ATO 1 — A CHAMA QUE RESPIRA
O asfalto não apenas rachou; ele sangrou luz.
Brasas surgiram entre as fendas abertas, primeiro tímidas, como pontos de calor que não pertenciam àquela dimensão urbana. Depois vieram mais. Centenas. Milhares. Elas não flutuavam ao sabor do vento; elas orbitavam Dante, respondendo a uma gravidade que ele acabara de estabelecer. O ar ao redor tremeu, como se a realidade precisasse abrir espaço.
Linhas douradas correram sob a pele de Dante, pulsando no ritmo do seu coração. O calor subiu em uma onda invisível que não queimava o oxigênio — ela o pressionava, transformando a atmosfera em algo denso, pesado, quase sólido.
Kael, caído a poucos metros, forçou o pescoço a virar. Mesmo com os pulmões ardendo pela exaustão e o corpo travado pelo impacto anterior, ele viu: Dante estava no centro de um tornado de poeira luminosa.
Klyrion finalmente parou.
A entidade, que até então tratava os heróis como ruído estatístico, recalibrou sua percepção. Dante deixara de ser ruído.
Dante deu o primeiro passo.
O solo sob seu tênis não apenas cedeu; ele tornou-se líquido. Um círculo de piche fervente e rocha fundida formou-se instantaneamente onde ele pisava.
Mais um passo. As brasas cresceram, transformando-se em línguas de fogo que chicoteavam o ar com o som de trovões distantes. Ele parou exatamente entre Maira — caída, vulnerável e sangrando — e o abismo que Klyrion representava.
Dante não gritou. Seu olhar era um feixe direto de determinação pura.
— Não dá outro passo.
Klyrion ajustou sua postura, as rachaduras negras em seu corpo brilhando em um vácuo sombrio.
A luta não ia apenas recomeçar. Ela ia ser reescrita.
ATO 2 — TÁTICA DE SOMBRA E SANGUE
Klyrion se moveu primeiro — deslizando lateralmente rápido demais para o olho humano acompanhar.
Dante acompanhou com o olhar, mas seu corpo não precisou girar totalmente. As brasas ao seu redor agiam como extensões de seus próprios nervos. Elas sentiam a pressão do deslocamento de Klyrion antes mesmo dele completar o movimento.
Klyrion ergueu a mão esquerda. Sob seu comando, o ar condensou-se.
Lâminas de vidro negro — doze, dezesseis, vinte — materializaram-se em uma formação em leque. Elas foram disparadas em trajetórias impossíveis: algumas em linha reta, outras descrevendo arcos parabólicos complexos, e três delas mirando o solo para ricochetear e atingir as pernas de Dante por baixo.
Foi uma assinatura clara de que Klyrion não estava mais brincando. Ele estava caçando brechas defensivas.
Dante não recuou um centímetro. Ele deu um passo firme à frente, pisando no centro do caos.
As chamas reagiram, não como um escudo, mas como mãos vivas, interceptando e reduzindo o vidro a vapor antes mesmo do impacto.
As lâminas que ricochetearam pelo solo foram neutralizadas por um pulso de calor descendente que abriu rachaduras profundas no asfalto, engolindo os ataques antes que pudessem atingir Dante.
Nenhuma lâmina passou.
Aiden percebeu o que estava acontecendo: o calor se movia antes da intenção consciente de Dante. Era instinto puro, fundido com uma vontade de proteção avassaladora.
Klyrion recuou meio passo. Foi a primeira hesitação que a entidade demonstrou em todo o encontro.
Dante não deu tempo para o inimigo processar. Ele ergueu os braços, não com a grandiosidade de um místico, mas com o foco de um soldado. O calor ao redor convergiu para o centro de suas palmas em um vácuo térmico. A energia acumulou-se com uma velocidade aterradora.
Sem anúncio.
As chamas reuniram-se nas mãos dele, ganhando massa, densidade e uma cor branca que cegava. O ar vibrou com tamanha intensidade que as janelas dos prédios vizinhos, já estilhaçadas, tremeram em seus caixilhos.
Dante abriu os dedos, libertando o sol.
— Chama do Espírito: Lança estelar.
O fogo convergiu em uma lança de plasma tão densa que a realidade pareceu ceder. O disparo perfurou o ar, atravessando a rua como se o próprio espaço fosse papel, enquanto o clarão residual transformava a noite em meio-dia por um microssegundo.
O Véu agiu instantaneamente, forçando um blecaute sensorial para que os civis não testemunhassem o impossível.
Klyrion foi arrancado do solo.
Seu corpo translúcido atravessou o espaço como um projétil inerte, atingindo a fachada de um edifício comercial com uma força que gerou uma teia de rachaduras no concreto armado de dez andares. Ele despencou, deixando um rastro de fumaça negra por onde passara.
A rua balançou com o impacto. A temperatura subiu de forma insustentável por dois segundos, e o ar ganhou um cheiro metálico de ozônio e poeira tostada.
O silêncio voltou, mas carregava o peso de um mundo que acabara de mudar.
Dante permaneceu de pé. Por alguns instantes, as chamas continuaram a dançar sobre sua pele, antes de recuarem, obedientes, desaparecendo sob seus poros como se estivessem voltando para casa. Ele respirou fundo, os ombros subindo e descendo, lutando para manter o equilíbrio.
O mundo ao redor não importava mais. Só havia um foco.
Dante correu e se ajoelhou ao lado de Maira.
— Ei... — a voz dele falhou, perdendo a autoridade divina para revelar a fragilidade do amigo. — Eu tô aqui. Olha pra mim.
Maira abriu os olhos. Suas pupilas tremiam, tentando encontrar foco em meio à dor. Quando finalmente reconheceu os contornos de Dante, o canto de sua boca se ergueu em um sorriso pálido, exausto, mas vitorioso.
— Você... acendeu tudo... — murmurou ela, antes de a consciência vacilar novamente sob o peso dos ferimentos.
ATO 3 — O RESGATE E O COLAPSO
Kael conseguiu se arrastar para perto, apoiando-se na carcaça de um carro destruído. Ele nunca vira tamanha demonstração de força bruta.
Lyra e Nami cercaram Maira no instante seguinte. Nami, com as mãos já brilhando em um tom azulado de primeiros socorros, começou a estabilizar os ferimentos mais urgentes.
— A pressão dela está caindo rápido! — gritou Nami, a urgência substituindo o choque. — Dante, preciso que você mantenha o calor periférico, ela está entrando em choque!
Dante não hesitou. Ele segurou a mão de Maira, controlando a chama interna para que ela não fosse uma arma, mas um cobertor de vida. O fogo que antes destruía ruas agora servia apenas para manter um coração batendo.
Foi quando o som mudou.
Um arrastar fraco. Quase inexistente, mas que fez os pelos da nuca de todos se arrepiarem.
Dante ergueu o rosto, seus olhos voltando a brilhar em laranja.
No fim da rua, Klyrion tentou se erguer. Seu corpo falhava, desfazendo-se e recompondo-se em estática negra.
Não era regeneração. Era falha.
Mas os olhos dele ainda funcionavam. E eles não miravam o grupo como um todo. Eles miravam Dante.
Não havia raiva naquelas orbes artificiais. Nem frustração. Havia algo muito pior: satisfação. A satisfação de um cientista que acaba de confirmar uma hipótese perigosa.
— Impress... ionante... — a voz de Klyrion oscilou em frequências dissonantes. — ...mas não... suficiente. A semente... foi plantada.
Dante levantou-se lentamente, deixando Maira sob os cuidados de Nami. Ele caminhou três passos à frente. Sua postura não era de ameaça; era de finalização.
— Chega — disse Dante.
Ele não aumentou o tom de voz. Não precisava. Era uma afirmação de fato.
Klyrion analisou aquela postura por um segundo final — comparando os dados, selando o destino daquele encontro. E então, ele simplesmente se desintegrou, desaparecendo em uma nuvem de fragmentos de vidro.
Kael exalou um suspiro que parecia durar uma eternidade. Não era alívio. Era o peso do entendimento. Eles sabiam, no fundo de suas almas, que aquilo não tinha sido uma vitória militar.
Tinha sido uma transição.
ATO 4 — O SUSSURRO DO INIMIGO
Os sons da cidade começaram a retornar aos poucos, como se o Véu estivesse devolvendo a realidade em doses homeopáticas.
Dante só relaxou os ombros quando Nami fez um sinal positivo. Maira estava estável. Respirando com firmeza.
Foi quando algo estalou no ar.
Lyra ajoelhou-se e tocou o solo. Seus olhos se arregalaram.
— Ele não foi destruído — sussurrou ela. — Ele foi recolhido.
Dante cerrou os punhos, sentindo o calor residual queimar suas palmas.
Kael assentiu, a expressão sombria sob a luz dos postes que começavam a piscar de volta à vida.
— O alvo não era matar a gente hoje. O alvo era você, Dante.
O vento mudou bruscamente. Trouxe consigo o cheiro de poeira e fumaça... e de algo que observava do alto. Algo paciente. Algo que não tinha pressa, pois agora tinha o que precisava: o rastro de energia da Chama do Espírito.
A poeira ainda pairava quando uma distorção final ocorreu no asfalto, onde Klyrion estivera. Não era esforço; era como se a terra estivesse expelindo um corpo estranho. As rachaduras negras pulsavam no solo, reorganizando-se.
Dante respirava rápido. Não era medo, mas o fogo dentro dele estava impaciente, arranhando as paredes de sua alma para sair de novo.
Uma voz, vinda de lugar nenhum e de todos os lugares, sussurrou no ar:
— Então... mais um chama o fogo para si.
Era a voz de Klyrion, ou de quem quer que o controlasse, agora raspando como metal em pedra.
— A Luz corre. E quando corre... ela tropeça na própria sombra.
Kael ergueu o vento ao redor do grupo. Aiden condensou gelo em ambas as mãos. Nami e Lyra flanquearam Dante, protegendo o centro. Mas a ameaça não veio de frente.
— Não confunda nossa exaustão com fraqueza — rugiu Kael.
— Não confunda retirada com medo — rebateu a voz, enquanto o ar estalava. — O medo pertence a vocês. Eu sigo apenas a estratégia.
Os olhos invisíveis pareceram se fixar em Dante.
— O Eclipse avança. O Vórtice pulsa. E o fogo que você liberou hoje... ele tem um eco.
A rua atrás de Dante estalou. Um som fundo, de pressão acumulada sendo forçada para fora. Vapor quente subiu das bocas de lobo. O cheiro de rocha queimada tornou-se insuportável.
Do asfalto derretido surgiu uma criatura de magma — incompleta, mas com os olhos de Dante.
— O fogo desperta o fogo — sussurrou a voz final de Klyrion. — E o fogo nunca desperta sozinho.
Dante sentiu o próprio calor vacilar — e percebeu que aquilo era reconhecimento.