Ping.
Shiro Hanayatsu abriu um olho.
Ping.
A torneira da pia pingava. Fazia três dias. Ele sabia que tinha que arrumar, mas o aluguel tinha comido o orçamento do mês, e o dinheiro que sobrou foi pra comprar um pacote de miojo e uma garrafa de água.
Ping.
— Que saco — ele murmurou, sem levantar.
O teto do apartamento era cinza, manchado de umidade no canto direito. O ventilador não girava porque a conta de luz tava vencida e ele só pagaria na semana que vem. O celular vibrou no criado-mudo.
Ele pegou. Mensagem da mãe.
"Filho, vi no jornal que tá fazendo muito frio aí. Tá se agasalhando? Tá comendo direito?"
Shiro olhou para o próprio corpo. Camiseta velha da escola, calça de moletom com um furo no joelho. O ar gelado do apartamento batia na pele.
Ele digitou: "Tô de boa, mãe. Comi ontem um yakisoba top."
Mentira. Ele comeu arroz com ovo. Três dias seguidos.
Guardou o celular e se arrastou para fora da cama. O chão rangeu. O apartamento era minúsculo – quatro tatames e um banheiro que cabia uma pessoa se ela não respirasse fundo. Mas era dele. Pelo menos até o próximo vencimento.
— Vinte e dois de outubro — ele disse em voz alta, olhando para o calendário na parede. — Prova de cálculo na sexta. Plantão na loja hoje às quatro. Vida de merda, mas é a minha.
Ele riu sem graça.
Não era trágico. Não era um drama shakespeariano. Era só... cansativo.
Ele pegou o jaleco da loja de conveniência, prendeu o cabelo preto bagunçado com um elástico e saiu. A rua estava cheia. Tóquio nunca dormia, mas Tóquio também não ligava pra ele.
No trabalho, uma velha reclamou que o preço do leite tinha subido cinco ienes. Um moleque derrubou uma prateleira de salgadinhos. O gerente gritou com ele porque a máquina de café entupiu.
Shiro só sorriu, acenou, limpou, empilhou. O sorriso era automático. Ele já nem sentia mais.
Quando o turno acabou, eram 23:47. O mesmo horário de sempre.
Ele voltou pro apartamento. Aqueceu água. Abriu o pacote de miojo. Sentou no chão, de costas pra cama desarrumada, e encarou a parede.
"É isso aí", ele pensou, enfiando o garfo no macarrão. "Vou viver assim até os sessenta, morrer de infarto no trabalho, e vão me enterrar com um jaleco da loja."
Ele riu de novo. Sozinho.
Depois de comer, jogou o copo descartável fora, apagou a luz e se jogou na cama.
O travesseiro estava murcho. O cobertor era fino. O frio entrava pela fresta da janela.
Mas ele estava tão cansado que os olhos já pesavam.
"Amanhã é só mais um dia", ele pensou, fechando os olhos. "Só quero dormir. Deixa eu dormir."
Ele sentiu o sono chegando. Aquele alívio gostoso de quem finalmente vai apagar.
Aí o universo resolveu cagar na cabeça dele.
Não foi gradual. Não foi um clarão poético.
Foi um puxão.
Como se alguém tivesse enfiado um gancho no meio do peito dele e dado um puxão seco. A cama sumiu. O teto sumiu. O ar gelado do apartamento virou um vácuo absoluto.
Shiro tentou gritar. Nada saiu.
A luz veio depois. Não era uma luz normal. Era aquela luz que dói na retina mesmo com os olhos fechados. O corpo dele girou, virou, caiu, subiu – ele não sabia mais qual era o chão.
A única coisa que passou na cabeça dele, em meio àquele caos de cores e sons abafados, foi:
"EU SÓ QUERIA DORMIR, SEU UNIVERSO DE MERDA!"
Depois, o impacto.
Pedra. Fria. Dura. Irregular.
Shiro sentiu o ombro direito bater primeiro, depois o quadril. A dor foi seca, direta, como cair de uma escada. Ele ficou imóvel por um segundo, só respirando, sentindo o gosto de sangue na boca – ele tinha mordido a própria língua.
— Aaaai... — um gemido saiu antes que ele pudesse controlar.
Ele forçou os olhos a abrir.
A visão turvou por um momento. Depois, focou.
Não era o apartamento. Não era Tóquio. Não era a porra do teto manchado de umidade.
Era uma sala ampla, de pedra escura, com colunas que subiam até sumir na penumbra. Velas flutuavam — flutuavam — em círculos no ar, e no chão, sob ele, o símbolo da Igreja da Origem Sagrada brilhava fraco em um círculo dourado, como se tivesse acabado de ser ativado.
— O quê... — a voz dele saiu falhando.
Ele se forçou a levantar. As pernas tremiam.
Não tava sozinho.
Três pessoas estavam caídas perto dele, também se mexendo, gemendo, tentando entender o que tinha acontecido.
Um cara de cabelo preto, postura rígida, já tava de pé mesmo com o rosto sujo de poeira. Ele olhou ao redor como se procurasse algo pra lutar.
— Isso não é um acidente — o cara falou, com uma voz séria, de quem já tava processando a merda mais rápido que os outros.
Outro, de cabelo claro e magrelo, tava de quatro, tossindo.
— Que porra foi essa?! — ele berrou. — Eu tava na minha cama, caralho! Onde eu tô?!
A terceira era uma garota de cabelo escuro, longos, olhos que já percorriam a sala com uma calma estranha. Não era calma de quem aceitou. Era calma de quem está analisando cada saída, cada sombra, cada movimento.
Shiro tentou falar. A garganta estava seca.
— Vocês também...? — ele conseguiu engasgar.
O cara de cabelo preto olhou pra ele. Fez um aceno curto.
— Eu sou Ren Kuroha — ele disse, com a voz firme, mas com os olhos um pouco arregalados. — Eu tava na biblioteca da faculdade. Cai no chão. Acordei aqui.
— Riku — o magrelo disse, levantando-se com uma tontura visível. — Riku Hayama. E eu não pedi pra vir pra lugar nenhum, tá?
A garota falou por último, mais baixo.
— Aoi Mizuhara. — Ela olhou para o círculo dourado no chão. — Isso é uma invocação.
Shiro piscou.
— Uma... o quê?
Antes que alguém pudesse responder, passos ecoaram.
Várias figuras emergiram das sombras entre as colunas. Homens e mulheres de túnicas brancas e douradas, com cajados que brilhavam com a mesma luz do círculo. No centro, um homem alto, de barba curta e olhos que pareciam medir cada um dos quatro como quem avalia gado.
O homem sorriu.
Mas não era um sorriso amigável. Era um sorriso profissional. Daqueles que técnico de loja dá quando vai te empurrar um produto que você não precisa.
— Bem-vindos, heróis — a voz dele ecoou, grave e impostada. — O Reino de Asteria os saúda. Vocês foram convocados para salvar nosso mundo.
Silêncio.
Shiro olhou pro cara. Olhou pros outros três. Olhou pro chão. Olhou pra própria mão – a mesma que tinha segurado o pacote de miojo duas horas atrás.
Ele abriu a boca.
A primeira coisa que saiu foi:
— Eu tenho prova de cálculo na sexta.
Os sacerdotes trocaram olhares. O homem da túnica dourada manteve o sorriso, mas uma sobrancelha se mexeu um milímetro.
— Seu mundo antigo não importa mais, jovem — ele disse. — Asteria precisa de vocês. O Deus Demônio Azaraty...
— Pera, pera, pera — Riku cortou, levantando a mão. — Deus Demônio? Que porra é essa? Eu tô num RPG agora? Eu nem gosto de fantasia, cara.
Ren franziu a testa.
— O senhor pode explicar direito? — a voz dele era educada, mas o olhar já tava medindo o homem. — Como fomos parar aqui? Isso foi intencional?
— Foi um ritual — Aoi respondeu antes do sacerdote. Ela tava com os braços cruzados, olhando para as velas flutuantes. — Eu li sobre isso uma vez. Invocação de heróis. Mas isso é lenda. Não devia ser real.
— E, no entanto, é — o sacerdote disse, estendendo a mão. — Venham. Sua avaliação será realizada. Depois, tudo ficará mais claro.
Shiro não se mexeu.
A mente tava travada. Ele ainda sentia o gosto de sangue na língua. A dor no ombro. O frio da pedra.
"Eu só queria dormir", ele repetiu pra si mesmo, quase rindo de nervoso. "Eu tive um dia de merda, comi miojo, menti pra minha mãe, e o UNIVERSO me puxa pra SALVAR UM REINO? Qual é a próxima? Vou ter que matar um dragão com uma colher?"
Mas ele andou. Os pés se moveram sozinhos.
Atrás dos outros três. Em direção às portas que se abriram.
A luz do sol entrou. Mas não era o sol dele. Era um sol mais dourado, mais quente, que batia em prédios de pedra branca e torres que pareciam desafiar a gravidade.
Shiro parou por um segundo. Olhou para o horizonte.
Não via prédios de Tóquio. Via castelos. Via bandeiras. Via muralhas.
— Isso é real — ele sussurrou.
O coração acelerou. Não de empolgação.
De medo.
— Eu quero voltar — ele disse, em voz alta, virando-se para o sacerdote. — Eu não pedi isso. Vocês podem me mandar de volta?
O homem da túnica dourada parou. Olhou pra ele com aquele sorriso ainda colado no rosto.
— A invocação é irreversível, jovem. Sinto muito.
Shiro sentiu o chão sumir de novo. Mas dessa vez, não era mágica. Era desespero.
"Irreversível?"
Ele olhou para os outros três. Ren já caminhava com passos firmes. Riku xingava baixinho. Aoi estava em silêncio, mas o olhar dela...
O olhar dela era o pior. Era o olhar de quem já sabia que não tinha jeito.
Shiro respirou fundo. O ar era diferente. Cheirava a incenso e grama molhada.
Ele deu um passo.
Depois outro.
E enquanto caminhava para dentro do complexo, onde um cristal brilhante o aguardava, ele só conseguiu pensar uma coisa:
"A prova de cálculo... o aluguel... a torneira pingando..."
Ele riu. Um riso baixo, amargo, quase inaudível.
"E eu achando que sexta-feira ia ser o pior dia da minha semana."
As portas de ferro se fecharam atrás dele com um baque seco.
O futuro tinha acabado de começar. E ele não tava pronto nem um pouco.
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— Fim do Capítulo 1 —