Capítulo 2 - A Noite Mais Fria
A manhã estava clara, e a hospedaria ainda guardava o silêncio preguiçoso das primeiras horas.
Darius observava o cubo de gelo sobre a mesa. Desde o dia anterior, ele permanecia intacto. Agora, porém, pequenas gotas começavam a deslizar pela superfície — o primeiro sinal de que cederia.
Ele se aproximou, tocando o gelo com a ponta dos dedos.
Mesmo assim… ainda é impressionante.
Selene, já pronta para sair, ajustava a bainha da espada.
— Vamos?
— Sim. — Darius colocou o manto e encobriu o rosto, como de costume. — A guarnição vai nos acompanhar para ouvir mais testemunhas.
Ao saírem pelas ruas de pedra, o som do mercado se misturava ao ranger das botas da guarda. O grupo seguia rumo ao distrito onde ficavam as casas dos criados. No caminho, Selene avistou uma figura familiar.
Eliot, com uma vara de pescar apoiada no ombro e uma caixa de madeira na outra mão, caminhava tranquilo em direção ao lago.
Darius percebeu o interesse no olhar dela.
— Por que não vai conversar com ele? Veja se consegue mais informações sobre aquele cubo de gelo.
Os guardas que os acompanhavam se entreolharam, visivelmente desconfortáveis.
— Não é… muito seguro deixar uma garota sozinha, não acha? — comentou um deles.
— Não tem problema. Eu sei me proteger. — disse Selene.
— Mesmo assim… — murmurou outro, sem insistir.
Ela se afastou do grupo e alcançou Eliot antes da pequena ponte de pedra.
— Olá, querida cliente! — Eliot sorriu, animado. — Veio comprar mais peixes? Não se preocupe, estou indo buscar mais. Minha loja abre depois do meio-dia.
— Não vim comprar peixe. Queria conversar com você. Ah, e meu nome é Selene. Selene Blackthorne.
— Você é uma nobre? — ele arqueou a sobrancelha.
— Sou.
— Nesse caso, os peixes de hoje serão ainda melhores. Tem certeza que não quer?
— Não. Preciso de informações, não de peixes.
— Que pena… e eu que achei que os negócios estavam indo tão bem. — ele brincou.
— Tem vendido muito?
— Sim. Vendi todo o meu estoque ontem.
— Eu sei. Fomos nós que compramos. — Selene cruzou os braços. — Meu mestre ficou intrigado com o cubo de gelo que você usou.
— Ah, aquilo? Nada demais. Congelei assim para, se sobrasse, não estragar no dia seguinte. É só bater até quebrar ou jogar em água fervendo que descongela mais rápido.
— E como você congelou?
— Uso magia do gelo. Não foi problema.
A frase de Darius ecoou na cabeça de Selene: "O único truque… é que foi feito por alguém muito talentoso."
Ela pensou em perguntar o nível dele, mas segurou.
— Você conhece a família Tharovain? Ouviu algo sobre eles?
— Só de nome. Nunca vi.
— Você não é daqui, então?
— Não. Sou viajante. Cheguei há dez dias. Vendo peixe para juntar dinheiro e seguir para outra cidade.
— Um viajante? Com quem você viaja?
O olhar de Eliot mudou. Por um instante, sua expressão ficou pesada, como a de alguém que carregava perdas demais.
— Ninguém. Não tenho ninguém para viajar junto.
Selene percebeu que havia tocado num ponto sensível e tentou retomar o assunto de forma desengonçada:
— Por quê? Está interessado no assassinato? — perguntou Eliot, de repente.
— Você soube? — Selene franziu o cenho.
— Como não saberia? — ele respondeu, quase confuso. — Falam disso em todos os cantos. Não sabem quem foi, mas os rumores estão por aí.
— Ah, sim… é verdade. Bem, eu sou uma das responsáveis pela investigação. Estou coletando informações para encontrar o culpado.
— Entendi. Bem, boa sorte. — Eliot começou a se afastar, mas parou. — Se quiser conversar mais, pode me acompanhar até o lago. Preciso pegar alguns peixes para vender depois.
Selene hesitou por um momento, mas a curiosidade falou mais alto.
— Certo.
Enquanto Selene se afastava, Darius seguiu com dois guardas para o bairro dos criados. No caminho, um deles comentou em voz baixa:
— Naquela noite… foi a mais fria que a cidade já viu. O inverno inteiro coube numa madrugada.
Darius ouviu sem responder. A família não era fraca. Quatro irmãos guerreiros, dois pais igualmente habilidosos, dezenas de soldados de elite. Derrotá-los exigiria força e estratégia — talvez até um ataque em grupo. Mas as marcas no gelo, a destruição desordenada sugeriam algo diferente… algo pessoal.
Se foi mesmo só uma pessoa… pensou. Então é alguém que não pode ser subestimado.
A porta da casa se abriu, revelando uma senhora idosa, a criada que sobrevivera à noite do massacre.
— Eu… nunca vi nada igual, senhor — disse, a voz rouca. — Acordei com um som pesado. Não era vidro… eram paredes. Madeira. Pedra. O chão vibrava a cada impacto, como se algo estivesse derrubando a casa inteira.
Ela respirou fundo.
— Quando saí do quarto, o ar já estava errado. O frio entrava nos ossos. O corredor estava tomado por gelo, e cada passo parecia quebrar alguma coisa sob meus pés.
Darius manteve o silêncio, deixando que ela encontrasse as palavras.
— Não vi quem era… — continuou. — Vi criados correndo. Um deles pegou meu braço e disse: “Ele falou que os criados que fugirem ele não vai atrás. Está aqui só pela família.”
'Ele? — martelou na mente de Darius. Foi apenas uma pessoa?'
Ela continuou: membros da família lutando desesperadamente, soldados gritando que era impossível vencê-lo, o pânico se espalhando. No caos, ela correu com outros criados.
Darius inclinou a cabeça.
— E esse criado… onde está agora?
— Ele não saiu comigo. Quando olhei de volta… não o vi mais.
— Qual o nome dele?
— Alric, senhor.
O nome ficou pesando no silêncio quando Darius saiu para o pátio. O ar lá fora ainda parecia mais frio do que deveria.
Darius deixou a casa em silêncio, os passos lentos no pátio gelado.
Apenas uma pessoa… repetia na mente.
'Se for verdade… o inimigo é mais perigoso do que eu imaginava.'