CAPÍTULO 02: AMISTOSIDADE
Seguiu o rumo para casa em silêncio, diante o turbilhão de pensamentos que retornavam ao começo daquele dia, quando acordou pareceu ter vislumbrado o calor tropical, porém, ao ser recepcionado por aquele garoto, pretendente da anarquia, entendeu que naquele momento havia sido cortejado por um raio de sol encarnado.
E ademais, sua mente intranquila, persistia nas metáforas, comparações e personificações, com os verbetes mais incomuns e até doces que poderia atribuir a alguém, porém, nada daquilo o caberia bem.
Já era meio-dia quando chegou, o almoço era o vácuo universal que beirava o infrassom. Seu irmão ainda estava na faculdade, exercendo presença e conhecendo o ambiente, não retornaria tão cedo.
Sua irmã seguia no mesmo passo, porém incluída no acolhimento em massa de novos alunos, então, voltaria perto do horário de jantar, e seus pais — Elena era uma mulher de passatempos e grandíssimo exemplo de chefia, provavelmente estava coordenando enquanto resolvia algumas burocracias, por diversão.
E claro, Alexandru, nunca foi de seu feitio revelar seus passos durante a execução deles, sua estratégia consistia em atravessar o deserto e depois de se estabelecer, avisar de uma possível viagem a um local árido.
Sequer especificar onde, como e quando, se alguém estivesse envolvido ainda, pior seria, pois nem aviso teria, além de um chamado breve com apenas o essencial. Portanto, se ele retornasse a tempo para o jantar, já era alguma coisa de se comemorar internamente.
Os responsáveis pela cozinha, a comando do pai de Lucian, gradualmente, iriam começar a colocar comidas típicas e adaptadas do país em questão, para se adaptarem e não sofrerem nas prováveis, em breve, confraternizações. Pelo menos, em sua casa intimidante, não sofreria tão rápido com a nova maneira de viver.
Apesar de todo aquele prelúdio que a ausência sonora guardava, o clima ainda era complexo, úmido e aquecido, em contraste com a estrutura da casa, que mesmo assim, ilustrava uma gelidez, praticamente, incomum.
Com nada para fazer, de fato, quedou-se no quarto durante a tarde inteira, vagando em livros que já lera, em pensamentos já visitados, em memórias cansadas, recentes.
A carta estava bem escondida, em um livro que Mihai lhe presenteou, soava como convite lê-la, no entanto, sabia que não era o momento, sentia no âmago que não seria certo consumi-la tão previamente. Sentia que algo deveria vir a acontecer, e neste instante, saberia-o como sinal cumprir seu dever.
Ecoava como um crime, um delito das minúsculas causas, porém detinha um devido valor, naquela casa, era sua primeira vez mentindo e ainda guardando uma. O coração enjaulado enferrujava-se com tamanha omissão, contudo, tendia a piorar, suas decisões do dia, o seguiriam por tempo suficiente como penitência aos próprios atos.
O véu noturno se estendeu como penumbra, pois as lantejoulas daquele céu se estendiam infinitamente belas, impedindo, por consequência, um breu doloroso sobre as almas reprimidas em corpos sóbrios e francos sujeitos à venturança. Repetiu-se, os eventos da noite ao dia e vice-versa, na quarta-feira, foi lançado contra tudo o que aguardava.
Em contravenção a estima da data anterior, naquele contemporâneo, o mundo caiu por terra. Havia chegado a pouco e já era notado, estranho. Os portões abertos reclamavam os jovens e permaneciam assim, sem ansiedade em mantê-los dentro da instituição, como se existisse uma espécie de manobra em massa, consciente e implícita, que consistia em uma confiança plena nas virtudes dos estudantes.
Haviam ilhas e rodas, círculos e circuitos, todos bem sociais, apesar de semelhantes, não eram iguais. O medo subia em percalço de sua proximidade ao pátio, onde expandia ainda mais esse ciclo pernicioso que tanto evitavam reciprocamente.
Observando com cautela e timidez, naquela manhã calorosa de brisa fresca, com o café no ar e o tamborilar sobre tabuleiros de jogos, risadas e saudações variadas, acompanhadas pelo ambiente frutado superficialmente.
Arrastava-se vagarosamente notando rostos que o encaravam de volta, complementadas com um cochicho a pessoa próxima e um breve aceno. Se o ar era doce, tornava-se rarefeito e diabético, atravessou a parte coberta do pátio, se deparando com o anfiteatro a céu aberto, suas ilhas pareciam mais tranquilas, porém era um disfarce, os olhares corriam solta como se fossem isca para algo maior, não havia saída.
— Bom dia, Lucian! — cumprimentou, o raio de sol que alcançou seu ombro com uma mão. — O diretor me contou que você é da minha turma, então, como bom representante — riu, tirando a mão e ficando de frente para ele — de uma semana, vou lhe guiar e auxiliar em seu primeiro dia de aula.
Um alívio, quase errado, subiu-lhe a espinha, agradecendo mentalmente que Placa o encontrou e estava disposto a ajudá-lo de novo. Tentou retribuir o sorriso, mas Miguel já olhava para o outro lado, parecendo convidar alguém com aquela expressão que Lucian ainda não entendia bem.
— Bem, Lucian, estes são meus amigos — revelou apontando para outros jovens que se aproximavam com um riso torto —, esse aqui, é João — um garoto mais alto que Miguel, de postura tensa, mas parecia tranquilo. — Ele é o meu amigo de infância, conheço ele há dez anos.
— Fala aí, beleza? Seja bem vindo, cara! — cumprimenta-o com um abraço de um braço só, não mútuo. Lucian se encolhe e recua um passo, com um sorriso forçado. Agradeceu baixo e procurou silenciosamente por um relógio, em qualquer lugar. — Certo, então. Daqui a pouco começa a aula, falô’.
Replicou saindo da roda que havia sido formada, havia ainda cinco pessoas a mais, parecendo uma ciranda. Ainda estava assustado, no entanto, se estavam com ele, não deveria temer.
— Bem, Lucian; ele tem razão, temos pouco tempo. Aqui, essa é Clara —, uma garota baixa, tranquila, com um olhar exausto e carregado de uma noite mal dormida. — Jazz, quero dizer, Jasmine — mesma altura que Lucian, provável skatista —, Lorena e Bento, são da banda também. E Diego — parecia bem mais um punk do que Miguel intencionava ser. — Só ele é do mesmo ano que nós, mas é de outra turma.
Logo, entendeu que ali, naquele meio, era mais novo do que a maioria dos amigos de Miguel, por apenas um ano. E após apontar e dizer-lhe os nomes, completou:
— Somos só nós dois, Lucian — referindo-se a última sentença, de que apenas ele pertencia a sua classe.
Sentiu um leve vacilar do timbre, pendendo para o soar daquele do dia anterior, entretanto, pareceu não ousar tanto no primeiro momento. Seus amigos seguiram rota própria após uma troca de frases apressadas e abreviadas com Placa, que tornou a sorrir leve para Lucian, que sentiu um arrepio, como se um tiro lhe passasse de raspão e a morte tivesse se desviado de seu caminho por intermédio divino.
— Vamos, Lucian, temos cinco minutos antes dos professores e dos alunos te monopolizarem.
— Obrigado por me guiar. E, bom dia. Como vai você? — Disse vagarosamente, desviando o olhar até mesmo dos pontos que estava usando para desviar-se de Miguel.
Porém, ao sentir o olhar dele sobre si, pouco aguentou e recebeu o riso brando de seu colega. Talvez tivesse dito algo com a pronúncia ou entonação errada, poderia ainda não ter soado como pergunta sua última sentença, mas não teve tempo de repudiá-la com outra tentativa.
— Disponha, meu caro — respondeu, com uma reverência e estendeu a mão. — Estou bem sim, e você?
— Que bom para você, estou bom também — respondeu em dúvida em relação ao uso de suas palavras, percebendo em seguida de uma risada e um olhar indecifrável, que havia errado algo. Segurou a mão dele para concluir o cumprimento matinal, porém ele segurou-a firme, puxando-o mais para perto.
— Que bom, Lucian. E o clima, o calor está afetando seu estado mental? — seguindo aquele timbre de antes, desviou o olhar com um suspiro indignado.
— Não, não está. Por que pergunta?
— Por nada demais, você está vermelho. Talvez estivesse febril, faria sentido confundir estar e ser se estivesse.
Estava confuso, não tinha certeza se estava sendo zombado sutil ou escancaradamente. E refletiu, estar e ser eram diferentes, ele estava bem, não era bem, no entanto, não foi bem essa a qualidade que aplicou ao seu próprio estado, porém, se fosse esse o caso, por conseguinte, quem estava errado era ele.
— Pequei em dizer que estou bom, mas estou bem. No entanto, disse-me que errei ser bom, não está você?
Sua fala, no momento, não precisava de uma sentença concisa, necessitava apenas que a semântica chegasse ao cérebro daquele projeto intelectualizado e o desmantelasse na própria estupidez. Tentou consertar uma frase e pecou na correção, com certeza, um idiota qualquer, não era novidade.
— Ah, que pena, pensei que fosse uma boa pessoa. — riu baixo, com uma expressão questionável. — Mas se o calor não te afeta e você está bem, creio que o inferno enviou o rapaz certo da Europa.
Não compreendia mais uma letra sequer do que ele estava defendendo, como podia responder a algo da qual que nem conseguia entender? O que significava ter vindo do inferno, ele era, então, um habitante de lá, e se esse fosse o significado, não estava sendo apelidado com termos agradáveis. E viu-o rir de novo, replicando:
— E doar o glumă, Lucian. Vii dintr-un loc foarte rece, cu obiceiuri foarte rigide, am făcut doar o aluzie la faptul că ești diferit. Dacă căldura acestei țări nu te chinuie, nu oamenii unei lumi noi îți vor zdruncina credința.³
Aquele abalo sísmico se repetia uma segunda vez, em um espaço tão curto de tempo e físico, sentia um rubor leve alcançá-lo, ainda estava confuso, não sobre o sentido de sua frase, mas com o porquê desse jogo mental.
— Por que está me dizendo isso? — pela alça de sua mochila, Miguel o segurou e tornou a conduzi-lo suavemente pelos corredores da escola em meio a uma risada divertida, contudo, cercando o conceito de confidente.
— Como eu disse, foi só uma brincadeira. Você me deu uma deixa — explicou rápido o que seria entregar uma deixa —, e com seu erro linguístico e sua apreensão com várias pessoas te tendo como centro de atenção, percebi que estava com uma cruz ortodoxa no bolso entre a mão.
Por instinto, segurou a cruz novamente, inspirando profundamente o ar que parecia bem mais respirável e confortante do que antes. Um pouco do contexto ajudava, apesar de ainda estar dissonante com a finalidade. Estavam de frente com a porta da sala da professora Lúcia, de Literatura, restava um minuto, porém, foi bem usado.
— Queria te distrair apenas, sabe — apontou para a porta, com aquela expressão caricata de antes —, é normal estar com medo do que não conhece, mas se você conhece a si mesmo, já é um começo.
Ele abriu a porta como se fosse um raio de sol, incendiando a sala que o cumprimentava com saudações estranhas, Lúcia o havia saudado com um abraço. Era verdade o que ele tinha dito, não precisava temer tudo o que não conhecia, com sua fé em mente, conseguiria enfrentar as adversidades e se adaptar ao mundo contrastante que era aquele.
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³ Em português, “— É só uma brincadeira, Lucian. Você vem de um lugar muito frio com costumes muito rígidos, só fiz alusão a você ser diferente. Se o calor desta terra não te aflige, não são as pessoas de um mundo novo que vão abalar a sua fé”.
Espero que tenha gostado do capítulo de hoje e te aguardo no próximo, tenha uma boa semana!