ATO 1 — A QUEDA DA GRAVIDADE
O Punho de Aço não desceu como golpe. Desceu como sentença.
O galpão abriu antes de cair. O concreto correu em linhas tortas. O metal cedeu.
Dante reagiu tarde. O fogo saiu dele em um jorro cru, que subia do centro do piso.
A pancada varreu tudo.
Kael foi arremessado para o lado. Nami caiu de joelhos. Aiden firmou os pés e o gelo explodiu sob suas botas, estilhaçando o chão em volta.
Maira foi a única que não cedeu.
Ela se agachou, tocou o piso com os dedos e ouviu a terra. O concreto rompeu sob a mão dela e subiu em uma contenção torta, baixa, imperfeita — uma costela de solo e entulho comprimido. O suficiente para beber parte da onda antes que ela atravessasse o galpão.
O galpão não caiu. Só respirou fundo.
ATO 2 — O AR HOSTIL
Lukas travou perto da entrada.
A pressão o jogou de volta sem mão, sem ombro, sem aviso. O que ele via não encaixava em nada que conhecia. O espaço inteiro parecia ter perdido o eixo.
Ele tentou avançar.
O calor o expulsou.
Lukas voltou a tentar.
Um passo.
O calor esmagou o ar diante dele outra vez.
O peito travou. O corpo recusou.
Não era medo.
Era como tentar atravessar uma tempestade feita de pedra.
Ele cerrou os dentes.
Tentou pela terceira vez.
Nem conseguiu erguer o pé.
Ficou parado. O corpo já tinha decidido por ele.
— Controle! — alguém gritou.
A palavra se perdeu no estalo do fogo e do metal.
Lyra sentiu a quebra antes do golpe chegar. O pouco de vida que restava ao redor dela encolheu de uma vez. O musgo endureceu nas frestas. As raízes sob o piso se retraíram, como se alguém as tivesse puxado pelo avesso.
Ela tentou agarrar o que sobrou.
Um cipó fino nasceu torto da alvenaria, procurou Vor'Gath e morreu antes de existir direito.
Ryu cortou a fumaça com um feixe curto de luz. Não iluminou a cena. Só abriu espaço para respirar.
Vor'Gath avançou.
Não corria. Não precisava. Cada passo deixava o concreto marcado por uma pegada derretida. O ar se dobrava ao redor do corpo imenso. Dante respondeu com outro surto de fogo, puxado para a frente pelo simples fato de encarar aquilo.
— Então é você — disse Vor'Gath. — O que carrega a chama sem fechar a mão.
Dante foi.
Os dois se chocaram.
O teto cuspiu placas. Fumaça pesada desceu sobre o galpão. Dante foi lançado contra uma coluna e caiu de joelhos. O fogo nos braços tremia, sem contorno, sem dono.
Vor'Gath se aproximou como quem mede uma fissura.
— Muito poder — disse. — Pouca forma.
Vor'Gath não atacou imediatamente.
Observou as chamas negras subirem pelos braços do garoto.
Como quem reconhecia algo antigo.
Um poder enorme...
Preso em mãos pequenas.
ATO 3 — O TABULEIRO ROMPE
No alto da passarela, Korran observava sem se mover. Os olhos dele não tinham pressa; tinham cálculo.
— Cresceram cedo demais — murmurou.
Abaixo, Klyrion entrou pelo flanco de Kael como um erro no espaço. O vento defensivo veio torto. A barreira falhou sem parecer barreira. Klyrion atravessou e acertou em cheio. Kael bateu na parede lateral e dobrou o corpo ao cair, como se o ar tivesse saído dele de uma vez.
— Potência sem lastro — disse Klyrion. — Quebra fácil.
Nami tentou cobrir a abertura, mas a água se arrastava pesada no calor. Klyrion girou o corpo com economia brutal e atingiu Aiden no centro da formação. O gelo sob os pés do garoto explodiu em fragmentos. Aiden caiu de lado, o braço vibrando até o ombro.
Lyra se mexeu outra vez.
Não buscou luz. Buscou o que ainda respirava dentro da ruína.
Algo respondeu. Pouco.
Um escudo orgânico começou a engrossar no antebraço esquerdo dela, cascas sobre cascas, como pele que não lembrava ainda como virar defesa.
Vor'Gath virou inteiro na direção dela.
O ar ao redor pareceu engrossar.
— Essa daí não deveria estar aqui ainda.
ATO 4 — O QUE VÊ DE FORA
Do lado de fora, os Sete Rivais tinham parado.
Reno continuava de pé, só que a mão dele estava enfiada no bolso, apertando alguma coisa que ele não tirava de lá. Os olhos seguiam o galpão sem piscar.
— Isso não é briga — murmurou, mas a frase saiu baixa demais para parecer coragem.
Nirse deu meio passo para trás e parou como se tivesse encontrado uma parede invisível.
— A gente não devia estar vendo isso.
Ilia deixou o celular cair. Não por desespero teatral; a mão simplesmente abriu.
Craven ergueu a câmera e insistiu por um segundo a mais do que devia. A tela morreu em estática cinzenta. Ele ficou olhando para o reflexo morto, os lábios mexendo sem som.
— Não grava — disse, quase para si. — Nada.
Violet virou o rosto na hora em que o calor fez os vidros da fachada estalar. Um caco caiu entre os pés dela. Ela olhou para ele como se o pedaço de vidro fosse culpa dela.
Skam não recuou. Só apertou os dedos no próprio antebraço, uma força mínima demais para ser coragem, grande demais para ser calma.
— Eles não estão lutando para vencer — disse.
A frase saiu seca, quase sem ar. Depois ele completou, num tom mais baixo: — Estão sendo usados.
O som de metal cedendo veio de dentro. Daryl fechou os punhos e deu um passo para a frente, como se o corpo tivesse decidido algo que a boca ainda não aceitou.
Reno respondeu rápido demais:
— Não tem o que fazer. A gente sai agora.
— Mas fomos nós que armamos para— — Violet começou.
— Chega. Vamos embora.
Ninguém discutiu depois disso.
Eles recuaram pela lateral da rua escura, um por um, como gente tentando não ser lembrada pelo lugar.
ATO 5 — A FACA ENTRA
Dentro do galpão, o campo se partiu.
Korran desceu pela passarela com passos secos no metal.
— Reagem melhor do que o esperado — comentou, como se anotasse um resultado.
Klyrion continuava a quebrar Kael e Aiden alternadamente, sem pressa. A pressão dele não precisava terminar para provar que podia.
Do outro lado, Dante já estava de pé de novo. Vor'Gath o olhava fixamente.
— Você sente o poder — disse o monstro de magma. — Mas ele não sente você.
Dante avançou outra vez.
O choque arremessou os dois para trás. Dante rolou pelo chão com o peito ardendo por dentro. Vor'Gath caminhou na direção dele para fechar a distância.
Maira entrou no meio.
Sem aviso. Sem frase.
Ela fincou os pés e o piso respondeu com violência. Dois pilares de pedra comprimida romperam o concreto ao lado de Vor'Gath, forçando o gigante a desviar por um instante.
— Terra — reconheceu ele.
Maira não respondeu. Levantou a mão. O chão entre os dois ondulou, pesado, denso, como se alguma coisa enorme respirasse sob a fundação.
Do outro lado, Ryu e Klyrion.
Luz curta. Afiada. Klyrion desviava de tudo com a calma de quem sabe o resultado.
Até que Ryu jogou um clarão direto nos olhos dele.
Um segundo.
— Isso quebra rápido — disse Klyrion, recuperando a visão.
Lyra aproveitou a abertura. Pressionou as mãos contra o chão rachado e puxou o que restava de raiz, fibra, memória verde nas fendas do concreto.
O escudo no antebraço engrossou.
Ainda frágil. Mas vivo.
Lukas, preso na lateral do galpão, viu o impossível. Dante em chamas. Nami puxando água de um chão morto. Maira dobrando o solo com o peso do próprio corpo. E, no centro, uma criatura de magma que não parecia ter sido desenhada para esse mundo.
Ele tentou correr.
O calor o empurrou de volta antes do terceiro passo. Bateu na estrutura lateral e perdeu o ar. Levantou quase no mesmo instante, mas agora já não olhava como quem busca sentido.
Korran virou o rosto para a lateral do campo. Os olhos dele passaram por Sophia, prenderam nela um instante mínimo e seguiram adiante.
— Essa fica para depois — murmurou.
Klyrion dobrou o ar ao redor de si e surgiu atrás de Nami.
— Atrás de você! — Kael gritou da parede, tarde demais.
Klyrion não atacou primeiro. Segurou.
A mão fechou com força de morsa no braço de Jessica. A garota tentou gritar — mas nenhum som saiu.
Ela olhou por cima do ombro. Só uma vez. Entendeu na hora que não voltava.
Por um instante, o galpão inteiro pareceu prender a respiração.
Jessica não gritou.
Apenas procurou um rosto conhecido.
Encontrou o de Ryu.
— Jessica! — Ryu girou o corpo no mesmo instante.
Korran saltou da passarela e pousou entre eles.
— Não — disse. — Daqui vocês não passam.
Dante tentou avançar pelo flanco, mas Korran se moveu com economia cruel. Um golpe curto. Seco. Dante foi arremessado contra uma coluna lateral e o fogo apagou por um segundo inteiro.
Ryu estancou.
— Solta ela — disse, baixo.
— Ela não faz parte disso — insistiu.
— Exatamente por isso — respondeu Korran.
Maira tentou fechar o flanco de Klyrion com uma fissura diagonal no chão. Klyrion olhou para a terra se abrindo.
— Criativa.
Saltou por cima sem perder o equilíbrio. A linha não segurou. Klyrion pousou do outro lado com Jessica ainda presa e recuou em direção à penumbra.
Lukas viu o corpo dela desaparecer na escuridão.
O mundo pareceu desacelerar.
Jessica ainda estendeu a mão.
Não para pedir ajuda.
Como quem se recusava a aceitar que aquilo fosse o fim.
Lukas respondeu por instinto.
Correu.
Não por estratégia. Por reflexo.
Chegou ao centro da faixa de destruição no mesmo instante em que Lyra cambaleava à frente de Vor'Gath.
Ela tentou abrir espaço para ele. Tentou puxar o chão, prender o peso do monstro, qualquer coisa.
Não deu tempo.
Lukas entrou no meio.
Travou.
O corpo lembrava.
O atraso.
O treino.
Lyra quase atingida.
Sempre um passo depois.
Não agora.
Dessa vez não.
A perna respondeu.
Meio passo.
E parou outra vez.
O corpo fechou. O ar parou no peito dele. A mão ficou a meio caminho. A ideia de agir morreu antes de virar gesto.
Lyra olhou para ele uma fração de segundo — e esse segundo custou caro.
Vor'Gath desceu o braço.
Ele nem viu o golpe chegar.
O impacto pegou Lukas de lado e o arremessou contra as vigas. O som seco do corpo no metal cortou o galpão. Ele caiu de um joelho, engasgando, e ainda assim tentou se levantar.
Não conseguiu.
ATO 6 — A LINHA QUE CEDE
Lyra estava caindo.
O ar queimava seus pulmões. O som vinha de longe. Vor'Gath estava diante dela. Imenso. Imóvel. Certo de si.
— Não se mova — disse ele. — Isso só prolonga.
Ela ergueu o rosto com esforço. A viga caída ao lado tinha um fio de musgo nas frestas do metal torcido. Quase nada. Mas era vida.
Ela encostou a palma ali.
Vor'Gath ergueu o braço direito. O magma se reuniu na extremidade, denso, vivo, pronto para descer.
Lukas viu.
Tentou dar um passo.
Não conseguiu.
— Fraco.
Ryu chegou primeiro. A luz explodiu em um arco largo, puro, e se meteu entre o punho de magma e Lyra no último instante.
O impacto despedaçou a barreira. Ryu foi arrastado de joelhos, a luz falhando em pulsos curtos. Mas Lyra ainda estava viva.
Maira fechou o espaço imediatamente. O chão entre os dois subiu em uma plataforma irregular, obrigando Vor'Gath a recuar dois passos.
— Interessante — murmurou o monstro. — Vocês encontraram um ritmo.
No alto da estrutura restante, Korran assistia.
— Perfeito — disse. E então, sem levantar a voz: — Mudança de planos. Eliminem os núcleos.
Vor'Gath virou o corpo inteiro na direção dos três. O calor no galpão não subiu por raiva. Subiu por execução.
O teto cedeu.
Não em caos. Em cálculo.
A poeira explodiu. Toneladas de metal despencaram e partiram o galpão ao meio.
De um lado: Dante, Kael, Nami e Aiden.
Do outro: Ryu, Maira e Lyra.
E no vão errado entre as duas metades, exposto como uma falha no mundo:
Lukas.
Sem saída.
Ele tentou dar um passo.
O corpo não respondeu.
E os olhos de Vor'Gath viraram devagar na direção dele.
Pela primeira vez desde que a luta começou...
O galpão inteiro pareceu desaparecer.
Não havia mais Korran.
Nem Dante.
Nem Lyra.
Apenas ele.
E Vor'Gath.