De agora em diante, eu preciso ficar mais forte.
Seguíamos o caminho até o orfanato. Depois do que ocorreu com James, veio minha família à mente. Milo estava andando ao meu lado com a espada já desembainhada e eu ainda com o bastão. Enquanto seguíamos a estrada de volta, lembrei-me da loja que meu irmão havia parado.
Estávamos bem perto. Ela seria útil agora. Nos aproximando pela rua vazia cheia de cadáveres, vi novamente a loja de antiquário. E lá estava ela, bem na vitrine, aquela espada. Ela parecia diferente. Os detalhes na bainha de couro pareciam feitos com leveza e a empunhadura juntamente do cabo estavam brancas, com detalhes de rachaduras escuras, como se fosse um mármore.
Ela era alongada e não tão grossa. Uma espada longa, com provavelmente uns 80-90 centímetros de comprimento. Era quase do tamanho do James. Milo, parado ao meu lado, perguntava ironicamente:
-E aí, vai comprar?
Soltei um riso leve e afirmei:
-Se o dono estiver vivo, eu vou
Adentrei a loja juntamente ao meu amigo e notamos a ausência de qualquer pessoa na loja. Até tentamos perguntar em voz alta, medindo o tom de voz para não chamar mais atenção de ninguém. Percebendo que não havia ninguém, fui em direção àquela arma que vi na vitrine e a peguei.
Ela era pesada. Não tanto quanto imaginei, mas era. Peguei a fita de couro que havia na bainha e amarrei na minha cintura. Em seguida, disse à Milo:
-Deveria dar uma olhada em alguma coisa por aqui. Não querendo ofender, mas essa espada aí me parece meio… Frágil
-Você tem um ponto. Acho que vou dar uma olhada pela loja
Fui explorando a grande loja lotada de utensílios históricos. Havia uma bandeirola do antigo símbolo de Rayca. Abri um sorriso ao vê-lo. Quem diria que acharia uma relíquia dessas? Peguei-a e a enrolei, colocando na sacola de comida. Rapidamente, Milo havia me chamado e mostrou-me uma espada de tamanho semelhante à minha, mas sem a ponta. Era uma espada típica alemã, mas algo se destacava.
Sua empunhadura negra, se assemelhando à obsidiana com a lâmina de aço com desenhos esculpidos em formato de uma serpente, era o que nitidamente chamava atenção. Via o sorriso no rosto de Milo e o incentivei à pegá-la. O fez e trocou por sua antiga espada suja de sangue.
Pouco antes de sairmos, enquanto eu vasculhava a loja, achei o que parecia ser um artefato antigo, como se fosse um cristal transparente que refletia as cores da minha Rachadura. Ao tocá-lo, senti como se fosse um choque e joguei minha mão para trás. Meu corpo inteiro pulsou três vezes até que tudo voltasse ao normal. Tentei pegá-lo novamente e dessa vez foi efetivo.
Saímos do estabelecimento e seguimos nosso caminho em direção ao orfanato. Ainda estava tenso e andava com a mão na minha bainha. O que antes era uma curta e revigorante jornada, hoje é uma cansativa e nauseante caminhada. Estávamos nos aproximando. A cada passo, meu corpo tremia mais e mais.
Olhar para o antigo casarão, agora, era um pesadelo. O céu conturbado com a Fissura e meu corpo gélido como um cadáver, o ambiente deturpado e meu corpo suando frio. Eu precisava enfrentar isso, cedo ou tarde. Minhas mãos estavam trêmulas. Eu nunca segurei tanto as lágrimas em meus olhos.
Senti um toque no meu ombro. Era Milo. Ele me trazia de volta à realidade e me dizia:
-O que quer que a gente encontre lá dentro, Paul, saiba que poderemos lidar com isso juntos
-Obrigado, Milo…
Dei o primeiro passo. Havia chegado na calçada e estava de frente ao portão de aço negro. Estendi meu braço e encostei a mão no portão. Com a outra mão pingando de suor, puxei as chaves de meu bolso e as coloquei na fechadura. Para minha surpresa, estava destrancada.
Apenas empurrei levemente e a porta se abriu. Me deparava, agora, com o caminho de ladrilhos contornados pelo grande jardim. Pouco à frente, havia um pequeno lance de escadas de madeira e, enfim, a grande porta de madeira. Marchei lentamente, querendo evitar avançar. Um lado dentro de mim implorava para viver na ignorância, enquanto o outro tinha anseio por saber o que havia ocorrido.
Às vezes, a ignorância pode até ser a escolha mais fácil, mas nunca a melhor.
Avancei alguns passos enquanto respirava fundo e me mantinha firme. Meus passos lentos e nervosos se aproximavam cada vez mais do pequenino lance de escadas. Poucos minutos depois, subi o primeiro degrau. Depois, o segundo. Em seguida, o terceiro. Por fim, o quarto e último degrau.
Havia um nó preso na minha garganta enquanto eu preparava as chaves e me aproximava da porta. Assim como o portão, também estava destrancada. Bastava apenas um pequeno empurrão para ver o que me aguardava e, dessa vez, não segurei nem um pouco as minhas lágrimas.
Todos os pequeninos estavam mortos na minha frente. Seus corpos ensanguentados e peitos estufados. Eu perdi minha família mais uma vez. Me ajoelhei e mal contive as lágrimas. Frustrado e irritado, bati no chão de madeira múltiplas vezes enquanto um grito gutural era emitido de minha boca. O berro havia sido tão alto que poderia facilmente ser confundido com um som de alguma criatura.
Milo, atrás de mim, apenas observava enquanto colocava a mão em meu ombro. Pelo horário que ocorreu a Fissura, isso foi pouco antes de saírem para a escola. Estava desolado. Mas “minha melancolia não podia perdurar por tanto tempo”, foi o que ouvi:
-Se você ficar triste assim, não vamos poder aguentar você, Paul
Com lentidão e sentindo a emoção da tristeza, virei meu rosto para me deparar com Lilia, uniformizada com suas vestes estudantis e com o que pareciam ser machucados em seu rosto. Ao seu lado, estava Tarsila com cabelos amarrados e uma faca de cozinha em mãos. Duas de minhas irmãs estavam vivas.
Milo havia entrado em pose de combate, mas me levantei e estendi a mão, pedindo que não fizesse nada. Enxuguei as lágrimas com a manga do meu uniforme e lhes devolvi:
-Vocês… Como?
- O que foi? Tá surpreso que estamos aqui?
- Eu pensei que só eu…
- Pelo visto, pensou errado, idiota. Eu e Tarsila nos encontramos na porta da nossa escola depois que tudo isso rolou
Milo, ainda tentando assimilar as coisas, perguntou:
- Espera, vocês são…?
Tarsila, de prontidão, respondeu:
- Irmãs dele
- Isso
Lilia complementou. Em seguida, Milo questionou:
- E vocês ouviram aquela voz?
- Tem alguém que não ouviu?
- E o peito de vocês? Ele brilhou também ou algo do tipo?
- Isso são perguntas demais…
Me aproximei e, com um olhar ainda choroso, abracei Lilia, que devolveu o gesto de fraternidade. Com meu braço direito, puxei Tarsila para o abraço e lágrimas escorreram novamente pelos meus olhos enquanto dizia:
- É tão bom… Ver vocês aqui! Eu tive t-tanto medo!
- Tá tudo bem, irmão, tá tudo bem…
Finalmente pude me reencontrar com pessoas que eu já conhecia. Pude me reencontrar com a minha família.