Tendo passado a madrugada editando meu último rascunho, enfim termino de escrever o final do meu livro. Com as pernas formigando, levanto-me da cadeira para abrir a janela, me arrependendo logo em seguida.
— Aargh... que sol forte...
Sentado na cama e pegando minha garrafa d'água, reflito sobre os últimos anos desde que larguei tudo para virar escritor. A cada gole que descia, uma lembrança surgia em minha mente — lembranças felizes, lembranças amargas...
Mas de nada adiantava remoer o passado. Embora eu ainda não estivesse rico, era fato de que, pelo menos em partes, eu estava vivendo meu sonho.
De volta para o computador, envio o rascunho final para o meu editor e aguardo sua resposta. Acho que seria uma boa ideia descansar agora.
Deito na cama, mas não consigo encontrar uma posição confortável. Mesmo com os olhos cansados, não consigo descansar. Tudo parece balançar...
“E se esse fracassar também?”, era a pergunta que não saía da minha cabeça.
Eu me considero uma pessoa orgulhosa. As coisas que escrevo são de qualidade — sei disso. Mas então, por que será que ninguém parece se importar? Em um mar tão vasto, sou mesmo apenas um peixinho?
Sentindo algo frio tocar meu pé, percebo que a luz do céu havia sumido. Lentamente, esse algo frio passa a cobrir meu corpo sem que eu pudesse fazer nada contra. Agora, totalmente coberto, nenhum dos meus cinco sentidos funciona.
Anos se passavam e nada mudava; o mesmo apartamento, os mesmos chinelos e, por fim, as mesmas histórias. De novo e de novo. Até que, em certo ponto, eu parava de perceber a passagem do tempo e morria — no mesmo lugar. Com isso, uma forte luz me consumia e alguém gritava por um nome que não reconheço: “Ithyllo!”.
— Uuurgh!
Levantando assustado da cama, percebo que já estava escuro novamente.
Levo uma mão à cabeça e limpo o suor com a camisa.
— Mas que sonho, hein...
Em seguida, o telefone toca: era o meu editor.
Após algumas palavras de enrolação, me é dito que o final não era bom o suficiente. Por ora, achei que seria melhor sair para tomar um ar.
Estaria eu fardado à obscuridade?
Talvez fosse melhor me matar agora e evitar um futuro de miséria — talvez o sonho finalmente tenha acabado. Quem sabe ao menos eu me torne o Van Gogh do século 21?
Se bem que, caso nem isso funcionasse, nem a morte me pouparia da tamanha vergonha que eu sentiria do outro lado.
“Outro lado, né...?”
Inspirado, decido sacar o meu celular e escrever um poema. Algo sobre o pós-vida, talvez?
Sol da manhã
Que me apanha.
De mim, faça
Mais paciente;
Sempre ciente.
Me distraio escrevendo. Imerso, tentando encontrar palavras melhores e novas rimas, nem percebo o mundo à minha volta. Quando escrevo, sinto o relógio do mundo parar e, enfim, fôlego para me sustentar.
Satisfeito, decido voltar para casa.
Infelizmente, esse final também me foi tirado.
— Screeech!
O som agudo de um carro descontrolado é a última coisa que ouço antes de me encontrar a alguns metros de distância no ar. Mais uma vítima de motoristas embriagados — não era esse tipo de estatística que eu gostaria de me tornar...
Logo, uma sirene interrompe meus últimos momentos de silêncio e, em seguida, uma luz forte ilumina meu corpo ferido.
Sim, eu já estou morto. Por favor, apaguem essa luz de uma vez.
Que droga, eu até que gostava daquele livro... Tomara que publiquem ele com o final que escrevi, seria um bom marketing...
O final...
Que droga...
— Buáááá!
Para a minha surpresa, o brilho ainda não havia ido embora.
Sinto uma dor forte, mas ao mesmo tempo, familiar. Um frio devastante preenche meus pulmões e, por fim, choro sem parar.
— Solvin, Isolde! T'i e'Isinyn'vril! — diz um homem de rosto fino e cabelo prateado, esbanjando um imenso sorriso.
— Haha, naurean... — Diz a voz logo atrás de mim.
Não consigo ouvir direito o que dizem. Minha cabeça dói e sinto um bizarro mal-estar. De repente, me dou conta que estou sendo carregado por alguém, tento virar meu pescoço, mas não consigo. Minha cabeça parece pesar 10 quilos a mais que o normal.
Mas isso não é problema, já que, logo em seguida, sou virado e entregue para alguém.
— Ithyllo... Y'ku nom...
Uma mulher na casa dos 20 anos cochicha essas palavras enquanto olha exausta para mim. É a dona da voz que ouvi há pouco. Ela parece feliz...?
“Não pode ser...”
Para a minha surpresa, o sol da manhã me apanhou.
Eu reencarnei como um bebê. Aparentemente, de uma família um tanto quanto abastada, a julgar por suas roupas e trejeitos.
Os dias se passaram e fui lentamente conhecendo as figuras misteriosas que habitavam essa casa — ou talvez mansão, a julgar por seu tamanho, embora eu também tenha encolhido um pouco.
Evidentemente, as duas pessoas de antes eram os meus pais: um casal um tanto quanto jovem. A mulher, minha mãe, se chama Isolde. Já meu pai se chama Draven. Acredito que sejam aristocratas, talvez donos de um feudo? Acho que já escrevi um romance sobre isso antes...
Entretanto, algo mais tem me perturbado.
— Ithy! Y'hu tin aktis'ke pro'in ki?
Ouvindo tais palavras... Eu consigo entendê-las — palavras essas ditas por minha nova mãe. Mas não porque sou um bebê aprendendo a falar.
Eu entendo o que ela diz porque eu conheço esse idioma, afinal, eu mesmo o criei.
Há muito tempo, antes de me tornar um escritor profissional, eu tinha um projeto pessoal — um mundo inteiro de fantasia, com idioma, pessoas e países próprios. Não tinha nome na época, mas era a história de um continente chamado Etrun’ya. O seu idioma: o Etrunyano, aquele que ouço agora e todos os dias que se passaram até então.
— Ithy? Você está com fome, querido?
Sim, minha “nova mãe” está falando no idioma Etrunyano. As palavras, fonéticas, tudo isso — eu inventei, numa época na qual eu nem sabia que faculdade fazer.
Como isso é possível? Observando o mundo pela janela, apenas vejo uma paisagem normal do interior: grandes árvores, lagos límpidos e gramados verdinhos, além, claro, das estradas e plantações que cercam esse terreno.
Deve ser coincidência. Não tem como acreditar que uma história boba de fantasia escrita por um adolescente anos atrás tenha se tornado realidade. Na verdade, seria triste pensar que o meu pós-vida seria aqui. Talvez as minhas memórias só estejam embaralhadas ainda.
Mas, fato é: eu renasci rico.
Será que sou filho da realeza? Apenas um pequeno e isolado feudo é pouco para mim. Não quero adiantar as coisas, mas... sim. Eu sempre soube que tinha sangue de nobre!
Finalmente poderei realizar meu sonho — o meu verdadeiro sonho —, escrever à vontade e nunca mais precisar trabalhar na vida!
Adeus, editores malditos! Adeus, público mal-agradecido! Daqui em diante, nada, jamais, irá me preocupar! Me tornarei uma máquina da escrita!
...
Eles possuem papel aqui, certo?
Com o passar dos meses, fui aprendendo a controlar meu novo corpo. Manter-se de pé era complicado, logo, decidi focar em engatinhar primeiro. Quero poder explorar essa casa, afinal, eu já aprendi essas coisas antes, né?
Tinha certeza de que, em algum lugar nessa mansão, teria que ter algum livro ou ao menos papel. Preciso confirmar como é a escrita nesse lugar.
Não sei muito sobre história, mas definitivamente não estou no século 21. Será que reencarnei no passado? Isso seria um pouco problemático... e se eu, acidentalmente, matasse algum figuraça dessa época? Isso mudaria a história? Ou talvez eu já tenha vindo de um futuro em que “eu” já matei o figuraça-hipotético?
Bleergh... odeio histórias com viagem no tempo.
— Ithy! — Alguém grita meu nome.
— O que está fazendo? — Era Isolde. Ela me pega no colo e começa a apertar minhas grandes e adoráveis bochechas de neném.
Mesmo após passar esses últimos meses com essas pessoas, ainda não consigo me sentir confortável perto delas. A relação com os meus pais verdadeiros não era tão ruim a ponto de eu me sentir feliz por ter novos pais, mas, mesmo assim, é estranho. Acho que nunca serei capaz de chamá-los de pai e mãe...
Sob um estalo repentino, o chão treme. Fortes ventos atravessam as telhas e uma escuridão misteriosa cobre o céu lá fora. Algo grande acabou de passar por aqui perto e estava muito rápido — como um caça de combate.
Com a luz do sol abruptamente tampada e sem nada para iluminar o corredor, encontro-me no escuro junto de Isolde. Será que eu deveria começar a chorar agora?
— Ah, não chore, Ithy. Está tudo bem! — Isolde me conforta, colocando sua mão em minha cabeça. — Deve ter sido apenas um filhote de Ara’ely. A mamãe já vai cuidar dessa escuridão!
“Um o quê...”, pensei, confuso.
Antes que eu pudesse identificar o que meus ouvidos estavam ouvindo, palavras familiares passaram a ser recitadas por ela:
— Elosan, nayame sa'ith'nar eli sa'ellon'nar mayabonah alim'tinai suondram. Luz guia.
Após terminar sua prece, um orbe misterioso de luz surge ao lado de Isolde, iluminando o corredor em que estávamos e dissipando ferozmente a escuridão ao seu redor.
— Hihi, bem melhor — ela diz, contente com sua performance.
Na verdade, eu menti. Esse orbe de luz não era misterioso para mim. Era um feitiço de suporte feito a partir da magia concedida pela lua — aqui chamada de Lunsy. Eu sei disso, já que fui eu que o inventei.
“Ara’ely”, esse é o nome de uma das criaturas mágicas que vivem nesse mundo, uma espécie de dragão com escamas que lembram pedra. Eu também sei disso.
...!
Eu definitivamente não reencarnei no passado. Tampouco estou no mesmo mundo no qual passei os últimos 28 anos da minha vida e, definitivamente, não é coincidência o idioma falado aqui ser o mesmo que criei há anos atrás.
Eu reencarnei dentro da minha própria obra inacabada.
“Acho que vou vomitar...”