CAPÍTULO 22: PERCUSSÃO ITINERANTE
A nebulosidade estranhava o alvorecer daquela semana, abafada e efervescente, borbulhava a sangria emocional por resistência ao vapor. Lucian estava isolado de si próprio, confiar exigia mais do que parecia realmente ser necessário, seu alvo, no entanto, se encontrava ausente.
Terça e quarta-feira foram longas, o grupo não se conversava de forma alguma, cada um seguia seu aspecto literário sob a própria companhia. Pelo menos é o que advertiam quando seguiam o caminho oposto com uma brevidade aterradora.
Por outro lado, Carlos não deu notícia de vida, talvez estivesse o evitando também, claro, por qual outro motivo iria atrás de si de novo? Agredi-lo novamente, possível, encher-se de fúria e desabar um castelo formado pelos quatro naipes? Também seria plausível.
As aulas sem o representante de classe repercutiam monótonas, sem graça alguma, quem diria que o raio de sol era marca registrada naquela instituição. Os olhares amenizaram ao menos, com os burburinhos escassos, os corredores tornaram a ecoar a falange de Miguel.
Ele era popular, afinal. Além de um grandíssimo queridinho da coordenação, da diretoria, dos discentes e docentes, da cidade. Se quisesse nichar, veria que muita gente se importa com a falta dele, ele está doente? Faria sentido se estivesse, não parecia ser de seu feitio.
Antes de partir para o intervalo, encontrou Letícia na porta, aguardando-o com uma expressão doce, seus olhos, no entanto, traíram a intenção que desejava transmitir. Seguiram para o pátio em um silêncio tumultuoso, caminhando para a repartição do anfiteatro a céu aberto.
Sentaram-se em um dos bancos da ‘praça intelectual’ e ela suspirou algumas vezes até tomar coragem de iniciar o assunto indesejado. Estava igualmente assustado, não esperava que ela soubesse do caos na escola, nem de sua dinâmica com o namorado dela.
— Lucian… — esvaiu-se todo o pudor referente a ele, percebia isso. — Silvia me disse que você gosta do meu namorado. Isso é verdade?
— Não, eu não gosto dele, somos amigos — negou de praxe, sem hesitar.
Ela riu fraco, balançando a cabeça como se negasse a sentença já sabendo como ela foi estruturada, negando a semântica e toda a sua forma. Ela o encarou amarga, mantendo uma leveza em um suspiro prolongado, sem saber como continuar.
— Seu olhar não te permite mentir, Lucian. Mas leve seu tempo — desviou-se a visão para as árvores, para uma folha que flutuava em ciranda — sei que vai demorar se aceitar. E honestamente, que bom.
— Não entendo o que está dizendo.
— Eu quero estar com ele, mas fui eu quem incentivei ele a falar com você, e o resto também.
Não sabia bem o que o resto significava, nem onde essa conversa chegaria, muito menos o peso desse incentivo, qual era o sentido? Permanecia estagnado na incerteza daquele mundo tropical, das pessoas que perpetuavam uma condição distinta da outra, não permitindo saber o que esperar.
— Não vou competir contra você, mas também não vou deixá-lo antes de ter certeza de tudo. Você sabe, né? Ele foi suspenso por dois dias, amanhã ele volta, mas, sinto que é minha culpa a ruína do nosso relacionamento.
Falava devagar entre suspiros com uma expressão inteligível, ele era o verdadeiro culpado. Mesmo que ela não dissesse, foi ele quem permaneceu se engajando naquele tipo de conversa, até devolvendo na mesma moeda, em sua busca por conhecê-lo, perdeu-se nele.
— Não é sua culpa, Letícia. Seja o que for, mas eu não gosto dele.
— Sei que está mentindo, e é minha culpa sim, talvez ele te explique, ele é melhor do que eu nisso. Não te culpo por gostar dele, nem poderia, Kael me contou como a escola reagiu aos boatos contra você, então eu tive que voltar, saber quem era o cara dando em cima do meu namorado.
— Eu, eu não, não fiz isso, eu.
— E, apesar de tudo, essa nem é a verdade, sei que não deu em cima dele, e ele tem dessas de flertar na brincadeira com os amigos para desconstruir alguma questão enraizada, mas não contigo, não foi só isso, essa parte é minha culpa, eu quem incentivei que ele tentasse te ajudar a se enturmar, se entender e bem.
— Não entendo o que quer dizer com tudo isso.
— Depois da festa, percebi que eu não me conhecia o suficiente, quis voltar atrás em uma questão, não consegui, é claro. Mas, eu não vou desistir ainda, se — pausou, observando o céu — se, se eu não conseguir resolver, sei que… na real, sei de nada.
Ela se levantou tensa, parecendo buscar algo ao redor, no meio daqueles diversos rostos no pátio e suas repartições. Suspirava como se despedisse-se daquela conversa, no entanto, prosseguiu tentando procurar algo, uma palavra, uma frase, talvez, para concluir.
— Boa sorte, Lucian… com o Carlos, tome cuidado.
Eram poucas as coisas que realmente havia entendido em toda aquela situação, sequer poderia formar uma opinião sobre os fatos fragmentados que tinha posse. Confuso, amargurado, nada poderia melhorar o seu estado naquele instante, então continuou se dispersando sem saber.
Na quinta-feira continuou cinza o seu dia, a manhã esfumaçada e lenta, parecia-se um caracol ancestral prestes a dar-se um fim, enfim. Nada realmente acontecia quando se era apenas espectador da própria vida, assistindo como espectro a existência fluir na naturalidade.
Prender-se na biblioteca durante os intervalos ainda era uma saída válida para qualquer ocasião, menos para Miguel que o havia encontrado e guiado pelos corredores até a sala de Debate Crítico. A quietude seguia plena entre a companhia estranha um do outro.
Quando a DEO começou, resolveram escrever ideias de debates em papeizinhos, dobrá-los e sorteá-los, qual fosse, dividiriam a sala em duas partes para a defesa de um dos conceitos. O tema era Progresso versus Tradição, ambos os lados já estavam postos em seus lugares.
Tudo ao seu redor girava e ocorria muito rápido, exceto Miguel, mal havia o visto naquele dia, sequer sabia porque ele havia sido suspenso. Esteve em grande parte em reuniões com a direção, devido ao seu posto como representante de uma montanha de atividades estudantis.
Ele era mais do que um raio de sol àquele ponto, todos se agitavam ao seu redor, com vida exacerbada, a discussão se desenrolava há um tempo. Quanto mais o observava, percebia mais detalhes que passaram batido, tinha muito o que adicionar ao seu mapa mental.
Agora haviam onze piercings nele, seu uniforme segurava mais pins do que da última vez que notara, também continha um patch pequeno bordado. Havia um pequeno traço de um machucado acima de seu lábio inferior e uma marca arroxeada, leve, próxima ao olho esquerdo.
Ele dissertava com precisão, a voz firme flertando com um sarcasmo até que oportuno e doce. Em suas mãos, uma faixa preta circulava ambas, bem ao meio, com o complemento de alguns anéis prateados. Apesar de analisá-lo desta forma, estavam próximos, umas três pessoas de distância.
— É necessário se adequar à contemporaneidade, o tradicional nos prende e impede de ver o futuro em toda a sua forma, tal como — um estudante replicava, quando Lucian interrompe-o.
— A tradição é o alicerce da civilização, sem ela não temos direção. Ela oferece ordem, estrutura e valores testados pelo tempo que nos guiam através do caos da existência. Mudar por mudar é um exercício de arrogância, acreditando que nossa geração sabe mais do que a sabedoria coletiva acumulada durante os séculos.
Não precisava realmente concordar com tudo o que havia dito como contraproposta ao outro colega, embora tenha saído no automático a defesa dos valores que precedem a sua ideia de virtude. Porém, assistiu Miguel rir e se voltar contra ele, como se fossem apenas ambos naquela sala.
— Ordem? Mas e se a ordem é injusta? Estrutura? E se essa tal estrutura estiver oprimindo? Os valores testados pelo tempo foram, em sua maioria, testados por um grupo muito específico de pessoas, Lucian. Essa ideia de sabedoria coletiva, não é de um povo originário, não é cultura, teve origem nos poderosos, da elite.
Novamente, uma discussão que sabia que se engajaria até demais, mas que não poderia largá-la ali, daquela forma. Não concordava com tudo o que havia dito, era herança familiar, internalizado, uma questão social própria de seu meio econômico, não discordava dele de modo algum.
— Ainda é desordem se não houver liderança e desmantelar estruturas sem ter um plano de como substituí-las, é um convite à queda. A tradição provém um senso de pertencimento, de comunidade, uma identidade.
Não é porque não concordava que deveria mudar sua opinião tão rápido, ainda precisava defender o lado da sua família e do debate. Mesmo que isso significasse uma dolorosa discussão com Kael, que parecia se divertir e se amargar.
— E que tipo de pertencimento é esse, Lucian? Um que exige que os indivíduos escondam quem são? Que te força amar ou odiar quem essa tradição manda você amar ou odiar? A tradição que você defende muitas vezes é uma gaiola dourada, linda por fora, mas ainda é uma prisão.
Outra pessoa do grupo tenta continuar a discussão enquanto Lucian se cala, sem saber para onde fugir, nem recuar. Havia partido para a guerra e perdido na batalha o seu coração, seguindo para a casa sem uma alma, piorando ainda quando chegou ao lar, percebeu não ter teto, sequer chão.
Espero que tenham do gostado do capítulo de hoje e lhes desejo uma semana maravilhosa ✨