ATO 1: O FOGO NÃO ESPERA
O quartel-general dos Defensores da Luz parecia um organismo vivo de pedra aquecida e metal polido. Dante caminhava pelo corredor externo. O sol da manhã castigava as paredes brancas, mas o calor que torturava Dante não vinha do céu.
Vinha de dentro, fervendo em seu DNA. Sem aviso, o mundo emudeceu. O som ambiente foi abafado. Dante travou.
— Que foi? — A voz de Maira soou distorcida.
Dante tentou articular um "Nada... só...".
A realidade ao redor começou a sofrer uma erosão visual. Na parede de concreto, a sombra de Dante descolou-se da física; ela tremia em espasmos violentos, descompassada com seu corpo real. O ar ondulou em uma miragem de calor. Então, a chama nasceu.
Não foi um estalo. Foi uma imposição. Uma língua de fogo de um laranja doentio e brilhante brotou de sua palma direita. Ela não subia para o céu; ela oscilava de forma predatória.
Não aqui. Não perto deles.
No puro instinto de negação, Dante fechou o punho para esmagar o incêndio. Erro fatal. O fogo, alimentado pelo terror e pela força bruta da emoção, reagiu com um rugido gutural. A chama triplicou de tamanho em um milissegundo, lambendo o teto do corredor com uma fome insaciável.
Kael, cujos reflexos costumavam ser gélidos, recuou com cuidado.
— Respira, Dante! Mantenha a calma! — Seus olhos estavam vidrados, o reflexo do fogo revelando o pavor de quem encarava um fantasma de destruição.
Dante soltou o ar, mas o fogo ignorou sua rendição. A chama teimou, rastejando pelas paredes. O cheiro de ozônio e fumaça acre impregnou o ar em segundos. Os companheiros se dispersaram em uma manobra de sobrevivência, os rostos iluminados por um brilho que não trazia esperança, apenas a promessa de serem devorados.
— Dante, concentre-se! O fogo não pode dominar você! — gritou Maira, a voz projetada com esforço sobre o estalo das chamas. — Tente retomar o controle!
Dante fechou os olhos, os dentes cerrados ao ponto de quase trincar. A dificuldade era física. Por um segundo eterno, o corredor foi um inferno de marcas carbonizadas. Então, tão subitamente quanto surgiu, o fogo se encolheu. As chamas que tomavam o corredor extinguiram-se por completo, deixando para trás apenas o silêncio pesado e as cicatrizes negras no concreto.
Aiden trocou um olhar carregado de presságio com Lyra. Maira permaneceu séria, imóvel, os olhos fixos na mão de Dante, que ainda soltava uma fumaça tênue e trêmula.
A porta do salão principal deslizou com um zumbido metálico. Aelia estava lá, a postura de uma estátua de gelo, os olhos de quem já havia sobrevivido a mil apocalipses. Ela não perguntou o que houve; o cheiro de queimado era a única resposta que importava.
— Bom. Chegaram a tempo — disse ela, sua voz fria cortando a fumaça como um bisturi. — Vamos descobrir quanto controle vocês realmente têm. Ou quanto o fogo já tirou de você, Dante.
ATO 2: A PRIMEIRA PORTA
O salão principal exalava história. O cheiro de papel antigo e metal frio evocava registros de batalhas que Dante só conhecia por boatos.
— Cara… vocês têm um QG secreto mesmo — murmurou Dante, tentando recuperar a dignidade enquanto caminhava entre as estátuas dos antigos Defensores.
Maira soltou um riso baixo, embora seus olhos ainda estivessem atentos.
— Se ficar perdido, relaxa. Todo mundo se perde na primeira semana. Alguns na segunda.
Eles pararam diante de Saren, que cruzava os braços com a rigidez de um carrasco. Aelia parou ao lado dele.
— O despertar dele foi violento — constatou Aelia, referindo-se ao incidente no corredor. — O fogo reagiu antes do chamado. Instabilidade típica, porém perigosa.
— Fogo é impulso — Saren completou, sua voz como o som de pedras se chocando. — É a verdade nua. E a verdade sem disciplina destrói antes de proteger.
Dante sentiu a garganta seca.
— Então… o que eu virei exatamente?
Kael bateu levemente em seu ombro, um gesto que parecia uma promessa silenciosa.
— Um de nós.
— Um Desperto — disse Aiden, ajustando a postura.
— Um guerreiro — Lyra acrescentou.
— Um problemão — brincou Nami, embora seu sorriso não alcançasse os olhos.
— Nosso problemão — finalizou Maira, oferecendo um aceno firme.
Pela primeira vez naquele dia, Dante sorriu. Era um sorriso frágil, mas era dele.
ATO 3: SOB O PESO DO TATAME
O tatame não era feito de espuma, mas de uma fibra densa que parecia absorver a alma de quem pisava ali. Saren caminhava em semicírculo, cada passo ecoando uma autoridade ancestral.
— O que enfrentaram até agora foi apenas o convite — iniciou Saren. — O inimigo real pune a hesitação. E a hesitação nasce quando o guerreiro não sabe quem é.
Ele bateu o pé no chão. Cristais de energia pura se ergueram das bordas do salão, cercando os jovens.
— Primeiro fundamento: a energia é limitada. Mesmo a espiritual.
— E se acabar? — Nami perguntou, a voz pequena.
Saren tocou o próprio peito, acima do coração.
— A energia vital assume. E ela cobra um preço que vocês não podem pagar. Tremores. Falha respiratória. Hemorragias internas. E, no fim… colapso vital total.
O silêncio caiu como um manto de chumbo. Lyra apertou o colar com força, sua respiração tornando-se curta.
— Não quero ser a que fica para trás… de novo — sussurrou ela.
A sala pareceu prender o fôlego. Nami olhou para ela, a curiosidade lutando contra o próprio medo. Saren não deu tempo para lamentações.
— Kael, você confia demais no vento. Aiden, pensa tanto que quase congela. Maira, força sem freio ainda é fraqueza. Lyra, sua confiança quebra no primeiro golpe. Nami, você perde o foco quando precisa mantê-lo. E Dante…
Ele parou diante do garoto, os olhos fixos nos dele.
— …você é instabilidade em estado bruto.
Dante sentiu o rosto queimar. Não era o fogo. Era a vergonha da verdade.
ATO 4: O TATAME RESPONDE
— Hoje, vocês aprendem vendo — ordenou Saren.
1. Estilo Pedra — Maira
Maira avançou contra um bloco de treino maciço. O impacto não foi bonito ou elegante; foi absoluto. O ombro atingiu o alvo e a pedra rachou de cima a baixo com um estalo seco.
— Acordou violenta — comentou Kael.
— Sempre — rebateu ela, sem nem ofegar.
2. Estilo Vento Fluido — Kael
Kael disparou. Ele usou o ar para criar degraus invisíveis, girando sobre o eixo de Saren. Quase perfeito. Mas no último segundo, o vento vacilou sob seus pés e ele precisou de um rolamento extra para não cair.
— Mobilidade exige leitura — disse Saren. — Não velocidade.
3. Estilo Mar e Névoa — Nami
Nami ergueu uma esfera de água perfeita, límpida. Mas quando Saren circulou por trás dela, a distração foi fatal. A esfera desmoronou em uma poça inútil. Ela ficou vermelha de frustração.
— De novo — ordenou Saren. — O mar não teme a correnteza.
4. Estilo Gelo Estrutural — Aiden
Aiden ergueu três pilares de gelo com precisão matemática. Ao tentar o quarto, a dúvida brilhou em seu olhar por um milésimo de segundo. O pilar saiu torto, quebradiço.
— Boa leitura. Execução com medo — sentenciou o mestre.
5. Estilo Fogo Ascendente — Dante
Dante ergueu a mão, tentando canalizar o calor. A chama veio, mas veio como uma explosão descontrolada que o arremessou de costas no chão.
— Piorou — murmurou Aiden.
— Normal — Kael defendeu. — Ele sempre piora antes de melhorar.
Saren se abaixou diante de Dante.
— Seu estilo não aceita dúvida. Ou você controla o fogo… ou o fogo controla você.
ATO 5: O FOGO QUE OBSERVA
O treino terminou, mas a mente de Dante continuava em chamas. Ele ficou no salão vazio, encarando a própria palma. Ergueu uma pequena chama. Ela era inquieta, como um animal enjaulado. Ele a apagou. Ela voltou sozinha. Maior.
— Eu não consigo… — sussurrou para as sombras.
— Vai ficar encarando o fogo a noite toda? — Kael estava na porta, a postura relaxada escondendo a preocupação. Ele caminhou até Dante. — Quando você olha assim… parece que o fogo olha de volta.
Dante congelou. A frase atingiu o ponto cego de sua armadura emocional.
— Não deixa ele decidir quem você é — concluiu Kael, antes de se retirar.
Dante soltou um longo suspiro. A chama recuou, não por comando, mas porque algo dentro dele finalmente entendeu: o inimigo real não estava no horizonte. Estava no seu sangue. Se ele não dominasse o Fogo Ascendente, não haveria mundo para salvar. Só haveria cinzas.
ATO FINAL: O CORAÇÃO SOB SOLARION
Muito abaixo da academia, além dos esgotos e das linhas de metrô, existia um lugar que a luz do sol jamais ousou tocar. Era uma estrutura natural deformada por éons de energia reprimida — pedra fundida e raízes petrificadas que pareciam veias de um gigante adormecido.
A cidade acima continuava seu ritmo. Carros, vento, vida. Mas aqui embaixo, o silêncio era absoluto, interrompido apenas por um batimento irregular.
Tum-tum.
A fissura na rocha, que antes era apenas uma rachadura, agora respirava. O chão expandia e contraía com uma cadência biológica. Algo ali embaixo estava aprendendo a existir.
Dentro da massa de obsidiana incandescente, uma forma humanoide se definia. O torso estava completo; os ombros, largos e poderosos. Lava escorria lentamente como sangue reiniciando a circulação após um milênio de estase.
Então, um dedo se moveu.
O calor subiu violentamente, vitrificando a rocha ao redor. Houve uma inspiração — um vácuo súbito que puxou o ar das frestas superiores para dentro da fissura.
A quilômetros dali, em uma floresta morta, os Arautos das Trevas pararam simultaneamente. Norath, o bruto, olhou para o chão com instinto predador.
— Algo atravessou.
Seris, a sacerdotisa, fechou os olhos, um sorriso lento e macabro desenhando-se em seu rosto. Ela sentiu o cheiro de fogo antigo e correntes quebradas.
— Não… — sussurrou ela. — Ele acordou.
Vareth, o líder, permaneceu imóvel. Havia uma sombra de preocupação em seu olhar normalmente gélido. Ele olhou na direção da cidade de Solarion.
— Então o tempo acabou — disse ele, a voz baixa. — Se ele despertar completamente, a guerra muda.
— Devemos informar ao Círculo? — perguntou Seris.
Vareth virou-se lentamente, sua aura de comando sufocando qualquer discordância.
— Não. Nós o encontraremos primeiro. Antes que o Círculo do Poder descubra.
De volta ao abismo sob Solarion, a criatura abriu os olhos. Não eram globos oculares; eram fendas de magma puro que iluminaram a escuridão eterna.
A cidade ainda treinava para a guerra.
Mas a guerra já tinha escolhido seu campeão.