CAPÍTULO 05: SANTO SEJA O SEU NOME — PARTE II
Sentiu-se em débito, pois devia de fato mais respostas e reafirmações bem estruturadas, caso não fosse segura a sua base, Kael quebrá-lo-ia pela metade. Sua defesa anterior, apesar de consistente, já era evidente para seu adversário, ele já aguardava aquela resposta e havia demonstrado estar ciente em momentos distintos.
A primeira vez, ocorreu durante o tour, enquanto explicava sobre as DEOs, e realmente, não era tão natural, mas com certeza também não era esperado. A segunda vez, aconteceu após seu agradecimento, por guiá-lo entre aquele fervilhão juvenil, em seu primeiro dia de aula. E a terceira, naquele instante, revelando seu plano sucinto, potente.
— Minha liberdade é real.
— Sua liberdade é condicional, Lucian.
Entrar naquele embate foi escolha consciente e permanecer nele também, entretanto, começava a soar como masoquismo tentar se defender contra ele. Debater calmamente em um idioma que não o próprio, complicava-o inimaginável e condescendentemente, estava condenado por um fado muito agridoce.
— Não quando a condição é consentida.
— Quanto dela foi realmente consentida por você? Tem a variável — inclinou-se, retirando o livro das mãos de Lucian —, foi imposto desde sempre às condições, então se não as questionou, não é exatamente consentida, meu caro.
Agora que a expressão era imposta com um sentido claro, a sensação era diferente, não era dito por força desta e nem por desleixo, mas completamente proposital. Estava colocando-se no local de detetive e lendo-o como um quadro de evidências, repleto de pistas a serem conectadas e traduzidas.
E pior, o detetive era muito bom. No entanto, poderia ser apenas um jogo, Kael poderia ser um investigador sem causa, se não fosse, precisava saber o que ele queria saber sobre si. Não só isso, como e porquê, para qual fim seria usado este conhecimento. Riu breve e tornou a se aproximar mutuamente.
— Meu avô era íntegro, virtuoso e dedicado, e devido a minha estima, seguirei seus passos, se o apoio dele foi essa forma de liberdade contida, pagarei seu preço. E tem razão, questionar é uma dádiva e eu sei bem o que consenti, mas e você, o que ganha com a sua liberdade libertina? — Em um sopro organizado, gastou seu português da melhor forma que pôde; estudar o idioma em casa tinha seus efeitos, mas os clássicos literários, também eram excelentes.
— Libertina? O que te faz afirmar que minha liberdade é libertina, Lucian? Está se baseando em estereótipos?
Realmente, não deveria ter colocado-o naquela caixa tão distante do que de fato acreditava, ele não ressoava como os outros, distante disso, ele era muita coisa, mas não parecia lascivo. Somente um herege, daqueles bem tentadores, em todos os sentidos.
— Não me refiro à parte lasciva do termo, mas herege — ao dizer isso, percebeu que soava como uma ofensa sútil, mas o que tanto de ofensivo teria em dizer que alguém não era um pervertido?
— Então, minha liberdade te afeta, Lucian? — com a proximidade, a pergunta ressoou como um leve suspiro ao ouvido de Lucian, aquele anjo estava sussurrando para ele, mas este era um tipo diferente, caído.
Estremeceu de cima a baixo, com uma expressão transparente, demonstrando seu constrangimento e timidez, ele tinha razão. Se uma pessoa fora de seu meio difere deste, é natural, mas se essa pessoa, por diferir, lhe afeta por estar de fora, o problema não era com a pessoa do lado de fora, mas com a pessoa que se incomodou por estar presa em sua própria condição. Talvez, o diabo estivesse afetando a sua fé, de uma maneira muito bela.
— Creio que um pouco, mas porque somos condicionados a resgatar os desviados, mas não acho certo interferir na liberdade alheia.
— A sua família pensa assim, Lucian?
— Implícito, mas sim — começou, hesitante, não falava sobre a família desde nunca, ninguém havia o perguntado antes — mas, no momento, estamos distantes do nosso meio, então o clima está bem intenso em casa.
— Então, está melancólico porque não tem uma igreja para frequentar — afirmou rindo, aquele riso cômico seguia-se de novo — é bem engraçado, Lucian, isso também.
Lucian que estava começando a se acostumar com as diferentes facetas de seu colega, pensou, seguindo aquele raciocínio, não conseguia sequer prever qual a outra face a ser revelada por Kael, naquele instante. Poderia ser qualquer coisa, quase qualquer coisa, Papa ele não era, de jeito algum.
— Você é sobrinho-neto do Papa? — brincou, não tinha como saber o que viria.
— Não seja categórico, meu caro belo e sublime. Sou auxiliar de um instrutor voluntário na escola dominical, então posso te passar o endereço se quiser, da igreja.
Definitivamente, nada mais o surpreenderia mais do que aquele projeto intelectualizado. Mas havia uma questão enfadonha, ele não era ortodoxo, como permitiram um não ortodoxo ensinar as crianças e jovens daquela igreja? Não que se importasse muito, se ele estava nessa posição, ele era confiável, o padre confiava nele, e era só isso que precisava ter em mente.
— Por favor, estarei em débito com você.
— Fique tranquilo — replicou, pousando uma mão sobre o ombro de Lucian. — Fiquei aqui brincando contigo, sou eu quem está em débito. Fica de frente com o parque central, espero que vá.
Estava agraciado internamente, mas ainda precisava saber como ele havia chegado a esse posto, a família dele, difícil. Se fossem ele não seria assim, nem havia como, a lembrança da conversa sobre a festa ainda estava ali.
— Você é religioso de alguma forma? — Balbuciou.
— Sou devoto somente ao conhecimento, ao povo e à liberdade, qualquer coisa que me restrinja disso, permaneço longe. — Após essa afirmação lúdica, próximo demais, riu e concluiu. — Mas se quer saber no que acredito, bem, sou agnóstico, não me importo muito se há ou não algo por aí, mas estudar essa possibilidade me é muito convidativa.
— Como conseguiu ser auxiliar de um instrutor voluntário?
— Voltou com as perguntas, hein — refletiu, revirando os olhos — sou amigo do padre, e tenho um apreço por ser voluntário nos eventos, e estar inserido no meio, torna mais fácil ser capaz de ajudar.
Não queria continuar com as perguntas, e o sinal ressoava pela escola, o horário de retornar à casa martelava em sua mente, Kael havia levantado e entregue uma mão, para ajudar Lucian a se levantar. Ambos seguiram caminhos diferentes após sairem pela porta da biblioteca, com uma breve despedida com um olhar confidente, Lucian seguiu para casa.
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Espero que tenham gostado do capítulo de hoje e lhes desejo uma boa semana, até a próxima! ☀️