A Floresta de Veyr era exatamente o que Shiro esperava de um lugar chamado "Floresta de Veyr".
Escura. Fria. Cheia de sons que ele não conseguia identificar.
— Vamos parar aqui — Marcus disse, puxando as rédeas do cavalo. — A partir daqui, você segue a pé.
Shiro olhou para a clareira à frente. Pequena. Cercada por árvores altas cujos galhos pareciam dedos ossudos apontando para o céu.
— A pé? — ele repetiu. — Mas vocês disseram que iam me deixar na cidade.
— A cidade fica a dois dias de caminhada — Marcus respondeu, com a voz cansada de quem já explicou aquilo três vezes. — Mas a estrada principal está bloqueada por uma queda de terra. O caminho alternativo passa pela floresta. E nós não vamos entrar nela.
— Por quê?
Daren, o mais jovem, finalmente falou. A voz era baixa, rouca, como se não estivesse acostumado a usar palavras.
— Porque é perigoso. Monstros. Criaturas. Coisas que a gente não quer encontrar.
Shiro olhou para a escuridão entre as árvores.
— E vocês vão me largar aqui sozinho.
— Não estamos te largando — Marcus disse, com um tom que tentava ser gentil, mas falhava miseravelmente. — Estamos te colocando em um local onde você pode se estabelecer. A Guilda de Erenfall vai te receber. Só precisa chegar lá.
— E como eu chego lá?
Marcus apontou para uma trilha estreita que sumia entre as árvores.
— Siga esse caminho. Dois dias. Se não encontrar a cidade até lá, volte. Mas não se perca.
Shiro sentiu um frio na barriga.
— E se eu encontrar monstros?
O silêncio foi a resposta.
Marcus desmontou e entregou a ele uma mochila de couro, uma espada curta em uma bainha surrada, e um pequeno saco com moedas.
— Tem comida, água, uma poção de cura básica e uma faca. Use com sabedoria.
Shiro pegou os itens, sentindo o peso nas mãos. A espada era leve. Leve demais. Parecia mais um brinquedo do que uma arma.
— E vocês? — ele perguntou. — Vão voltar?
— Vamos — Marcus disse, já montando de volta. — Nossa missão era te trazer até aqui. Está cumprida.
Sem mais palavras, os dois cavaleiros viraram os cavalos e partiram.
Shiro ficou parado, ouvindo o som dos cascos diminuindo até sumir.
— É... — ele murmurou, olhando para a floresta. — Isso é uma história de herói, né?
Nenhuma resposta.
Ele respirou fundo e deu o primeiro passo.
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A primeira hora foi tranquila.
Caminho. Galhos. Folhas. Uma ou outra ave que ele não reconhecia, mas que parecia inofensiva.
A segunda hora, o silêncio começou a pesar.
— Não tem ninguém aqui — ele disse em voz alta, só para ouvir a própria voz. — Literalmente ninguém. Sou eu e as árvores. Eu contra o ecossistema.
O humor ajudou. Mas não por muito tempo.
O sol começou a se pôr, e a floresta ficou mais escura, mais alta, mais apertada.
Ele encontrou um local aberto – um pequeno espaço entre as raízes de uma árvore gigante – e decidiu montar abrigo.
— Galhos — ele disse, recolhendo o que encontrava. — Folhas. Pedras. Isso é uma casa? Não. Isso é um acampamento de mendigo.
Mas funcionou.
Ele usou a faca para cortar galhos finos, improvisou uma estrutura com as pedras, e cobriu com folhas secas. Não era confortável, mas era alguma coisa.
A comida era um pão duro e um pedaço de carne seca. A água, um cantil que ele já estava racionando.
Enquanto mastigava, os olhos vagaram pela escuridão da floresta.
— É só uma floresta — ele sussurrou. — Tem floresta no Japão. Isso não é diferente.
Mas era diferente. O ar era mais pesado. O silêncio era mais profundo. E os sons que vinham de longe não eram sons que ele reconhecia.
Ele dormiu mal. Acordou a cada barulho. A cada galho que estalava.
Na manhã seguinte, o cansaço já estava entranhado nos ossos.
— Segundo dia — ele disse, levantando-se com um gemido. — Se eu chegar vivo em Erenfall, vou pedir um café. Mesmo que não exista café aqui.
Ele pegou a mochila, a espada, e continuou.
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O caminho parecia não ter fim. Trilhava por entre árvores, saltava sobre raízes, desviava de arbustos espinhosos.
E foi nesse ritmo, exausto e distraído, que ele quase não viu o movimento na lateral.
Quase.
Um estalo de galho. Uma sombra entre as árvores. Um par de olhos amarelos brilhando na penumbra.
Shiro congelou.
— Não — ele sussurrou. — Não, não, não...
O animal saiu da escuridão.
Era um lobo. Mas não como os que ele tinha visto em documentários. Era maior, mais magro, com pelos grisalhos e olhos que não piscavam.
E não estava sozinho.
Um segundo lobo surgiu atrás dele. E um terceiro, mais ao fundo, observando.
Shiro sentiu o coração disparar. A mão foi para a espada, mas os dedos tremiam tanto que ele mal conseguiu puxá-la da bainha.
— Vocês não querem me comer — ele disse, com uma voz que não era nem um pouco convincente. — Eu sou magro. Tenho pouca carne. E tô com gosto de miojo. Não é apetitoso.
Os lobos não riram. Não hesitaram.
O primeiro atacou.
O bicho veio direto, a boca aberta, os dentes prontos para rasgar. Shiro levantou a espada com um reflexo que ele não sabia que tinha e desviou o corpo para o lado.
A lâmina raspou no ombro do lobo, mas não penetrou.
O segundo atacou enquanto ele ainda estava desequilibrado.
Dessa vez, a mordida pegou. Não a carne – Shiro jogou o braço esquerdo para proteger o rosto, e os dentes do lobo afundaram no antebraço.
A dor foi instantânea, quente, terrível.
— AAAAARGH! — ele gritou, batendo com a espada na cabeça do bicho.
O lobo recuou, mas o sangue já escorria pelo braço de Shiro.
Ele caiu de joelhos. Os três lobos agora cercavam ele, avançando lentamente, como saboreando a vitória.
Shiro sentiu o braço queimar. A visão turvar.
"É assim que morre", ele pensou. "Comido por lobos em um mundo que eu nem conheço."
Mas então, algo mudou.
A dor no braço começou a se transformar. Não em alívio – em calor. Um calor estranho, que subia do ferimento para o peito, para a cabeça.
Os olhos de Shiro se arregalaram.
— O que...?
A palma da mão esquerda começou a brilhar. Um brilho fraco, vermelho, como brasa viva.
O lobo à frente hesitou. O olho amarelo se contraiu.
E Shiro, sem pensar, levantou a mão.
Uma chama explodiu.
Não foi grande. Não foi bonita. Foi um jato desajeitado de fogo que saiu da palma e acertou o lobo em cheio, arrancando um uivo agudo de dor.
O bicho recuou, o pelo queimado, o cheiro de carne chamuscada.
O segundo e o terceiro hesitaram.
Shiro não deu tempo para pensarem melhor.
Ele se levantou, cambaleando, a mão ainda brilhando, o sangue escorrendo pelo braço, os dentes rangendo.
— VÃO EMBORA! — ele gritou, com uma voz que não parecia ser dele.
Os lobos se entreolharam. O líder, ainda com o pelo queimado, deu um passo para trás.
Depois outro.
E sumiram na floresta.
Shiro ficou em pé por um momento, o corpo tremendo, a mão ainda quente, a respiração curta.
Depois, caiu de joelhos.
— Que... que porra foi essa?
Ele olhou para a própria mão. A chama tinha sumido, mas a pele ainda estava quente, como se tivesse segurando uma xícara de café por tempo demais.
O braço sangrava. A dor voltou com força total.
Ele sentiu a cabeça girar.
"Não posso desmaiar", ele pensou. "Se eu desmaiar, eles voltam."
Ele se forçou a levantar, a andar, a se arrastar até uma árvore mais próxima, onde se sentou.
Com a mão trêmula, ele abriu a mochila, encontrou a poção de cura que Marcus tinha dado, e despejou metade no ferimento.
A dor diminuiu. Não sumiu, mas ficou suportável.
Ele encostou a cabeça no tronco da árvore, fechou os olhos, e respirou.
O coração ainda batia forte. O corpo tremia.
Mas ele estava vivo.
E, no meio do silêncio que se seguiu, uma coisa inesperada aconteceu.
Uma tela se abriu na frente dele.
Não era um papel. Não era uma visão. Era uma janela translúcida, flutuando no ar, com letras brilhantes que doíam um pouco nos olhos.
SISTEMA DE ORIGEM
Sincronização: 1%
O usuário foi selecionado como [Salvador - Rank SSS].
Shiro arregalou os olhos.
— O... o quê?
O texto continuou.
Primeira conexão estabelecida.
Funções básicas desbloqueadas:
— STATUS
— ANÁLISE
— INVENTÁRIO
— CONFIGURAÇÕES
Deseja visualizar o STATUS?
Shiro ficou parado, olhando para a tela.
O corpo doía. O braço estava machucado. A floresta ainda estava cheia de perigos.
Mas aquele texto estava ali. Não era imaginação.
Ele hesitou.
Depois, com uma voz falha, sussurrou:
— Sim...
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— Fim do Capítulo 3 —