Lia saiu três horas mais cedo da empresa.
Ela planejava colocar seu plano em ação.
“Preciso te dar uma lição inesquecível, Michel... não mexa com sua Lia.”
Ela parou seu carro em frente a uma loja suspeita.
Parecia um sex shop.
Vestida com um sobretudo, óculos pretos e um boné, Lia andou em direção à entrada com as mãos no bolso.
Como era uma loja grande, rapidamente foi barrada por dois seguranças.
Lia não se desesperou, apenas tirou o celular e fez uma ligação.
Alguns momentos depois, uma mulher ruiva, vestida de forma elegante, surgiu.
— Oh... minha bela amiga decidiu aparecer no empreendimento desta irmãzona aqui?
Lia estreitou os olhos.
— Raquel... aquilo que encomendei mais cedo?
Raquel riu baixinho.
— Tanto tempo que não nos vemos... não quer entrar e tomar um drink?
Rapidamente, Lia balançou a cabeça em negação.
— Sou uma mulher casada... se eu der uma olhada nesses brinquedos, vou arruinar minha inocência.
Raquel não aguentou e caiu na gargalhada.
— Pelo que você comprou, já a arruinou há muito tempo.
Lia sorriu sem jeito, mas não tentou argumentar. Conversou com ela por alguns poucos minutos, e saiu com sua encomenda.
“Ufa! Essa é uma amizade que eu queria esquecer... aqueles dois brutamontes eram os daquela foto.”
“Ela é uma abelhuda”
Ainda quando era solteirona, sua antiga colega de escola, Raquel, continuava a convidá-la para festas suspeitas, cheias de homens.
Claramente, Lia era muito preguiçosa para sair de casa. Em casa, podia ganhar seu dinheiro sem esforço.
“Ela é uma mulher vivida... essa Raquel é, em outras palavras, muito vadia.”
Lembrando-se disso, Lia pensou em jogar um pouco de água benta sobre as coisas que havia comprado.
Interiormente, também decidiu nunca deixar aquela tarântula se aproximar de seu marido.
Não era por não confiar em Michel, mas por saber o perigo que Raquel, do harém, representava.
“Sim, esse era seu apelido em pleno ensino médio.”
Lia refletiu ao recordar.
“Vai que essa piranha obcecada por homens dopa meu Michel? Eu arrancaria as beiras dela com as unhas e a enterraria de cabeça para baixo.”
Abrindo o notebook, Lia sorriu calorosamente.
“O próximo capítulo é onde mora a mágica dos ‘do nada’ da vida.”
Seus dedos se moveram pelo teclado.
— Opa, minha gente! Lia, a incomparável, está de volta.
Soltou levemente o ar.
— Neste capítulo, vocês entenderam como as coisas simplesmente acontecem.
Michel percebeu que ela estava modificando o texto.
— Você não deveria estar no trabalho?
Lia arregalou os olhos.
— Michel... seu amor é tão intenso que está me rastreando?
Com essas palavras, Michel suspirou levemente.
— Sim, amo você com todo o meu ser... mas o notebook é vinculado ao meu e-mail, sabe?
Lia riu, sem jeito.
— Também te amo profundamente, meu chato Michel safadinho.
Breve pausa.
— Saí mais cedo para me preparar para a noite... — seus lábios se arquearam. — É bom você estar pronto.
Por algum motivo, Michel sentiu um frio na espinha.
“Será um resfriado?”
Após dizer para Lia não se meter em problemas, digitou algumas palavras.
— Não sejam exigentes demais — escreveu Michel. — O casamento é cuidar um do outro.
Em sua mente, lembranças surgiram de quando reencontrou Lia.
— Às vezes, você só tem que voltar e ser corajoso...
Ele sorriu calorosamente.
— ...ainda que tenha que engolir o orgulho e ignorar uma dor. O amor verdadeiro supera tudo!
— Desejo a vocês um ótimo capítulo. Este editor Michel está de olho nos dedos nervosos da minha Lia.
◇◇◇
Lia não ligava para o que vestia. Sua roupa para sair na rua era uma longa blusa que usava para dormir e um short.
Bem, era seu pijama.
A camisa que vestia descia até os joelhos, então parecia um vestido.
Seus cabelos já haviam tido algumas tonalidades diferentes; contudo, agora estavam em seu tom natural, castanho.
Sua aparência era ok.
Era bonita, nada tão extraordinário a ponto de alguém dizer: “Nossa, que mulher capaz de derrubar nações!”
Mas era bonita.
Era isso que Lia pensava sobre si mesma, e sinceramente? Era tudo o que importava para ela.
Na opinião dela, se alguém discordasse, que explodisse sozinho.
Depois daquele dia, planejava procurar alguma casa para morar.
Lia sentiu que o lucro obtido com a venda de bitcoin foi o incentivo para finalmente morar sozinha.
Também desejava que seus pais pudessem ter seu ninho de passarinho sem incômodos.
Ela se sentia como um passarinho que sabia voar, porém se recusava a deixar o ninho.
Saiu para comprar cerveja, mas estava tão pensativa que acabou esquecendo.
Lia não estava a fim de voltar para casa tão cedo. Era meio frustrante.
Apesar de brincar com sua família, ficar o tempo todo ouvindo que deveria casar ou arrumar um emprego era, de fato, cansativo.
Com um Treloso e uma latinha de Coca-Cola Zero em mãos, Lia estava sentada na praça em frente à conveniência.
Apesar de ser quase uma da tarde, havia muitas árvores, deixando o lugar agradável.
— Aff! Que vidinha...
Suspirou antes de tomar um gole de refrigerante.
— Sim, realmente é meio difícil, né?
Surpresa com a resposta inesperada, Lia arregalou os olhos e olhou para a direita. Foi então que percebeu um homem alto, de cerca de 1,80 m, encostado em um poste enquanto comia um espetinho de carne.
O poste estava ao lado do banco da praça onde ela se sentava.
Lia estava tão distraída em seus pensamentos que sequer havia percebido a presença dele. Ao notar o homem somente naquele momento, ficou um pouco sem jeito.
Mas, para quebrar o gelo, ela respondeu com uma pergunta casual:
— Tem sido difícil para você também?
Comendo o último pedaço de carne, ele jogou o palito na lixeira à sua esquerda.
— Oh... Sim, bastante!
Breve pausa.
— Você acredita que minha mãe pagou dois mil por um encontro às cegas para mim? — respondeu ele, frustrado. — Ela vive insistindo que eu tenho que casar.
Lia tomou um gole de Coca-Cola enquanto o observava pelo canto dos olhos. Ver alguém passando por uma situação semelhante fez seus olhos brilharem.
— Oh! Então você também está numa situação assim... Não, a sua parece pior que a minha...
“Pobre alma.”
Ela suspirou.
— Fico triste por você e, na verdade, te entendo muito bem.
— Realmente? — disse ele — Não achei que você estivesse passando pelo mesmo que eu. Fico até surpreso!
Lia achou meio estranha a resposta daquele estranho, mas ficou feliz por encontrar alguém que a compreendia. Então, simplesmente continuou a conversa.
Ela sorriu divertidamente.
— Mas sua mãe é meio casca-grossa, né? Um encontro às cegas nos dias de hoje... Eu me pergunto qual é o problema de alguém querer ficar solteiro...
O estranho suspirou.
— Bem... Você sabe bem como ela é. No passado, sempre pegou no nosso pé, apesar de que sua mãe sempre nos socorria.
Um breve silêncio surgiu.
— Mas, por falar nisso... Como estão todos? E você, como tem passado?
Sem perceber, Lia deixou o Treloso cair da mão.
Ela se levantou e se aproximou do homem alto que estava escorado no poste.
Lia o encarou por pelo menos trinta segundos, porém não o reconheceu.
“Esse cara bonito fala como se já nos conhecêssemos há muito tempo... Que estranho. Parece até que somos velhos amigos.”
Pensou, curiosa para descobrir quem ele era.
Enquanto ela o encarava, ele tirou os óculos e aproximou um pouco seu rosto do dela.
— Lia, você não se lembra de mim?
Ao ouvir seu nome ser chamado, por um momento Lia recordou um rosto arredondado e infantil.
— Tch! Não, impossível! Deve ser outra pessoa.
Ela balançou a cabeça, discordando da ideia.
Sorrindo, ele falou:
— Realmente... já faz sete anos, Lia. Entendo ser difícil lembrar, mas sou eu, o Michel.
Lia arregalou os olhos.
Michel sorriu calorosamente.
— Mudei um pouquinho, mas não deve ser difícil me reconhecer.
Ela estava perplexa.
“Um pouquinho, minha bunda.”
◇◇◇
Notas de Michel: Eu lembro desse dia como se fosse ontem. Foi um reencontro maravilhoso. Mas notei alguns pensamentos da Lia que não fazem sentido no texto...
Notas de Lia: Nas minhas memórias, foi onde a loucura começou... E deixe de ser intrometido, Michel. É certo que tudo nesse texto é real.
Hoje à noite a magnânima Lia vai te dar uns tratos.
Podem confiar na mãe, pessoal. As memórias da grande Lia nunca falham!