferro. O grupo foi forçado a recuar, o pânico começando a se infiltrar nas frestas de sua coragem.
ATO 2 — ENTRE DUAS GUERRAS
Enquanto os Despertos enfrentavam Klyrion, os humanos enfrentavam o colapso de uma metrópole que morria.
Lukas apareceu em meio a uma nuvem de poeira sufocante, carregando um ferido nas costas e segurando outro pelo braço com uma força desesperada.
— A rua de trás desabou completamente! Tem gente presa no subsolo do shopping! — ele gritou.
Ryu, vendo uma caminhonete tombada com o motor em chamas, não hesitou. Quebrou o vidro temperado com o cotovelo e arrancou uma criança do banco traseiro segundos antes do veículo explodir em uma bola de fogo.
Jessica guiava uma massa de moradores em pânico absoluto.
— Junta! Junta! Não olhem para trás, corram para o leste! — sua voz tentava ser o farol no meio do terror.
Sophia ajudava dois idosos a atravessar o asfalto partido, seus olhos vigiando os prédios que ameaçavam desabar sobre eles. Nami observou a cena, o peso do dilema esmagando seu peito.
— Se focarmos só na luta, eles morrem nos escombros. Se focarmos só nos civis, a gente morre pelas mãos dele.
Dante, que até então mantinha um silêncio absoluto e perturbador, deu um passo à frente. Seus olhos não eram apenas determinados; eram brasas vivas.
— Então vamos fazer tudo.
Kael, respirando com dificuldade e limpando o sangue que turvava sua visão, ergueu o braço direito, sinalizando a última estratégia.
— Formação combinada. Sem atuação solo. É o grupo ou nada!
ATO 3 — O GOLPE COMBINADO
Eles se alinharam em uma sincronia de desespero.
Kael iniciou o ataque com tudo o que restava. Lançou duas linhas de vento comprimido que giravam como furacões horizontais, atingindo a base do inimigo.
— Desalinha ele!
O golpe levantou uma nuvem de estilhaços e forçou Klyrion, pela primeira vez, a ajustar sua postura defensiva. Aproveitando o segundo de distração, Maira ergueu um platô de terra sob a equipe, elevando-os para mudar o ângulo de ataque.
— Agora! — Maira rugiu. — IMPACTO DE GAIA.
Nami avançou pela lateral, deslizando sobre uma fina película de gelo que Aiden criava sob seus pés. Ela saltou, concentrando a água em sua palma, e desferiu um golpe direto na nuca de Klyrion.
Aiden avançou um passo, os dois braços tremendo sob a pressão. Uma esfera azul-esbranquiçada nasceu entre suas mãos, condensando o frio.
— ESFERA GLACIAL!
A orbe disparou contra Klyrion. No impacto, ela se expandiu em um domo cristalino que congelou tudo dentro por um segundo absoluto. O domo colapsou antes de completar o selamento.
Lyra avançou sem hesitar.
— VEREDITO VERDE.
Raízes douradas rasgaram o asfalto em espiral e se lançaram direto ao inimigo.
As fissuras negras pulsaram. A vitalidade das raízes secou em segundos, transformando o julgamento em pó antes que a sentença se completasse.
Kael, aproveitando o momento, preparou o golpe:
— TUFÃO ASCENDENTE.
O tornado atingiu o ombro direito, enquanto Maira atingia o peito com um pilar de pedra densa e metálica.
Os impactos foram simultâneos e brutais. O som foi o de uma demolição controlada. Klyrion, o ser inabalável, recuou três passos pesados. O efeito foi imediato: civis paralisados retomaram a fuga. Nami recuperou um fôlego precioso. Lyra sentiu a luz interna responder.
Por dois segundos, eles acreditaram que Klyrion podia cair.
ATO 4 — A RESPOSTA
Klyrion inclinou a cabeça para o lado. O movimento foi mecânico, frio. As fissuras negras em seu corpo não apenas brilharam; elas entraram em combustão fria, exalando uma fumaça que devorava a luz.
Ele se moveu com uma fluidez que desafiava a inércia humana. Antes que Kael pudesse reagir, uma onda sombria o atingiu em cheio. Ele foi arremessado contra a parede de um prédio, as costas rangendo audivelmente com o impacto.
Nami tentou contra-atacar — LÁGRIMAS DO ABISMO — mas a umidade virou arma contra ela; no mesmo instante o chão explodiu sob Aiden, lançando-o ao ar.
Lyra ergueu uma raiz maciça para bloquear o avanço. Klyrion sequer virou o rosto. Ele avançou com um chute lateral rápido, uma técnica de combate brutal que pegou Lyra desprevenida, destruindo a defesa e derrubando a guerreira em um único movimento seco.
Então, ele mudou de alvo. Um civil, um homem que tentava salvar uma maleta, correu na direção errada. Klyrion o segurou pela camisa, erguendo-o no ar como se fosse um fardo sem vida.
Dante viu o gesto e seu sangue gelou.
— KAEL!
Klyrion lançou o homem na direção dos escombros pontiagudos de uma loja. Kael, mesmo com as costelas gritando em agonia, se lançou no ar. Usou sua última reserva de vento para se impulsionar, pegou o homem em pleno voo e rolou no chão para amortecer a queda. Salvou o civil, mas entregou seu flanco esquerdo.
Klyrion foi implacável. Um corte de energia negra atingiu Kael pela lateral, jogando-o contra um poste que se dobrou como papel. Dante correu, puxando o civil para longe enquanto via Kael tossir sangue, imóvel.
O inimigo golpeou o chão com o punho. Uma fenda de cinquenta metros abriu-se na avenida. Três crianças, escondidas atrás de um balcão de jornal, escorregaram para a borda do abismo.
— RYU! — Sophia gritou, desesperada.
Ryu saltou e pegou duas crianças. Sophia se jogou no asfalto e puxou a terceira pela mochila, seus dedos sangrando no concreto. Eles conseguiram, mas o caos era uma hidra. Um SUV começou a deslizar para dentro da fenda, o tanque chiando e derramando combustível sobre os civis presos lá embaixo.
Maira viu o perigo iminente.
— Não!
Com um esforço sobre-humano, ela ergueu um muro de terra maciça para barrar o veículo. O carro explodiu contra o bloqueio em uma bola de fogo que iluminou a desolação. Ninguém se feriu, mas o esforço deixou Maira exausta, seus braços pesando como chumbo.
Klyrion surgiu atrás dela no instante em que as chamas baixaram. Dante viu a sombra crescer sobre Maira. Ele tentou gritar, tentou correr, mas a distância era um abismo.
O golpe atingiu Maira em cheio nas costas. O som foi como o de uma viga de aço se partindo ao meio. Ela voou pelo ar e colidiu com uma força brutal contra o asfalto. Ela não se moveu mais.
Dante deu um passo — e parou. Como se o corpo recusasse acreditar no que via.
O ar segurou o som. Nenhuma sirene. Nenhuma voz. Havia apenas Maira caída, o sangue começando a empoçar sob seu corpo. E o inimigo caminhando em sua direção.
Klyrion avançava sem pressa. Cada passo rachava o chão sob suas botas. As fissuras negras pulsavam em um ritmo teimoso, ecoando o vazio. Kael tentou se levantar para proteger a irmã de alma, mas sua perna não respondeu — um osso quebrado ou nervo pinçado. Ele caiu de novo, mordendo o lábio até sangrar.
Nami buscou vapor; obteve apenas um fiapo que sumiu nos dedos. Lyra buscou a vida; nem uma flor nasceu do solo morto. Aiden tentou gelo; ele derreteu antes de ganhar forma. Nada respondeu. O medo venceu o corpo antes do próximo movimento.
Dante foi o único que não tentou se levantar. Ficou parado a poucos metros de Maira, olhando para o corpo dela e para o sangue que corria pelas rachaduras abertas por Klyrion.
O mundo se reduziu a um único pensamento absoluto:
"Se ele encostar nela de novo... acabou."
Algo que nunca deveria acordar respondeu dentro dele.
O chão sob os pés de Dante não apenas tremeu. Ele rugiu. Uma vibração de baixa frequência estourou todos os vidros restantes da rua. A poeira parou no ar. As chamas congelaram.
Klyrion parou. Ele sentiu a mudança na pressão atmosférica. Pela primeira vez, o inimigo olhou diretamente para Dante.
E o chão respondeu ao seu verdadeiro dono.