POV Jacques
No dia anterior, algumas horas antes…
Notei a figura loura estendendo um braço até mim. Ficamos nos encarando por alguns segundos até que resolvi dizer:
- Proposta?
Animada, a figura continuou dizendo:
- Sim! Uma proposta!
- O que tá acontecendo?
- Que saco…
Instantaneamente e infelizmente, começou um monólogo:
- Sabe, a coisa lá no céu! Aí Nós chamamos isso de “Fissura”, mas tem outra coisa que chamamos com o mesmo nome e tem as Rachaduras, os Semideuses, o Plano Divino, essas coisas!
- Quê?
Depois, ela explicou de uma maneira mais compreensível. Ouvindo tudo sobre Deuses e Semideuses, que o que possuo em meu peito é um núcleo chamado Rachadura, explicou da existência do Plano Divino e sobre o “desejo”, tudo o que eu precisava saber para compreender o que estava ocorrendo. Entretanto, ela falou mais algumas coisas:
- Por sinal, vejo que já descobriu dos núcleos das criaturas
- Você diz aquelas pedrinhas brilhantes?
- Sim! Elas mesmas!
- E o que tem elas?
- Creio eu que elas te fizeram sentir-se bem!
- Sim…
- Isso é por conta do Hao que elas possuem em excesso, acumulado em seus núcleos
- “Hao”?
- O Hao é o que compõe a sua Rachadura e as criaturas. Pense nele como sangue, por exemplo
- Não entendi…
- Ele é o que move a sua vida e a das criaturas. Ele é o que te dá vida. Ele é um “segundo sangue”. Você precisa do Hao pra sobreviver e para utilizar algumas técnicas ou algum “Objeto Místico”, por exemplo
- Ele me move? “Objeto Místico”?
- Você já deve ter visto filmes ou coisa parecida! Sabe aquelas espadas em filmes de fantasia que soltam fogo ou ar? É isso! A única diferença é que saber utilizar o Hao vai definir para que o seu objeto funcione! E não só pra isso, ele também pode ser utilizado como maneira de compreender esses objetos ou ativar as runas… Em resumo, é a sua “energia vital”, por mais que eu deteste esse termo
- Acho que entendi
- Ótimo! Vai aceitar o acordo?!
- V-Você nem explicou o que é esse acordo!
- Ah, certo… Bem, Nós, Deuses, por razões das quais não te interessa, podemos ter receptáculos de seres inferiores! Em resumo, você me carregará em seu corpo e vice-versa! Então, você vai ter os meus poderes e eu vou te ajudar a chegar no Plano Divino! Claro que podemos trocar de mente entre nós dois, mas prometo que vou ser bem generoso!
- Eu recuso
- O q-quê?!
O Deus ficou visivelmente abalado com minha resposta e continuou insistindo:
- Q-Qual é?! Pessoas matariam para ter essa honra! V-Você é muito burro! Eu sabia que os seres inferiores eram tolos, mas não tanto! Hahahaha!
- Então, procure outra pessoa que aceitaria essa “honra”
- E-Espera! T-Também não é assim!
- Como não? Se você disse que “pessoas matariam para ter essa honra”, ache alguém que se interesse nessa sua charlatanice
- Ora, seu… Insolente!
- Vamos, ache sua vítima!
- M-Mas precisa… S-Ser você
- Ah, é? E por quê?
- Não seja estúpido! Você… É forte e tem um potencial maravilhoso!
Com um sorriso arrogante em meu rosto, respondi:
- Então, Deuses matariam para ter a honra de me possuírem?
- Maldito…!
O Deus abriu um sorriso nervoso e eu fui me aproximando enquanto dizia:
- Bem, se tudo o que você disse é verdade, eu vou precisar ficar forte pra sobreviver, certo?
- I-Isso! Vai aceitar o acordo?!
- Em momento nenhum eu disse isso
- Droga…!
- Eu quero propor um acordo entre nós
- Ora, isso m-me apetece! Já vou preparar o rito para você ser meu receptáculo e-
- E eu disse que vou ser seu receptáculo?
- Como assim?! Para fazermos um acordo, você precisa ser meu receptáculo e eu vo-
- Eu quero um pedaço dos seus poderes e um pouco desse “Hao” seu, mas você não vai me possuir
- Você ficou maluco?!
- Não, você ficou maluco. Eu quero uma parcela de seus poderes e de seu “Hao” até que eu fique forte o bastante. Aí, quem sabe, poderemos renegociar ou rescindir nosso contrato. Considere isso como um tempo de teste. Se ambos quisermos parar com isso ou continuar, dependerá do futuro
- Mas se você quiser rescindir o contrato, ele simplesmente vai acabar, sem mais nem menos!
- Você esqueceu que eu posso morrer no processo? E o que vai acontecer? Os poderes vão voltar pra você? E se eu gostar dos poderes, eu posso simplesmente pedir mais um pedaço. Além disso, você mesmo disse que você tem seus interesses que não cabem a mim. Se tudo der certo e eu continuar vivo daqui um tempo, podemos nos contactar e se você me der um motivo plausível, iremos fazer um acordo melhor. O que me diz?
Ele havia ficado num completo silêncio por uns minutos. Ele começou a suar frio até que me disse:
- Feito
Nos aproximamos e apontamos as mãos:
- Primeiro, me diga seu nome completo e diga que você autoriza o acordo para eu começar a transmissão do poder
- Eu, Jacques Miller, autorizo o acordo com base em minhas propostas
- Eu, Moore, o “Nobre Áureo”, autorizo o acordo com base nas propostas de Jacques Miller
De repente, um brilho dourado surgiu no meu braço e o que parecia ser uma tatuagem em forma de um ramo crescente dourado apareceu. Vi seus olhos brilharem e meu peito estufar. O brilho no mesmo se expandia ainda mais e vi meu corpo crescer levemente. Depois de alguns minutos de palavras incompreensíveis sendo ditas pelo mesmo, ele voltou ao normal e me falou:
- Eu coloquei um comunicador no seu corpo. Ele terá o prazo de dois anos a partir de amanhã. Se não for apertado até lá, seu poder e meu Hao serão revogados e será dado como um contrato inválido, resultando na sua morte
- Nós não falamos isso!
- Isso é o mínimo que eu posso fazer para que você não dê um golpe em mim! Quando estiver pronto para me chamar, você deve meditar e concentrar o Hao nas suas mãos e mentalizar a seguinte palavra: “Rassura”
- Ok… Bem, de qualquer forma, fico feliz que fizemos um bom acordo!
- Eu também fico, Jacques Miller…
- Por sinal, posso só te pedir um pequeno favor?
- Qual?
- Pode me ensinar como detectar essas criaturas com Hao?
- Haha! Como se funcionasse assim!
- O quê?
- Eu não posso te ajudar com isso, garoto. Nem mesmo nós, os Deuses, temos total ciência das criaturas mais poderosas
- E quem disse que eu quero as mais poderosas?
- Hã?
- Eu quero matar as mais fracas possíveis!
- Bem, se é assim… Tenha paciência para elas surgirem cada vez mais e aprenda a ciclar seu Hao. Você consegue!
Antes que eu pudesse dizer outra coisa, o vi saindo pela porta e um pilar luminoso caindo sobre o mesmo, o fazendo desaparecer. Ainda tinha minhas dúvidas, mas precisava me equipar antes de qualquer coisa. Peguei uma mochila mais cheia em alguma das salas e juntei o máximo de munição que achei no salão de arsenal graças às chaves no corpo morto do diretor em sua sala.
Por enquanto, vou manter meu sabre, mas, por precaução, o afiei ao máximo. Estava um pouco preocupado com minha família, porém, estando vivos, eu precisava ficar forte para protegê-los. Juntei minhas coisas e tracei um plano. Eu precisava juntar o máximo de núcleos de criaturas que eu pudesse achar para poder ficar mais forte, mas não sabia como encontrá-las.
Sentei no chão próximo aos cadáveres dos monstros e tentei meditar, afinal, Moore havia citado sobre juntar o “Hao” nas mãos. Se eu pudesse juntar em alguma outra parte do corpo, talvez pudesse vê-las ou senti-las. Fiquei alguns minutos meditando até sentir uma pontada no peito. Um brilho passou pelas pálpebras de meus olhos e vi meu núcleo, ou melhor, minha Rachadura pulsando.
Era como se algo se movesse pelo meu corpo. Vi ela se expandindo pelos meus ombros e pelo meu pescoço. Tentei fazê-la ir até meus olhos para ver se mudava algo. Fiquei uns bons minutos nisso até sentir um leve arrepio e uma coceira nos olhos. Os cocei e os abri, notando que o mundo parecia levemente diferente.
As cores eram mais opacas, mas conseguia ver pontos brilhantes através das paredes com leves contornos inumanos. Eram as criaturas. Eu estava decidido. Me levantei, peguei minhas coisas e resolvi procurar o máximo que pudesse. Se o que Moore disse for verdade, elas vão aparecer cada vez mais. Eu só preciso ficar forte para proteger minha família e torcer para que estejam vivos.
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POV Paul
Jacques nos explicou tudo, desde o acordo até o Hao, mas só pude lembrar da situação do James.
Teria ele feito um acordo igual ao que Jacques fez com Moore?
Droga, as dúvidas estão preenchendo minha cabeça novamente. Ainda estava cansado e resolvi ir dormir. Milo e Jacques me acompanharam, dizendo que iriam tomar um banho e deitar. Era a melhor coisa a ser feita. Pela manhã, iríamos procurar nossos irmãos. Jacques havia dito que não encontrou nenhum deles, mas nos disse que precisávamos ficar mais fortes para procurá-los em segurança.
Ele abriu sua mochila em um dos bolsos e mostrou uma grande quantia de núcleos de criaturas. Tinham uns vinte, mais ou menos. Surpreso, lhe perguntei:
- Como você conseguiu tantos?
- Matando o máximo de criaturas que achei nas proximidades do meu colégio. Eu usei cinco e deixei vinte núcleos aqui
- E eles não se destruíram ao pegá-los?
Milo havia perguntado de maneira curiosa. Relembrei de quando pegamos alguns e eles simplesmente explodiram com o menor contato possível e meu irmão respondeu:
- Eu aprendi que, se você controlar o Hao direito e o concentrar em suas mãos, consegue pegá-los em segurança
Ele havia ficado forte e compreendeu um pedaço desse novo mundo em um dia. Ele é, de fato, genial. Depois de mais alguns assuntos e piadas, cada um se dirigiu a um banheiro para tomar banho e fui me deitar. Dessa vez, não apaguei ao cair na cama. Fiquei um pouco acordado pensando em tudo o que estava acontecendo. Eu não sabia o que me esperava ou se meus irmãos estariam vivos, mas eu precisava descobrir o mais rápido possível. Eu não quero ficar sozinho.