Durante a noite, uma tempestade violenta atormentava um certo vilarejo. As gotas de chuva atingem com força o chão lamacento; as paredes de pedra cinzenta e telhados de palha das moradias ficam completamente encharcados. O vento soprava constantemente, girando um moinho de vento ao longe e batendo algumas portas e janelas que haviam sido deixadas abertas. Os relâmpagos rasgam o céu provocando um brilho azul-pálido, seguido de um trovão estrondoso que treme o solo e as paredes das construções do vilarejo.
Enquanto isso, em uma das casas, um casal de camponeses está passando por um momento desesperador. A mulher está dando à luz a um bebê com a ajuda de seu marido. A água da chuva se infiltra pelo telhado, causando goteiras, a luz dos relâmpagos atravessava as frestas das janelas trancadas com tábuas pregadas.
A mulher está semi-reclinada na cama. O lençol, bagunçado, estava manchado de sangue e fluido do parto. Suas costas apoiadas em travesseiros e suas pernas abertas. Os olhos castanhos se fechavam com força enquanto ela se concentrava em empurrar a criança para fora do seu ventre. Sua cabeça se inclinava para trás, fazendo seus longos cabelos negros e lisos caírem como cascata. Seu grito era abafado por uma mordaça feita de tecido, colocada pelo marido pra que ela não mordesse a língua.
Enquanto isso, ele mantinha uma vela acesa, a luz alaranjada iluminava fracamente o local onde estavam a cama e sua esposa. Ocasionalmente olhava para as partes íntimas da mulher, atento ao nascimento do filho. O homem pega um pano limpo e seco que está numa mesa ao lado da cama: junto com mais panos e uma faca de cozinha, ele limpa o suor da pele branca da esposa, o pano ficando sujo e úmido no processo.
– Mais força, querida! Mais força! – incentivou, de forma desesperada e urgente. sua mão grande segurava a mão da esposa, que a apertava com força devido a dor do parto – Você consegue, Cecília! Os deuses estão conosco! Vamos!
Ele a encarou. Seus olhos cinzentos encarando os olhos castanhos dela, a esposa vê os cabelos castanhos e curtos do marido encharcados de suor e chuva, as gotas escorrendo na pele bronzeada e pelo seu rosto desesperado.
Ela ofegou de forma controlada e logo soltou outro grito abafado, juntando todas as forças de seu corpo já enfraquecido. O homem olhou entre as pernas da esposa e lá estava a cabeça da criança. Rapidamente, soltando a mão dela e colocou as mãos na cabeça do bebê, levantando e puxando devagar.
– Querida falta pouco! Respire e empurre!
Cecília faz o que o marido ordena e junta todo ar que pode em seus pulmões e faz força enquanto o homem ajudava puxando a cabeça da criança. Finalmente, o bebê saiu, coberto com sangue e fluido. Ele chorava baixo e quase não se mexia nas mãos do pai.
O homem o segurou com cuidado e o enrolou em um pano seco. Pegou a faca em seguida e aqueceu a lâmina usando a chama da vela. Então, com cuidado cortou o cordão umbilical do bebê e entregou a criança nos braços da esposa, tirando a mordaça da mesma.
– Conseguimos, querida! Conseguimos! E é um menino! – disse num misto de descrença e ânimo, saindo do quarto com a vela em mãos para pegar água limpa.
Cecília, enfraquecida pela perda de sangue e horas de esforço, envolveu a criança em seus braços. Limpando o rosto com a manga da própria roupa e beijando a testa com amor e carinho. A criança fica em silêncio nos braços da mãe.
No lado de fora diversos relâmpagos rasgavam continuamente o céu, um atrás do outro. O clarão forte iluminava brevemente o cômodo e mesmo com a visão turva, Cecília pôde, por um instante, ver os cabelos negros e ralos do bebê, sua pele pálida como neve e talvez, algo a mais na cabeça. Mas não pode ter certeza. O clarão foi rápido demais, seguido pelo barulho estrondoso que parecia fazer o céu e terra tremerem. Apesar do barulho e dos clarões, a criança se mantém calma sem emitir um choro.
O homem retornou para o quarto com a vela e um balde de madeira com água da chuva. Deixou a vela na mesa ao lado da cama, umedeceu um pano e começou a limpar cuidadosamente as pernas e partes íntimas da esposa.
Após a limpeza ele solta um suspiro aliviado.
– Acabou…
Ele se aproxima mais pra vê o bebê.
– Deixa eu ver o nosso garoto.
Cecília então mostrou o bebê em seus braços. A luz alaranjada da vela iluminava o rosto pálido e tranquilo do menino. O pai encarou o filho com um sorriso orgulhoso e alegre, mas, conforme ele olha o filho sua expressão mudou gradualmente: primeiro confusão; depois um medo que foi evoluindo.
O bebê nasceu com a pele pálida demais, quase como de um cadáver, mas claramente está vivo, na cabeça havia duas pequenas saliências pontudas: chifres. Suas orelhas são levemente longas e pontudas.
Ele ficou paralisado enquanto encarava o filho. Então, o bebê abriu lentamente os olhos, era cedo demais pra isso acontecer, mas o que o chocou foi a cor: um verde-esmeralda que brilhava sob a luz da vela. O olhar parecia encarar sua alma. Assustado, deu um passo errado pra trás e caiu no chão.
A esposa olhou para o marido, preocupada, ainda com o bebê nos braços, o filho olha para a mãe e depois olha para o pai em silêncio
– O que houve querido? – perguntou, sua voz preocupada e cansada.
– Os olhos… – respondeu, ainda encarando o filho com uma expressão assustada no rosto.
– Ah sim. Não são lindos? – perguntou voltando a olhar para o filho com carinho.
– Querida, você não está vendo esses chifres!? – gritou assustado – Isso é como na profecia… Não… Não… Por quê!? – perguntou a si mesmo, colocando as mãos na cabeça – Por quê deuses? Por quê!? Cabelos negros como a noite, pele branca como de um cadáver, chifres, orelhas pontudas e olhos verdes que perfuram a alma… – disse num tom desesperado, se lembrando da profecia que está acontecendo nesse momento – Nosso filho… não… essa coisa é o Feiticeiro das Trevas!
– NÃO DIGA ISSO! – Cecília num tom de raiva, descrença e indignação. Seus olhos lacrimejando enquanto apertava o bebê contra o peito – Ele é o nosso filho… depois de tanto tempo e tantas tentativas… finalmente eu tive um filho.
Ela beijou a testa do filho e o mesmo encarou a mãe e deu uma breve risada inocente. Um pequeno sorriso se formou em seu rosto, a mãe o encarou com um sorriso alegre.
– Olha só isso Igor, olha esse sorriso e essa risada, como ele vai trazer mal ao mundo? Ele é tão pequeno e tão doce.
Ela deu outro beijo no bebê, desta vez na bochecha.
– Eu não me importo com a aparência dele. Ele está vivo e saudável. É o suficiente.
Acariciou a cabeça do filho, o bebê fechando os olhos como se estivesse aproveitando o afeto.
– Grey… esse será seu nome, Grey – disse com um sorriso.
Igor continuava sentado no chão, olhando incrédulo para a esposa e o filho. Ele põe as mãos no rosto e um conflito interno começa em sua mente.
– (Não, não, não! Isso tá errado! essa coisa não é o meu filho! Não pode ser! Isso vai trazer o mal a tudo que existe! Eu preciso… Eu preciso..) – os pensamentos de Igor estavam em conflito entre a razão e a emoção – (Mas depois de tudo isso… Porquê?) – então ele começou a chorar silenciosamente com as mãos no rosto. Foram nove meses de espera, preparo e expectativa, tudo destruído em uma única noite tempestuosa.
– O que eu faço, deuses? – murmurou pra si mesmo, sentindo a mão da esposa acariciando seus cabelos.
– Com dedicação, carinho e amor, podemos mudar o destino. Eu tenho certeza.
Um sorriso otimista se formou em seu rosto, o filho se mantém em um dos braços da mãe
– Isso não é um castigo. É um teste dos deuses. Sempre fomos devotos a eles, e agora estão testando nossa fé e devoção.
ela voltou a acolher o bebê com ambos os braços.
– Sim, só pode ser isso.
– Um teste? – repetiu Igor ainda incrédulo.
Atordoado com a situação, ele encarou o chão perdido em pensamentos por minutos enquanto a mãe ofereceu o seio ao bebê para amamentá-lo – Temos que sair do vilarejo, ninguém pode vê isso- que dizer; esse bebê.
– Nosso bebê – corrigiu Cecília– Mas para onde iríamos?
– Tem uma pequena propriedade abandonada na floresta, longe e isolada do vilarejo. Eu conheço o dono. Vou me dedicar mais ao trabalho e conseguir o dinheiro para comprá-la.
Olhou para a esposa com seriedade.
– De forma alguma saia de casa. Descanse e deixe as portas e janelas fechadas o tempo todo. Entendeu?
– Entendi.
Cecília voltou a olhar o filho amamentando seu seio.
– Ouviu Grey? Seja um bebê bonzinho e se comporte.
Sorriu com afeto.
Igor continuou encarando a esposa e o bebê. Seu rosto demonstrava seriedade e indignação, então ele levantou do chão e caminhou para fora do quarto.
– Vou preparar uma sopa pra você.
E assim, a noite passou e a tempestade no lado de fora só se encerrou ao amanhecer. As ruas alagadas e alguns danos causados pelo vento em casas e comércios.
Igor como de costume, acordou assim que o sol nasceu, tomou seu café da manhã: pão de trigo e chá quente. Se despediu da esposa dando um selinho na mesma.
– Até mais tarde querida.
Ele foi até a entrada da casa.
– Não vai se despedir do seu filho?
Cecília perguntou carregando o bebê no colo, o menino encarou o pai com seus olhos verde-esmeralda, ele estendeu os pequenos braços em direção ao pai. Porém, Igor apenas o encara com indiferença e saiu de casa fechando a porta atrás dele sem dizer nada.
Cecília soltou um leve suspiro triste e abraçou o bebê.
– Não se preocupe, meu filho, seu pai só está tendo um momento difícil.
Ela embalou a criança no colo, o bebê envolveu os braços no pescoço da mãe, fechando os olhos em seguida.
Igor caminhou pela rua lamacenta e cheia de poças d'água, tomando cuidado para não escorregar. Ele saiu do vilarejo e foi até uma fazenda próxima onde trabalha. De longe, viu o estrago da tempestade: parte da plantação de trigo foi destruída, a cerca das ovelhas foi derrubada, algumas delas caminhavam perdidas pelo lado de fora.
Enquanto Igor andava e observava os danos, um colega de trabalho, um homem um pouco mais velho e de pele bronzeada pelo sol, se aproximou.
– Pelos deuses! Thaloc deve ter ficado furioso com algo –
O homem cruzou os braços, ainda observando o estrago.
– Aquela coisa deve ter enfurecido ele… – murmurou Igor pra si mesmo.
– O quê?
– Nada. Quero dizer… Vamos consertar o estrago e ver se tem o suficiente para cumprir a cota deste ano. Mais tarde vou fazer uma oferenda ao Senhor das Tempestades para acalmá-lo.
– Sim. Espero que Greevia, a Mãe Coelho tenha compaixão conosco e não nos deixe faltar alimento.
O homem acompanhou Igor para ajudá-lo, enquanto mais trabalhadores chegavam para cumprir seus afazeres na fazenda. Havia o suficiente para cumprir a cota, mas teriam que raciocinar a comida por um tempo. Grande parte das ovelhas foram recuperadas, mesmo que algumas ainda estivessem desaparecidas. Carne e lã não seria um problema.
Os dias passaram naturalmente, mas a rotina dos moradores ficou conturbada após o nascimento de Grey. Lobos selvagens começaram a rondar o vilarejo durante a noite; corvos sobrevoavam as casas e ratos apareciam nas casas com mais frequência.
Os habitantes do vilarejo interpretaram como um aviso dos deuses de que algo ruim estava por vir. Já Igor acreditava que a culpa era da coisa que saiu do ventre da sua esposa, pois é dito em lendas e contos que o Feiticeiro das Trevas teria a capacidade de controlar criaturas da noite e da morte.
Como prova, durante as semanas seguintes, o quarto de Grey era invadido por ratos e aranhas que entravam pelas frestas da casa. Cecília se via obrigada a verificar constantemente o quarto do filho já que o mesmo só chorava quando fazia suas necessidades ou quando estava com fome, ele passava grande parte do tempo dormindo.
Depois de um mês de trabalho árduo, economizando as diárias e rezando aos deuses, Igor finalmente conseguiu comprar a propriedade, conseguindo até mesmo barganhar com o antigo proprietário.
Com a escritura em mãos e um cavalo emprestado, ele saiu do vilarejo durante a noite junto com a esposa que carregava o bebê no colo.
Após horas de viagem seguindo uma estrada irregular de terra que acessa floresta adentro. Eles finalmente chegam na propriedade: um terreno grande, aberto e gramado com uma única e humilde casa de madeira.
O local demonstrava anos de abandono. A grama alta, teias de aranha e vinhas cobriam a casa; a poeira dominava o interior do imóvel, e o teto possuía alguns buracos feitos pelo tempo. Apesar do estado precário não era impossível torná-lo um lar.
Igor deixou de trabalhar por duas semanas na fazenda. Dedicou esse tempo construindo uma cerca alta de madeira em volta da propriedade, capinando o terreno e tirando toda a sujeira do exterior da casa. Já Cecília ficou responsável de limpar o interior, organizar os móveis da antiga casa, que foram trazidos por uma carroça, preparar a comida e, claro, cuidar do bebê.
Com tudo isso terminado, Igor voltou a trabalhar na fazenda, sendo obrigado a sair a pé antes do nascer do sol, já que ainda não tinha dinheiro para comprar um cavalo. Cecília dedicou seu tempo a cuidar da casa e do Grey.
Pequenos inconvenientes aconteciam em raras ocasiões; lobos se aproximavam da cerca, corvos sobrevoando a casa e aranhas invadindo o quarto do bebê, assim como na antiga casa. Porém, conforme o tempo passava, esses incidentes se tornaram menos frequentes, tornando a rotina um pouco mais tranquila.
Mas o que Igor e Cecília não sabiam era que, em algum lugar na
parte mais profunda e escura da floresta, uma misteriosa figura os observava de longe, figura essa que será muito importante para o futuro de Grey.
Continua…