Capítulo 5 — O Silêncio à Mesa
Eu não dormi bem.
Não foi por medo exatamente. Foi a sensação constante de que o quarto não era meu. De que o silêncio ali dentro tinha ouvidos. De que cada rangido da madeira era uma lembrança de que eu não estava em casa.
Levantei antes que viessem me chamar. A luz da manhã atravessava as cortinas espessas como uma lâmina pálida, fria, sem calor. O ar do castelo tinha cheiro de pedra úmida e lenha antiga.
Quando bateram à porta, eu já estava vestida.
A criada que entrou foi a mesma da noite anterior. Curvou-se o suficiente para cumprir o protocolo, mas seus olhos passaram por mim como se eu fosse uma peça deslocada de mobília.
— O duque aguarda no salão menor — disse.
Não “Vossa Graça”. Não “Senhora”. Apenas uma constatação.
Assenti.
O caminho até o salão parecia mais longo à luz do dia. Tapeçarias escuras narravam batalhas antigas, homens montados em cavalos pesados, neve pintada como eternidade. Eu sentia olhares mesmo quando não havia ninguém.
Talvez fosse imaginação.
Talvez não.
As portas do salão foram abertas por dois criados. O espaço era menor do que o grande salão da noite anterior, mas ainda assim imponente. Uma mesa longa de madeira escura ocupava o centro, embora apenas duas cadeiras estivessem postas.
Ele já estava sentado.
Isken não se levantou quando entrei. Apenas ergueu os olhos.
— Dormiu bem? — perguntou.
Sentei-me diante dele.
— O suficiente.
Ele inclinou levemente a cabeça, como se avaliasse a resposta.
A mesa estava servida com pães escuros, queijos firmes, frutas secas e uma carne curada que eu não reconhecia. Nada delicado. Nada ornamental.
Ele observava minhas mãos enquanto eu pegava o pão.
Eu senti.
E mesmo assim não hesitei.
— Esperava que recusasse — ele disse, depois de alguns segundos.
Ergui os olhos.
— Por quê?
— Muitos recusam o que não conhecem.
— Fome não costuma ser exigente.
Um canto quase imperceptível de sorriso tocou o rosto dele.
Não era simpatia.
Era interesse.
Ele apoiou o cotovelo na mesa, segurando a xícara de bebida escura que soltava vapor leve.
— Sua família deve estar orgulhosa.
A frase parecia elogio. Não era.
— Orgulhosa de quê?
— De enviá-la tão longe.
O silêncio se instalou entre nós como uma terceira presença.
— Não fui enviada sozinha.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Não?
— Vim acompanhada de tudo o que represento.
Ele não desviou os olhos.
— E o que você representa?
— Represento um acordo.
— Acordos podem ser quebrados.
A naturalidade com que ele disse aquilo fez algo apertar dentro de mim.
— E podem ser mantidos.
— Às vezes.
Ele não levantava a voz. Não precisava.
— Está com medo? — perguntou de repente.
Minhas mãos ficaram imóveis sobre a mesa.
— De quê?
— De estar aqui.
Eu poderia mentir. Seria fácil dizer que não. Mas havia algo no modo como ele me olhava que tornava a mentira pequena demais.
— Sim — eu disse.
O silêncio que se seguiu foi diferente dos outros.
— Medo é útil — disse por fim.
— Nem sempre.
— Sempre.
Desviei os olhos pela primeira vez. As janelas altas deixavam entrar uma luz fria que não aquecia nada.
— O que teme? — ele insistiu.
— Não ser suficiente.
As palavras saíram mais baixas do que eu pretendia.
Ele ficou imóvel.
— Suficiente para quem?
Eu pensei no meu pai. Na viagem. Na despedida onde ninguém chorou.
— Para este lugar.
Ele recostou-se na cadeira.
— Este lugar não exige perfeição.
— O que exige?
Ele passou os dedos pela própria xícara antes de responder.
— Resistência.
A palavra pairou entre nós.
— E você? — perguntei.
Ele pareceu levemente surpreso.
— Eu?
— Também precisa ser suficiente?
Por um instante, algo atravessou o olhar dele. Algo que não era autoridade.
— Todos precisamos — respondeu.
Ele mudou de postura.
— As criadas a trataram bem?
Meu primeiro impulso foi dizer sim.
Mas lembrei da maneira como seguraram o tecido do meu vestido, como se fosse inferior. Da ausência de títulos. Da pausa antes de abrir a porta.
— Elas cumpriram suas funções.
Ele sustentou meu olhar.
— Não foi o que perguntei.
— Não preciso que gostem de mim.
— Não é sobre gostar. É sobre hierarquia.
Eu entendi.
— Ainda estou aprendendo como as coisas funcionam aqui.
— E o que já aprendeu?
— Que todos observam.
Ele não negou.
— Isso a incomoda?
— Deveria?
— Depende do que tem a esconder.
— Não escondo nada.
— Todos escondem algo.
Eu poderia ter retrucado. Mas não queria transformar aquilo em duelo.
— Talvez.
O silêncio voltou, mas não era hostil. Era denso.
Ele terminou a bebida.
— Depois do desjejum, terá tempo para conhecer o castelo.
— Sozinha?
— Prefere companhia?
— Prefiro entender o espaço antes de ser guiada por ele.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Cuidado. Lugares moldam pessoas.
— Pessoas também moldam lugares.
A resposta escapou antes que eu pudesse conter.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Talvez.
Quando a refeição terminou, ele se levantou primeiro.
Eu também.
Ele caminhou até a porta, mas antes de sair, voltou-se para mim.
— Não permita que decidam por você quem deve ser aqui.
Eu o encarei.
— E o que o senhor decidiu que devo ser?
Ele me observou por um longo instante.
— Ainda não decidi.
E então saiu.
Fiquei sozinha no salão por alguns segundos.
Respirei fundo.
O café da manhã não tinha sido uma batalha. Mas também não tinha sido cordial.
Foi algo entre isso.
Um teste.
E eu ainda não sabia se tinha passado.