CAPÍTULO 06: VEEMÊNCIA ANGULAR
A alvorada dentre a densa neblina, incendiava a retina de Lucian, que ensaiava a rotina de seu dia, na cama, na mente. O silêncio costumeiro dançava pelo ar, o aroma do café da manhã estava implantado neste baile, do qual não parecia ter sido convidado. Desceu às escadas sublime, equilibrado, sua família estava reunida na sala de estar em um clichê familiar.
O senhor Alexandru estava em sua poltrona de couro escuro, lendo um livro, não tão qualquer, mas clássico e estratégico, com uma xícara nova para o país novo. Seu rosto traçava um breu de cansaço e de um temperamento austero e evitativo, um óculos pendia na ponta de seu nariz, segurado por um cordão de pedras escuras, acentuando aquele olhar que já era marcante o suficiente.
Frente ao vitral que dividia a sala contra o jardim de inverno, extenso, estava a senhora Elena, apreciando as flores em contraste aos feixes de luz natural que davam cor ao ambiente. As cores quentes em favor da cena florida, destacavam o cabelo encaracolado e castanho dela, com um sorriso suave acompanhado daquele olhar da experiência, de um vinho.
Vlad estava no sofá de canto com um livro de leitura obrigatória, tão focado, mas ainda perceptivo, ele sempre sabia a atmosfera que o ambiente tencionava emergir. Sobre o livro, o olhar vagava em busca do alvo de seu instinto, oscilando entre a leitura e a missão de estar atento a qualquer vacilo de tensão elétrica e inspirar de algum alheio.
E enfim, Anya, retraída, realizava uma atividade da escola, ocasionalmente perguntando para seus pais e irmãos; a resposta era breve, sempre. Ela era uma mini cópia de sua família, mais infantil, ela não ficaria ali por mais tempo do que o suficiente, se voltaria ao alpendre para ler, plantas e livros, uma definição bem clara. Entretanto, precisava fazer a sua própria dissertação e pergunta final à família, antes dela seguir seu caminho.
— Cu permisia voastră, tată, mamă — iniciou o seu chamado. — Am fost informat că există o biserică ortodoxă în oraș și că se ține școala duminicală; aș dori să-i conduc mâine la Sfânta Liturghie și vă rog să mă înscrieți la următoarea grupă de învățământ, deoarece cred că mi-ar putea îmbogăți vocabularul în limba portugheză și mi-ar permite să particip în mediul religios care face parte din moștenirea noastră, chiar și într-o țară nouă⁶.
Havia dito robótico e com a pressa mais calculada possível, tremia com o pedido e seu coração parecia querer pular para fora daquela cena. E se precisasse dizer qualquer coisa a mais, não conseguiria, um nó já havia se formado em sua garganta, contendo sua respiração pesada para si. Mas, em contrapartida, foi recebido com um sorriso por ambos, que o olhavam com olhos gentis.
Eles se entreolharam por um instante e devolveram a Lucian a resposta, haviam assentindo com a cabeça e sem mais palavras; o silêncio continuaria reinando aquele dia. Com a afirmação plena de ambos, sentiu-se pronto para seu próprio desjejum, contudo, ainda não acreditava que Kael era quem o havia ajudado com isso, desde quando o diabo ajudava a encontrar o caminho?
Possível que até mesmo isso fosse diferente naquele lugar, o diabo era gentil, acolhedor, sagaz e charmoso, mas a característica de tentador ainda era uma verdade, independentemente de onde. Não que realmente fosse uma definição absoluta, ele não parecia mau, parecia um anjo.
Apesar desse desvaire, decidiu não pensar mais em qual caixa colocá-lo, mas simplesmente deixá-lo em qualquer lugar, exceto em sua mente, fazendo oficina. Após a refeição, subiu e dedicou-se aos estudos, o máximo que pôde até o almoço, nisso, horas já haviam passado, ninguém mais estava em casa.
Aproveitou para dissecar um livro em português, um clássico, no entanto, aquela linguagem o fazia retornar aquele garoto. Se nem mesmo a literatura poderia o curar naquele instante, apenas à reza meditativa poderia recorrer. Ficou nessa até sentir-se limpo da malignidade que era a oficina de Kael em si.
Mas por que ele questionava uma pessoa que sequer conhecia, e pior, como poderia saber exatamente o que questionar para desarmar daquele jeito? Se não era um cínico, era o próprio anjo caído, questionando a soberania de Deus e se dizendo equivalente a ele; havia outra resposta que não essa?
Seguido disso, entendeu que seu estado de espírito ainda estava perturbado, não podia continuar assim, precisava devolver o terremoto que Miguel havia causado. Seguiu para a porta de vidro que funcionava como janela enorme, caminhando pela varanda suspensa, o pôr do sol estava em seu final, as estrelas surgiram em seu encalço e a brisa fresca tomava faíscas ríspidas e gélidas aos poucos.
Respirava com um pesar, a pedra rolava do alto de novo e algo novo estava sendo gerado a partir disso, um olho no abismo piscava para ele, caçando algo que ele ainda não queria encarar de volta. Com o condomínio quieto, à distância, via uma casa com piscina, cheia de pessoas, a música parecia alta, todavia, estava abafada pelas outras ruas e casas enormes.
Como algo tão espaçoso, repleto de bens, com abundância questionável, poderia ser tão vazio? Ser parte do todo era ter tudo, mas a qual preço, se por lá há a devassa e fria lascívia, miséria e descrença; não caberia no mundo de Miguel, mesmo ele não sendo reflexo desse preço, algo nele ainda irradiava a liberdade sem apreço pela responsabilidade.
Claro, ele cuida, ajuda, auxilia e todos os demais termos caridosos cabem nele, ele é fruto de um respeito com a causa, mas não faz parte dela. Ele é virtuoso, mas segue uma corrente viciosa, ele era um projeto intelectualizado, mas jovem; por que o estimava se ele sequer era um exemplo exemplar? Ele podia ser e permanecer a tudo, mas sua fé era somente na humanidade.
Nada de bom poderia partir disso, nada mundano poderia ser sacro, e ele era sim o meio termo dos mundos, entretanto, um algo do qual não deveria se importar. Precisava deixar quieto esse dilema, ele não era enigma para ser resolvido e sequer qualquer coisa para ser mensurável pela lente que enxergava.
Voltaria a frequentar a igreja, cumpriria seus deveres como filho e fiel virtuoso, estudaria dia e noite, focaria em aprender o idioma e enfim esquecê-lo-ia, não, não podia. Contudo, deveria evitar se afundar naquele oceano, deveria, na verdade mais absoluta de todo esse conflito, evitar se queimar naquele raio de sol.
_____
⁶ Em português: “ — Com licença, pai, mãe […] — Fui informado de que há uma igreja ortodoxa na cidade e que há uma escola dominical; eu gostaria de levá-los amanhã para uma liturgia divina, e pedir-lhes que me inscrevam para a próxima turma de ensino, pois creio que pode enriquecer o meu vocabulário em português, participar do meio religioso que temos como herança, mesmo em um novo país”.