CAPÍTULO 01: A ESCOLA NOVA
Lucian, que havia saído a pouco da sala do diretor, observava novamente o monitor. Em seu uniforme, tinha alguns broches com significados políticos, reafirmando a categoria da qual pensava que ele fazia parte.
Porém, seu momento de observá-lo não durou muito, ele estava com um sorriso estranho e havia esticado a mão, tomou-a e cumprimentou-o em silêncio, recebendo um riso curto dele.
— Bom dia, Lucian. A sua visita à escola vai ser conduzida por mim, me chamo Miguel — disse devagar, seguido por uma careta estranha, apontando para a porta fechada —, mas pode me chamar de Kael. Como ele lhe disse, serei seu guia turístico da escola mais antiga da cidade e bem sucedida nos vestibulares.
Com a porta fechada em sua face, notou o corredor que estava vazio e o ambiente fazia um eco até que confortável, havia escutado seu guia falando, mas ainda estava em sua mente o rebelde, como aquela instituição séria poderia permitir aqueles apetrechos?
Claro, era um continente novo, não deveria presumir o que era normalidade, pois certamente não era exemplo. Uma quietude alcançou Lucian, percebendo que se perdeu em seus pensamentos novamente, e fingindo olhar algo à distância, tornou a olhá-lo e perguntou sobre a última coisa que ouviu.
— Por que “Kael”? — tentou usar as poucas palavras que conhecia em português, mas sentia estranheza na forma que as usou, sua entonação poderia ter falhado, e pensou em repetir-se, quando foi respondido após uma outra expressão caricata de seu guia.
— Bem, todo mundo que me conhece me chama por Kael, é um apelido de longa data. Você conhece o arcanjo Miguel? Bem, em hebraico, ele é "Mikha’el" — responde, enquanto escreve em um dos papéis que estava segurando, e segue mostrando-o. — E significa "quem é como Deus?". Eu prefiro a última parte dessa pergunta.
Lucian escutava-o atentamente, com breves faíscas em seus olhos, mas que se desfizeram na curiosidade. Ele mantinha uma postura de fuga, como se a qualquer momento fosse sair correndo, mas a sua respiração parecia demonstrar ânsia por compreender a causa de sua pergunta.
Fez uma pausa, encarando o rosto indecifrável de Lucian, que mudava novamente. E percebendo que ele só estava tentando entender, continuou:
— "Kael". Soa mais como uma afirmação do que uma dúvida.
Lucian estava um pouco confuso devido ao desconhecimento de algumas palavras, mas se havia entendido bem, ele estava blasfemando contra a sua religião de um jeito perspicaz, linguístico e cativante?
Não, cativante não poderia ser, pois ainda seria blasfêmia. Seu cenho franziu mais a cada segundo que pensava sobre o assunto, desviando o olhar, percebeu terem caminhado um pouco adiante a sala do diretor.
Ainda em meio a pensamentos, caçou sentido na afirmação e na dúvida, se não houvesse um quem para comparar, todos seriam como ele, e não um curto lapso dele. E tentou entender um pouco mais do que ele estava insinuando com aquele apelido do qual, aparentemente, era reconhecido.
— Se tirou o Mi, que é Quem, o que você quer dizer? — Estava ainda se questionando sobre sua pronúncia e entonação, mas o importante era ele entender a sua pergunta. O que ele pareceu entender muito bem, pois sorriu novamente com uma expressão tranquila e intrigante.
— O dito “quem é como Deus?”, traz uma ideia de que ninguém é como ele, mas se você tira o “quem” da jogada — diz, fazendo aspas com os dedos, com um sorriso de canto —, resta a expressão “como Deus”, sendo então seu semelhante, igual a ele. Entende onde quero chegar, Lucian?
Ele havia concluído com um timbre do qual Lucian só havia escutado em filmes franceses de romance. Ele estava flertando com ele? Não, não tinha como ser conduzido a isso, era só uma brincadeira, não, uma blasfêmia contra o que acreditava. Assentiu levemente com a cabeça, concluindo:
— Então, você é Deus? — sabia pouquíssimo do idioma para perguntar realmente o que queria, mas o básico já bastava para entender o quão desvairado e herege era seu guia. Um punk, tinha que ser, não poderia ter paz nem mesmo em um ambiente como aquele.
— Só se você quiser, Lucian. Mas prefiro ser um mero mortal — ele usou aquele mesmo timbre, mas parecia que pretendia continuar. — Bem, vamos começar com o tour, como espero que tenha sido acolhido previamente, aqui é a diretoria.
Ele apontou de um jeito brincalhão, na tentativa de engajar Lucian em um instante interno mais tranquilo, como se tivesse visto o terremoto que havia causado.
Um frio lhe subiu da base de seu corpo, arrepiando-o com a suposição de ter sido lido na íntegra, pior, como se fosse transparente e sua alma estivesse escrita em hieróglifos, e este a sua frente pudesse traduzir e ainda transcrever.
Silenciosamente, Lucian, em um passo hesitante, o seguiu, o apelidando de placa tectônica; o espaço era largo, brando, havia um pouco de tudo do que se podia imaginar, a Placa o explicava tudo vagarosamente e ao explicar os verbetes novos, familiarizava-o com o ambiente e com a dinâmica local.
— Aqui, olhe. Essa é a biblioteca, um lugar que frequentamos semanalmente, há uma grande variação de estilos literários, em diversos idiomas, recebemos bastante intercambistas por aqui, então sempre renovamos nossa cultura interna, para acolher e colaborar com a adaptação em um novo país.
Apesar de seu prévio preconceito em relação à Placa, com seu estilo estranho, com seu apelido provocante, com seu intelectualismo irônico, com seu jeito leve de ser e com o quão gentil ele parecia mesmo sob aquele véu de rebelde que o havia visto inicialmente.
Ele realmente cumpria aquele papel que havia sido designado para executar, pouco antes de ser apresentado às salas de aula e os laboratórios diversos para cada disciplina, ele repetiu o discurso do diretor no ritmo que Lucian conseguia entender e com palavras mais fáceis.
Miguel fazia parte de um projeto de acolhimento e era monitor voluntário na extensão desse projeto, que visava ensinar e auxiliar, no idioma local, os estrangeiros. Ele, por um momento, fez Lucian se sentir menos estranho ao, agora, pouco desconhecido âmbito escolar.
Aparentemente, não havia ninguém na escola, porque era algum feriado do país, mas retornaria normalmente no dia seguinte. Era uma surpresa ver que ele estava disposto a guiá-lo pela escola, voluntariamente, mesmo em um feriado.
Estava ainda o acompanhando pela escola, o pátio era dividido em setores, havia o centro deste que era repleto de mesas redondas de madeira com assentos acolchoados, e no centro da mesa um jogo de tabuleiro, sentiu sua mente fisgar um peixe do luto ao ver uma partida de xadrez abandonada em uma daquelas mesas.
Apesar de seu mundo abalado, a Placa o conduzia aos outros setores do pátio, como em um auditório com degraus, havia uma praça que simulava esse cenário, como um anfiteatro ao ar livre. Já do outro lado, era como um refeitório, porém com cobertura, simulando uma estufa pomposa.
Parecia dizer que os alunos que ali se alimentavam eram a plantação daquela instituição e que quando saíssem de lá, seriam a colheita. Os laboratórios eram diversos e ricos em possibilidades, como se se cursasse tal disciplina acabasse concluindo-a como técnico desta.
Haviam três quadras esportivas divididas em: com cobertura, com possibilidade de rede — sendo, por exemplo, de voleibol ou de basquetebol, variável —, e de salão.
Continuou declarando e explicando o discurso superficial do diretor, as disciplinas eram divididas de um jeito diferente do comum, comentou sobre a grade escolar e sua divisão: as Disciplinas Base Obrigatórias (DBO) eram definidas na inscrição com base na série do estudante, porém as Disciplinas Eletivas Obrigatórias (DEO), deveriam ser escolhidas no dia da visita e seguiu com exemplos de suas próprias escolhas de DEOs.
— Bem, Lucian… — começou, hesitante —, uma DEO pode ser quase qualquer coisa, desde que contribua com algo para a sociedade. Por exemplo, há clubes que os alunos fundam, eu, por exemplo, faço parte do Clube de Culinária, porém há alguns que são fundados sob apoio de professores, eu participo de dois deles: Clube de Literatura e outro de Debate Crítico. Em ambos os casos, Lucian, contribuem com a sociedade.
— Como, exatamente? — não costumava falar muito, sequer responder as deixas que Miguel largava para permitir que comentasse, porém, tinha perguntas demais para realmente ficar calado durante o tour inteiro.
— Certo, no Clube de Culinária, às terças-feiras, tudo o que cozinhamos é enviado aos moradores de rua. O Clube de Literatura, constrói sempre que pode a Feira de Literatura, convidando as pessoas ao mundo literário e incentivando a leitura, porém, na maioria das vezes, vamos ao orfanato ou ao asilo, nas quartas-feiras, ler para seus respectivos moradores. E enfim, em Debate Crítico, construímos uma base de pensamento crítico e traduzimos isso de forma acessível à população, sempre apoiando o povo a chegar com suas petições aos políticos responsáveis, a cada quinze dias, no fim de semana.
Lucian estava começando a simpatizar com a Placa, sentindo um tremor sob a pele. A horta era cuidada por alguns membros de diferentes DEOs.
Porém, quanto mais pensava sobre o ambiente acadêmico e as diversas áreas aplicáveis, percebeu que ele não estava falando tudo, só havia citado clubes e aqueles que ele fazia parte, que contabilizavam três, mas parecia que havia mais do que dizia.
— Você disse que uma DEO pode ser qualquer coisa, mas citou apenas os clubes. O que mais há? — tremia pensando em sua entonação, porém mais confortável em gastar seu português do que antes, Miguel estava o acolhendo bem, bem mais do que gostaria de admitir.
— Justo, bem, eu não só leio para esses públicos, eu também sou voluntário do Asilo Municipal e na Clínica para Crianças com Deficiência — parou brevemente, inspirando profundamente, como se lembrasse o quão difícil foi realizar certos feitos.
— Consegui permissão nas organizações, na prefeitura e diretamente na diretoria de ensino, para poder abrir um voluntariado nessa escola para poder estar em contato com a população.
Após um breve riso de contentamento para Lucian, que parecia genuinamente interessado no que tinha para falar, continuou.
— No asilo, eu auxilio um idoso, o Seu Geraldo, aos domingos, de manhã, ele me escolheu porque acreditou que era uma boa ideia trazer uma conexão entre ambas as gerações. E na clínica, às quintas-feiras, bem, às vezes eu leio, em outras eu me fantasio na tentativa de animar, e em outros momentos, raros, quando permitem, auxilio no ensino-aprendizagem das crianças internadas.
Lucian percebia um clima tenso se criando, não como os instantes que pareciam prestes a se quebrar em catástrofe em casa, mas como sua pedra, mas uma pedra que diferente da sua, fazia crer que Sísifo estava feliz em cumprir sua pena.
Sentiu compaixão e ao mesmo tempo, percebia o quão ocupado aquele punk era, talvez nem coubesse nesse termo estritamente, na versão estereotipada, com certeza que não.
— E também, fora os clubes e o voluntariado, meu caro Lucian, há também as equipes esportivas, a atlética da escola. Eu faço parte da equipe de tênis, depois da escola, nas quintas-feiras, eu pratico, porém todo semestre há competições de uma semana e no fim do ano, há um interclasse do Estado.
Nesse momento, Lucian se permitiu rir com a animação contagiante de Miguel que continuava o guiando pelos vários laboratórios e salas de aula, de uma forma despojada e confiante.
E percebia também que o esporte afetava o corpo de seu colega, ele não só era um pouco mais alto, mas também escondia uma força e uma vitalidade naquela roupa que revelava que ele não praticava somente tênis, provavelmente frequentava a academia.
— Sou também membro da banda da escola, como guitarrista, porém se chegam a organizar uma vez por semestre uma apresentação, acho que já é muito, costumam organizar no Halloween — Lucian não tinha entendido bem a semântica da frase, mas compreendeu o principal.
Ainda observava o comportamento de seu colega e como ele se expressava abertamente, como se fosse livre mesmo no meio de tanta coisa.
— E claro, participo ativamente de toda e qualquer olimpíada acadêmica que a coordenação promove na instituição. Sou medalhista de ouro, Lucian — ironizou em meio a uma risada encantadora, fazia parte de muita coisa e parecia não se cansar, talvez, ele realmente fosse o que seu apelido idealizava.
— Perdão, ainda há mais um ponto, raramente lembro disso, mas sou editor-chefe do Jornal Literário Escolar, então se quiser publicar um poema ridicularizando alguém, uma crônica sobre o dia na fila de espera, uma confissão de amor ou talvez, contar uma fofoca, é comigo quem você deve conversar.
Depois de tudo o que havia escutado, como se o chão de suas convicções estivesse rachando, creu ele ser incrível e formidável, mas jamais diria isso.
Os corredores quietos, ganhavam vida com a presença charmosa de Miguel, que simulava uma prosa encarnada, ele era tanto e ainda mais, o silêncio sequer incômodo era, não precisava dizer nada e ele ainda o entendia.
Enfim, caminhando para o ponto final daquela visita, chegaram à sala de inscrições em DEOs e pouco depois, Miguel entregou três fichas.
— Bem, estas são as fichas dos monitores voluntários do Projeto, a minha está inclusa, então caso tenha algo que não te contei, pode ver aqui — confortou-o, apontando e explicando certos pontos. Observou e compreendendo melhor toda a dinâmica social e acadêmica do ambiente, relaxou, porém, antes de agradecer, Miguel diminuiu o tom de voz.
— Esqueci de perguntar, perdão, Lucian. Mas de qual país você é nativo?
Um pouco surpreso pela pergunta repentina, porém confortável com a presença acolhedora dele, pensou nas palavras e em como construiria uma frase com elas, em como iniciaria, reduziu-a e enfim, respondeu:
— Eu sou da Romênia.
Sentiu ter falado sob a entonação correta, uma afirmação clara, coerente e coesa, mas assistiu os olhos dele brilharem e se curvarem junto com um riso encantador que surgia em sua expressão, complementando em seguida com uma postura que parecia inicialmente de um zombeteiro, que se ajustou em uma familiaridade que flertava com o intelectual.
— Ce amuzant, Lucian. Și eu sunt fluent în română.²
Um abalo sísmico na estrutura inteira de Lucian fez cair por terra até mesmo sua postura que finalmente inclinou em profundo interesse por aquele projeto intelectualizado que conheceu.
O rubor que escalava o seu rosto em conjunto com a sua respiração que refletia a frequência do coração que palpitava, fazia um pouco de sentido aquela terra, algo ali o fazia sentir-se menos perdido.
Apesar de tudo isso, não admitiria o quão começava a estimá-lo, deixou-se rir como se aquilo tivesse aberto um espaço de reconhecimento mútuo.
Miguel permaneceu com Lucian, até ter certeza que ele compreenderia bem todas as palavras nas fichas dos voluntários e na ficha de inscrição das DOEs.
Após ele garantir a total compreensão no idioma nativo de Lucian, despediu-se e desejou-lhe um bom dia, com um riso que guardava aquela sensação daquele instante do terremoto.
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² Em português, “— Que engraçado, Lucian. Pois eu sou fluente em romeno”.
Bem, espero que tenha gostado do capítulo, tenha uma boa semana.