Mais um dia normal começou.
Acordei com meu despertador, olhei para os lados e vi meus “irmãos” dormindo. Em dois meses, eu vou fazer 18. Será que vou ser despejado do orfanato?
Pus meus pés descalços e então gélidos no chão. Caminhando em direção à porta e abrindo-a, vi o mesmo corredor, com o mesmo tapete vermelho e a mesma vista para o andar de baixo. Andei em direção ao banheiro com uma troca de roupas que peguei num conjunto de armários do lado de fora do quarto, no corredor.
Adentrando ao toalete, dei uma penteada em meu cabelo negro que possui um corte curto, mas relaxado, com algumas franjas surgindo em minha testa e lavei meu rosto branco, abrindo melhor meus olhos azulados. Vesti meu uniforme social e desci as escadas, me encontrando com um dos meus “irmãos”, já no refeitório, juntamente à senhorita Mariah, nossa “mãe”.
Sentei-me numa das vinte e quatro cadeiras, de frente ao meu “irmão”, um ano mais novo, Jacques. Já estava vestido com sua roupa negra com detalhes em dourado, como um uniforme militar. Sua pele levemente morena e seus cabelos castanhos e curtos, com grandes olhos cor de mel, me encarava enquanto colocava uma garfada de ovos mexidos em sua boca.
Ao engolí-los, ele abriu a boca:
- Bom dia, Paul!
- Bom dia, Jacques
Ainda estava no processo de sair do estado de transe pós sono. Sentia meu corpo zonzo e desconexo com minha mente, mas apenas um bom gole de café bastou para que tal sensação se esvaísse de meu corpo magro. Em seguida, virava delicada e rapidamente meu rosto em direção à Mariah:
- Bom dia, mãe
Com um sorriso imenso em seu rosto e com seus belos cabelos negros em sua cabeça, com leves fios aparentemente acinzentados, ela respondia - Bom dia, filho! Como está se sentindo hoje? - Perguntava gentilmente enquanto cortava um pão de brioche em seu prato singelo, enfatizando a estampa chamativa e delicada da louça. O refeitório era quase como uma sala real para grandes banquetes. Papel de parede avermelhado com detalhes em dourado, um grande e requintado lustre acima de nossas cabeças, como se fosse cair com qualquer descuido de nossa parte, que geraria um grande prejuízo.
Além disso, havia uma mesa de carvalho escuro, de sete metros e meio de comprimento por um e meio de largura. Cadeiras feitas com carinho e apreço, com um “V” em suas extremidades superiores. O encosto das cadeiras era bem maior que meu torso sentado.
Se para mim, que tenho um metro e setenta e oito, é grande, para Jacques, que tem pouco menos de um metro e noventa, não deveria ser tanto. Ledo engano. Continuei minha refeição enquanto os outros “irmãos” chegavam. A primeira foi Lília, meses mais nova que eu. Seus cabelos castanhos claros e longos, ainda bagunçados, realçam sua postura ereta e séria.
Nos cumprimentamos e demos as atualizações diárias, não que houvessem muitas, afinal, eram contadas pelo almoço e pelo jantar. Raramente ocorriam causos durante a madrugada além de um dos nossos “caçulas” relatando ter visto o fantasma do antigo imperador. Sim, imperador. Não que eu goste do sistema de governo, mas não há nada que possa ser feito. Entretanto, sempre os acalmava dizendo que eram apenas histórias bobas e coisas de suas cabeças.
Poucos minutos depois, chegava Tarsila, dois anos mais nova, com sua pele escura e cabelos cacheados grandes. Em seguida, vieram os gêmeos Marco e Lucius, que são poucos dias mais velhos que eu. Ambos têm o mesmo corte de cabelo médio, mas aparado, se assemelhando a um capacete. A diferença entre os dois era que Marco, além de mais alto, possui cabelos escuros e olhos esverdeados, enquanto Lucius possui um cabelo loiro cor de trigo com olhos azuis.
Depois, chegou a tríade dos “arruaceiros”. Todos têm entre quinze e dezesseis anos. Eles são os que sempre arrumam confusão na escola e nos arredores do bairro. Um deles, Caio, de pele escura e cabelos quase raspados dos lados com um “topete” cacheado escuro no topo, chegou com um estilingue. Em seguida vieram Peter e Ferdinand, com seus cabelos curtos.
Peter se destacava pelo rosto cheio de sardas e cabelos ruivos, enquanto Ferdinand prendia seu cabelo loiro ouro num rabo de cavalo. Com o tempo, os pequenos também chegaram. Um deles vinha à mesma escola que eu, o James. Era bem menor, com um cabelo tigela de tons amadeirados. Duque ainda não desceu. Provavelmente, nem vá.
Após me alimentar, levantei-me e esperei James terminar sua refeição enquanto ia buscar minha maleta estudantil. Após pegá-la numa cômoda próxima à grande escada, fui me despedir de meus “irmãos” e de minha “mãe”.
- Boa aula, filho! Quando voltar, prepararei uma grande macarronada!
Sorri de volta. Entre às minhas olheiras tão profundas quanto um poço, a branquidão de meus dentes aparentes iluminava mais que a escuridão abaixo dos meus olhos. Abracei Mariah e disse - Vamos, James. De prontidão, ele veio fazendo uma saudação militar. Ri e lhe dei a mão, acenando para minha família.
Fomos a pé enquanto olhava o horário em meu celular. Nossa “casa” era uma das poucas restantes das antigas mansões de Rayca, já que as outras foram demolidas aos comandos do imperador Julius há alguns anos.
Espero que o James ainda possa conhecer um pouco da história de Rayca antes que Julius ordene apagá-la de vez.
A escola em si não era tão longe de casa, mas a caminhada parecia mais exaustiva. O sol estava forte hoje e James, curioso como é, parava a cada loja de antiquário que achava. Sorri com sua inocência. Pelo menos, ainda existem coisas preservadas no país de Rayca. James me puxou para uma vitrine com algumas espadas antigas ou réplicas, gritando:
- Eu quero! Eu quero! Compra pra mim, maninho!
- E onde você usaria isso, James?
- Eu… Eu não sei! Mas eu gostei!
Uma leve gargalhada saiu de minha garganta juntamente a um sorriso de orelha à orelha. Continuamos nosso caminho até vermos um grande e monótono edifício de seis andares, com muros de dois metros ao redor juntamente de um portão de ferro escuro. Marchando em sua direção, cumprimentamos o segurança e adentramos à escola.
A partir do portão, James viu seus amigos, abraçou minha perna e disse:
- Boa aula, maninho! A gente se vê no intervalo!
- Boa aula, pequeno
Afaguei sua cabeça enquanto ele sorria com a boca levemente desdentada. Segui meu trajeto enquanto o observava brincar de pega-pega com seus colegas. A inocência das crianças me encanta. Quando será que eles vão perdê-la? Quando o mundo colorido deles se tornará cinzento como o meu?
Ao passar pela porta azulada do prédio, vi o de sempre. Um grande pátio com o símbolo do país no meio com tons nacionalistas, quase patrióticos. Dentre os vários grupos existentes, há um em particular que me incomoda profundamente: O grupo de Targus. Ao seu lado, caminha sempre Milo, um babaca igual ao amigo.
Rumando até minha sala de aula, notei mais grupos conversando, pessoas isoladas lendo e outras compartilhando músicas entre si. Era mais um dia normal. Sentei na mesma carteira de sempre, na segunda linha da frente, tendo uma ótima visão do quadro verde com as anotações ainda não apagadas do dia anterior.
Olhava pela janela ao meu lado esquerdo, admirado com a triste e bela vista da cidade de Pourt. De longe, bem de longe, via a ponta da chaminé do orfanato Skanderbeg, o nosso “lar”. Arrumei meu material enquanto ouvia o sino tocar. As salas começaram a rapidamente se encher, até que, torcendo para que não viessem, para minha infelicidade, vi seus cabelos descoloridos e mal cuidados se aproximando. Com uma cicatriz em sua bochecha esquerda, vi Targus.
Rapidamente, desviei o olhar. Targus também, mas o desviou para mim. Com aquele sorriso soberbo, me observava com desdém e arrogância. Ao seu lado, um jovem de cabelos de tamanhos medianos, levemente cacheados e castanhos, cobrindo sua testa e orelhas com uma franja, juntamente com seu cabelo crescente aos lados.
Targus me olhava enquanto a professora não chegava e, com um pequeno chute, acertava o pé de minha mesa e derrubava meu material no chão de madeira. Milo passava rindo, mas sem olhar para mim. Sempre é assim. Sempre comigo. Espero que ele e todo esse mundo caiam de vez.
A professora se aproximava e a aula começava. No começo, foi uma luta intensa entre o tédio e a sonolência. Tudo estava tão parado, tão monótono, estava quase dormindo, até que, de canto de olho, vi uma sombra, um vulto, levantar a mão - Professora, acho que o Paul tá dormindo!
Desgraçado. Desgraçado. Desgraçado. É sempre a mesma coisa. Sempre a mesma ideia.
Targus se levantava dizendo - Acho que alguém precisa acordar ele! - Prontamente, Milo complementava sentado em sua cadeira com os pés apoiados acima da mesa - Targus, meu amigo, acho que poderíamos lavar seu rosto! Ajuda com excesso de sono, sabia? - Animado com a ideia, Targus prontamente pegou sua garrafa metálica, puxou meu ombro e atirou água por meu rosto.
Eu cansei.
Peguei meu estojo cheio de materiais e desferi no rosto de Targus. Em seguida, ao notá-lo desnorteado, peguei sua garrafa de água e acertei em sua cabeça. A professora gritava. Não com Targus, por sempre me provocar, mas comigo, por ter reagido. Me virei para ela, pronto para falar algo, até que senti minha perna sendo puxada para o chão, resisti, mas recebi um soco em minha panturrilha.
Targus erguia-se e dizia - Você perdeu a noção do perigo, seu bosta? - Retruquei - Você sempre faz isso! Eu me cansei! Você e esse seu amiguinho de merda! E ainda tem tantos outros nas ruas que formam esse grupo maldito! Eu te odeio! Eu te odeio!! - Gritava com raiva, até que ele preparou um soco em minha direção.
Bloqueando um pouco o meu rosto e estômago, esperei o impacto de um golpe que nunca chegou. Targus havia gritado, colocando sua mão em seu peito e caindo de joelhos ao chão. Uma parte de mim havia se preocupado, mas a outra, desejava que fosse um problema sério.
Me arrependi de ter desejado isso, afinal, o próximo fui eu. Com uma forte pontada, como uma adaga perfurando meu peito, cambaleei até ser salvo de cair ao chão pela mesa da professora. Comecei a suar frio, tudo começou a ficar turvo. Não era só eu. A cada segundo, mais pessoas sentiam a pontada e caíam de suas cadeiras. Milo, que se aproximou de Targus para levantá-lo, de repente, sentiu provavelmente a mesma coisa, gritando para mim:
- O que você fez?!
Eu não tinha forças para responder. Só pensava na dor lancinante em meu peito. Ao olhar para ele apertando-o com força pelas minhas mãos, notei, de relance, a professora tombando ao meu lado, segurando a mesma região com as mãos e urrando de dor. Ouvi os mesmos sons das salas próximas. Era como se fosse uma orquestra de dor.
De repente, um forte brilho veio do meu peito. Era algo como uma esfera branca com contornos e aura roxa, criando como se fossem “raízes” ao redor, se espalhando pelo meu corpo. Tentei notar se mais alguém tinha o mesmo feixe de luz, mas em vão. A cada vez que essa extensão crescia, eu gritava mais.
No limiar da dor e da sanidade, lembrei de James. Ele está sentindo a mesma coisa? Eu preciso salvar o James. Tentei focar nisso para me manter são, até que tentei me pôr de pé, falhando miseravelmente. A cada vez mais, os urros perdiam o sentido de dor e ganhavam o significado de desespero.
Tentei rastejar-me com força até a porta, enquanto Milo me olhava com raiva e agonia. Targus demonstrava um rosto aflito, respirando rapidamente e suando frio. Eu e Milo éramos os únicos aparentemente sãos. Ele me olhou e tentou vociferar:
- P-Por favor… Me ajuda…
Um lado de mim sentiu pena, mas o outro já tinha um foco: Meu pequeno “irmãozinho”. Enquanto o observava com culpa, me arrastava até a porta, ou tentava, até ver um brilho carmesim refletindo nas paredes, vindo da janela. Ainda com dor, me virei e vi o céu vermelho sangue.
É o fim do mundo? É um ataque nuclear? É uma guerra? É um cataclisma? Eu não sei, mas, com certeza, é bem pior. Um barulho extremamente alto ecoou em meus tímpanos, provavelmente ouvido pelo mundo inteiro, como se algo estivesse quebrando, rachando, se dividindo.
Entre as nuvens banhadas pela cor sanguínea, uma rachadura da cor que ecoava em meu peito se abria por todo o céu, com mais “raízes” espalhando-se ao redor. Quando ela explodiu nos ares, vi a maioria das pessoas de minha sala cuspindo sangue e com o peito inflado, até que paravam seus movimentos, e afinal, estavam mortos. A professora foi a primeira.
Em seguida, entre todas as vítimas, vi Targus cuspindo sangue, seu peito inchado e seus movimentos e batimentos cessando. Milo não havia cuspido sangue, nem mesmo eu. Apenas o desespero podia ser sentido por todos os lugares. A maior parte dos gritos cessaram e a dor, consequentemente, sumiu junto.
Me senti mais aliviado do que nunca, entretanto, olhando para o céu, senti um aperto por todo o meu corpo. Tentando me recompor, vi Milo fazendo o mesmo com um rosto choroso. Ele observava Targus com os olhos marejados. Um pouco de sangue sujou nossas roupas. Nos olhamos e disse:
- A gente precisa sair daqui
- O que… O que você fez, seu merda?!
Milo batia na mesa com raiva e lágrimas, mas devolvi:
- Eu não fiz nada! Eu nem mesmo sei o que está acontecendo!
- Seu merda… Por sua culpa! Por sua culpa, o Targus está morto!
- Eu já te disse! Eu não fiz nada!
- Mentiroso! O que você planej-
Olá, pequenos.
Espero que tenham gostado da nossa apresentação, ou, devo dizer, seleção!
Diria que foi um espetáculo e tanto! Digno de palmas!
Estamos todos orgulhosos em lhes apresentar nosso mundo! Nossa era!
Espero que estejam ‘abertos’ à chegar até a Fissura! Hahaha!
Isso ecoou em minha cabeça enquanto sentia cada vez mais aquele ardor no peito. Milo sentia também. Olhava para meu corpo e via aquele orbe criando raízes pelo meu peito e torso. Milo observava seu corpo e se voltava a mim - Você… Tá ouvindo isso também? - Sim, estou - Respondi, ainda assustado.
- Milo… A gente precisa sair daqui
- Você tá certo. Mas e sobre o Targus? E sobre todo mundo? E sobre essa voz nas nossas cabeças?! O que diabos está acontecendo?!
- Eu não sei, Milo. Eu nunca soube
Me aproximando da janela, notei mais pessoas mortas nas ruas e agora o céu menos avermelhado, se aproximando de um tom mais escuro, como uma noite acinzentada. Nas extremidades de minha visão, notei algo e estalei os dedos da mão para Milo, o chamando. Secando as lágrimas com seu braço, ele se aproximava e parava, imóvel, gélido, travado.
Bem ao fundo, uma construção nunca antes vista, como ruínas de um antigo tempo. Do outro lado, o que parecia ser uma pirâmide de pedras negras irregular, com o que parece ser um sino em seu topo, coberto por uma câmara aberta. Mais pessoas mortas foram avistadas por mim.
Não sei o que quer que tenha ocorrido, mas, provavelmente, é o fim do mundo.