1 CAPÍTULO DO 1 VOLUME: A CHAMA As ruas de Kurjien Kaupunki cheiravam a poeira úmida, fuligem fria e ao tédio de um sábado cinzento. O sol mal conseguia atravessar a névoa ácida e constante que cobria a cidade-fortaleza, mas, para quem andava lá embaixo, o dia parecia bizarramente normal.
Caminhando calmamente pela calçada, alheio ao movimento dos operários com uniformes manchados de graxa e às patrulhas hidráulicas que vigiavam os bueiros, estava Malor. Com seus modestos 1,60 de altura, pele muito branca e cabelos de um amarelo vivo que pareciam um farol naquela névoa, ele exalava a vibe de um cara 100% sossegado. Do tipo que não quer guerra com ninguém. Ele segurava um saquinho de papel pardo e jogava batatas fritas murchas na boca com uma serenidade invejável.
— Ué... para onde será que a Shërbim foi? — Malor resmungou para si mesmo, limpando o sal dos lábios com a manga da camisa. — Ela jurou por Deus que ia se encontrar comigo na praça. Se ela me deu bolo de novo para ficar dormindo, eu juro que...
Ele caminhou até um banco de ferro fundido remendado com solda, sentou-se com um suspiro audível e cruzou as pernas. Olhou para o saquinho. Estava pronto para pegar mais uma batata quando seus olhos amarelos piscaram. Espera aí. Ele conhecia o peso exato daquele saco. Estava leve demais. Faltava uma.
Antes que pudesse processar o mistério, sentiu um leve deslocamento de ar. Ele olhou para trás pelo canto do olho e viu mais três batatas fritas sumirem num piscar de olhos, como se tivessem sido engolidas pelo próprio éter.
— Ah, mas nem ferrando — Malor murmurou, o cenho franzido.
Sem pensar duas vezes, ele virou o saquinho na boca, engolindo o resto das batatas de uma vez só. No milissegundo seguinte, uma mão pálida e rápida passou raspando por cima da sua nuca, cruzou o topo da sua cabeça e desceu em direção aos seus lábios, tentando abrir a boca dele à força na base da pura audácia.
Clack!
Com um reflexo absurdo, Malor ergueu a mão esquerdo por cima da cabeça, travando o pulso da pessoa bem perto do seu ouvido. Ele engoliu o bolo de batatas com um barulho alto, sentindo o estômago finalmente dar uma trégua, e soltou o ar pelo nariz, totalmente entediado.
— Eu reconheço essa fome de mendigo em qualquer lugar do mundo, Shërbim.
— Ah, qual é, Malor? Nem faz a boa para a sua parceira de equipe? Que egoísmo da porra — uma voz feminina, arrastada, preguiçosa e cheia de deboche, ecoou logo atrás do banco.
Malor soltou o pulso dela e se virou, jogando o corpo para trás no encosto. Ali estava Shërbim. Ela tinha 1,70 de altura — o que sempre dava a ela o direito de olhar para o Malor de cima para baixo com superioridade —, cabelos de um tom rosa-claro totalmente bagunçados e as mesmas íris amarelas dele. Ao abrir a boca para estalar a língua de frustração, revelou dentes perfeitamente serrilhados — um traço biológico idêntico aos dentes do próprio Malor. Ela vestia um casaco preto bem curto, que ia só até a metade da cintura, uma camisa branca longa por baixo e uma calça preta justa que parecia confortável até demais para quem deveria estar em alerta.
— Era para você ter pelo menos comprado duas batatinhas, né, ô inteligência? — disse Shërbim, cruzando os braços e mantendo uma expressão totalmente calma, mas com aquele sorrisinho de canto que dava vontade de socar.
— Eu te conheço, Shërbim, eu não sou otário — Malor rebateu com a voz mansa, ajeitando uma mecha do seu cabelo amarelo. — Se eu compro duas, você olha para as caixas, diz que a minha veio com três batatas a mais, reclama que o mundo é injusto e confisca as duas só pelo "trauma psicológico".
Shërbim imediatamente desviou o olhar, erguendo o queixo e começando a assobiar uma melodia desafinada qualquer.
— Eu não faço isso não... Que calúnia. — Ela mudou de postura num estalo, cravando os olhos amarelos dele de volta, semicerrados. — Aliás, quem é o fofoqueiro que andou falando as minhas táticas de sobrevivência para você? Foi o capitão, né?
— Não posso quebrar meu juramento de confidencialidade da brigada — Malor respondeu, segurando o riso enquanto amassava o saquinho de papel e jogava numa lixeira próxima com um arremesso perfeito. — Mas mudando de assunto, para onde a gente vai mesmo? Meu estômago ainda tá cobrando o resto do almoço.
Shërbim enfiou a mão no bolso do casaco curto e puxou o celular com a tela toda trincada, digitando com o polegar de qualquer jeito.
— Pelo o que eu li no panfleto que eu roubei... a gente ia sair para bater um rango naquela lanchonete nova que abriu. Uma tal de "Boca de Hidrante". Dizem que o hambúrguer deles é do tamanho de uma cabeça de guri.
— Caraca, sério? Então a gente tem que correr para o metrô — Malor explicou, já se animando e apontando a direção da avenida com o polegar. — A gente pega a linha que corta para Qyteti i Investitorëve e salta logo na segunda estação. É rapidinho.
Shërbim guardou o celular, deu de ombros e abriu aquele sorriso de dentes afiados.
— E o que a gente está esperando aqui parado feito duas samambaias, então?
Malor se levantou do banco com uma mola nas pernas.
— O último que chegar paga o combo completo, incluindo o refri!
Antes que Shërbim pudesse soltar um "filho da mãe", Malor ergueu a mão direita na altura do peito. A pele da palma da sua mão se contraiu e se abriu em um clique cirúrgico, revelando um bocal emborrachado preto e vermelho embutido na própria carne. BOOM! Um jato de água com uma pressão estúpida explodiu contra o chão de paralelepípedo, gerando um recuo violento que o jogou para o alto. Malor saiu voando pelos tetos das casas, rindo igual um maluco.
— Ei! Isso é trapaça qualificada, seu anão de jardim! — Shërbim berrou lá de baixo, o cabelo rosa voando com o vento do jato.
Com uma agilidade que não combinava com a sua postura preguiçosa, ela enfiou a mão por debaixo do casaco curto e puxou uma mangueira real de alta pressão que carregava presa na cintura. Conectando o equipamento ao seu próprio fluxo de energia, ela disparou uma rajada pesada contra o solo, pegando impulso e saindo voando logo atrás dele, rasgando a névoa cinzenta de Kurjien Kaupunki com uma linha de vapor d'água.
A perseguição caótica terminou nos degraus de concreto que davam acesso à estação subterrânea. Os dois desceram correndo pelas escadas rolantes que estavam quebradas há meses, os passos ecoando pelo teto de metal enferrujado. Quando os tênis de Malor atingiram o chão liso do saguão principal, ele parou derrapando de lado e cruzou os braços com a cara mais arrogante que conseguiu fazer.
— Venci. E você vai pagar até a batata extra — Malor anunciou, tentando disfarçar que estava um pouco arfante.
Shërbim chegou um segundo depois, deslizando os pés e quase atropelando ele. Ela limpou uma gota de água do rosto e apontou o dedo na cara dele.
— Não valeu de jeito nenhum! Você usou propulsão orgânica antes de dar a largada! Isso quebra pelo menos três artigos do bom senso!
— Você que tem reflexo de bicho-preguiça, aceita que dói menos — Malor rebateu com a voz mais calma do mundo, o que só deixava ela com mais raiva.
Shërbim abriu a boca para soltar uma sequência de xingamentos criativos, mas parou no meio do caminho. Ela olhou para o teto, pensou por dois segundos, piscou os olhos amarelos e relaxou os ombros, soltando um suspiro derrotado.
— É... pior que você tem um ponto. Eu demorei para reagir porque estava pensando se o hambúrguer vinha com maionese temperada. Que ódio.
Malor deu uma risada sincera e caminhou até a bilheteria. O lugar era basicamente uma caixa de ferro blindada com uma fresta escura e estreita na parte de baixo. Ele se inclinou perto do vidro riscado e falou alto:
— Duas passagens para a segunda estação, chefe.
De dentro da caixa de ferro, através do alto-falante chiado, uma voz misteriosa, incrivelmente calma, doce e feminina, respondeu com um tom que parecia um abraço:
— É claro, meus jovens. São exatamente 20 moedas.
Malor enfiou a mão no bolso da calça e puxou um punhado de moedas pesadas de bronze, cada uma com o número "1" estampado bem grande no centro. Ele jogou as 20 moedas de uma vez pela fresta, fazendo um barulho de cofrinho metálico.
Clack-clack-clack-clunk.
O mecanismo interno da cabine estalou. Pela fresta superior, deslizou o primeiro papel texturizado da passagem do Malor. Logo em seguida, o segundo papel, o da Shërbim, passou pela abertura. Malor recolheu os dois bilhetes, girou o corpo e estendeu o braço, entregando o papel rosa para a garota.
— Toma. Vê se não perde até chegar na catraca.
— Eu tenho cara de quem perde passagem, Malor? — Shërbim resmungou, mas guardou o papel entre os dedos com cuidado.
Os dois caminharam até a plataforma onde o trem de ferro pesado já estava parado, soltando fumaça branca pelas juntas. Antes de cruzar a linha amarela, os dois inseriram os papéis de passagem em uma caixa de ferro coletora na catraca, que engoliu os bilhetes com o mesmo som mecânico da bilheteria principal.
Assim que os dois pisaram no piso emborrachado do vagão, as portas de metal se fecharam com um estrondo pneumático que fez as janelas tremerem. O trem deu um solavanco violento e começou a acelerar pelos túneis escuros da cidade.
Eles se jogaram nos bancos de plástico cinza. O vagão estava completamente deserto, o que era um milagre para aquele horário.
— Então, Shërbim... — Malor quebrou o silêncio, olhando para o teto de metal enquanto sentia o balanço do trem. — O que você vai pedir primeiro? Só para eu me preparar psicologicamente para o prejuízo.
— Uma porção de batata frita do tamanho da minha dignidade. Ou seja, gigante — Shërbim respondeu prontamente, jogando a cabeça para trás no encosto do banco e fechando os olhos. — E se eu ainda tiver espaço, eu roubo metade do seu lanche.
Malor fez uma careta de puro desgosto.
— Que manobra previsível. Eu ia pedir batata também, mas agora só de pirraça eu vou querer um hambúrguer duplo com bastante queijo.
Shërbim abriu um sorriso de lado, sem abrir os olhos.
— Perfeito. Eu adoro queijo. Pode pedir que eu divido com você com o maior prazer.
— Nem nos seus melhores sonhos eu divido meu hambúrguer com você, Shërbim! — Malor exclamou, indignado. — Da última vez você deu uma mordida que parecia um ataque de um tubarão-branco! Sumiu metade do pão!
BZZZZZZT!
De repente, um estalo de estática ensurdecedor cortou o som dos trilhos. Os dois pararam a discussão no mesmo segundo. O painel de vidro de neon preso no teto do trem, que costumava mostrar o anúncio dos mercados locais em luzes azuladas, começou a piscar freneticamente em um tom vermelho-sangue de alerta. As letras digitais começaram a correr pela tela de forma agressiva:
[AVISO DE EMERGÊNCIA CRÍTICA: ANOMALIA BOTÂNICA DETECTADA. UMA ÁRVORE HUMANOIDE ESTÁ ATIVA DENTRO DO TRANSPORTE. LOCALIZAÇÃO ATUAL: 2º VAGÃO. ISOLAMENTO FALHOU.]
O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelo tremor do trem ganhando velocidade no túnel escuro.
Shërbim lentamente abriu um dos olhos amarelos, olhou para o letreiro vermelho piscando no teto, depois virou a cabeça devagar para o Malor, com a expressão mais entediada e indignada que um ser humano conseguiria colocar no rosto.
— Sério mesmo, Malor?... Tinha que ser logo na porra da hora do meu almoço?
Malor já estava de pé em um movimento limpo. A expressão descontraída sumiu instantaneamente de seu rosto, dando lugar a um foco frio e cortante. Seus olhos amarelos se estreitaram.
— Parece que o dever chama mais cedo. Deixa a fome para depois, Shërbim. Vamos.
— Se aquela planta estragar o meu hambúrguer, eu vou transformar ela em adubo de calçada — resmungou ela, levantando-se logo em seguida e limpando a poeira das calças com tapas rápidos.
Ambos avançaram em direção à porta de transição que ligava os vagões. Malor puxou a maçaneta de ferro pesado e empurrou a passagem para o segundo vagão.
O cenário ali dentro mudou drasticamente. O cheiro de churrasco estragado e fumaça química impregnou o ar na hora. Vários corpos de passageiros estavam caídos pelo corredor, desalinhados entre os bancos de forma grotesca. Shërbim deu um passo à frente, com uma careta de nojo, e usou a ponta do calçado para virar o braço de um dos corpos. A pele e as roupas do indivíduo estavam completamente pretas, reduzidas a uma casca de carvão rígido que esfarelava.
— Caramba... elas não estão para brincadeira mesmo — Shërbim murmurou, a voz perdendo todo o tom debochado e ficando séria. — Foi queima total e instantânea. O calor desses bichos tá aumentando a cada mês.
— Sem pânico. Só temos que achar a árvore antes que ela chegue à cabine do maquinista — Malor disse, os braços já relaxados ao lado do corpo, prontos para disparar.
— Vocês estão procurando uma árvore? — uma voz excessivamente mansa ecoou logo atrás deles, vinda da escuridão do canto do vagão.
Malor e Shërbim viraram-se rapidamente, os corpos em postura de guarda. Parada ali, saindo de trás de um dos bancos, estava uma garota de 1,60 metros de altura. Ela tinha cabelos curtos de um tom ciano incrivelmente vívido e íris amarelas brilhantes. Usava um casaco preto pesado de bombeiro e um chapéu também preto bem ajustado na cabeça, cobrindo parte da testa.
Malor estreitou os olhos ao notar os detalhes dourados da insígnia costurada na farda dela.
— Espera... você é do Rank 1?
A garota abriu um sorriso extremamente doce, infantil e animado, prestando uma breve e exagerada reverência militar.
— Sim, sim! Eu me chamo Syaani! Ai, que bom encontrar vocês! Será uma honra absoluta trabalhar com os dois Rank 1 da 3ª Divisão! Eu ouvi falar muito de vocês nos relatórios!
Shërbim franziu o cenho, os dentes serrilhados cerrados. A intuição dela estava apitando.
— Eu não vi você entrando na estação com a gente. De onde diabos você surgiu, garota?
— Ah, é porque eu já estava falando com o maquinista do trem quando a confusão começou! — Syaani explicou rápido, gesticulando com as mãos de forma boba e entusiasmada, quase dando pulinhos. — Eu cheguei bem mais cedo que vocês dois na estação. Como eu olhei pelas câmeras e vi que o Malor e a Shërbim já vinham no próximo embarque, eu só tive que pedir pro maquinista soltar o aviso no painel neon para vocês já virem correndo dar uma mãozinha! Pensado rápido, né?
— Entendi... — Malor assentiu devagar, embora uma leve sensação de desconforto fizesse seus cabelos da nuca se arrepiarem. Algo não encaixava.
— E então? Vocês sabem onde a árvore já está se escondendo? — Syaani perguntou, inclinando a cabeça para o lado de um jeito inocente, quase fofo.
— Ainda não, mas não deve estar longe com esse cheiro de cinza — respondeu Shërbim, voltando-se para o corredor.
Antes que pudessem formular um plano tático, o som violento de chamas rasgando o ar e o estalo seco de madeira velha estourando ecoaram do fundo do vagão adjacente. Sem hesitar, os três correram, atravessando a primeira e depois a segunda porta divisória de metal do trem, que bateu contra as paredes com o impacto.
Ao entrarem no próximo setor, eles finalmente o viram. Era uma silhueta bizarra e humanoide que parecia moldada por cascas de árvore retorcidas, nós de madeira e galhos carbonizados, mas que andava e se posicionava como um homem. Ela vestia um kimono amarelo esfarrapado e queimado nas pontas. Seus cabelos eram longos, desgrenhados e amarelos, e suas íris brilhavam na mesma tonalidade. A expressão no rosto de madeira esculpida da criatura era um paradoxo: uma calmaria cadavérica misturada a um estresse profundo e palpável, como se estivesse com uma enxaqueca eterna.
Ao ver os três bombeiros entrarem, a criatura ergueu os olhos de madeira, sua voz saindo grave e arrastada, como o ranger de galhos secos sob uma tempestade:
— Vocês... humanos... sempre atrapalhando o fluxo... Sumam.
Malor deu um passo firme à frente, levantando a palma da mão direita na direção do monstro. O tecido de sua luva metálica se abriu por completo com um som pneumático, revelando o bocal de carne e metal.
— Quem tá atrapalhando o meu almoço aqui é você, sua samambaia sob pressão!
Um jato de água de altíssima pressão disparou da palma de Malor com o som ensurdecedor de um trovão, quebrando as lâmpadas do teto com o impacto do ar. Porém, com uma velocidade que desafiava o peso da madeira, a árvore deu um simples e elegante passo para o lado. No mesmo movimento milimétrico, ela largou o corpo de um passageiro que segurava. O jato de Malor errou o alvo por centímetros e atingiu em cheio o cadáver carbonizado, despedaçando o carvão em uma lama de cinzas úmidas que se espalhou pelo chão.
— Errou feio, otário! Deixa comigo! — Shërbim rugiu, agindo em seguida.
Ela sacou a mangueira por baixo do casaco com um movimento fluido e liberou um fluxo contínuo e violento de água na diagonal. Mas a árvore repetiu o movimento com uma frieza assustadora, esquivando-se novamente. A água da mangueira de Shërbim passou direto e atingiu em cheio uma das janelas laterais do trem, estourando o vidro neon em centenas de pedaços cintilantes que voaram para o túnel escuro.
— Mas que porra... ele é rápido demais! — Shërbim exclamou, os olhos arregalados.
Aproveitando a brecha da guarda aberta, a árvore avançou como um raio pelo corredor. Antes que Shërbim pudesse retrair sua arma ou criar distância, a mão de galhos secos e rígidos da criatura fechou-se violentamente ao redor do pescoço dela, erguendo o corpo de 1,70 metros do chão como se não pesasse nada.
— Shërbim! Sai daí! — Malor gritou, tentando mirar novamente, mas temendo atingir a parceira.
— Me... solta... seu pedaço de lenha... — Shërbim engasgou, tentando chutar o peito do monstro.
A árvore não respondeu. Ela simplesmente ativou suas chamas internas. Um calor insuportável e alaranjado irradiou instantaneamente da palma do monstro. O fogo subiu pelo pescoço de Shërbim em uma fração de segundo. Malor assistiu, horrorizado, enquanto a cabeça de sua amiga ficava completamente carbonizada, tomada por uma crosta negra, rígida e sem vida de queimadura extrema. Shërbim abriu a boca com dificuldade, os dentes serrilhados cobertos de fuligem, cuspindo um líquido roxo espesso misturado com uma fumaça densa que subia pelos olhos.
Tomado pelo puro instinto de sobrevivência e fúria, Malor apontou o braço livre e disparou um jato contínuo e concentrado de sua mangueira corporal contra o peito da árvore. O impacto hidráulico brutal foi forte o suficiente para quebrar a força do monstro e arremessá-lo contra a parede de metal do vagão, amassando a estrutura.
Antes que o fluxo de água pudesse saturar totalmente as células de carbono da criatura e forçá-la a hibernar, a árvore usou suas próprias chamas como propulsão. Ela liberou uma explosão de calor devastadora pelas costas, criando um efeito estufa no vagão que a jogou para o lado, escapando do curso da água.
O monstro se levantou rapidamente, tentando flanquear Malor pelo corredor estreito. Malor, com os reflexos no limite, previu o movimento e disparou um jato cortante de raspão. O impacto hidráulico foi tão preciso que arrancou o braço direito da árvore, que voou longe, batendo no teto e espalhando uma seiva espessa, escura e fervente pelo chão de metal do trem.
Porém, a criatura não emitiu um único som de dor. Ela correu na direção de Malor usando apenas o braço esquerdo, pegou o próprio membro decepado no ar com uma velocidade bizarra e, antes que o garoto pudesse fechar a guarda ou recuar, cravou a ponta pontiaguda do braço arrancado direto dentro da boca aberta de Malor.
— Hmph?! — Malor arregalou os olhos, engasgando.
A árvore ativou o calor residual da madeira decepada bem ali, dentro da boca dele. Uma fumaça cinzenta, quente e sufocante começou a sair violentamente pelo nariz de Malor. Um líquido roxo, o sangue mutante de seu sistema hidráulico, escorreu de suas narinas em abundância. O garoto caiu de joelhos com um baque, tossindo desesperadamente e expelindo o mesmo fluido roxo enquanto a fumaça subia de sua garganta chamuscada.
A árvore deu um passo para trás com calma, pegou o braço decepado e o pressionou contra o próprio ombro. As fibras de madeira e as cascas se entrelaçaram instantaneamente com um som de galhos se retorcendo, recolocando o membro no lugar como se nada tivesse acontecido.
Malor apoiava as duas mãos no chão do trem, os braços tremendo enquanto o líquido roxo pingava no metal. Ele limpou o canto da boca com as costas da mão, a visão turva, a voz saindo bizarramente rouca, arranhada e dolorida:
— Teve... sorte... de não ter afetado... a minha garganta por completo... Seu maldito...
Ele tentou se levantar, forçando os músculos, mas parou ao perceber o silêncio absoluto vindo de trás. Ele virou a cabeça devagar. Syaani não havia se movido um milímetro durante todo o confronto. Ela não havia disparado uma única gota d'água para ajudar.
Quando Malor conseguiu focar a visão através da fumaça, o choque o paralisou mais do que a dor. Syaani não usava mais a farda preta de bombeiro do Rank 1. Suas roupas de proteção pesadas estavam jogadas no chão do vagão como lixo. Agora, ela vestia um kimono ciano elegante e tradicional sobre um kimono branco por baixo, e exibia uma presilha delicada e brilhante no cabelo curto. O olhar que antes era doce e infantil havia se transformado em algo terrivelmente frio, superior e calculista.
— Ah, foi até que divertido ver o quão fáceis são de manipular os bombeiros com esse novo método — disse Syaani. Sua voz mantinha o mesmo tom suave e melodioso de antes, mas agora estava carregada de uma malícia aterrorizante que fez o sangue de Malor gelar.
Ela caminhou calmamente, saltando os poços de água e sangue roxo no chão, até parar diante de Malor, que mal conseguia se mexer devido às queimaduras internas em suas vias respiratórias. Syaani abaixou-se com elegância e colocou a ponta dos dedos delicados sob o queixo ensanguentado do garoto, erguendo a cabeça dele com força para que a encarasse bem nos olhos.
— Parece que nós realmente aprendemos com os humanos que tanto odiamos... Nós aprendemos a mentir — ela sussurrou, abrindo um sorriso gélido e vitorioso.
Antes que Malor pudesse proferir uma única palavra ou tentar um último jato, o sistema de som automatizado do trem ecoou com um bipe mecânico:
"Chegando à Estação Central de Qyteti i Investitorëve. Portas abrindo pelo lado esquerdo. Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma."
O trem reduziu a velocidade bruscamente, fazendo as rodas de ferro rangerem nos trilhos, e parou. As portas de metal se abriram com um chiado, revelando a plataforma lotada e movimentada da estação subterrânea da elite.
Syaani soltou o queixo de Malor com desdém, limpando os dedos no próprio kimono, e olhou para a árvore humanoide ao seu lado.
— Sujou o parquinho, Keltainen. Agora nós temos que sair antes que os reforços de verdade cheguem.
A criatura de kimono amarelo, chamada Keltainen, apenas assentiu em silêncio com a cabeça de madeira. Ambos saltaram para fora do vagão com uma agilidade impressionante, cruzando a plataforma num vulto e misturando-se instantaneamente à escuridão dos trilhos do túnel oposto antes que qualquer guarda ou civil pudesse entender o que estava acontecendo.
Na plataforma, os civis que esperavam alegremente para embarcar olharam para dentro do segundo vagão através das janelas quebradas e entraram em um pânico histérico imediato. O cenário de corpos carbonizados, Shërbim caída com a cabeça preta expelindo fumaça densa, e Malor de joelhos tossindo um mar de líquido roxo chocou a multidão.
— Meu Deus! O que aconteceu ali dentro?! Olhem o estado daqueles garotos! — alguém gritou, apontando.
— São os Rank 1! Eles foram derrotados! Chamem os bombeiros! Rápido, pelo amor de Deus, chamem a divisão médica! — as vozes começaram a se sobrepor em um clamor desesperado de gritos e passos correndo.
A visão de Malor começou a falhar, as bordas ficando completamente escuras. O cansaço extremo, a desidratação repentina e os danos terríveis causados pelo calor interno pesaram seus olhos amarelos. Pouco antes de perder totalmente a consciência e desabar de cara no chão frio de metal do trem, o último estímulo que cruzou sua mente debilitada não foi o grito histérico das pessoas na plataforma...
Foi um som contínuo, estridente e vibrante vindo direto de dentro do bolso do casaco curto de Shërbim.
O som de uma ligação telefônica chamando. E a tela do celular dela brilhava no escuro com um nome piscando.
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