Finalmente, pude encontrar pessoas da minha família.
Conversamos um pouco e Lilia me disse que, além dos pequeninos terem falecido, Mariah havia desaparecido. Isso aumentava um pouco minhas esperanças dela estar viva. Para confirmar, fui para todos os cômodos da casa e sem sinal dela, muito menos de Duque. Ao olhar quarto por quarto, cheguei na biblioteca, notando um livro caído no chão. Peguei e reconheci a capa, afinal, era o livro que minha mãe estava lendo.
Eram muitas coisas para pensar. Eu precisava descansar um pouco.
Me dirigi até a cozinha e vi a mesa posta. Uma mesa preparada para um almoço em família que nunca iria ocorrer. Coloquei a sacola de comida na cozinha e acendi o fogão com um fósforo. Resolvi fazer macarrão para todos. Um tempo depois, a comida estava pronta. Coloquei numa vasilha e levei para a mesa, me surpreendendo como Milo estava se dando bem com minhas irmãs.
Eles conversavam sobre coisas mundanas, sobre curiosidades. Era assim que a vida deveria soar.
Coloquei um pouco de comida em cada prato e respirei fundo. Sentei em uma das grandes cadeiras e comecei a comer enquanto eles conversavam:
- E aí, quando aquela criatura horrorosa partiu pra cima, eu só apontei a espada e furei ela no peito. Aí, usei a arma como se fosse um espeto e comecei a batê-la na parede junto da criatura até que ela morresse!
- Caramba! Isso deve ter sido horrível
- Com certeza! Elas eram nojentas e assustadoras, mas lidamos bem com isso! Aí, fomos até o outro prédio e-
Pisei levemente no pé de Milo embaixo da mesa. Não queria que comentasse sobre James, mas foi em vão. Somente de citar o outro prédio, já foi o bastante para que Lilia e Tarsila compreendessem e as perguntas, dessa vez, vieram até mim:
- É sobre o James, não é?
- Sim…
Lilia engoliu seco e continuou o questionário:
- Ele morreu…?
- Não, mas… Talvez tenha sido pior que isso
Milo me encarava com um olhar deprimido enquanto eu voltava a dizer:
- Um Deus possuiu o corpo dele, dizendo que ele era um “gênio do Caminho da Fratura” ou seja lá o que for
- “Caminho da Fratura”?
Expliquei tudo o que sabia, desde as bestas, os núcleos, as Rachaduras, os Semideuses e Deuses, o Plano Divino, o que sabia do Caminho da Fratura, tudo. Lilia e Tarsila estavam nervosas e boquiabertas com razão. Milo complementou com alguns fatos, como o “poder” que o núcleo das criaturas nos davam e sobre como era bom andar armado por precaução.
Passamos alguns minutos comendo e tentando ordenar as coisas em nossas cabeças. Depois do almoço, tomamos a decisão de enterrar os corpos dos pequeninos. Fomos até os fundos e pegamos uma pá. Cavamos doze buracos para doze irmãos. Enterramos um por um. No final das contas, isso nos levou o dia todo.
Depois de terminarmos, fizemos uma oração em conjunto. Em seguida, voltamos para casa e fui tomar um banho. Surpreendentemente, o sistema de encanamento e o sistema elétrico funcionam aqui, diferente da minha escola. Provavelmente, é por possuímos um gerador, mas na escola também tinha.
Isso é culpa das criaturas? Ou foi culpa do Deus que possuiu o corpo de James?
Tentava mudar meu foco. Ainda tinha outros irmãos que precisava saber do paradeiro, como Jacques, Caio, Peter, Ferdinand, Marco, Lucius e o Duque. Também tinha a minha mãe, a Mariah. Droga, são tantas coisas! Mas eu precisava descansar por hoje. Enquanto lavava meu cabelo, vi o cristal que havia pego brilhando no bolso do meu uniforme. Curioso, aproximei meu rosto sem sair do raio do chuveiro até sentir uma pontada novamente em meu peito.
Dessa vez, foi a mais forte de todas as outras vezes.
Boa noite, participantes!
Ou eu deveria dizer “sobreviventes”?
Fico feliz em lhes anunciar que, oficialmente, a partir da virada do dia, as Ruínas Sagradas estarão abertas para exploração!
Além do mais, os Textos Esotéricos e os Totens Espirituais poderão ser encontrados aleatoriamente pelo mundo!
Boa sorte a todos vocês!
Estou muito ansioso para vê-los em novas aventuras!
A mesma voz, novamente. Me recompus após o aperto no meu coração e olhei para a pedra. Ela havia parado de brilhar. Entretanto, um outro brilho chamou minha atenção. Era o mesmo vindo do meu peito, pulsando e emitindo uma luz forte. Era a minha Rachadura. Mesmo não tendo certeza das falas daquele Deus, comecei a chamá-la assim.
Esse meu núcleo se expandia aos poucos, criando mais “raízes” e abrindo mais rachaduras pelo meu torso. A dor havia parado juntamente do brilho. Me sequei e comecei a tentar tratar com naturalidade tudo isso. Eu precisava me adaptar a este mundo o mais rápido possível.
Mal sabia o que significavam aquelas palavras ditas pela voz. “Ruínas Sagradas”, “Textos Esotéricos” e “Totens Espirituais”. Era quase como um jogo.
Me troquei e fui dormir. Tentei evitar pensar demais. Pela manhã, procuraremos pelos nossos irmãos. Adentrando o quarto, ouvi uma conversa vinda da cozinha. Milo e Lilia pareciam estar conversando e organizando um quadro de horários de vigia. Me senti egoísta por sequer ter ido me voluntariar, mas eu precisava dormir.
Quase que instantaneamente, me deitei e apaguei.
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POV Milo
Lilia era bem legal. Não imaginei que Paul tivesse tantos irmãos. Ela me contou como havia conseguido seus machucados. Me disse que, ao ser a única sobrevivente em sua sala, correu em direção à sala de Tarsila no mesmo prédio e verificou sua pulsação. Ela estava acordando e então correram com tudo.
No jardim da escola, ou melhor, no pequeno bosque, elas correram para cortar caminho, com Lilia sendo golpeada por alguns galhos e ramos ásperos. Ela ignorou a dor e veio até o único lugar seguro que conhecia: O orfanato. Me disse que havia chego pouco antes de nós, então não tinha nem começado a enterrar seus irmãos mais novos.
Ela estava nitidamente triste. Tarsila havia ido tomar banho e dormir, então, fiquei conversando com a moça:
- Então, há quantos anos você conhece o Paul?
- Bem, desde que ele veio para o orfanato. Devem fazer uns dez anos
- Ele está aqui há bastante tempo, então
- Sim. Ele chegou como uma criança bem quieta. Não que isso tenha mudado tanto, mas ele parecia mais “solto”, por assim dizer
- Ele não era “solto” no colégio
- Eu sei. Eu sei de você, Milo, assim como sei do Targus
Abaixei minha cabeça com um tom sério. Por que eu fazia aquilo? Era pelo Targus? Talvez, eu não quisesse perder minha única amizade. Nunca odiei Paul, mas eu precisava odiá-lo. Me notando cabisbaixo, Lilia disse:
- Ei, tá tudo bem. Eu vi como você tratou Paul aqui. Talvez, você não seja tão ruim assim. Você é mais legal do que eu pensava
- Heh… O Paul me disse isso hoje
Lilia sorriu gentilmente e se levantou, me perguntando:
- Aceita um pouco de café?
- Ei, não precis-
- Claro que precisa! Se vamos fazer uma rotina de vigia, precisamos estar bem acordados e, modéstia a parte, meu café é o melhor!
- Bem, se você diz, não custa experimentar um pouco
Enquanto ela foi para a cozinha, fiquei em silêncio remoendo o passado. Sentia arrepios vindos juntamente com a vergonha. Paul não merecia tudo o que fizemos com ele. Targus o odiava pelo seu silêncio. Ele só queria um motivo para arranjar uma briga. Um tremendo de um babaca. Mas, no final das contas, eu era igualzinho a ele. Pelo menos, tenho a chance de ser diferente e eu não vou desperdiçá-la.
Às vezes, me perguntava se meu pai estava vivo. Não que ele se importasse tanto, mas ainda era meu pai. Droga, a melancolia está prestes a me dominar. Peguei minha lâmina e a desembainhei, notando seus detalhes para fugir dos pensamentos negativos. Estava funcionando bem.
Ouvia o barulho do café sendo preparado e tentei me acalmar. Seria possível achar a paz no apocalipse? Bem, quem sabe? Poucos minutos depois, ela havia chego com a jarra de café e duas xícaras. Ela colocou em ambos e, pouco antes de tomarmos, uma pontada no peito nos afligia.
Ouvimos novamente a voz. Desta vez, ela citava “Ruínas Sagradas” e outras coisas. Rapidamente, havia passado. Olhei para Lilia e vice-versa e conversamos um pouco sobre isso:
- Você também ouviu, não é?
- Sim…
- Sinceramente, podemos pensar nisso outra hora?
- Por mim, tudo bem, Lilia
- Se ficarmos matutando isso pela noite até ao amanhecer, vamos ficar malucos. Vamos ter foco na rotina de vigia, ok?
- Perfeito!
Me sentia aliviado de não ter que falar sobre isso. Acho que ela também. Essa situação era desgastante, assim como a voz que ecoava pela nossa cabeça. Quem era a voz? Não sei. Estava longe de saber e me sentia muito bem por isso. Começamos a discutir os horários, mas nos perdemos novamente em futilidades.
O café já estava acabando e haviam se passado algumas horas de risadas, besteiras e momentos sérios. Às vezes, queria que isso nunca acabasse. Era tão bom conviver com pessoas tão boas. Queria que o mundo estivesse de volta ao normal, mas, se ele não tivesse mudado, eu estaria fazendo bullying com Paul e nunca o teria conhecido, muito menos a sua família.
Já era de madrugada. O sono tinha começado a vir, então, tomei o último gole de café. Lilia aparentava estar cansada também. Talvez, se ela dormisse só no primeiro dia não seja uma má ideia. Me levantei e disse:
- Eu vou lavar a louça. Se quiser dormir, fique tranquila. Eu cuido das coisas por aqui!
- Obrigada, Milo…
Ela sorriu e foi quase cambaleando de exaustão até as escadas, subindo e rumando até seu quarto. Comecei a lavar a louça enquanto pensava.
Eu não poderia me dar ao luxo de descansar. O mínimo que eu poderia fazer como um pedido de desculpas e demonstração de gratidão era ficar acordado e cuidar das coisas por aqui.
Haviam se passado uns bons minutos. Sem sinais de barulhos vindo no andar de cima, enxuguei a louça e a guardei. Aproveitei para guardar as comidas que Paul havia pego na escola nos armários e na geladeira. Organizei algumas coisas e deixei as coisas prontas para preparar um bom café da manhã, até que ouvi o barulho do portão rangendo.
De prontidão, me dirigi em silêncio até minha lâmina e a desembainhei. Estava preparado na porta do antigo e chique refeitório. Me escondi para ser imperceptível até ouvir a porta abrindo. Quando ouvi os passos indo em direção às escadas, avancei gritando e preparado para desferir um corte, até que minha lâmina foi parada por um sabre com o símbolo do império. Sua outra mão havia puxado uma pistola automática e a destravado.
Corri como nunca ao seu redor. Apoiei meu pé no chão atrás da grande figura e tentei uma finta. Fingi que iria golpeá-lo até ver sua mão com a pistola se virando até mim. Disparei para o lado enquanto o disparo foi efetuado. Preparei agora um ataque real, mas notei seu rosto sério com dois olhos amarelados me encarando. Uma voz grossa ecoou de sua boca, dizendo:
- Chega de brincadeiras agora
Com seu sabre, bloqueou meu ataque novamente e seguiu a direção de minha lâmina até a empunhadura, desviando sua lâmina da mesma e fazendo um corte em meu braço direito. Queria gritar de dor, ardia muito. Sua camisa era branca e justa, afinal, seu corpo era musculoso, largo e robusto. Em sua cintura, havia o que parecia ser um uniforme militar negro amarrado na cintura.
Com uma grande intensidade, me chutou para a parede e apontou o cabo de sua lâmina para a direção do meu pescoço enquanto se aproximava. Em sua outra mão, a pistola mirava em meu peito, ou melhor, em meu coração. A dor do impacto com a sólida parede havia machucado minhas costas. Seu corpo estava cheirando à algo ferroso e sua camisa branca nas mangas e na parte da cintura tinha tons sujos avermelhados.
Em seu braço direito, havia uma tatuagem dourada, com a forma de finos ramos com algumas folhas, circulando o braço e parando após preencher todo o cotovelo, com uma pequena ponta finalizando em seu tríceps. Ouvi a voz profunda vinda de sua garganta:
- Quem é você? Onde está todo mundo? Vocês são bandidos? Estão se aproveitando do que está acontecendo no mundo?
- P-Pare, por favor!
- Me responda! Quem é você?!
- E-Eu sou M-Milo! Milo Starsgrad!
- E onde estão todos os outros, hein?!
- O q-quê?!
- Eu perguntei onde estão os seus “amiguinhos”, seu maldito!
A ponta de sua lâmina se aproximava cada vez mais do meu pomo de adão e eu comecei a tremer. Meus olhos ficaram marejados e tentei vociferar:
- E-Eu nunca vou dizer!
- Certo… Então, morra
Todos esses anos vivendo sozinho. Todo o sufoco que vivemos em um só dia. Tudo isso para morrer assim? Eu queria, pelo menos, ter me casado, ter tido filhos, ter sido alguém melhor.
O vi puxando sua lâmina para o lado, pronto para desferir um corte lateral que provavelmente me decapitaria. Fechei os olhos e aceitei meu destino, até ouvir uma voz vinda de cima:
- Fico feliz de ver que está vivo, Jacques
Eu reconheceria essa voz com tranquilidade, ainda mais depois de ontem. Era Paul. A figura monstruosa na minha frente havia parado seu golpe e seus olhos se arregalaram. Ele se virou para Paul e disse:
- I-Irmão! Eu pensei que vocês haviam morrido!
- Me acalma saber que está vivo, mas me preocupa em ver você tentando matar meu amigo
- Espera… Esse cara aqui é seu “amigo”?
- Longa história, mas, sim. Por favor, deixe-o viver
“Amigo”. Ele me chamou de “amigo”. Comecei a chorar, tanto por estar vivo e por ver que alguém que eu tanto fiz mal, ainda sim, me considera um “amigo”. Jacques guardou suas armas e estendeu seu braço até mim, dizendo:
- Foi mal, cara, eu confundi as coisas
- T-Tá tudo b-bem
Ele me levantou e, com muito cuidado, retirou de seu bolso uma pedra igual a que retiramos dos cadáveres das criaturas. Seu braço com a tatuagem que a segurava brilhou e, tratando a pedra com carinho, deu-a em minhas mãos e disse:
- Somente aperte-a
Ela era maior que as que vimos. Sem pensar duas vezes, a apertei forte e uma aura envolveu meu corpo. O corte no meu braço havia quase se curado completamente e a dor do impacto havia melhorado consideravelmente. Meu corpo parecia levemente maior e notei o brilho em meu peito aparecendo e se expandindo levemente pelo meu peito e agora ombros.
O grande homem me perguntou em seguida:
- Se sente melhor?
- S-Sim, obrigado…
- Foi mal tudo aquilo
- E-Eu pensei que você era um invasor e tudo mais, então eu não queria falar na-
- O simples fato de você ter protegido quem eu amo, já mostra que posso confiar em você
Enquanto Jacques apoiava sua mão em meu ombro, Paul começou a descer as escadas e nos observava com um olhar sereno e descansado. Ao chegar no térreo, fez um toque com seu irmão e o puxou para um abraço. Admirando a cena, notei o braço de Jacques me puxando para um abraço triplo.
Depois disso, Lilia e Tarsila apareceram com uma cara de sono por conta de todo o barulho. Paul e Jacques as olharam. Ao notarem, ambas correram e pularam em um abraço no irmão. Ao meu lado, meu amigo comentou comigo:
- Ele está bem maior do que antes
- Como assim?
- Ele sempre foi forte, mas agora… É como se tivesse envelhecido uns anos e treinado todos os dias de sua vida
- E isso é bom?
- Nesse mundo, é ótimo
Depois de toda a reconciliação, Paul explicou a situação para Jacques e ambos foram comigo para o jardim dos fundos enquanto Lilia e Tarsila voltaram a dormir após Jacques ter dito que estava bem. Observando os doze túmulos, ficamos em silêncio por um bom tempo até Paul abrir a boca:
- Teve alguma notícia dos outros?
- Não, mas pretendo ir atrás deles pela manhã
- Idem. Por sinal, Jacques, bela tatuagem essa no braço
- Bem, isso…
- Aconteceu alguma coisa?
- Assim como você disse que James havia sido possuído por um Deus, eu encontrei um desses Deuses
- V-Você encontrou?
Questionei espantado enquanto o mesmo afirmava com a cabeça. Em seguida, voltou a dizer:
- O nome dele era Moore, o “Nobre Áureo”. Eu o encontrei na escola e nós dois fizemos… Um acordo