POV Paul
Observava incrédulo com a afirmação do que quer que esteja no corpo do meu pequenino “irmão”. Vi seu corpo se erguendo e pequeninas asas plumadas em branco surgindo em suas costas enquanto um pouco de sangue escorria das feridas de onde surgiram. O “Deus” se levantou e começou a flutuar quase que magicamente até mim, dizendo:
- Entenda, Paul Siamen. Não vim para lhe machucar. Muito menos seu colega atrás de ti. Vim pelo que você chama de seu “irmão”
- O J-James?! O que tem ele?!
- Ora, ele é um prodígio. Um garoto que se vê a cada século, se duvidar, a cada milênio
Atrás de mim, ouvi Milo caminhar e gritar enquanto suava frio:
- Você… E aquela voz… Por que vocês são sempre tão enigmáticos?! Todos ao nosso redor estão mortos! Existem aquelas criaturas e um monte de coisas que não existiam, simplesmente aparecendo aqui! Nós t-temos o direito de saber! Nós queremos viver!
A entidade dentro do corpo de meu “irmão” observava com um olhar sério e gesticulando com as mãos, dizia:
- De fato, um belo discurso. Você possui o dom da fala, rapaz! Deveria utilizar disto para subir até o Plano Divino
A cada frase dita por ele, dez dúvidas eram geradas em minha mente.
O que ele quer dizer? Existe mais de um Deus? O que é esse “Plano Divino”?
Me foquei e tentei dialogar com esse ser:
- Você poderia nos explicar o que está acontecendo, por favor?
- Com tanta educação assim, irei até desenhar para vocês
Brincou a divindade, que continuava seu monólogo:
- Devem ter notado a Fissura nos céus. Bem, como não notar?
Enquanto caminhava ao nosso redor, seguia dizendo:
- Talvez, alguns humanos ainda tenham ciência de Nós, se é que estão vivos. O que você vê, bem na sua frente, Paul, é um Deus
- Então… Existe mais de um?
- Vários, centenas, milhares… Nem mesmo eu sei ao certo. Talvez de Deuses, algumas centenas, mas de Semideuses, devem beirar os milhares
- S-Semideuses…?
Perguntava Milo, ainda em choque. O Deus logo respondeu:
- Exatamente. Bem, vou tentar exemplificar de maneira resumida: Creio eu que notaram um certo ‘brilho’ em seus peitos. Isso é o que nós, seres superiores, chamamos de “Rachadura”. Ela é o primeiro passo do caminho da Fratura, que, ao chegar ao final, atingirá o completo domínio do núcleo de vocês, ou seja, suas “Fraturas”. Vocês estão no estágio inicial, mas é claro que, com a ajuda ou possessão de algum Semideus ou de algum Deus, vocês podem chegar mais rapidamente até a Fragmentação, depois à Fissura até completarem o caminho
- Espera… Podemos atingir aquilo que está no céu?
- A palavra “Fissura” que dá nome à fenda no céu foi apenas uma homenagem ao nome de nosso núcleo
- A-Acho que entendi…
- Pelo que vejo, vocês ainda estão com pouca quantia de Hao em suas Rachaduras. Pelo que vejo, estão cheios de sangue também
- Nós matamos algumas coisas lá fora…
- Bem que seu colega havia citado. Por que não pegaram os núcleos das bestas? Pode lhes ajudar a melhorar e aumentar seu Hao juntamente do tamanho de suas Rachaduras
- Do que você está falando?
- Apenas procurem pelo corpo da fera. Está em algum lugar de muita importância para sua anatomia. Pelo menos, funciona assim em boa parte dos casos
- Mas e sobre o James? O que vai ser dele?! E aquela coisa sobre ele ser um “garoto prodígio”?
- E ele é. Esse corpo infantil vai envelhecer e crescer rapidamente graças à minha Fissura. Esse garotinho tinha potencial de despertar sua Rachadura antes mesmo de forçá-las em todos vocês graças aos eventos da “Fissura”. O “James” é um gênio do caminho da Fratura. Ele é, de fato, impressionante…!
- Vocês forçaram isso na gente…?
- Pode-se dizer que sim. Acho que estou dizendo demais…
- E-Espera! V-Você vai levar o James com você?!
- Não. Não vou “levá-lo” comigo. Ele sou eu. Eu sou ele. Agora, ele é meu receptáculo, afinal, ele permitiu que isso acontecesse…
- Você mente! Ele nunca deixaria isso acontecer!
- Talvez, garoto… Talvez. Bem, se me dão licença, tenho assuntos importantes a resolver no plano terráqueo
- Espera!
Tentei correr com meu bastão até ver um grande pilar de luz cair na minha frente, criando um forte brilho e sumindo logo em seguida, desaparecendo juntamente à James. Eu perdi meu “irmãozinho”. Eu perdi alguém da minha “família”. Fiquei parado por longos segundos em frente de onde havia aparecido a pilastra amarela.
Milo se aproximou e pôs a mão em meu ombro, falando:
- Paul, ele está vivo. Tenta não pensar nisso demais
- Eu sei…
Era como se uma solidão tivesse preenchido meu coração. O que antes havia surgido como uma esfera luminosa, parecia que iria ser preenchida pela escuridão iminente. Era um vazio que eu só havia sentido antes de ir para o orfanato. Por que James? De todos, o mais puro? Isso era injusto. Por que não me escolheu? Eu não sou um prodígio? Eu sou tão ruim assim? Eu preciso salvar meu “irmão”. Não, eu preciso salvar o meu irmão.
Em silêncio, saí do prédio em direção às criaturas enquanto relembrava o que o Deus havia dito. Milo me seguiu até os cadáveres, onde pedi emprestado sua espada por um momento. Ao me entregar com certo cuidado, comecei a pensar o que seria importante para essas criaturas anatomicamente.
Seria o coração? O cérebro? O estômago? Os pulmões? Essas coisas tinham esses órgãos?
Fui dissecando de maneira grotesca a besta até achar, dentro do que parecia ser um coração distorcido, uma pedrinha brilhante. Ao pegá-la em minhas mãos e fechá-la levemente, ela se estilhaçou e o que parecia ser uma aura púrpura percorreu meu corpo a partir da palma da minha mão.
Senti um arrepio forte em meu corpo e meus ferimentos estabilizarem e quase cicatrizarem. Além disso, me senti levemente mais forte e maior, como se minha mão tivesse ficado um pouco maior. Entreguei a lâmina de volta à Milo e lhe ordenei:
- Disseque a outra e quebre a pedra branca que há dentro do que parece ser seu coração
- Que nojo…
Milo, com um rosto já enojado ao me ver estraçalhando o cadáver de uma criatura desconhecida, fez uma careta pior ainda ao pensar que seria sua vez fazendo o trabalho. Em questão de alguns minutos, ele encontrou a pedra lambuzada de um sangue fedido e a apertou em suas mãos, tendo a mesma reação que eu.
Ele parecia levemente mais forte e um pouco maior e me disse:
- Ei, até que isso foi bom!
- Acho que era sobre isso que o “James” estava dizendo
- Ele também disse algo sobre um “Plano Divino”...
- Se preciso chegar lá para, de alguma forma, trazer o James de volta, eu vou
- E ainda tem aquela coisa do “desejo” que a voz disse. Ela tinha comentado isso junto de uma coisa sobre “plano”
- Se isso quer dizer sobre o “Plano Divino”, então… Podemos ter um desejo ao chegar lá?
- Talvez… E não fique tentando bancar o herói, nem nada do tipo. Se você vai tentar chegar no “Plano Divino”, pode contar com a minha ajuda. Também quero tentar ter o direito à um desejo
- Valeu, Milo… Você é mais legal do que eu pensava, sabia?
- Heh… Não enche, bocó. Será que só o primeiro tem a chance de ter um desejo?
- Mesmo que seja. Se eu chegar lá, vou ter ficado forte ao ponto de exigir quantos desejos eu quiser e vou poder livrar o James daquela “coisa”
- Olha a boca, Paul! Vai que eles consideram isso “blasfêmia”!
Milo começou a rir. Não vou negar, isso me arrancou uma leve risada. Se eu tiver que chegar até lá pra isso, eu vou. Se eu puder ter um desejo, eu vou poder viver no mundo que eu sempre sonhei, também. Eu vou derrotar o que possuiu James e, depois que tudo isso acabar, eu vou poder ser alguém que pode aplicar ideais em prática. Se para isso, eu precisar ficar forte, eu vou. Custe o que custar.