Bom, agora estou aqui no hospital, esperando ligarem para meus pais. Parece que foram fazer compras.
Acho que vou comer esse lanche que deixaram pra quando eu acordar.
Estendi minha mão até uma bandeja que estava por perto, para pegar o pão.
Mas, no momento em que a toquei, a bandeja se move em minha direção. Uma ondulação estranha surgiu ao redor dela.
— ...
Eu congelei.
Calma lá, é impressão minha ou...
E de repente ela para.
Que estranho...
-
O homem que estava por perto do hospital olhou em volta, procurando alguma pista. Havia muitos prédios naquela região. Ele passou por uma loja de conveniência, um hotel e, por último, um hospital.
Quando ele entrou no hospital, se dirigiu rapidamente até a recepcionista.
— Boa noite, teve algum paciente novo por agora?
— Tinha um garoto que chegou aqui agora há pouco, ele estava inconsciente. Você o conhece?
— Bom, sou um... amigo? De qualquer forma, posso saber onde ele está? Quero checar algo.
— Por agora só vamos aceitar visitas com o consentimento dos responsáveis do garoto; infelizmente você não pode ir.
O homem estava visivelmente incomodado, com uma sobrancelha mais alta que a outra.
— Beleza, então. Obrigado.
— Certo, tenha um bom dia.
Ele saiu pela porta principal do hospital e parou por perto. Ele fechou a mão e, por um instante, o ar ao redor pareceu ondular; ele desapareceu de repente. O homem havia ficado invisível, e foi procurar, de quarto em quarto, a presença que queria encontrar.
-
Eu fico pensando como que eu cheguei aqui. Não acho que um desmaio daqueles era pra me trazer pro hospital.
A porta se abriu sozinha. Não sei explicar, mas senti uma presença estranha vindo da porta.
E eu estava certo. De uma pequena ondulação visível no ar, um homem meio alto, com roupas estranhas, cabelos escuros e olhos brancos surgiu literalmente do nada. Seu olhar era perfurante, mas sua expressão era estranhamente relaxada... Aquilo me deixava meio nervoso, mas, ao mesmo tempo, estranhamente calmo. Ele tinha uma certa “aura“, que o diferenciava das outras pessoas.
Que? Como que alguém só apareceu do nada?
— Opa, boa noite. Tá bem, cara?
Eu não sabia o que responder. Ele acabou de aparecer do nada e estava sendo casual.
— Acho... que sim? E você, quem é?
— Ah claro, foi mal. Me chamo Reizan Shiro. E você?
— Hikari Ninkai...
É melhor eu tentar agir como alguém normal, né?
— Certo, então, aconteceu alguma coisa estranha contigo?
Do que essa pessoa está falando? E por que está falando comigo tão naturalmente?
— ... Como assim algo de estranho?
A cada pergunta estranha que o homem fazia, eu sentia cada vez mais suor descendo pela minha testa.
— Tipo, sentiu algo diferente ou algo assim. Não sei explicar, é diferente de pessoa para pessoa.
— Ah, entendi... Mas por que a pergunta?
Aquele homem parecia pensativo.
— Ah, vai. Não tem nenhum problema me contar isso, tem?
Ele olhou para mim no fundo da minha alma. Eu senti calafrios. Claramente não se tratava de uma pessoa normal.
— Eu acho que não... É-É tipo... senti uma espécie de aperto no peito. Foi bem estranho.
— Pode parecer estranho, mas cê virou Fearer. Antes de vir para cá, aconteceu algo estranho com você?
— ...Fearer? O que é isso? E, bom, eu vim para cá porque eu desmaiei em uma festa.
Será que estou falando demais?
Reizan parecia surpreso. Mas, a expressão que ele fazia quando estava pensando era inconfundível. Chegava a ser engraçado.
— Ah, então... É que tipo, deve ter acontecido alguma coisa relacionada ao seu maior medo na festa, né? Se sim, você provavelmente despertou.
Despertei o quê?
Pensei que estava tentando brincar comigo. Sinceramente, não entendi direito. Mas, pelo jeito que aquela bandeja de mais cedo estava, acho que não deve ser totalmente mentira.
— Você está falando sério? Não parece algo muito realista.
— Bom, acredite se quiser, eu acho. Mas, você já deve ter percebido algo de estranho, não?
Ele acertou em cheio, não tinha como eu negar.
— Bom, sim, mas... Isso é sério, mesmo? E, por que você viria me encontrar simplesmente porque eu ‘despertei'?
Minha pergunta não me parecia algo muito grande, mas para ele, talvez tivesse sido. Esperei por uns 40 segundos enquanto o Reizan aparentava tentar escolher as palavras certas.
— Aquilo que você disse que percebeu responde praticamente todas as suas perguntas. Eu vim te procurar simplesmente porque estou procurando por outros Fearers, mesmo. Sei que não mencionei, mas, Fearers são... raros. Poucas pessoas despertam e não é qualquer um que consegue. Acho que já deu pra entender, né?
Depois de terminar a frase, ele riu de uma forma meio estranha, mas não acho que ele tenha más intenções. Única coisa que achei estranho foi a hesitação dele.
— Tá, ok. Entendi, mas, como você sabe que eu virei um Fearer?
— Bom, eu também sou Fearer e eu... te senti? E você tem uma marca em algum lugar do seu corpo, né não?
Uma marca? O que esse cara está falando? Eu não tenho marca nenhuma.
— Marca? Não tenho nenhuma mar-
Enquanto eu falava, meu olho direito começou a arder.
Não... Era como se algo estivesse sendo marcado em mim. Justo do lado do meu olho. Apareceu um olho distorcido e rachado que pulsava perto do meu olho direito, como se estivesse gravado na pele. Parecia uma cicatriz viva.
— Ugh!
A dor, que era tão intensa sumiu de repente. Reizan se aproximou e deu uma olhada no meu olho com um sorriso debochado no rosto, enquanto ria.
— Tá vendo! É disso que estou falando, cara. Você É um Fearer. E, se me permite dizer, que marca estranha a sua, viu.
— Então, você tem bastante tempo livre, não tem?
Esse cara é meio esquisito.
— ... Acho que sim. Por que a pergunta?
— Perfeito, então. Já que você tem bastante tempo livre, quer se juntar ao meu "grupo", não? Estou em busca de Fearers por causa disso, então estou juntando uma galerinha aí.
Enquanto Reizan falava, o sorriso dele abria mais ainda.
Nós acabamos de nos conhecer e ele quer que eu me junte a ele?
— Ehhh, vou pensar sobre isso, eu acho...
Evitar responder agora parecia mais fácil.
— Posso ter algum meio de entrar em contato contigo, então?
...
— Me passa seu número, aí.
Ah, cara... Fazer o quê.
— Tá bom.
Acabei falando por impulso.
Escrevi meu número em um papel que estava ali por perto e entreguei a ele.
— Isso é tudo?
Enquanto olhava para o papel, ele deu um sorriso meio suspeito.
— Acho que sim, mas, se notar algo de diferente, me manda uma mensagem me explicando. Vou indo, agora.
— Mas... posso fazer uma pergunta antes?
— Hm?
— Por que você está contando tudo isso para alguém que você acabou de conhecer? Isso é informação dema-
— Por que não? O que você faria contra mim?
...
Ele começou a andar e hesita antes de passar pela porta.
— Ah, e, a marca dos Fearers só aparece em alguns momentos específicos. Tipo, quando você estiver usando seus poderes de Fearer.
Espera, poderes?
Ele apontou para o próprio pescoço. A marca parecia um corte, que contornava a lateral do pescoço dele.
— Essa é a minha. Agora sim, tchau.
— Espera! Você disse-
Ele sai andando pela porta aberta, acenando enquanto a figura dele desaparece quando o ar ondula de novo. Assim que ele saiu, um médico apareceu e ficou confuso, e então perguntou:
— Alguém estava aqui? Eu tinha certeza que vi algo...
Logo depois de fazer a pergunta, ele só ignorou, aparentemente confuso, e voltou ao corredor.
Esse Reizan Shiro é... certamente um cara diferente.
Espero que essa marca não seja tão “estranha“ assim.
Eu não entendo como ele consegue dizer que ganhei poderes assim, tão naturalmente...
Solto um suspiro aliviado, e só então vou comer o pão que estava na bandeja; quando, escuto uma voz:
— ...estranho.
Oi?
— Quem... está aí?
Algo estava me observando. Eu tenho certeza.
Percebo, de novo, aquela ondulação em volta da bandeja.
E ela para...
de novo.