A sala do cristal era maior do que Shiro imaginava.
Não que ele tivesse imaginado algo, pra ser sincero. Até vinte minutos atrás, ele nem sabia que cristais mágicos existiam. Mas agora estava ali, olhando para um bloco de pedra brilhante do tamanho de uma geladeira, cercado por sacerdotes de túnicas brancas que pareciam mais animados do que deveriam.
— Por favor, aproximem-se um de cada vez — o sacerdote principal disse, com aquele sorriso profissional ainda colado no rosto. — O Cristal de Avaliação Astral revelará suas habilidades, seu nível e seu potencial.
Shiro olhou para os outros três.
Ren já estava na frente, com a postura ereta, os olhos fixos no cristal como se estivesse encarando um inimigo.
— Eu vou primeiro — ele disse, sem esperar resposta.
Colocou a mão no cristal.
A luz veio imediata. Azul, intensa, vibrante. Números e letras começaram a flutuar dentro da pedra como se estivessem sendo impressos em fumaça líquida.
Os sacerdotes sussurraram.
— Nome: Ren Kuroha... nível 327... Rank S...
— Classe: Espadachim... Afinidade: Vento (Alta)... Luz (Média)...
— Habilidade única detectada: [Espada Absoluta]...
— Potencial: S...
Shiro piscou.
— Nível 327? — ele murmurou, sem acreditar.
O sacerdote sorriu, desta vez com um brilho genuíno nos olhos.
— Excelente, excelente! Um dos maiores níveis já registrados em um invocado. O reino está em boas mãos.
Ren tirou a mão do cristal e deu um passo ao lado, sem mudar a expressão. Não parecia surpreso. Parecia que já esperava algo assim.
— Eu vou — Riku disse, empurrando o caminho.
Colocou a mão. A luz foi amarela, com faíscas elétricas dançando dentro do cristal.
— Nome: Riku Hayama... nível 318... Rank S...
— Classe: Lanceiro... Afinidade: Relâmpago (Muito Alta)... Fogo (Média)...
— Habilidade única: [Lança Relâmpago]...
— Potencial: S...
Riku deu um sorriso largo.
— Tá vendo? — ele disse, virando-se para os outros. — Isso é que é herói.
Shiro forçou um sorriso. Não convenceu ninguém.
Aoi foi a próxima. Ela andou com calma, como se estivesse entrando em uma sala de aula, e colocou a mão no cristal com a mesma naturalidade.
A luz foi branca, suave, quase acolhedora.
— Nome: Aoi Mizuhara... nível 341... Rank S...
— Classe: Maga de Suporte... Afinidade: Luz (Muito Alta)... Água (Alta)...
— Habilidade única: [Círculo de Harmonia]...
— Potencial: S...
Um dos sacerdotes soltou um suspiro.
— Nível 341... é a mais alta dos quatro...
— Quatro? — Shiro repetiu, sentindo o estômago apertar. — Vocês querem dizer...
O sacerdote principal virou-se para ele. O sorriso ainda estava lá, mas agora parecia um pouco mais forçado.
— Sim, jovem. Sua vez.
Shiro olhou para o cristal. Para os outros três. Para os sacerdotes. Para o rei Lucien, que observava de um trono elevado ao fundo, e para a rainha Elena, que tinha um olhar diferente dos outros — algo mais próximo de curiosidade genuína.
"É agora", ele pensou. "Ou eu tenho algo escondido ou vou passar vergonha."
Ele deu um passo à frente. A mão tremia levemente enquanto ele a estendia.
O cristal estava frio. Liso. Parecia mais uma pedra de gelo do que uma coisa mágica.
Ele esperou.
Nada.
— Isso é... estranho — um dos sacerdotes murmurou.
O cristal começou a brilhar. Fracamente. Uns piscos. Números borrados, ilegíveis. Depois:
ERRO DE LEITURA
Silêncio.
Shiro olhou para sua própria mão. O cristal piscou de novo.
INCOMPATIBILIDADE DETECTADA
— Como assim incompatibilidade? — Shiro perguntou, a voz saindo mais alta do que ele queria.
O sacerdote principal franziu a testa. Aproximou-se, tocando o cristal com seus próprios dedos, como se pudesse consertar o problema.
— O cristal não pode ler você — ele disse, lentamente, como se estivesse processando o absurdo. — Isso nunca aconteceu.
— Nunca? — Shiro repetiu. — Como assim nunca?
— O Cristal de Avaliação Astral é infalível — outro sacerdote disse, a voz carregada de confusão. — Ele sempre avalia. Sempre. Desde que a Igreja foi fundada...
— Mas ele não me avaliou — Shiro cortou. — Ele deu erro. Isso significa o quê? Que eu não existo? Que sou um fantasma?
Ren deu um passo à frente.
— Talvez seja um problema técnico — ele disse, com a voz calculista. — Pode haver algo errado com o cristal.
— O cristal está perfeito — o sacerdote principal respondeu, com um toque de defensividade. — Acabamos de avaliar três pessoas com resultados impecáveis. O erro está...
Ele parou. Olhou para Shiro. Um olhar de medição, de reavaliação.
— ... no invocado.
Riku soltou uma risada nervosa.
— Então o cara é um erro? Tipo, ele não devia estar aqui?
Aoi não disse nada. Mas os olhos dela estavam fixos em Shiro, como se estivesse tentando ler algo invisível no rosto dele.
Shiro sentiu o sangue subir. Não de raiva. De vergonha. De desespero.
— Mas eu fui invocado — ele disse, apontando para o círculo no chão onde tinham acordado. — Eu cheguei aqui junto com eles. Eu passei pela mesma coisa. Por que o cristal não funciona em mim?
Ninguém respondeu.
O rei Lucien se levantou de seu trono. O movimento foi lento, deliberado, e todo mundo se virou para ele.
O rei tinha uma expressão neutra, mas os olhos percorreram Shiro com um interesse que não estava presente antes.
— A avaliação está encerrada — ele disse, com a voz calma, mas firme. — Os três heróis serão conduzidos aos seus aposentos. O quarto invocado... ficará sob custódia da Igreja até que possamos entender o que aconteceu.
Shiro sentiu o chão tremer sob os pés.
— Custódia? — ele disse. — Eu não fiz nada de errado!
A rainha Elena tocou o braço do marido.
— Lucien... — ela sussurrou, tão baixo que quase ninguém ouviu. Mas Shiro ouviu.
O rei olhou para ela por um momento, e algo nos olhos dele suavizou. Mas sua voz permaneceu a mesma.
— Não estou punindo você, jovem. Estou tentando entender. O cristal nunca falhou. Isso significa que você não é comum. E o incomum, neste mundo, é perigoso. Para você e para todos ao seu redor.
Shiro sentiu o nó na garganta apertar.
"Perigoso? Eu mal consigo pagar o aluguel e agora sou perigoso?"
Mas ele não disse isso em voz alta.
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Três horas depois, Shiro estava em uma sala de pedra, sem janelas, com uma cama dura e uma jarra de água.
Nenhum guarda. Nenhuma corrente. Mas a porta estava trancada.
Ele estava sozinho.
"Isso é o que eles chamam de custódia?", ele pensou, deitado na cama, olhando para o teto de pedra. "Parece mais uma cela para um monstro."
Ele riu sem graça.
"E eles chamaram os outros de heróis. Eu sou o erro. O fracasso. O cara que o cristal não quis ler."
Ele fechou os olhos, mas o sono não vinha. A mente estava girando rápido demais.
"E a prova de cálculo...", ele lembrou, e a vontade de rir e chorar ao mesmo tempo era tão forte que ele não sabia mais o que sentia.
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No dia seguinte, um sacerdote diferente apareceu. Mais jovem, menos experiente, com uma expressão de pena mal disfarçada.
— O rei decidiu — ele disse. — Você será enviado para uma região afastada, perto da Floresta de Veyr. Lá você ficará sob proteção da Guilda dos Aventureiros enquanto a Igreja investiga seu caso.
Shiro sentou-se na cama.
— Proteção? — ele repetiu, com uma ironia que nem ele mesmo entendeu. — Ou descarte?
O sacerdote não respondeu.
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Duas horas depois, Shiro estava montado em um cavalo, com uma bolsa de suprimentos nas costas e uma espada básica na cintura.
Ao lado dele, dois cavaleiros. O mais velho, de cabelo grisalho e olhar cansado, se apresentou como Marcus Veyne. O mais jovem, de rosto marcado por cicatrizes e silêncio, era Daren Holt.
— Não se preocupe — Marcus disse, com uma voz que tentava ser reconfortante, mas não conseguia esconder a impaciência. — É só uma viagem curta. Você vai ficar bem.
Shiro olhou para a estrada à frente. A cidade de Astralis ficava para trás, e à frente, uma imensa mancha verde se estendia até o horizonte.
A Floresta de Veyr.
"E eles acham que isso é proteção", ele pensou, sentindo o vento frio batendo no rosto.
O cavalo trotou. A floresta se aproximava.
E Shiro não sabia se ia sobreviver a ela.
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— Fim do Capítulo 2 —