Não é um dia normal começando.
O que parecia ser o Sol estava coberto pelo forte brilho púrpura e branco da “Fissura” e o céu continha tons acinzentados. Vou ter que me acostumar com isso. Suspirei e me troquei. Dessa vez, coloquei uma camisa cinza e uma blusa preta de moletom aberta por cima. Coloquei uma calça preta larga que compunha um conjunto com a blusa e uma bota justa.
Em seguida, coloquei a cinta que compunha a bainha envolta da minha cintura e ajustei meu cabelo um pouco. Lavei o rosto na pia e me dirigi até o refeitório. Surpreso, encontrei Milo e Lilia fazendo o café da manhã. Os cumprimentei e peguei uma xícara, a enchi de café e tomei em pé.
Em seguida, vieram Jacques e Tarsila. Todos nós tomamos um pouco de café e começamos a arquitetar os planos:
- Em que ordem vamos começar a procurá-los?
Lilia perguntou enquanto mexia sua colher na xícara. De prontidão, quase simultaneamente, Jacques e eu respondemos:
- Os gêmeos
- Mas por que não o Caio, Ferdinand e o Peter? Eles são mais novos
- Além deles estarem em três e estarem sempre juntos, eles têm instintos básicos de sobrevivência
Jacques dizia enquanto gesticulava com as mãos. Lilia assentiu com a cabeça enquanto comecei a falar:
- Depois dos gêmeos, podemos ir atrás dos três
- E por último, Duque?
Tarsila questionava. Todos respondemos confirmando com a cabeça. Notei Milo perdido no assunto e o vi perguntar:
- Esse Duque é o que iremos deixar por último, certo? Mas, por que não nos dividimos em dois grupos e vamos cada grupo atrás dos irmãos? Eles não são os mais novos?
- Realmente, Duque é o mais velho entre eles. Não é uma má ideia, mas é perigoso
Pontuei enquanto dava um último gole no café. Depois da minha fala, Jacques se virou até mim e disse:
- Se quiserem, eu tenho alguns núcleos aqui. Como possuo vinte, dá pra fazer cinco para cada um
- Mas e você?
Lilia perguntou com um rosto apreensivo e recebeu a resposta em seguida:
- Já usei cinco e tenho minha tatuagem. Não se preocupem comigo
- Se você diz…
Lilia terminou de comer enquanto Jacques começou a separar os núcleos. A primeira foi Tarsila. Meu irmão colocou cinco pedrinhas brilhantes de tamanhos distintos em suas mãos e pediu para ela apertar com força. Uma aura imensa percorreu seu corpo e ela ficou não só mais alta, como levemente musculosa.
Tarsila estava olhando para a região de seu peito e vendo o que parecia ser algo crescendo. Era sua Rachadura se expandindo. Em seguida, foi Lilia, depois Milo e, por último, eu. Depois de todos os efeitos, me sentia uns dois centímetros mais alto e relativamente mais forte.
O mesmo ocorreu com Milo e minhas irmãs. Depois disso, agradecemos ao meu irmão e fui levar a louça até a pia. Depois de lavá-la, ao voltar à mesa, percebi que haviam decidido o plano. Todos nós iríamos juntos primeiro para a escola dos gêmeos, depois para a escola da tríade e, por último, iríamos procurar na escola de Duque.
Jacques, Milo e eu nos preparamos com nossas armas. Lilia e Tarsila estavam desarmadas, então, fomos no quintal, entramos no armazém e pegamos uma pá e uma enxada, ficando com Tarsila e Lilia, respectivamente. Pegamos uma sacola com comida e água e nos preparamos para ir.
Antes de sairmos, coloquei a pedra brilhante dentro da minha blusa num bolso interno e lá fomos nós. Abrimos a porta e nos dirigimos com cuidado até o portão. Enquanto andávamos até lá, Jacques disse:
- Tomem cuidado. Moore, o Deus que encontrei ontem, me disse que ainda mais criaturas viriam. Fiquem sempre alertas
Me espantava a coragem de Jacques. Ele havia matado vinte e sete monstros num só dia. Mesmo sendo os mais fracos, são vinte e sete. Desde que o conheci, ele tinha feitos incríveis pra idade. Recordes em provas de atletismo no colégio, derrubava árvores em três ou quatro machadadas, o cadete estudantil mais forte nos últimos vinte anos, etc…
Era bom tê-lo por perto, não só por ser meu irmão, mas pela força anormal que ele nos proporciona. Fomos caminhando até a escola de Marco e Lucius. Era mais longe se comparada com a qual eu e James frequentávamos, mas ainda sim, perto. As ruas estavam muito quietas, até demais. Sem sons de rugidos bestiais ou gemidos humanos. Simplesmente, nada.
Fomos nos aproximando em silêncio. A escola estava na nossa frente em poucos minutos. Jacques sinalizou que seria o primeiro a entrar, entretanto, rapidamente, vi uma figura alta e magra, de terno preto rasgado. Ela estava com um cano enferrujado pontiagudo apontado para o rosto de Jacques. Seu rosto era levemente barbudo, com um cabelo curto, mas cheio e bagunçado. Em seus olhos, um óculos com uma das hastes presa a uma fita crepe.
Ambos se olharam seriamente, até que o homem disse:
- Vocês não parecem ser pessoas que precisam de ajuda
- Realmente, não precisamos. Agora, por favor, nos dê licença
- Onde você pensa que vai, grandalhão? Aqui tem dono
- Então, você é o proprietário da escola?
- Não brinque comigo, bastardo. Se afaste, agora!
- Sabe com quem está falando?
- E mudaria algo se eu soubesse? Não tem mais um Mundo onde você possa ser alguma coisa relevante
O silêncio permeou pelos arredores. Ajeitei a espada enquanto me aproximava. O homem me olhou e disse:
- Ótimo! Vão querer me matar?
- O que acha?
Jacques continuava a dizer com as mãos no bolso até o homem retrucar:
- E depois? Vão fazer o que com as crianças lá dentro? Matá-las? Vendê-las para alguns sobreviventes loucos? Escravizá-las? Eu não vou deixar vocês passarem do portão!
Ao citar crianças, larguei a mão da bainha da espada e falei:
- Você comentou sobre crianças. Nós estamos procurando nossos irmãos que estudavam nessa escola. Pode me dizer se eles estão com você?
- Quem são seus irmãos?
O homem abaixou a arma e tornei a dizer:
- Os gêmeos Marcos e Lucius. Não devem existir muitos nessa área, ainda mais depois do que aconteceu
Ele se virou de costas, como se estivesse satisfeito com o que eu falei e disse:
- Vamos, sigam-me
Seguimos cautelosamente enquanto Milo cutucou meu ombro, me parabenizando. Jacques deu um sorriso e Lilia bagunçou meu cabelo. Tarsila ficou em silêncio, mas sorriu para mim. Caminhamos até a entrada da escola. O homem mais a frente abriu a porta cautelosamente. Notamos várias crianças, algumas machucadas, outras dormindo, algumas chorando e outras em estado de choque.
Aos pés delas, havia um prato de comida para cada uma junto de um copo de leite. O homem disse após nos mostrar tudo isso sem dizer uma única palavra:
- Bem-vindos ao nosso abrigo
Seu rosto era sério e piedoso. Até me assusta desse jeito. Quando ele apareceu, as crianças gritaram com felicidade em seu rosto:
- Tio Tony! Tio Tony!
Ao todo, eram treze crianças no hall principal. Contudo, não achei nem Marcos e nem Lucius. Comecei a olhar nervoso e apreensivo, até que o homem, provavelmente chamado Tony, apontou ao refeitório:
- Ali estão eles
Os vi repetindo comida e corri para abraçá-los. Quando me notaram, fizeram o mesmo. Em seguida, meus irmãos correram para um momento fraterno. Marcos e Lucius entraram em prantos durante o abraço. Consequentemente, eu também. No final, todos nós estávamos chorando.
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POV Milo
Sorri ao vê-los reencontrando seus familiares. Olhei ao homem e, ainda curioso com tudo, perguntei:
- Você trabalha aqui, por acaso?
- Não, trabalhava em outro lugar. Apenas fiquei por aqui por abrigo e comida, mas me apeguei um pouco às crianças
- Compreensível. Onde você trabalhava, então?
- Num dos prédios empresariais aqui perto
- Entendi… Não vou mentir que me espanta ver tantas pessoas por aqui, mesmo que sejam crianças
- Eu também me assustei. Tinham mais, bem mais…
- Como assim “tinham”?
- Havia pouco mais que o dobro das crianças que estão aqui como sobreviventes. Foi depois que tudo aconteceu no meu trabalho. Eu vim pra cá e comecei a ouvir barulhos estranhos. Eram gritos de crianças. Peguei esse pedaço velho de cano por precaução…
Ele começou a andar até uma sala enquanto sinalizava para seguí-lo e continuava a me dizer:
- Eu entrei com cuidado e vi algo horrível… Era uma fila de crianças entrando na sala de aula e barulhos do chão rachando junto aos gritos. Quando eu vi…
Ao abrir a porta, ele me mostrou um mar de cristais azulados, cianos e rosados com crianças espetadas, perfuradas, mortas. Comecei a suar frio e segurei o vômito até ele voltar a falar, escondendo a sala das outras crianças com seu corpo:
- Era uma figura distinta as outras. Roupas esbeltas e exuberantes de cor azul, um cabelo castanho longo preso, com um pouco saindo para fora de seu rabo de cavalo. Ele tinha um sorriso vil e continuava dizendo que as crianças não tinham talento… Eu o confrontei e ele sorriu para mim, me disse que eu tinha potencial e concluiu dizendo que, por “piedade”, me daria um mês até que ele voltasse para uma “conversa” comigo…
- Que horror! Você sabe q-quem ele era?
- Não sei seu nome, mas ele se gabava, dizendo que havia vindo do “Plano Divino”... Dizendo que era um “Semideus”