CAPÍTULO 08: PRÉVIA INTUITIVA
A alvorada feito rosa dourada inflamava aquele quarto que outrora era gélido, puro linho azul onírico de um rapaz que já estava perdido em si mesmo. O raiar levou-o a voltar, enfim, desperto; sonhos e mais sonhos, pérfidos, os vários feixes de luz trincaram e repartiram-se em outras partes mais. Naquele exato livro, mas a verdade ainda não tinha dia, nem vez.
Caminhou pelo quarto marcando e consertando a ordem de seu sonho, pegou o uniforme completo, uniforme; seu avô, íntegro, o que ele fazia rindo naquele sonho? Ele sempre teve o cenho franzido e um riso contido ao expresso. O café era o aroma que incendiava a casa, estava quase pronto.
As escadas da vergonha laceravam a crua ternura de Mihai, ele ria e cantava, dançou e tomou a mão de uma bela desconhecida. Mas jamais superou sua esposa. Nada naquele sonho era crível; mas a carta também não foi lida e sua morte era imaginada. Como poderia continuar afirmando lendo-o pelas lentes antigas?
Sorina Moldoveanu era a luz da vida de Mihai, nem mesmo em sonho poderia ser considerado que ele havia a superado. Mas o baile, a troca de passos, de olhares, de risos confidentes, com a outra moça, pareciam reais as alegações. Mihai coordenava com precisão aquela redenção.
Feito o desjejum, lançava-se em direção ao motorista, mais um dia de aula o aguardava. O olhar, no entanto, não enganava, a lágrima partira ao meio, Mihai corria pelo salão, atravessando pessoas, histórias, verdades; porém, com o jardim à espreita do alpendre, Sorina brilhava e chamava-o.
Era intocável, pior que vidro ou musa de pintura admirada, pois lá já não estava, e Mihai chorava, as flores cresciam com a rega e estas o cercaram completamente. O grupo de Kael estava sem este raio de sol no momento em que encontrou-os, em desvairada e eloquente grosseria, cumprimentaram-no rápido e comentaram, papearam mais depressa ainda.
O estrangeiro austero e cheio da astúcia do silêncio não precisava acompanhá-los de qualquer forma, sabia bem do que o apelidaram, mesmo Kael ainda o convidando e querendo a presença de Lucian nos lugares. Entretanto, não seria a boa reputação de Miguel que levantaria a moral dos outros quanto ao esquisito pedante da sala.
Eram dias poucos de muitas observações adicionais implícitas, eram completamente abruptas, lembrava bem da boa despedida recíproca que conseguira realizar, então por que mudaram de repente o comportamento?
As raízes o puxaram para a cova de sua amada, não cadáver ainda sendo, contudo, um total vegetal em luto. Ele não havia aguentado bem nos últimos anos, vacilava a feição ao menor do problemas, sua esposa estava morta. Aquela maldição de silêncio e de seriedade o azucrinava dia e noite.
Se era por luto que havia decidido partir, não sabia, mas que seu sonho era escrupuloso quanto a teoria; muito, de fato, era. Estava partindo para a sala de aula quando se deparou com Kael carregando papéis demais, rindo demais, com gente demais.
Por toda via, o olhar deste era tão intuitivo quanto seu charme, pois estes lhe foram mútuos, diretos, olho por olho e um riso acompanhado de uma feição repleta de um quê indiscernível. Miguel se despedia breve dos demais e seguia rumo firme à direção de Lucian que tremia em plena determinação, sem resquício de uma mínima hesitação.
— Bom dia, Lucian — cumprimentou-o breve, entregando um dos papéis — esta é a sua grade oficial de aulas, se tiver alguma dúvida me pergunte, mas agora, tenho que entregar essas outras aqui — completou balançando no alto, segurando firmemente o conjunto de papéis.
— Bom dia, Miguel — seguiu-se de um suspiro errático, Kael se afastava rápido, parando pessoas pelo caminho e entregando as grades. Ele não havia escutado seu mútuo cumprimento, com certeza, se ainda eram amigos, Kael era um idiota.
Se todos ao seu redor lhe criticavam e observavam sob as lentes modernas e estrangeiras, e Kael não, algo de errado tinha nele. Ou era condescendente, poderia ser; apesar de genuíno, seu esforço contínuo. Precisava cessar esses pensamentos, a aula estava prestes a começar.
A sua grade, por espontânea vontade e coincidência, de Lucian, era repleta de momentos em que estaria com seu guia. A turma de DBOs era a mesma, já as DEOs, em grande parte, também eram no mesmo dia da semana e horário; não todas as mesmas tarefas extracurriculares, mas quase as mesmas tarefas extracurriculares de Kael.
Excluindo algumas que não poderia fazer por serem fora da escola, porém as que eram, estavam juntos. Decorreu-se as primeiras aulas rapidamente, estudar sozinho o idioma era difícil e acompanhar as aulas ainda mais, mas fazia o seu melhor. Não que estivesse sozinho nesse processo, apesar dos professores tentarem incluí-lo no começo, naquele instante já não era bem isso.
Devido a Miguel, não havia exclusão, mas inclusão também não tinha. O pouco que conseguia responder fazia dele para a turma e os amigos destes do outro lado da sala, pensarem nele como pedante, rude. Não havia exceção se não aquele ao seu lado, durante o intervalo, não aguentou a falsidade do comportamento moldado com a presença dele naquele grupo e partiu para um refúgio. A biblioteca.
Estava preso à ficção, quedou-se até o fim do intervalo, segundo a sua grade, só tinha uma DEO para aquela segunda-feira e seria no último período, das 14:50 às 15:50. Se era 12:40, tinha tempo o suficiente para continuar lendo de onde parou, vagou pelas estantes e suas prateleiras com diversas repartições em busca do livro que havia lido naquele dia, bem, começado.
Pouco tempo depois, entre espirros contra a poeira entre os livros mais velhos e êxtase entre o degustar do café expresso que era ofertado pela querida cafeteira de uma ainda mais querida bibliotecária; achou o livro. Orgulho e Preconceito tinha seus dons bem impressos no nome, literalmente; detalhes em dourados na capa, refletindo a luz fraca e quente daquele cômodo enorme.
Fora esses detalhes, ele era cheio de orgulho e ela de preconceito, mesmo em um limiar tênue, bem redundante, do possível preconceito dela e do orgulho dele. Estava extremamente focado quando a confissão durante a chuva tomava forma e o horário para a próxima DEO ressoava pelo ambiente, cheio de passos e risos nos corredores.
Não sabia bem onde era, mas as sequências de letras e números nas portas auxiliavam o suficiente; não sendo preciso continuar, uma mão, de textura agora decorada, tocava seu ombro gentilmente, como se um anjo caísse do céu para guiá-lo ou até mesmo tivesse sido enviado para este propósito.
— Oi, Lucian — seguiu breve com um olhar na entrelinha de algo que havia entendido —, te levo pra sala. Temos essa aula juntos, certo?
— Como sabe?
— Um passarinho contou — em meio a uma piscadela e uma caminhada fervorosamente rápida, chegaram à sala.
O Clube de Literatura, era um espaço amplo, como uma mini biblioteca. Não que fosse pequena, mas comparar naquela altura do campeonato com a biblioteca daquele lugar, era brincar de palitinhos coloridos e derrubar todos.
Uma professora administrava aquele clube em conjunto com alguns alunos do último ano do ensino médio, apoiados fortemente pela bibliotecária, precisava descobrir o nome dela, por respeito. Lúcia estava criando uma roda com as pessoas que chegavam e pedia por seus livros favoritos e gêneros literários que pertenciam aos devidos corações.
A roda foi breve, cheia de vida, no entanto, Kael foi indeciso e assertivo ao mesmo tempo, nem mesmo dessa vez poderia colocá-lo em uma caixa. Ele não escolheu um só livro como preferido, mas optou por escolher por gênero e contexto literário. Era um completo eloquente naquele ambiente, o dominava tão bem quanto qualquer outro.
Ao fim da roda, a professora Lúcia dirigiu-se à lousa para realizar algumas anotações e anunciar um projeto. A Feira de Literatura. Miguel parecia em plena felicidade, contido, o que não era de seu feitio, ele já sabia qual era o projeto. Um grandíssimo coletador de informações.
— Prof., Lucian está no meu grupo — ela não havia falado nada ainda, mas ele já havia apresentado a sua decisão. Quem quisesse estar no grupo de Kael, precisava estar com Lucian também.
Lucian sentia a tensão se criar naquele espaço, apesar da leveza daquele raio de sol que os espreitava, os espinhos cruzados de si faziam desse raio, ser apenas um feixe. E assim foi feito, um grupo que Kael costumava participar nos outros projetos desse estilo, aceitou Lucian, mesmo ele sendo adverso.
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Desejo-lhes uma boa semana, até breve, no próximo domingo, com outro capítulo ☀️