— Certo, acho que assim está bom.
Cadence deixou que uma mecha fina do longo cabelo ruivo ficasse na frente dos olhos por apenas alguns instantes antes de assoprá-la, os olhos castanhos focados no laço vermelho de fita que amarrava em uma cesta artesanal trançada.
Os dedos brancos eram firmes ao manipularem o tecido, prendendo bem o conteúdo na cesta — embalado em um pano de prato bordado.
Passou as costas da mão pela bochecha, suspirou e recuou para que pudesse contemplar o que tinha feito. Assente de leve após alguns minutos, indo em direção ao guarda-roupas enorme que tinha no quarto; abre as portas e pega uma peça da cor do sangue — uma capa longa com capuz, não tão esvoaçante quanto no dia em que a recebeu de aniversário de sua avó.
O olhar vai até o relógio marrom pregado na parede: quinze para as onze. Devia se apressar se quisesse saborear os docinhos que tinha feito com sua avó, logo após o almoço delicioso que ela costumava preparar para as duas.
Cadence sorri para ninguém, contemplando as boas horas que passaria com sua amada vovózinha.
Assim que passa pela bancada que divide cozinha e sala de estar, Cadence segue até o sofá — as mãos amarrando as fitas da capa vermelha em seu pescoço com maestria — e pega a camiseta jogada ali. A sigla da organização na qual trabalha estão estampadas em preto, contrastando com o branco sem graça da peça.
Cadence repara que há uma mancha de mostarda no seu uniforme de trabalho e faz uma careta irritada.
— Depois resolvo isso, — diz, arremessando a blusa em uma pilha discreta ao lado do móvel desgastado. Foi buscar a cesta e trancou a porta de casa ao sair.
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Pequenas gotas de chuva caem por sua capa, e Cadence cobre seus cabelos ruivos com o capuz grande. Gostava tanto do presente que virara sua marca registrada, tendo até mesmo recebido o apelido "Chapeuzinho Vermelho" da boa senhora.
A jovem gostava de ser chamada assim, quase como uma entidade não humana que vagava pela cidade com sua capa esvoaçante; a identidade de quem usava a capa não importava, somente sua cor chamativa e o ondular do tecido assolado pelo vento.
Trilhava o mesmo caminho todas as vezes, uma breve caminhada que deixava a cidade para trás e abraçava a natureza em minutos. O vento erguia sua saia, fazia-a rodopiar pelas coxas e tirava-lhe um sorriso; Cadence via cada vez menos pessoas conforme adentrava a floresta de pinheiros altos que levava à casa da avó, e isso não parecia incomodá-la nem um pouco. Sabia o caminho de cor e podia trilhá-lo até mesmo numa noite de lua nova.
A moça passa a mão de leve na saia vermelha — sua cor favorita e a que mais ressaltava suas feições delicadas — para tirar a poeira que subia pelo farfalhar da brisa; as sapatilhas escuras pisavam firmes na estrada de chão, seu ritmo quase um dançar descontraído.
A chuva continuava para além da cidade.
Quando passa por uma placa que caía aos pedaços, Cadence tem a sensação de estar sendo seguida. Imediatamente alerta, a moça cessa seu caminhar e olha em volta; além das folhas que voavam, e dos poucos animais que ousavam sair de suas tocas naquele tempo, nada de anormal surgia à vista. Cadence passa pouco tempo parada, voltando a caminhar depressa pois se lembra da hora — não queria deixar Vovó esperando nem mais um minuto.
A sensação retorna. É fraca, mas suficiente para deixar a jovem nervosa. Não era incomum que, assim como Cadence, outras pessoas atravessassem a floresta por aquele exato caminho. Entretanto, a mata costumava ser tão silenciosa, e tais encontros tão escassos, que ela não pôde deixar o desconforto de lado.
Então uma voz, grave e rouca, ressoou das árvores.
— Menina da capa vermelha..o que trás na sua cesta?
Cadence sente cada músculo do corpo tensionar e os olhos se arregalarem. O ar falta-lhe aos pulmões, as mãos agarram a alça da cesta com força, os pés param. Foram poucos minutos que pareceram horas ali, congelada de medo. Mais ninguém sai da mata, e Cadence não deu mais chances para que o fizessem: sai correndo em disparado, sem olhar para trás.
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Quando chegou à casa da avó, Cadence parou por alguns instantes à porta e apoiou as mãos nos joelhos. Seus pulmões queimavam, a boca estava seca e os pés doíam. Deu três toques na porta e esperou, pela primeira vez olhando por trás do ombro no caso de ter sido seguida.
O caminho estava vazio.
A porta de carvalho escuro se abre, a figurinha da avó de Cadence logo surgindo detrás dela. O cabelo grisalho e muito volumoso se encontrava preso em um coque frouxo; as roupas largas a protegem do frio e fazem com que tenha ainda mais cara de "vó", terminando nas pantufas rosa que abafam seus passos pelo piso.
— Querida! O que houve? — pergunta assim que vê Cadence atônita à porta.
Cadence só precisa de um segundo para responder: — Nada vovó, não queria que esperasse muito.
A jovem entra, tirando o capuz e puxando bastante ar em um suspiro longo e profundo; confere a cesta, receosa de que a sobremesa tivesse se desfeito pela correria. Envolta no pano e presa com firmeza, nada parecia fora do lugar.
— Como você está, minha neta? — Vovó sorri largamente, os braços abertos esperando uma atitude da outra.
Cadence retribui o gesto, abraçando-a forte.
— Tô bem, vó. E a senhora? Já comeu?
— Claro que não! Eu quero comer com minha netinha. Deixe a capa comigo, vou pôr pra secar.
Cadence assente, entrega a capa e coloca a cesta na mesa. Procura o avental na cozinha, veste-o e vai para os armários.
— Desculpa a demora vó, eu ando tão envolvida com o trabalho que acho que tô ficando meio lerda.
A senhorinha puxa uma cadeira e se senta, as rugas do rosto visíveis.
— Você anda comendo direito, minha filha?
— Sim, vovó.
— E dormindo cedo?
Cadence pensa nas noites que passa em claro ouvindo música, treinando no quarto ou assistindo filmes.
— Aham.
— Você é muito jovem, tem que cuidar da própria saúde enquanto é tempo. E as suas férias, você sabe quando vão ser?
— Ah, — Cadence dá de ombros, movendo uma panela e uma frigideira para o fogão. — O calendário lá no trabalho diz que eu devo ir até a sexta da semana que vem. Na verdade não, — ela ergue o indicador e para tudo o que estava fazendo, o olhar no teto. — Na semana depois dessa semana.
— Eu adoraria que viesse passar as férias comigo, minha filha. Gosto muito quando vem me fazer companhia.
Cadence tem a decência de ficar de costas para a avó antes de fazer uma careta com o comentário. Embora adorasse compartilhar docinhos e histórias com ela todos os dias, ou na maioria dos dias, era outra coisa bem diferente morar com ela por um mês inteiro. Lembrava-se bem das festas, de como sempre acabava estressada por não estar na própria casa.
— Eu venho, claro.
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A macarronada com molho de tomate e carne moída ficou tão cheirosa que Cadence sente a boca salivar ao encarar a travessa de vidro na mesa. Serviram-se e comeram, uma do lado da outra, trocando anedotas e contos aleatórios como sempre faziam. À luz do sol da tarde, os cabelos de Cadence pareciam o fogo mais ardente de uma fogueira, quentes e radiantes.
— Sabe que quando quiser ir lá pra casa, a senhora pode me dizer, né? — a moça lança um olhar para a idosa, que acena com a cabeça em resposta. — Não é muito calmo como aqui, mas o quartinho sempre tá pronto pra senhora.
— Eu sei, minha filha, obrigada. Eu tenho mesmo que te fazer uma visita esses dias.
Cadence dá um sorriso, feliz que tinha com quem ter esses diálogos. Podia pensar em algumas coisas na casa de sua avó que mereciam mais acabamento e limpeza, outras que precisavam ser compradas no mercado, mas agora nada disso importava. Que deixasse isso para a Cadence do futuro.
— Você está pensativa. Houve alguma coisa mais cedo, minha filha?
De repente, o macarrão na sua boca azedava e Cadence perdia a fome. Não tinha mais pensado na voz estranha entre as árvores e, com a fala de sua avó, constatava a terrível verdade de que teria de retornar pelo mesmo caminho quando fosse para casa. Ela podia jurar que suas mãos esfriaram em poucos segundos com a possibilidade de passar todo aquele medo mais uma vez.
— Não, tá tudo bem sim. É que.. — pensa um pouco, desviando os olhos para a esquerda. — Já tô pensando nas compras que vou ter que fazer no mercado quando voltar. A camisa do uniforme tá suja de mostarda e meu sabão acabou, aí vou ter que comprar mais.
Vovó faz cara de quem não acredita no que acabara de ouvir.
— Ora minha filha, leve um pouco do meu! Eu não uso tanto sabão, pode levar, eu fiz esses dias um pouco mais!
— Não vô, não precisa se preocupar.
— Que preocupar o que, eu tenho sabão e quero te dar, ora! Você me ajuda muito, um pouco de sabão não é nada!
Cadence ri baixinho, dá de ombros e vai até a pia da cozinha — onde sua avó guardava todo o sabão que fazia. Enfia as barras em uma sacola plástica, que levaria dentro da cesta na volta, e rouba mais alguns brigadeiros com granulado.
— Obrigada vó, por tudo.
— Obrigada você, minha filha. Deus abençoa seu caminho, me avisa quando chegar em casa.
— Eu aviso sim. — diz, pegando a cesta e a capa, saindo pela porta.
A moça dá passadas firmes em frente, paranoica desde o momento em que os dois pés se distanciam da soleira da porta. Os olhos velozes escaneiam o chão à procura de uma pedra bem grande e pontuda; acabou por encontrar um punhado delas, à beira da estrada e próximas umas das outras. Encheu a cesta com as pedras, nem um pouco incomodada com a sujeira que estava fazendo, e volta a caminhar.
A rua dá lugar à trilha em meio às árvores. Com raios de sol iluminando o caminho por entre elas, Cadence se permite respirar fundo e pensar. Detestava a ansiedade que vinha com o medo, o sentimento de apreensão que a faz duvidar de tudo o que pensa e vê.
— Menina da capa vermelha..
O chão parece sumir debaixo dos pés dela. Os pelos se arrepiam instantaneamente, e um som agoniado sai da boca da jovem. Era a mesma voz de antes, agora num local diferente.
— Que foi!? Nunca viu não!?
Cadence não sabia por que sentia tanta raiva de repente, mas tinha se cansado daquilo. Se fosse lidar com algum maluco no meio da mata, que ao menos ela lutasse contra. Tinha sua chances.
Um grunhido baixo e animalesco foi seguido de alguns sons de galhos de partindo atrás dela. Ao se virar, Cadence leva uma das mãos à boca, incapaz de conter a surpresa.
Um lobo enorme, muito maior que qualquer lobo que ela já tivesse visto nas redondezas, saía detrás de um pinheiro particularmente alto. A criatura caminhava em duas patas, uma visão pavorosa, porém logo passou a engatinhar ao ter certeza de que o viam. Os olhos muito claros e de um azul quase prateado encaravam Cadence com atenção, as orelhas cobertas de pelo escuro movendo atentas. Suas garras cortam frágeis galhos e folhas espalhados pelo chão, saindo de patas grandes e fortes que sustentavam o lombo majestoso. Suas presas anormalmente brancas destoavam da pelagem negra quando falava.
— O que leva em sua cesta, garota?
Cadence não podia raciocinar. Todos os sinais de alerta martelavam em sua mente, uma pulsação dolorida começando a incomodá-la. Achou estranho que aquele lobo pudesse falar, mas não muito; o mundo era surpreendente, afinal de contas, e muitas coisas podiam acontecer que fugiam à compreensão.
— Sabão. Para lavar roupas.
O lobo dá alguns passos à frente, arrebatando ainda mais ar dos pulmões da menina. Suas baforadas quentes pareciam chegar até as canelas dela, carregadas de sangue das suas presas. Ele dá o que ela interpreta como um sorriso — embora bem mais apavorante.
— Sabão? Vocês humanos têm hábitos tão estranhos..
Ela consegue forçar uma das pernas a recuar, e o olhar do lobo ganha um tom ameaçador.
— Já indo embora? Eu queria conhecê-la melhor.
— Tenho muitas coisas pra fazer então sim! Já vou indo, — respondeu.
O animal, então, se senta e vira a cabeça como um cão doméstico — observando-a. Seus olhos cintilam, a cauda se abanando e a curiosidade crescente.
— Amanhã você vai trazer..sabão nessa cesta? — questiona ele, focado especialmente na glamurosa capa vermelha que ela usava.
Cadence sente os ombros relaxarem, pela primeira vez um pouco menos afoita com tudo aquilo. O lobo poderia tê-la atacado se quisesse, porém suas intenções pareciam serem as mais genuínas e inocentes possíveis com aquele encontro. Pensou que, por ele ser um lobo e ter uma aparência assustadora, provavelmente não tinha muitas opções de com quem passar o tempo.
— Não, — respondeu, agora mais confiante que antes. — vou visitar minha avó e levar doces que faço para ela.
Os olhos do lobo ganharam ainda mais brilho e seu olhar ficou mais intenso; era quase como se estivesse fitando a alma de Cadence, estudando-a meticulosamente. Sua voz demonstrava contentamento e admiração quando disse:
— Doces? Isso me parece muito nobre da sua parte, menina. Qual o seu nome?
Cadence abrira a boca para dizer e, então, mudou de ideia. Ainda que sentisse pelo lobo e sua solidão, eles se conheciam há pouquíssimo tempo. Optou pelo mais fácil.
— Chapeuzinho Vermelho. E o seu?
Diante da resposta, o lobo sorri. — Pode me chamar de Lobo. É um prazer, Chapeuzinho.
O sol já se movera consideravelmente no céu, e Cadence notou que estava ficando tarde. Olhou um pouco mais o lobo e falou:
— Eu tenho que ir agora. E um conselho? Não assuste as pessoas quando passarem por aqui, assim elas talvez não te achem tão assustador.
O Lobo assente com a cabeça, não dizendo mais nada. Somente quando Cadence se virou e desapareceu pela trilha, foi que ele deixou o seu lugar e seguiu na direção oposta.
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Ao entardecer, Cadence avisa sua avó de que tinha chegado bem em casa. Passa os olhos pela cesta imunda e solta um suspiro misturado com uma risada nervosa; achava engraçado que seu medo a tivesse deixado tão apavorada àquele ponto. Colocou o pano de prato junto das demais roupas para serem lavadas, guardou o sabão e foi esfregar a camisa para usar no dia seguinte. O encontro com o Lobo não saía de sua cabeça.
— Minha avó sempre me contou histórias de criaturas fantásticas que a gente só não vê, mas que existem. Ele deve ser uma delas. — murmura, enquanto seus dedos se esfolam esfregando o tecido na pia do banheiro. — E parece que eu vou tornar a ver ele amanhã.
A ideia não lhe pareceu má. Se o Lobo queria companhia, assim como sua avó, ele tinha esse direito, não? Terminou de limpar a blusa, soltou um bufo de cansaço e se jogou no sofá para ver um filme. Quando chegou na metade dele, o encontro peculiar já tinha deixado os seus pensamentos.
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