CAPÍTULO 04: SANTO SEJA O SEU NOME
Naquela manhã, algo ressoava diferente, talvez por ser uma sexta-feira, completando três dias de aulas inteiros e em tese sua primeira semana no país, porém, quem garantia que era só isso. Seu pai ainda não havia partido, lia um jornal, sua mãe não estava em chamada de voz, seus irmãos ainda não tinham partido para suas instituições de ensino, e nem mesmo funcionário algum estava ali, por causa alguma.
Era um feito raro a família estar reunida dessa forma, Alexandru calmamente bebia seu café na poltrona da sala, que pareceu ser menos rústica e aterrorizante. Elena apreciava um feixe de luz sobre as flores que havia garantido que chegassem bem do outro continente, dentre elas a querida peônia, de um simbolismo gritante. As campânulas e as ásteres eram as representações favoritas de Anya naquela casa, o jardim ao lado do alpendre era divino, ali era o cantinho de leitura dela.
E Vlad, tinha suas semelhanças com o pai deles, mas tinha um quê de indiscernível, como se planejasse algo sem ter necessidade, apenas por precaução e pior, como um dissimulado. Poderia estar errado, mas viria com todo o plano calculado e tornaria o problema em uma questão de quem o classificou de errado. No entanto, ele estava calmo, no canto, observando seus parentes com naturalidade, mas não era o único.
Lucian que já estava perturbado pela ausência de costume com a presença alheia, sem motivo aparente, decidiu seguir com seu café da manhã e partir de vez para a escola. O caminho estava cinza, nebuloso, sem gota alguma, mas algo em si lacrimejava em essência, possível que a melancolia fosse sua felicidade em ser triste, a esse ponto.
Quando chegou, se deparou com o grupo de Kael na entrada, estavam chegando naquele instante e não o viram chegar. Agradeceu com uma reza rápida, seguindo uma rota que desviava dos olhares travessos, ninguém poderia atravessar-lhe a mente, sequer deveriam chegar até seu coração com a maldade em vista.
Estava em um corredor, próximo a sala que teria aula, era um clima estranho para um viveiro acadêmico excêntrico, não havia muito o que manter de norma. O grupo se aproximava com uma voz amena, se dissipando aos poucos aqueles que estavam no último ano, decidiu entrar na sala, e enfim, escutou Diego se despedindo já longe enquanto Kael com um sorriso charmoso entrava na sala, acenando para seu amigo.
Ele tornou a virar o rosto e viu-o, com um sorriso ainda maior, sentiu que poderia não ser tão cinza aquele dia, quanto parecia. Simultaneamente, organizava o seu material sobre a mesa e Kael caminhava em sua direção, cumprimentando-o baixo com uma postura leve.
— É aula com a professora Lúcia de novo — iniciou, observando Lucian de cima a baixo, analisando-o — temos uma aula diferente hoje, encontrei ela na sala dos professores e bem — um expressão de quem estava aprontando algumas comparecia —, temos uma atividade em dupla, se quiser, pode ficar comigo.
Ele tinha um olhar travesso, Lucian estava bem ciente daquele contemplar crível de Kael em si, o significado não era pertinente naquele momento e iria ignorar o máximo que pudesse. Beirando um riso convencido, ele se inclinou, abaixando-se um pouco, estando na altura dos olhos de Lucian, pretendia começar com algo, mas foi interrompido.
— Aceito ficar contigo, Miguel.
Ele riu como se percebesse algo, um algo que Lucian não entenderia tão cedo, semântica dupla, era bem possível, mas não se importou, não tinha por que se importar. As pessoas começaram a entrar na sala e Kael trouxe a própria mesa próxima a dele, a professora chegou nesse instante, entregando uma face confidente a Miguel.
Ele devolveu a Lucian outra como se fingisse não saber o porquê daquela face, retirando um riso curto incrédulo, natural e divertido, dele. A tarefa era simples, soava como uma listagem, deveriam em duplas decidir por quais das atividades presentes na lista deveriam ser realizadas no semestre.
Ambos concluíram depressa, argumentando de forma plausível, coerente e autêntica, o porquê da escolha de cada ponto da lista. Faziam uma boa dupla. Em meio a risos e debates acalorados, foram dispensados mais cedo, não havia porque segurar um aluno em sala, se ele não tinha nada mais para fazer.
No caminho para o pátio, o grupo estava reunido, em um jogo de estratégia, sobre guerra. Ambos que haviam chegado a pouco, ficaram como plateia, ativando nos bastidores o instinto imperial daqueles jogadores que roubavam o território um do outro, destruindo o exército de uma nação e tomando-a para si. Estavam em êxtase, mas não poderiam compartilhar de um dia inteiro ali, retornaram para a aula seguinte.
A dinâmica de concluir as tarefas e continuar nessa conquista no pátio, durou até o intervalo, mas até esse ponto, o assunto já era outro. Estavam discutindo sobre os eventos da semana passada, antes de Lucian se instalar no Brasil. No domingo passado, uma lei municipal havia sido proclamada em decorrência de uma série de protestos.
E bem, houve uma festa no condomínio Cruz Solar, coincidentemente, no mesmo domínio em que Lucian morava. Era a mansão do PH, um amigo próximo de Kael, que seguia corando ao decorrer da conversa, ele havia participado. A festa contava com políticos do município e outras cidades próximas, muitos títulos de renome participaram daquela comemoração.
— Ah, não foi só o povo que comemorou, os políticos culturais também — brandou Diego, passando seu braço pelos ombros de Kael. — Sua família estava lá, também, né? E aí, como foi?
Um clima estranho e divertido dividia espaço, se ele estava em uma festa de políticos e sua família estava participando, ele não era bolsista. Lucian começava a entender que Kael estava mais perto da sociedade que ele vivia do que imaginava, observando-o, percebeu que algo havia acontecido naquela festa.
— Foi só uma confraternização — começou com uma voz brincalhona — mas juro que vi o prefeito se jogar de terno na piscina. Minha mãe — tornou a tensionar em um tom aristocrático — até pintou um quadro dessa cena, depois mando no grupo.
Ainda estava surpreso com o quão perto eles estavam naquele domingo à noite, mas se perguntava sobre o que acontecia nessas festas em tão caricata hora. Tudo o que sabia sobre festas e seus horários, eram seus costumes, contextos e o que implicava estar neles, e se ocorria neste instante do dia, não era um banquete convencional.
Tornou a observar Kael que continuava levemente ruborizado, tenso, talvez não quisesse contar como foi a festa por algum motivo, no entanto, não conseguia encontrar o porquê. Ele não parecia ser igual aos outros, não podia apenas supor o mesmo que todos faziam, colocá-lo-ia mentalmente em uma situação da qual não se tinha certeza.
A conversa cessou após alguns outros comentários e se separaram para outros grupos, outras ilhas. Eram bem conhecidos naquela escola, estranho, estava entre os populares na primeira semana de aula, fazendo amizade com alguém requisitado. Um alguém que, pela primeira vez, entendia porque era quisto por muitos; havia vantagem em ser uma parede, pois elas tinham ouvidos, e as pessoas comentavam muito sobre o querido raiar daquela instituição.
As aulas que se seguiram na sexta-feira, eram todas DEOs, e Lucian ainda não estava oficialmente inscrito no sistema e portanto, não tinha a grade totalmente formada, mas não seria a primeira vez que vagava pela escola, matando tempo. Ao passear viu as pessoas que preencheram apenas o requisito de duas DEOs, cumprindo apenas dois dias, deixando a sexta-feira livre para bate-papo pela escola.
Caminhava para a biblioteca ao encontro da velharia, aqueles papéis antigos dos livros, o café recém passado pela bibliotecária que lia até o fim do turno, as almofadas de chão confortáveis e aqueles livros repletos de narrativas a serem lidas, seria perfeito. O caminho parecia mais longo, mas sabia que estava mais perto ao ver menos pessoas, quando chegou, só havia ele por lá.
Cumprimentou a bibliotecária com um sorriso tímido e alcançou o fundo mais escuro daquele lugar, caçando um livro tão velho quanto sua alma poderia inspirar algum dia representar. Havia encontrado uma edição antiga de Orgulho e Preconceito, da Jane Austen, aquela introdução sobre a verdade universalmente conhecida havia o feito pensar um pouco.
Ele certamente seria um herdeiro e mesmo naquele momento, ele era um homem solteiro possuidor de uma boa fortuna, mas nunca lhe havia passado pela cabeça, algum dia, estar necessitado de uma boa esposa. Não que o problema fosse ela ser boa, mas esposa, nunca esteve nos planos casar-se, sempre teve em mente ser uma pessoa de boas virtudes, religiosa e íntegra, tal como seu avô.
Entretanto, em algum momento deveria pensar a respeito disso, e dada a sua idade, já deveria ter pensado em algum momento, estava começando a ficar redundante o seu próprio pensamento. Inspirou e expirou profundamente, continuando a leitura que após um tempo, chegando ao baile, percebeu ser semelhante ao Sr. Darcy. Sentia saudade de seu país, de sua cidade, e estar entre pessoas que não entenderiam a disparidade de vivências por não vivê-la, não ajudava muito.
O tempo realmente passava enquanto lia, estava chegando à metade do livro quando o sinal para a última aula ressoou, significava que ele tinha mais um período vago para a leitura. Porém, não era só ele que estava com o último horário vago, na sexta-feira; Kael surgira por aquela porta, contagiante, como se um literal raio de sol clareasse até mesmo o fundo mais escuro daquela sala.
E por um instinto nato, quando ele concluiu seu cumprimento discreto para a bibliotecária, seu olhar girou de encontro aos olhos de Lucian, através das prateleiras das diversas estantes. Não tinha como fugir, estava encurralado na última fileira, entre duas grandes estantes com livros empilhados no chão, era a sua sina, iria morrer ali mesmo, pelo filho não assumido de Rá.
— Boa tarde, Lucian — iniciou, tentando não pisar nos livros — sempre vem aqui? — questiona brincando, enquanto se sentava ao lado dele, na mesma almofada de chão. — É um esconderijo e tanto, hein.
O relógio do coração de Lucian tiquetaqueava depressa, o cuco estava mudo em contexto e gaguejava quando tentou, ele não precisava estar ali, tão perto. Claro, era um espaço curto e estreito, mas mal cabiam duas pessoas na mesma área, se não era proposital causar aquele seja o que for, não sabia bem então o que ele queria.
— Vejo que está lendo um clássico inglês, Lucian — afirmou, tocando no meio do livro, forçando-o para baixo. — Pensei que fosse mais da literatura francesa, ou alemã. — Balbuciou a última sentença, como se garantisse som suficiente para apenas ele ouvir.
— O que você quer dizer com isso? — Questionou, Lucian.
— Você sabe, toda aquela questão com a condição humana — dividindo um espaço mínimo, encarava-o nos olhos com um sorriso sublime —, com a liberdade. A leitura nos faz viver o que na vida tangível não podemos, e você parece alguém bem contido, tem cara de quem lê bastante.
— Está dizendo que não sou livre? Que não me conheço? E o que literatura alemã tem a ver? — Perguntou depressa, antes que o medo de errar alguma palavra corresse em si, seu joelho havia encostado no dele, e não fazia questão alguma de repudiá-lo.
— Olha ele aí, o gatinho tem língua — disse em meio a uma risada que constrangia Lucian a cada segundo mais que ele pensava sobre sua resposta. — Tem um pouco dos contos dos irmãos Grimm em você, como se você tivesse saído de algum deles.
— Está me chamando de sombrio?
— Não, Lucian — negou recuando um pouco —, você parece folclórico, nobre, memorável e — parou, revelando um sorriso tímido — talvez um pouco trágico, cru e sombrio sim, mas não em um sentido ruim. — Desviou o olhar, tentando aproximar-se. — Não fique com essa cara, você só responde com perguntas, me intimida estar aqui.
Apesar da aparente sinceridade, aquele sorriso beirando o cinismo e aquele olhar afiado, tal como uma raposa com sua presa, entregava-o, e honestamente, Kael queria ser pego em seu próprio jogo. Se era transparente havia motivo, queria ver se o intelecto de sua presa era equivalente ao seu, e se ele percebesse o jogo, teria perdido, felizmente.
— Não brinque comigo, não sou igual a você.
— “Igual” como? — retumbou de volta.
— Você tem razão, eu leio bastante — começou, hesitante, tentando aumentar o espaço se afastando. — Mas sou livre, a meu modo. E me conheço bem o suficiente para ver onde está querendo chegar.
Kael começou a rir solene, estava encantado com o colega estrangeiro, se ele fosse fluente já teria o xingado a esse ponto, ou só declamado ofensas sutis, pois ele parecia educado demais para agir de qualquer forma. Percebia como Lucian reagia à maneira que implicava com ele, sem certeza do porquê, apenas permaneceu com a roleta russa.
— Lê bastante o quê? A bíblia não conta, Lucian — replicou ácido, recebendo uma risada igualmente ácida, como se o tivesse cutucado com algo específico.
— Não, Kael, leio um pouco de tudo, mas gosto de romances policiais, suspense — procurava as palavras enquanto listava ríspido. — Clássicos como Sherlock Holmes, às vezes Agatha Christie e.
— Isso eu não teria adivinhado. Elementar, meu caro — replicou ironizando, enquanto assistia o rosto de Lucian fluir de pálido a um rubor violento, percebendo a expressão repetitiva.
Não era a primeira vez que era chamado por Miguel de meu caro, mas não havia percebido que era dessa mesma forma que o tratamento nos livros de Holmes eram realizados. E agora que notava a força da expressão em si por ele, sentiu-se novamente transcrito por Kael, muito mais do que transparente, já era translúcido.
— Fique tranquilo, ainda há mais a tentar defender, certo? — perguntou, presunçoso.
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Bom seja o seu dia! Bem, recebi uma sugestão a respeito da diagramação, para melhorar a fluidez da leitura, caso gostem, manterei as próximas publicações neste formato. E claro, espero que tenham gostado do capítulo! Até a próxima ☀️