Meus pais me buscaram no hospital e me levaram para casa. Desde que saí de lá, algo não parecia certo. As palavras que Reizan disse ficaram cravadas na minha mente.
“Agora você tem poderes.“
Como assim agora eu tenho poderes?
Não parecia verdade.
Acho que vou só relaxar hoje, como sempre faço. Amanhã já tenho aula mesmo. Peguei meu celular e fiquei vendo uns vídeos aleatórios, mas eu não conseguia me distrair.
Minha mente sempre voltava para a mesma frase...
“Agora você tem poderes.“
Não dá para relaxar, pelo menos não assim.
E, então:
— ...próximo.
Que voz foi essa? Por que a capa do meu celular está ondulando?
Eu devo estar ficando louco.
— Quem está aí?
Sem resposta...
Em vez de tentar me distrair, vou só tentar dormir. Acho que as alucinações devem parar.
Me deitei. Fechei os olhos.
Tentei cochilar, mas só fiquei deitado de olhos fechados. Acho que é melhor só testar isso de “poder“ que o Reizan disse. Parece ter algo a ver com objetos ondulando, ou algo do tipo.
Fiquei vários minutos olhando para tudo que tinha no meu quarto, mas nada respondia. Então decidi tocar neles.
Minha cabeça começou a doer.
Vozes de todos os lados, jogadas direto na minha mente. Estava tudo ondulando ao meu redor. Minha visão às vezes embaçava. Eu estava realmente cansado.
Me joguei na cama e fechei os olhos.
Dessa vez, eu dormi.
Horas se passaram, e então chegou o próximo dia. O meu despertador tocou, e eu acordei.
Me arrumei rápido para ir à escola, mas queria não ter que ir.
Cheguei na minha sala, me sentei no meu lugar. A expressão das pessoas... parecia piorar quando eu chegava perto.
Ou talvez fosse só impressão.
Faltavam 5 minutos para as aulas começarem. Estava tudo muito barulhento. Por que conversam tão alto?...
Estão realmente apenas conversando e rindo?
De vez em quando, alguém olhava para meu rosto e parecia assustado. Acho que é melhor só abaixar minha cabeça e esperar o professor chegar.
Abaixei a cabeça e fechei os olhos. Será que ainda faltava muito?
Senti alguém tocando meu braço, chamando meu nome.
— Ô, você está acordado?
Olhei para meu lado. Era o aluno que sentava ao meu lado. Eu nunca havia conversado com ele antes. Quando me virei para ele, ele começou a falar de novo.
— O que é essa marca aí, perto do teu olho? Você tatuou?
Marca? Tatuagem? Espera, será que aquela coisa que o Reizan disse...
está visível?
— T-Tem algo perto do meu olho? Eu não tatuei nada, não.
Ah cara, não tem como eu esconder isso, não?
— Sim. Você não pintou nem nada? Que estranho, hah.
É algo engraçado? Como eu vou esconder essa marca?
— Devo ter... sujado de manhã. Mas obrigado, não é tatuagem, não.
Acabei dando uma desculpa BEM esfarrapada...
Ele pareceu se surpreender muito com o que eu disse, e pareceu estar segurando risada.
— Entendi, nunca vi você conversando com a galera da escola aqui antes.
— Eh... Acontece.
— ...Se quiser ajuda sobre a aula pode me cutucar aí, pô. Fica de boa. Você é o... Nikai, ou algo assim, né?
— Hikari Ninkai.
— Ahh é, perdão, tinha esquecido hahah. Me chamo Yuu Hashiyama.
— Tá bom. Obrigado.
Eu só tentei parar a conversa, mas acho que fui rude. Me virei para o lado da minha mochila e peguei meu celular para mandar mensagem para os meus pais.
— Pai, pode me buscar na escola? Não me sinto bem.
Passou um tempo, e então me chamaram para ir embora, saí pelo portão principal e entrei no carro do meu pai.
— Então, filho, como você tá? É a primeira vez que você me manda mensagem pedindo para te buscar na escola. Algo aconteceu?
— Não realmente... Foi só um mal-estar mesmo, eu acho. Mas obrigado pela preocupação, não é nada não.
O que eu vou fazer agora? Acho que devo mandar mensagem para o Reizan.
Peguei meu celular novamente e abri os meus contatos. Nunca achei que fosse mandar mensagem para aquele cara.
— Opa, Reizan. Você sabe me dizer como faço pra minha marca não ficar visível? Bom dia.
Acabei mandando, mesmo. Será que realmente tem um jeito de não deixar minha marca visível?
Barulho de notificação. Foi rápido.
— Olha, depende. Você pode tentar cobrir ela com alguma coisa ou sei lá. Qnd vc faz algo relacionado ao seu medo, é quase automático que ela apareça.
Visualizei a mensagem e a encarei por um tempo. Como eu vou cobrir isso?
... Ah, já sei.
— Pai, pode parar na loja de conveniência ali? Quero comprar uma coisa, por favor.
— Claro, mas, não demore. O que você vai comprar?
— Ah, um tipo de bandana ou bandagem. Não sei direito, o que funcionar melhor, eu acho. É pra um... trabalho.
Me sinto mal de estar mentindo para meu pai, mas não vou falar nada sobre isso de Fearer até eu ter certeza absoluta que eu deveria contar para alguém. Comprei algo parecido com uma bandana e voltei ao carro; meu pai ficou em silêncio e fomos para casa normalmente.
Nunca imaginei que fosse tão difícil amarrar isso na minha testa, mas eventualmente eu vou aprender a fazer isso direito. Vou ver como funciona esse tal poder meu e, até lá, acho que vou sair só quando estiver usando isso para esconder a marca.
Pelo que entendi até agora, esse meu poder Fearer tem a ver com objetos. Mas o que exatamente ele faz? Da última vez, eu acabei exagerando e fiquei tonto, então é melhor não tentar aquilo de novo.
Será que o Reizan consegue ajudar com isso?
Pensando bem, acho melhor tentar contatar ele de novo só amanhã. Já é noite e vou precisar dormir daqui alguns minutos, também. Acho que por hoje já é o suficiente.
Vou tentar convencer meus pais a me deixarem ficar em casa amanhã, e talvez depois de amanhã também. Que saco.
Vou dormir. Desliguei as luzes e fui me deitar.
...
1 hora passou. Eu quero dormir.
2 horas se passaram. Alguma coisa começou a ranger perto de mim.
O que era 2 horas virou 4. Minha cabeça dói.
O sono não vem de jeito nenhum. Minha cabeça treme de vez em quando.
6 horas se passaram.
É, acabei passando a noite acordado.
...
Depois de uma noite em claro, eu queria ter tido a força para contar aos meus pais que não dormi nada à noite e pedir para faltar hoje. Eu ainda sinto um pouco de dor de cabeça, mas como é bem leve não me importei muito.
Fazer o quê.
O professor passava questões no quadro com um giz barulhento. Os alunos ao meu redor conversavam sobre coisas bobas em um volume desnecessariamente alto, enquanto eu tentava copiar algo no meu caderno.
Como que alguém consegue focar em algo assim?
— ...olha pra cá.
— Eu sei que você pode me ver.
Quem está falando comigo? Eu não escuto nada, mas sinto as palavras na minha memória como se alguém tivesse falado comigo. Olhei em volta e ninguém estava falando comigo ou olhando para mim. Talvez seja aquele “ poder “ que eu aparentemente tenho agora, já que meu caderno está com uma aparência estranha.
— ...finalmente.
Meu caderno está conversando comigo?
— ...não ignora.
— Olha para cá.
— Esse não sou eu.
Que?
Inúmeras vozes inundam minha mente enquanto continuo escutando conversas dos outros. Isso é insuportável.
— Qual o problema?
— ...olha.
Calem a boca... por favor.
— ...ordem.
Parem de invadir meus pensamentos.
O giz do professor arranhava enquanto ele escrevia no quadro. Minha cabeça dói. Meu corpo inteiro está tenso. E dessa vez não é por medo.
— ..pra cá.
Cara, eu não toquei em tantos objetos assim. P o r q u e t e m t a n t a s v o z e s?
Abaixei minha cabeça de novo na esperança de algo melhorar, mesmo nesse estado deplorável.
— Hikari-
— Olha para cá.
— Ei.
— Levanta.
Pare de chamar meu nome.
— ...olha.
— Acorda.
— Responde-
PORRA, ME ESCUTA!
...
Sangue. Na minha boca. Dói.
Eu nem percebi. Quando me dei conta, eu já tinha mordido meu pulso com todas as minhas forças.
Por que eu fiz isso?
Minha mão ainda doía, mas as vozes pararam...
Eu não devia ficar pensando nisso. Não posso voltar a esse mau hábito.
Mas eu tenho que esconder isso. Puxei a manga longa da minha blusa até esconder minha mão toda; mesmo que não fosse necessário. O sangramento era bem pouco, mas deixou uma leve mancha na manga.
Tentei parecer normal quando levantei a cabeça, mas duvido ter conseguido. Era uma dor bem aguda e dificultava um pouco o movimento da minha mão esquerda. E como se isso não fosse o suficiente, a bandagem que amarrei em minha testa era muito quente e estava toda suada.
Minha respiração continuava pesada, e o lápis escapava da minha mão ocasionalmente. O professor olhava na minha direção por mais tempo do que seria normal, às vezes.
Eu não queria ter virado um “ Fearer “. Isso é coisa demais para alguém como eu. Eu não consigo.
...
E então as aulas acabaram, com uma mão dolorida e momentos desagradáveis com meu poder. Esperei todos saírem e então fui embora de lá. Tudo que eu tocava, me dava a impressão de que iria sair de controle novamente.
Cada vez que eu virava a cabeça, algumas coisas na rua se distorciam. Mas isso era só minha cabeça mesmo.
Voltei para casa aproximadamente ao meio-dia. Após lavar a minha ferida no banheiro, me certificando de que ninguém em casa visse, fui ao meu quarto.
Eu tenho que controlar isso. Não dá pra viver assim.
Liguei meu celular e mandei mensagem para o Reizan, explicando tudo que descobri do meu poder.
— Então, só p confirmar, essas coisas acontecem com objetos que você tocou, certo?
— Sim.
— Beleza, vc vai estar livre à tarde? Bora dar uma “bagunçada“ pra testar isso dae. Só uma coisa, os poderes que você ganha ao se tornar Fearer são chamados de “Aptidão Fearer“. Não é um nome muito legal, mas é bom diferenciar.
— Uh, acho que vou estar livre sim. Entendi. E, a propósito, teria algum lugar com mais informações sobre os Fearers? Tipo, algum livro, Wikipédia, sei lá.
...
É, ele já tinha desligado o celular. Complicado.
O que me resta é tentar entender o que essa habilidade Fearer faz, eu acho. Estiquei meu braço e encostei em uma xícara que eu havia usado para tomar café hoje cedo; visualmente, nada parecia ter mudado.
Esperei um pouco, e nada acontecia. Tentei tocar a capa do meu celular, como antes, e depois fiquei encarando o teto do meu quarto.
E, enquanto eu esperava, uma voz invadia minha mente.
— Está de volta?
Será que se eu tentar conversar com o objeto, eu consigo entender algo a mais?
— Olá?
...Sem resposta. Acho que eu estava errado.
— Errado sobre o quê?
Calma aí...
Essa coisa só responde aos meus pensamentos?
— Você está me escutando? Me responda.
Estou...? Quem é você?
— Não tenho nome.
Não? Ué...
— Sou só uma capa de celular, creio eu.
Ah, entendi. Eu acho.
A capa de celular parou de me responder; quando percebi, o meu celular estava ligeiramente para a direita, diferente de onde eu havia deixado ele. Algumas horas se passaram desde então, e fui me arrumar para o “treino“ com o Reizan, se é que dá pra chamar disso.