ATO 1 — O RETORNO FERIDO
O ar no centro de treinamento não era apenas denso; estava saturado. O cheiro acre de ozônio misturava-se ao suor metálico dos alunos. Saren observava o exercício com os braços cruzados, prestes a ordenar uma pausa. Ele não teve a chance.
A porta dupla de carvalho maciço foi arremessada contra as paredes com um estrondo que fez o salão vibrar.
A elite dos Defensores atravessou o limiar, e a cena drenou o sangue de qualquer um que estivesse ali. Korvus liderava a marcha, mas não era o líder impenetrável de sempre; suas vestes estavam chamuscadas e seus olhos injetados denunciavam exaustão. Selene vinha atrás, arrastando uma perna. As runas em seu antebraço, normalmente vibrantes, estavam apagadas, inertes como cicatrizes velhas, e um filete de sangue escuro escorria por seu braço, manchando o chão. Arctean fechava a formação. Imponente, mas quebrado; o manto, antes símbolo de autoridade, agora era um trapo, e o ombro exibia uma necrose de energia sombria que corroía tecido e carne.
Kael sentiu o fôlego morrer nos pulmões. Aiden, instintivamente agindo como a última linha de defesa, deu um meio passo atrás, baixando o centro de gravidade. Maira tencionou os músculos, a mão gravitando para o vácuo onde sua arma se manifestava. Dante sentiu o calor vacilar, abafado pela aura que emanava dos veteranos.
Selene limpou o rosto com o dorso da mão, o lábio cortado.
— Impedimos o ritual — sua voz, antes límpida, soava como vidro quebrado. — Mas foi por um fio. Uma célula de bruxos. O problema real... — ela fez uma pausa, o peito subindo e descendo com dificuldade — ...não foram eles. Foram as fissuras.
Korvus estalou o pescoço, o som ecoando no silêncio mortal do salão. Sua raiva não era um incêndio, mas um gelo profundo.
— Doze portais menores. Simultâneos. Cada um vomitando as abominações do Vórtice. Não era uma invasão, era uma sangria.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quase palpável.
— Infelizmente, alguns passaram — Selene completou, os ombros caindo sob o peso de um fracasso que eles não deveriam carregar.
Korvus avançou, seus olhos fixos nos alunos com uma seriedade que cortava como navalha.
— Eles usaram um artefato de sincronia. Isso não foi um ataque oportunista. Foi um ensaio. Uma coordenação perfeita.
Saren descruzou os braços, a sombra em seu rosto tornando-se absoluta.
— Então — disse o mestre, sua voz um sussurro grave — o tempo das cortinas caiu. Eles começaram.
ATO 2 — A VERDADE DOS SELOS
Saren caminhou até o centro do salão. Com um movimento fluido, tocou o chão. O solo reagiu; linhas de energia azul-pálida emergiram, tecendo um mapa espiritual no ar. O holograma era vasto, exibindo oito esferas massivas que orbitavam a representação do globo.
— Ouçam. — Saren não precisou elevar a voz para comandar a sala. — Existem oito Portais Ancestrais. Não foram esculpidos pela Luz, nem concebidos pelo homem. São veias do mundo, canais primordiais que conectam o Vórtice à nossa existência desde a gênese.
— Por que não os estilhaçamos? Por que não acabar com isso agora? — Dante perguntou, seus olhos fixos nos ícones que pulsavam como corações enfermos.
Arctean, o mais velho do grupo, respondeu com uma voz rouca.
— Tente arrancar uma veia do mundo, rapaz, e o mundo morre junto. Eles são indestrutíveis. A única arte que dominamos foi o selamento: não é fechar, é restringir.
Maira estreitou os olhos, apontando para as pequenas manchas vermelhas que pipocavam no mapa.
— E os seres de elite? Eles passam por essas rachaduras menores que os bruxos estão forçando?
Selene balançou a cabeça.
— Rachaduras forçadas são brechas limitadas. A física do Vórtice exige equivalência. Elas só deixam passar o que é compatível com o poder do invasor. Elite exige canais de elite.
— Às vezes — interrompeu Korvus — o problema não é o que passa, mas o que prepara o terreno. A luta de hoje provou que eles estão aprendendo a somar pequenas rachaduras. Estão criando uma ressonância.
Aiden engoliu em seco, observando um dos círculos maiores.
— E se o selo ceder? O que acontece?
Arctean o encarou, e o olhar do veterano não carregava conforto.
— Se um selo cair, a barreira não apenas falha; ela colapsa. O fluxo do Vórtice não seria filtrado. Seria uma inundação.
— Então não podemos esperar! — Kael cortou, a voz subindo uma oitava. — Se eles estão testando o sistema, temos que ser a resposta.
— Caçar sombras no escuro? — Aiden retrucou, o tom gélido. — Você quer desperdiçar vidas para tentar prever o imprevisível?
— Melhor que ficar olhando mapas enquanto o mundo racha sob nossos pés! — Kael rebateu.
O debate, que antes era estratégico, tornara-se uma divergência perigosa.
— Se nos movermos sem estratégia, seremos os primeiros a cair — respondeu Aiden.
Maira deu um passo à frente, entre os dois.
— Chega! É exatamente isso que eles querem. Divisão.
No exato momento em que o conflito atingia seu ápice, Saren notou algo. O mapa mudou. Um dos oito grandes selos pulsou em um carmesim doentio. O salão tremeu — um solavanco profundo que parecia vir do centro da terra.
As luzes oscilaram, mergulhando o local em penumbra por um batimento cardíaco. Dante levou a mão ao peito, sentindo o calor em seu interior entrar em curto-circuito. Quando as luzes voltaram, Saren desativou o holograma, mas seu rosto, por um milésimo de segundo, revelou algo que ele jamais admitiria: medo.
ATO 3 — AS SOMBRAS REAGEM
Na floresta de árvores carbonizadas, o cenário era de um pesadelo congelado. O guerreiro de lava, um colosso de rocha e chamas instáveis, tentava se manter de pé, seus movimentos erráticos deixando um rastro de vidro derretido e fumaça ácida.
— A chama… arrancada… — o murmúrio soava como rocha sendo esmagada.
Três figuras surgiram, descolando-se da realidade. Vareth, Seris e Norath. Seris aproximou-se, seus olhos vazios de íris dissecando a estrutura energética do colosso.
— Despertou — disse ela. — Mas, diga-me, por que o aprisionaram no vazio?
A criatura levantou o rosto, faíscas incandescentes saltando de suas fendas.
— Medo… segredos… — sibilou.
Vareth deu um passo, sua aura distorcendo o ar.
— Alguém o chamou das profundezas. As chamas devem purificar este mundo, não apodrecer no silêncio.
— Quer vingança contra quem o selou? — Norath rugiu, um sorriso cruel curvando seus lábios. — Podemos ser o seu instrumento.
Seris ergueu as mãos. Runas sombrias, como correntes de ferro, giraram em torno do guerreiro. O magma reacionou, as rachaduras em seu peito fechando-se em uma silhueta de cinza e fogo que lutava para manter a forma humana.
— Quem selou meu nome? — o guerreiro exigiu, o poder estabilizando-se.
Vareth sorriu, um gesto desprovido de qualquer humanidade.
— Aqueles que temem o retorno. Os que se escondem atrás de luzes falsas.
O guerreiro de lava respirou, e uma coluna de fumaça negra ergueu-se.
— Ainda não — ordenou Vareth, contendo o ímpeto da criatura. — Sua forma precisa se ancorar.
Um portal irregular, um corte na realidade, abriu-se. As sombras arrastaram o guerreiro para dentro. Quando o portal se fechou, o silêncio retornou à floresta. No mesmo instante, a vibração que abalara a Academia percorreu o solo carbonizado.
O corpo em chamas não se consumiu. Ele pulsou.
ATO 4 — NOITE DAS HERDEIRAS
O quarto de Lyra era um santuário precário. Nami, Maira e Lyra estavam sentadas no chão, cercadas por livros que não liam. O cansaço era uma névoa que nublava seus pensamentos.
— O Kael tem dormido? — Nami perguntou, abraçando os próprios joelhos. — Ele está… ele parece que está se desfazendo.
Maira suspirou, puxando uma mecha de cabelo nervosamente.
— Insônia. Ele não consegue tirar a imagem da ferida do meu ombro da cabeça. E o Dante… ele finge. Ele tenta esconder o medo toda vez que sente uma oscilação na energia.
Lyra, com o olhar perdido na melancolia, murmurou:
— Pelo menos vocês podem ser honestas umas com as outras. O Lukas… ele está diferente. Distante. Ele sente que algo está acontecendo, que estou ocultando algo. E, Deus, estou.
Nami pousou a mão sobre a de Lyra.
— Você precisa manter o controle. As regras são o que nos mantêm vivas. Ele não pode saber dos Defensores.
— Eu sei — Lyra tinha os olhos marejados. — Mas dói. Cada mentira é um peso que carrego no peito.
A porta abriu-se. A mãe de Lyra entrou. Sua elegância era silenciosa. Ela varreu o quarto com um olhar que parecia enxergar através de qualquer fachada que as garotas tivessem construído.
— Vocês estão bem? — o tom da mulher flutuava entre o maternal e o investigativo.
— Sim — Lyra respondeu, rápido demais.
A mãe deu um passo à frente, os olhos fixos na expressão exausta das três.
— Olheiras profundas. Cansaço crônico. Estão todas bem?
— Sim, senhora — responderam em uníssono, a voz ensaiada.
A mulher sorriu. Não era um sorriso reconfortante. Era o sorriso de quem sabia que segredos têm prazo de validade.
— Entendo. Tomem cuidado. Algumas cargas são pesadas demais para se carregar em segredo. E, meninas… as dívidas do passado sempre cobram o que ficou inacabado.
Ela saiu, fechando a porta com um clique seco.
— Será que ela sabe? — Nami sussurrou, a voz trêmula.
Lyra não respondeu. Apenas observou a maçaneta.
ATO FINAL — ESCALADA GLOBAL
A penumbra de um beco comercial em Solarion foi rasgada por um ganido metálico — um som aberrante que desafiava as leis da biologia terrestre. Sobre uma pilha de caixas, uma criatura do Vórtice, pequena, um emaranhado de garras e dentes, sibilava enquanto observava sua presa.
O entregador noturno, pai de Skam, não teve tempo nem de processar o terror.
A primeira lâmina atravessou seu peito. Não foi uma invasão, foi um assassinato. A criatura, um resíduo do cerco, vagava faminta.
O bipe ruidoso nos comunicadores de Kael, Aiden e Dante soou simultâneo na Academia. A voz de Saren era um comando frio:
"Rastreamento confirmado no Setor 4. Um civil morto. A teoria é fato: elas estão entre nós. Vão. Eliminem o rastro. Não deixem vestígios."
Dante foi o primeiro a se mover, ignorando a dor.
— Eu vou na frente.
— Você está instável, Dante — Aiden segurou seu braço. O toque foi interrompido por um calor que queimava através da roupa.
— Eu não vou ficar para trás — Dante respondeu.
O fogo sob sua pele reagiu à sua vontade e à sua raiva. O piso, sob a pressão de seu passo, cedeu. Uma rachadura fina, mas profunda, abriu-se no concreto. Por um segundo, a chama ao redor dele escureceu, tingida pelo tom sombrio do Vórtice.