Em algum ponto da história...
— Hikarin! Toca!
Procurei Yuto, que estava livre e, depois de driblar dois defensores, toquei a bola para ele.
— Um, dois!
— Então é bom você tocar de volta!
Trocamos passes por alguns segundos, até que cheguei à frente do goleiro, mas ele acabou defendendo.
— Foi mal... — Mesmo que tenha sido um "pedido de desculpas", eu estava rindo mais do que me sentindo culpado.
— Nem, suave! Já é costume! — disse ele, rindo.
As palavras, em si, eram rudes. Mas, não eram hostis de forma nenhuma. Era estranhamente confortável.
E, depois de umas horas jogando no campinho da cidade, estávamos voltando para nossas casas. Mas, pouco antes dele ter que virar a rua e nos separarmos, ele me soltou uma "bomba".
— Aí, Hikari... Tenho que te contar algo.
Por que essa mudança de tom?
— Que foi?
— No mês que vem- Eu vou ter que me mudar para bem longe.
O quê?
...
Hoje.
“ Todos têm um medo. “
“ Seja ele a morte, altura, escuro... O maior medo que sua alma já sentiu é algo que nunca muda. “
“ Você pode tentar negar e até esquecê-lo, mas a verdade continua a mesma. “
-
Meu maior medo?
O professor chamou um aluno do fundo da sala.
— Ei, Ninkai-kun! Você está prestando atenção?
Eu estava descansando. Quando levantei a cabeça, percebi que foi um erro. Deveria ter fingido que estava dormindo.
Olhos.
...por todos os lados. Me encarando.
— Perdão, pode repetir? Não escutei.
...
Pessoas, no geral.
É como se todas estivessem sempre esperando um motivo pra me julgar.
O professor me ignorou, perguntou a outro aluno e então voltou a explicar...
— Certo, continuando a explicação...
A voz do professor voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido. O barulho das cadeiras rangendo parecia mais alto que o normal, ecoando pela sala toda. As pessoas conversavam muito alto.
— Ei, você viu aquela notícia?
— Qual? Aquela sobre uma parede invisível de ar?
— Sim, bizarro, né?
— Muito. Parece até algum tipo de superpoder.
Precisam mesmo conversar tão alto numa sala de aula? Ainda mais sobre ficção?
Vou abaixar a cabeça novamente. E, dessa vez, não vou levantá-la.
O som do giz no quadro era desagradável, e ainda assim meu único apoio. Escutar os outros alunos conversando era a pior parte do meu dia. Parecia que ainda estavam me olhando.
Mesmo que não estivessem.
Estão falando de mim, com certeza.
O tempo não passava, cada segundo parecia mais longo que o anterior.
O sinal tocou, o barulho ecoou pela escola inteira.
Finalmente.
Alunos começaram a arrastar cadeiras de um lado para o outro. Conversas surgiram de todos os lados ao mesmo tempo. Gente levantando, rindo.
Eu esperei. Eu sempre espero.
Todos saíram, só então me levantei.
Saí pelo portão da escola, como sempre, sozinho. Fiz questão de não ter que ficar no meio daquela multidão que se aglomera quando as aulas acabam. Não moro longe da escola, então cheguei em casa bem rápido. Pelo caminho de sempre.
Quando cheguei em casa, o silêncio era bem confortável. Não tinha mais ninguém conversando desnecessariamente alto.
Era um lugar aconchegante, silencioso. Não era nada exagerado, só o suficiente.
— Bom dia, filho. Como foi a aula?
Meu pai me chamou enquanto lia algo no celular.
— Bom dia, pai. Normal.
Eu não quero prolongar a conversa. Não quero atrapalhá-lo.
Estava passando um noticiário sobre coisas estranhas acontecendo com frequência ultimamente. Não dei muita bola, mas parece ter algo a ver com o que estavam falando sobre na aula. Fui então pro meu quarto.
O único lugar onde eu podia ser eu mesmo.
Estava cansado, então eu ia tentar cochilar. Deixei minha mochila no canto do quarto. Sem mudar nada.
E então, deitei em minha cama.
Me chamo Hikari Ninkai, tenho 16 anos. Não tenho realmente algo de interessante para contar sobre a minha vida. Mas, seria bom eu poder escolher os dias em que quero acordar. Seria bem pacífico, eu acho.
De repente, escuto alguém batendo na porta.
— Oi? Tá aí, filhão?
Era meu pai.
— Oi, pai. — Eu respondo.
— Filho, sua mãe e eu vamos a uma festa mais tarde. Faz tempo que você não sai só pra se divertir, então você vai vir junto, beleza?
Senti um aperto no peito. Eu não queria ir.
— ...Eu tenho que ir, mesmo?
— Filho, você não sai pra algum lugar sem ser a escola há muito tempo.
Por que achar que sair vai ser bom para mim?...
Pelo menos dessa vez não foi uma palestra sobre como eu estou vivendo da forma errada.
— Tá.
Ele hesitou antes de fechar a porta. Abriu a boca, como se fosse dizer algo, mas desistiu. Sua expressão parecia a de alguém realmente preocupado. Me senti um pouco mal com isso, sabendo que era por minha causa.
— ...Filho, se você não estiver bem, é só falar, você pode ficar em casa se precisar.
— Tá tudo bem. Eu vou.
Só me restou aceitar a realidade. Vesti uma calça e minha blusa de manga longa, e então fiquei jogando para esperar chegar a hora.
Conectei os cabos do videogame e fiquei por cerca de uma hora jogando. O pilar que sustentava meu dia era jogar ou brincar de bola sozinho, chutando-a contra a parede. Era bem divertido, até. Os amigos que eu fazia nos jogos pareciam ser bem melhores do que as pessoas que eu conhecia pessoalmente.
É bom só relaxar de vez em quando. A versão nova desse jogo é bem divertida, eu realmente gosto desse tipo de jogo em que é “ Player vs Player “. Mas acabo me estressando muito às vezes.
Mas, por mais que eu quisesse relaxar, inevitavelmente a hora chegou. Eu saí do meu quarto e andei até a garagem, onde estava o carro.
Foi bem quieto no caminho, e então chegamos lá. Era uma festa não muito grande, mas ainda assim tinha bastante gente. A festa era em um lugar aberto, e as pessoas faziam o que bem entendiam, como se esquecessem que estavam em um lugar público...
Achei um canto que tinha quase ninguém e fiquei lá, tentando contar quanto tempo faltava para eu voltar para casa.
Que lugar barulhento.
Fiquei praticamente parado o tempo todo, encostado em uma parede. Pessoas passavam por ali o tempo todo. Pela reação delas, eu acho que minha presença não deve ser algo muito bom para se ter por perto.
Eu me perdi dos meus pais, então, não sabia realmente o que fazer.
O perfume forte das pessoas ao meu redor, aquelas luzes piscando e o som excessivamente alto faziam minha cabeça doer. Eu ficava até meio tonto; por isso não gosto de festas.
Mas, quando eu comecei a andar para procurar meus pais...
Senti um empurrão.
Onde estou? Por que estou no meio desse lugar?
Fui empurrado. Para o centro do evento.
Estão todos me olhando, não estão?
Ah, que droga.
...Estão rindo de mim?
Os olhares de todos se voltaram para mim, como se se cravassem na minha mente. Que merda.
Minha visão escureceu.
...
E então, nada.
Eu desmaiei.
Me levaram para um hospital que era por perto, para ver se havia algo errado comigo.
Quando acordei no hospital, meu peito parecia pesado. Eu senti algo apertando meu coração, não era nada como antes. Era... diferente.
A enfermeira me disse o que aconteceu depois. Um desastre. Provavelmente virei piada.
Eu não deveria ter ido. Eu sabia que era uma má ideia.
Mas, por algum motivo... Aquela sensação não sumiu. Algo mudou. Tudo no quarto parecia se mover, eu estava quase ficando tonto de novo.
Será que fiquei doente?...
Ou sempre foi assim?
-
Em um lugar próximo ao hospital, um homem olhou ao redor e franziu a testa, surpreso.
— Essa sensação... Um novo Fearer acabou de despertar?...