Está finalizado. Admito que nunca fui muito bom desenhando, mas isso aqui é definitivamente mais avançado do que qualquer coisa que uma criança na minha idade poderia desenhar.
A composição, o traço — tudo. É o retrato perfeito de nossa família aos olhos de uma inocente infância. Qualquer pai ficaria emocionado com um desenho tão belo como esse entregue pelo filho.
Com um suspiro, Draven está de volta. Me mantenho de costas para ele com minha arte em mãos.
— Ithy? — Ele me chama.
Tcharam! Observe, Draven, o lindo desenho que seu filho fez para você! Se sentindo melhor? Eu sei que às vezes ser pai pode ser difícil, ainda mais sendo tão ocupado como você—
— Ithy, o que é isso? — Draven me questiona, com um olhar genuinamente confuso em seu rosto.
— Huh? É um... desenho? — eu respondo, igualmente confuso.
Draven suspira novamente. Ele não parece muito feliz.
— Ithy, por favor, não gaste papel e tinta com besteira — ele explica, friamente.
— Mas, é um desenho para você...
Por que ele não aceitou meu desenho? Não era essa a reação que eu esperava.
Conhecendo o Draven, ele deveria ter ficado com os olhos brilhando e ter me agarrado feliz da vida, esbanjando o quão bom seu filho é e, futuramente, enquadrando meu desenho e exibindo-o na sala de estar para que todos possam vê-lo.
Por que ele não está agindo como eu imaginei?
Será que o desenho ficou feio? Tudo bem que exagerei um pouco quanto a ele, mas...
Sinto uma pontada irritante no meu peito. Quem ele pensa que é?
Pensando bem... a falta de livros de ficção nessa casa e essa rejeição com desenhos... será que...
Após esse episódio constrangedor, mais um ano se passou. Agora, eu já tenho quase quatro anos. Os dias têm se tornado diferentes já que, por fim, estou recebendo algum tipo de educação e tarefas — embora eu já esteja sentindo falta dos meus dias de preguiça como um bebê.
Frequentemente tenho aulas com Virian e Isolde sobre a região, língua e aritmética básica. Obviamente, não tive problemas com nenhum desses temas e, até mesmo às vezes, surpreendi ambas com minha inteligência. Eu não era especial na minha vida passada, então, quero poder me achar um pouco nessa e me divertir, para variar.
Pelo que descobri até então sobre essa região e da minha família — a casa kal'yad'nar —, estamos em uma província chamada Elo, uma oligarquia formada pelas principais casas desse clã de mesmo nome em terras cedidas pelo Reino de Isyl, ao oeste. O clã Elo, por sua vez, é um dos mais influentes de Etrun’ya, tendo sido patrono do Reino desde sua origem após a guerra entre os deuses e mortais há séculos atrás.
Entretanto, uma coisa que descobri é que, por algum motivo, nossa família não anda muito bem. Mesmo assim, os dias continuam passando.
Mais alguns meses se passaram e agora tenho quatro anos. O povo desse mundo não comemora aniversários como nós da Terra fazemos, sendo apenas um evento social simples entre a família. Por agora, eu oficialmente “aprendi” a escrever, o que impressionou todos na casa pela velocidade. O alfabeto Etrunyano, por sua vez, é basicamente idêntico ao latim — culpa da minha preguiça juvenil. Obviamente, não tive dificuldades em “reaprender” a minha própria língua.
Um ano atrás, eu fiz um desenho para Draven que não foi muito bem recebido, mas agora, pretendo fazer algo diferente para Isolde: um lindo e singelo poema, de filho para mãe. Achei que seria exagero escrever perfeitamente dada minha idade, logo, simplifiquei algumas coisas e errei algumas palavras de propósito aqui e ali. Que estúpido, eu sei...
Finalizado, fui até Isolde humildemente entregá-lo. Espero que não briguem comigo de novo dizendo que “papel é caro”. Não éramos uma família de nobres? Não é possível que papel seja um artigo de tamanho luxo até mesmo para nós!
Isolde pegou o papel que lhe dei e começou a lê-lo. Seus olhos atravessavam a folha lentamente e seu rosto, estático.
— Ithy, querido… onde você viu isso? — Ela pergunta.
“Viu?”, não entendo o que Isolde quer dizer com isso. Explico novamente que é um poema que escrevi para ela.
— Um poema… acho que nunca li um antes... — ela responde, colocando uma mão em sua cabeça, como se estivesse olhando para um artefato alienígena. — Essa mulher “linda e forte” escrita aqui, sou eu? Mas eu nunca fiz nada do que está escrito aqui…
Enquanto Isolde desmontava meu poema e apontava as partes que ela não entendia, uma conclusão chegou à minha mente: as pessoas desse lugar não consomem arte e nem literatura. Isolde está confusa porque ela não está acostumada com figuras de linguagem e metáforas. As pessoas aqui apenas registram o mundo e fatos da exata maneira que eles são.
— Fico feliz que consiga escrever bem, Ithy, mas, por favor, não gaste papel escrevendo coisas que não aconteceram, tudo bem? — Por fim, Isolde me devolve o papel e afaga minha cabeça, se retirando.
Sinto que algo dentro de mim se quebrou nesse momento.
Será que o mundo inteiro está assim? Esse não é o mundo que eu criei todos esses anos atrás; um mundo composto por analfabetos funcionais só pode ser um pesadelo! Um mundo burocrático e carente das belezas e sutilezas da arte… eu não posso acreditar nisso.
O que eu faço agora? No fim, eu terei mesmo que arrumar outra profissão? Falaram de novo sobre não “desperdiçar” papel… maldição!
Reencarnar como um nobre e não precisar trabalhar? Ha, ha! Eu sabia que uma segunda vida não seria tão fácil assim — não para mim!
“Inferno pessoal”, né? Pois bem, que seja, eu sou teimoso demais para essas idiotices. Vocês não sabem apreciar a arte e o poder da ficção? Que seja, eu os ensinarei, então!
Histórias não servem somente para entreter; elas ensinam, guiam, emocionam, são os professores da vida; a estrada pela qual o conhecimento transita. Não será fácil, mas bem, é melhor um objetivo distante do que nenhum. Logo, esse domínio inteiro será a capital da ficção em Mundia! Eu os mostrarei!
Alguns dias se passaram; estou deitado no gramado fora de casa, olhando para o céu. Eu não faço ideia do que fazer agora. Meu ego e orgulho foram destruídos e estou depressivo. Quero voltar a dormir o dia inteiro, se possível.
Por que me enviaram para esse lugar inacabado e mal feito? Como vou levar esses “personagens” filisteus à minha volta a sério? Estão tentando jogar na minha cara o quão amador eu era?
Espera, afinal, como eu vim parar aqui? Será que fui mesmo enviado por alguém? Quer dizer, nesse tipo de história, já era para ter acontecido alguma coisa, certo? Uma catástrofe, uma paixão — droga, pelo menos o despertar de algum poder oculto, mas... nada ainda?
Bem, se nada acontece, então nada eu farei por enquanto. Apenas continuarei deitado nesse gramado macio, observando esse céu azul.
Com o sol aquecendo meu rosto com seu calor paternal, logo adormeço...
A hora do jantar se aproxima. Voltei para casa e fiquei no meu quarto lendo até ser interrompido por um barulho alto vindo da cozinha. Ignoro, deve ter sido Selene deixando algum prato cair, entretanto, logo começo a ouvir vozes — que rapidamente se transformam em gritos.
Curioso, decido descer para ver o que está acontecendo e me deparo com uma cena que, honestamente, não esperava ver.
De um lado, um homem; velho, porém grande e rígido, gritava com Selene. Esse homem é Dahen, meu avô e pai de Draven. Ele administra nossas terras ao norte e veio nos visitar para comemorar meu aniversário. Eu diria que ele é o completo oposto de Draven: rígido e frio, porém, mesmo assim, não imaginei que ele fosse do tipo que gritava e fosse agressivo. Notei também que, toda vez que ele olhava para Virian e Selene, seu rosto se fechava instantaneamente.
Olhando para o chão entre os dois, de fato havia um prato quebrado ali. Acho válido que, cedo ou tarde, alguém desse uma bronca em Selene, mas… isso está um pouco exagerado.
Dahen parecia uma fera furiosa, berrando palavras horríveis para Selene como se uma enorme quantidade de estresse acumulado enfim fosse liberada na primeira pessoa que o irritasse.
— Que droga! Já deveriam tê-la largada em algum beco sujo da capital para que terminassem o serviço que começaram de uma vez! — ele grita.
Selene, por sua vez, estava completamente diferente do normal. Aquela garota idiota e descuidada estava, agora, caída no chão e em prantos. Ela chorava silenciosamente enquanto olhava assustada para Dahen. Suas mãos tremiam e sua respiração quase não existia.
Olhando ao redor, vi que todos ali presentes — Draven e Isolde — estavam em completo silêncio, quase tão assustados quanto Selene. Por que estão assim? Por que não estão fazendo nada? Procuro por Lyra e não a encontro.
Espera um minuto, onde está Virian? Procuro por ela com os olhos e a vejo do outro lado da cozinha, totalmente paralisada e pálida enquanto observava a cena. Em sua mão, vi que ela estava segurando uma faca por baixo do balcão. Essas duas estavam morrendo de medo, e mesmo assim, era natural que a irmã mais velha protegesse a mais nova. Senti que, se eu não fizesse alguma coisa agora, uma merda muito grande iria acontecer.
— Vovô! — grito, assustando todos com minha presença e fazendo com que Dahen passasse a olhar para mim.
Eu sei o suficiente sobre histórias para conseguir executar o seguinte truque:
— Vovô, por favor, não grite com a Selene! — digo, com uma voz chorosa, enquanto seguro a perna dele. — Ela não fez por querer!
Todo vovô severo possui a mesma fraqueza: seu adorável neto!
Com um olhar assustador a princípio, temi ter feito a escolha errada, porém Dahen finalmente olhou ao seu redor e percebeu como todos estavam. Um silêncio agonizante se instaurou pelos próximos segundos.
— …Ithy… — Ele olha para mim novamente, com sua voz agora baixa, quase sussurrando; lentamente, ele parece se acalmar. — Desculpem-me...
De cabeça baixa, ele se retira e vai para o lado de fora da casa. Draven vai atrás dele enquanto Virian e Isolde vão até Selene.
“Por que ele estava tão nervoso? Será que fiz a coisa certa?”
— Ithy… — Selene diz, ainda com a voz trêmula — obrigada…
Ah, entendi. Acho que é assim então.
Selene ainda parecia estar assustada. Virian a abraçava fortemente enquanto sussurrava algo. Isolde, agachada, olhava para as duas com um olhar complicado. Tenho certeza de que há muita história entre essas duas irmãs.
No fim das contas, é claro que essas pessoas ao meu redor seriam tão complicadas quanto eu; é claro que eles sentem medo e possuem suas próprias histórias. No fim, acho que fui egoísta demais até agora, me preocupando somente comigo mesmo e minha literatura. Contudo, acho que salvar Selene foi a primeira coisa útil que fiz desde que cheguei aqui.
Observando as três mulheres no chão em minha frente, sinto, por algum motivo, uma vontade de também chorar. Talvez essa cena tenha sido familiar demais para mim, afinal. De toda forma, acho que subestimei Selene e quem ela realmente é.
“Terminar o serviço…”
Mas, o que Dahen quis dizer com isso?