Estou no meio de um lugar com muito verde. Enquanto ando, percebo que é um parque, mas não se parece com nenhum que já visitei antes. Olho em volta e vejo Evy sentada em um banco.
- Oi, Evy.
- Por que você está me deixando?
Ela pergunta sem olhar para mim. Só consigo responder:
- Como é?
Na mesma hora, alguém grita:
- Felipe!
Vejo Helena vindo na minha direção. Aceno e grito de volta:
- Tô aqui!
Quando ela se aproxima, percebo que há uma faca na mão dela. Antes que eu consiga reagir, Evy fica na minha frente e, de alguma forma, ela também está com uma faca. Sem entender o que está acontecendo, vejo as duas se esfaquearem ao mesmo tempo.
...........
- Não…
Acordo sem entender onde estou. Aos poucos, minha visão se ajusta e percebo a luz de Nova York entrando pelas janelas do meu quarto. Olho para o despertador: 02:06.
Decido ir até a cozinha beber um copo de água. Do corredor, vejo alguém sentado à mesa.
- Oi, filho.
- Oi, Pablo. Chegou que horas hoje?
- Umas 01:30, mais ou menos.
A voz dele está pesada, claramente cansada.
- E aí, como anda o mundo chato da bolsa de valores?
Pergunto mais por costume do que por interesse.
- Bom, o dólar teve um crescimento de 0,32%.
Os olhos dele até brilham.
- Menos mal…
Já estou voltando para o quarto quando ele me chama:
- Ah… filho.
- Oi?
- Para de me chamar de Pablo.
Percebo que aquilo importa para ele, então respondo:
- Vou tentar, pai.
Ele sorri e faz um sinal de positivo.
- Não esquece que a gente precisa conversar.
- Ok, Pablo.
Ele solta uma risada fraca.
Volto para a cama e consigo dormir de novo, dessa vez sem sonhos.
O despertador toca.
(Por que eu sou viciado em horas certas?)
Me arrumo, tomo café e sigo para o trabalho. Depois de algumas horas, encontro Clara organizando documentos.
- Oi, Clara. Bom dia, tudo bem?
- Oi, Fê. Tudo.
Ela alonga os dedos.
- E o Dominique?
- Está bem, mas a babá disse que ele anda dando trabalho.
- Ele só tem quatro anos, é normal.
Ela me olha torto.
- Você já teve filho?
- Não.
- Então nem vem dizer que é normal.
Depois dessa, fico sem resposta. Só solto um “tudo bem” automático.
- Tô brincando, relaxa.
Martha aparece bem na hora, quebrando o clima estranho. Percebo que Lara não veio.
- Martha, cadê a Lara?
- Deixei ela na casa dos avós essa semana.
Clara suspira.
- Lá se vai nossa felicidade.
Martha ri.
- Já olharam o saldo do banco?
- Não.
- Olhem que a felicidade aparece rapidinho.
- Que dia é hoje?
Pergunto.
- Dia 2.
Clara responde.
Agora entendi tudo.
A manhã passa sem muitas surpresas. Um bip avisa a hora. Vou direto ao banheiro e troco de roupa.
- Cara, o que está acontecendo com você hoje?
Jack pergunta, me avaliando.
- Como assim? Não entendi.
- Sei lá, você parece diferente.
Ele dá de ombros.
- E como eu vou saber?
Aponto para mim mesmo.
- Ficou com a Helena ontem?
Sabia que ele ia perguntar.
- Não, só levei ela para a casa.
Jack faz uma careta.
- Pensei que você ia dormir com ela.
- Cara, o pai dela tem uma loja de Harley. Certeza que criou muito bem a filha.
- Agora entendi.
Jack diz, rindo da minha situação.
- Por mim, seria a noite toda, mas com ela vou ter que gastar um tempo.
- Menos mal, já ia começar a te chamar de fraco.
Olho para ele, claramente incomodado.
- Você está todo engraçadinho hoje, né, seu filho da mãe?
Depois do almoço, chegamos à NYC. O pessoal já está esperando na entrada do prédio sul, porque hoje tem palestra.
- Oi, Evy.
- Oi, Fê.
Ela responde fria.
- Chris, traz um maçarico que achei um bloco de gelo.
Ela acaba rindo, mesmo ainda séria, e entramos no prédio.
- Gente, olha isso!
Stephen mostra algo no laptop.
- Hoje tem karaokê no East Village. Vamos, por favor!
- Steph, sua voz não ajuda muito no convite.
Chris provoca.
- Becca, me ajuda!
- Se for para passar vergonha, vamos todo mundo junto.
Becca decide.
- Falou tudo, amor.
Jack diz, beijando a testa dela.
- Sei não… tô com uma preguiça sabe...
Era apenas para fingir, mas acabo bocejando de verdade.
- Bora, Fê. Você não tem nada melhor para fazer mesmo.
Chris está certo.
- Posso chamar alguém?
- Claro, a Helena tem uma voz ótima.
Steph responde na hora.
- Tá tão óbvio assim?
- Quem mais séria?
Reviro os olhos.
Decido mandar mensagem para ela:
(Oi)
(Oi)
(Vai estar ocupada nessa noite?)
(Até agora n)
(Vamos a um karaokê quer ir?)
(N sei cantar mt bem)
(Sabe dublar)
(Acho q ss)
(Já e o suficiente)
(Vai ser que horas?)
Passo uma mensagem a Steph que já foi para a sala.
(Vai ser q hrs o karaokê?)
(As 20)
(Blz)
Respondo a Helena:
(As 20)
(Tá ok)
(Quer q eu passe aí quantas hrs)
(Pd ser as 19:30)
(Blz, até)
(Até)
Depois de algumas aulas, me sento em um banco perto da biblioteca.
- Aprender é cansativo.
Vejo uma professora com dificuldade, me levanto pra ajudar e percebo que é Anna.
- Felipe, obrigada por ajudar com os livros. Se não fosse você, eu não ia conseguir levar tudo até a sala.
- De nada, são só alguns livros.
- E o Pablo, como está?
Ela e meu pai saem de vez em quando.
- Trabalhando muito. Você sabe como é a Nasdaq.
Lembro a ela.
- É verdade.
Entramos na sala. Ainda tem alguém estudando lá dentro. Tento ver quem é, mas não consigo identificar.
- Obrigada de novo, Fê.
- Anna, você já é quase uma madrasta, tá tranquilo.
Digo mais baixo, para a pessoa não escutar, e logo me despeço.
Saindo da NYU, decido dar uma passada no Central Park. O começo da noite aqui é lindo. As árvores fazem um contraste bonito com a lua. Coloco meus fones de ouvido e caminho um pouco, enquanto aqueço a voz para mais tarde.
Às 19h, volto faminto e, no caminho, experimento um sub de frango grelhado. Em casa, pego meu smartphone, coloco os fones e me transporto para outra dimensão, navegando entre a loja da PlayStation, Xbox e, por último, a Steam.
Passo por mais de dez jogos diferentes nas três plataformas, mas nenhum me anima. Estou procurando algo novo, mas ultimamente todos parecem iguais. Acabo apelando para os clássicos da Nintendo, jogando SNES direto no celular mesmo.
Depois de passar uma fase do Bomberman, o despertador toca. Hora de me arrumar. Levo mais de cinco minutos para escolher uma roupa que não tenha usado recentemente, então decido ir de camisa preta sem estampa, jeans azul e meu clássico All Star preto.
Mando uma mensagem pra Helena. Não demora muito e ela avisa que está “quase pronta”. Decido ir mais devagar, porque aprendi com a Evy que “quase pronta” sempre significa atraso.
Chego na portaria, o síndico avisa que cheguei e espero um pouco. Logo Helena aparece usando um vestido florido rosa que a deixa bem fofa.
- Como eu estou?
- Parecendo uma boneca.
Ela sorri.
- Vamos?
Pergunto, e ela balança a cabeça.
- Sim.
..........
Chegando ao local que a Steph mandou a localização, parece inauguração, já que está cheio de gente.
Deve ser aqui.
Ligo pra Evy.
-Evy?
- Fê.
- Tô aqui fora.
- Tá, vou chamar a Steph.
- Ok.
Desligo.
- O que a Evy é pra você?
Helena pergunta, provavelmente só puxando assunto.
- Praticamente minha irmã.
- Praticamente?
Ela fica na dúvida.
- Isso porque ela não é.
- Mas por que tanta atenção com ela?
- Depois te explico. Oi, meninas.
Steph acena pra gente e seguimos na direção dela. O segurança libera nossa entrada. As cabines estão bem animadas, tanto que dá pra ouvir bem baixo alguém cantando Happy, do Pharrell Williams, completamente desafinado. Steph nos guia até a nossa mesa.
- Olha quem eu trouxe.
Aviso todo mundo.
- Oi, gente.
Helena diz, acenando.
- Oi, gata. Você está linda hoje.
Chris não perde tempo.
- Tá mesmo, né, Becca?
Steph confirma, olhando para ela.
- Vou pedir ajuda num look depois, viu.
- Você tá bem fofa.
Evy comenta, breve.
- Então… o que vocês aprontaram pra gente?
Pergunto, já sabendo que alguma coisa vinha.
- Vocês dois em um minuto.
Jack responde, com um copo de cerveja na mão.
- Qual música?
Pergunto, curioso.
- Uma de 2017.
Na hora, lembro de uma. Olho pra Evy e ela me dá um sorriso de canto, confirmando o pensamento. Estendo o braço e a gente faz o movimento com as mãos.
- Des-pa-ci-to, meu garoto.
Batemos uma mão na outra.
- Sua música favorita alguns anos atrás.
Chris comenta, olhando de lado.
- Não só minha.
Olho pra Evy.
- Está bom, fui eu que tive a ideia de vocês dois fazerem um dueto.
Ela confessa, levantando as mãos em rendição.
- Sabia que você ia fazer isso.
- Showtime.
Jack se levanta e me entrega o microfone.
Combinamos ali mesmo: eu cantaria a parte do Luis Fonsi e o Jack faria o Daddy Yankee.
............
Sí, sabes que ya llevo un rato mirándote
Tengo que bailar contigo hoy (DY)
Vi que tu mirada ya estaba llamándome
Muéstrame el camino que yo voy (Oh)
Tú, tú eres el imán y yo soy el metal
Me voy acercando y voy armando el plan
Solo con pensarlo se acelera el pulso (Oh yeah)
Ya, ya me está gustando más de lo normal
Todos mis sentidos van pidiendo más
Esto hay que tomarlo sin ningún apuro
Despacito
Quiero respirar tu cuello despacito
Deja que te diga cosas al oído
Para que te acuerdes si no estás conmigo
Despacito
Quiero desnudarte a besos despacito
Firmo en las paredes de tu laberinto
Y hacer de tu cuerpo todo un manuscrito (sube, sube, sube)
(Sube, sube)
............
Jack estava superanimado e sabia imitar o Yankee perfeitamente. Com isso, a gente pegou 98% e comemorou bastante.
Sentamos, e eu viro um copo de cerveja de uma vez.
- Vocês mandaram ver. Depois você não queria ter vindo, né, Fê?
Becca me acusa.
- Não tinha nada melhor para fazer... Outra coisa… Evellyn.
Chamo ela pelo nome, e ela olha para mim.
- Já planejei minha vingança.
- Lá vem… o que você vai pedir?
- Digamos que, na verdade, é um desafio para todas vocês.
As quatro me encaram ao mesmo tempo.
- Vingança, meninas. Vingança.
Jack completa, com uma cara maligna.
- Fala logo qual é a música.
Steph me sacode.
- Work From Home, do Fifth Harmony. Perfeita para as quatro.
Elas ficam de boca aberta. Até a Helena parece não acreditar. Becca se levanta na hora.
- Meninas, vamos acabar com eles.
- “Sim!”
Até a Helena entra de vez no grupo.
Tem literalmente quatro microfones disponíveis e, depois que elas pegam e escolhem a música, dá para perceber que vem show por aí.
.............
I ain’t worried ‘bout nothin’, I ain’t wearin’ na-nada
I’m sittin’ pretty, impatient, but I know you gotta
Put in them hours, I’ma make it harder
I’m sendin’ pic after picture, I’ma get you fired
I know you’re always on the night shift
But I can’t stand these nights alone (oh-oh)
And I don’t need no explanation
‘Cause, baby, you’re the boss at home
You don’t gotta go to work
Work, work, work, work, work, work
But you gotta put in work
Work, work, work, work, work, work
You don’t gotta go to work
Work, work, work, work, work, work
Let my body do the work
Work, work, work, work, work, work
We can work from home, oh-oh, oh-oh
We can work from home, oh-oh, oh-oh
..............
No final, ficamos de boca aberta. Todas elas cantam muito bem. Até a Steph, que normalmente desafina bastante, mandou perfeitamente.
- E aí, o que acharam?
Becca pergunta, rindo.
- Realmente, Jack… levamos uma surra.
Digo, e ele concorda com a cabeça.
- Steph, você andou treinando a voz?
Chris pergunta.
- Deu para perceber?
Ela ri, como se não fosse nada.
- Agora faz sentido o velho reclamar de você às vezes.
- Helena, você arrasou. Não acreditei quando você se soltou no refrão.
Ela me responde, toda empolgada:
- Tem muita coisa que você ainda não sabe.
A frase vem carregada de dúvida.
Depois de mais algumas músicas aleatórias, entre vergonhas, duetos e zoeiras, as bebidas começam a pesar.
- Tô indo no banheiro.
Evy se levanta.
- Vou com você.
Helena se levanta também, e Evy não diz nada.
- Chris, chegou sua hora da vergonha máxima. Todo mundo já passou por isso, menos você, que ficou aí sentado.
Becca diz, já procurando uma música, enquanto Steph sussurra algo no ouvido dela.
- Relaxa, é uma que você gosta: Loyal, do Chris Brown.
Chris fica incrédulo.
- Só vocês mesmo.
Comento, e Steph completa:
- Ele sabe a letra de cor e a coreografia.
- Vou detonar, fiquem olhando. Só esperem as duas voltarem.
Chris fala confiante. Canto uma música do Alan Walker e Evy volta, claramente irritada, com Helena logo atrás.
- Alguém me leva para casa, por favor?
- Agora?
Jack pergunta.
- Agora.
- Aconteceu alguma coisa entre vocês?
- “Não”.
As duas respondem ao mesmo tempo.
- Está… Evy, deixa que eu te le...
- Não, Fê! Você não!
Faço aquela cara de o que foi que eu fiz?
- Jack, me dá a chave. Deixa que eu a levo.
Becca pede, já se levantando. Jack entrega a chave.
- Beijos, gente.
Como Evy já saiu na frente, tento acompanhar a Becca.
- Tenta descobrir o que houve, por favor.
Ela responde, irritada:
- Eu já sei. Só você que não percebe.
Fico parado no corredor, sem entender nada.
Volto para a cabine. Chris já está cantando Loyal.
.............
... Why give a bitch na inch when she’d rather have nine?
You know how the game goes, she be mine by half time
I’m the shit, oh
Nigga, that’s that nerve
You all about her, and she all about hers
Birdman Junior in this bitch, no flamingos
And I done did everything, but trust these hoes
(CB fuck with me!)
When a rich nigga want ya
And your nigga can’t do nothing for ya
Oh, these hoes ain’t loyal
Woah, these hoes ain’t loyal
Yeah-yeah, let me see
............
Chris faz um cover perfeito do Chris Brown.
- Não me admira ele se chamar Chris.
Helena comenta, e a gente cai na gargalhada.
- Bom, já que eu fui o último do grupo a passar vergonha, vamos nessa?
Saímos e ainda ficamos resenhando um tempo em frente ao lugar. Olho para o relógio: 00:56 da manhã. O tempo passa rápido demais.
- Ei, Chris, você pode me dar uma carona? A Becca me ligou e disse que vai passar a noite na casa da Evy.
- Nossa, aconteceu alguma coisa entre vocês?
Chris pergunta, olhando pra Helena.
- Já falei que não aconteceu nada.
Helena sai andando na frente até a moto, coloca o capacete e fica me esperando.
- Fê, você tomou alguma coisa?
Jack pergunta, preocupado.
- Tomei, mas foi só aquele gole quando a gente desceu do palco.
Começo a imitar um bêbado.
- Então tá tranquilo, pode ir.
Chris diz, entrando no carro.
- Até amanhã.
Helena acena, se despedindo.
- Até mais tarde, você quis dizer.
Steph fala, meio chateada. Dá para perceber que ela sabe que rolou alguma coisa.
- Não, se eu quiser dormir depois do trabalho.
Respondo sorrindo, e vejo que aos poucos ela relaxa.
Dou a partida e levo Helena para casa. Paro na portaria e ela me entrega o capacete.
- Você não vai mesmo me dizer o que aconteceu?
Pergunto, mas ela fecha a cara.
- Tchau, Fê.
- Tchau.
Ela apenas se vira e entra no prédio.
Chego em casa morto. Pablo ainda está no sofá.
- Pablo… pai, você ain
da está acordado?
Sem resposta. Dou a volta no sofá e vejo que ele dormiu. Tiro o MacBook do colo dele, pego um cobertor e o cubro.
Troco de roupa e me deito, pensando no que a Becca me disse:
(Só você que não percebe.)
Fico olhando o celular por alguns minutos até o sono chegar. Mesmo assim, uma frase não sai da minha cabeça:
Por que você está me deixando?