
Alexandre terminava de explicar os detalhes, enquanto Sanstone ouvia atentamente, absorvendo cada palavra.
— Entendido. Esse será o plano — concordou ela.
Sem mais delongas, ambos se dirigiram aos seus respectivos dormitórios.
(No quarto do QG de Sanstone)
O quarto era espartano: pequeno, com uma cama de solteiro, um armário comum, uma cômoda e uma mesa. As paredes de pedra com vigas de madeira expostas denunciavam a "economia de gastos" da Academia; todos os quartos seguiam aquele padrão rústico.
Sanstone trancou a pesada porta de ferro. Com um suspiro de alívio, começou a desatar as correias de sua armadura pesada, retirando-a peça por peça, seguida pela cota de malha, até restar apenas o corpo marcado pelos treinos. Ela vestiu o pijama do exército — que nada mais era do que um tecido fino e largo — e resmungou para si mesma, sentindo-se estranhamente exposta:
— Pareço tão frágil assim sem o aço?
Ao deitar na cama, seus pensamentos voltaram para a conversa com Alexandre. "Não conte a ninguém sobre o plano," ele disse. "O que você pretende fazer, Alexandre?"
O silêncio da noite foi interrompido. Graças à sua audição aguçada, ela captou sons vindos de longe... gemidos abafados e constantes, inconfundivelmente de Laura. Sanstone franziu a testa, cobrindo a cabeça com o travesseiro, incapaz de dormir.
— Laura... você devia saber se controlar — sussurrou ela, irritada e corada. — Aposto que não sou a única a ouvir isso, que vergonha.
Em seu próprio quarto, Alexandre estava deitado, encarando o teto. Ele também ouvia sons distantes. Franzindo a testa, pensou:
— Pelo jeito, o Marcos derrotou a Laura duas vezes... e dessa vez foi fora de combate.
(No Dia Seguinte — Pátio do QG)
O sol mal havia nascido. Alexandre e Sanstone aguardavam diante das tropas formadas. Laura chegou saltitante e alegre, enquanto Marcos caminhava com um sorriso bobo e empolgado, destoando do clima sério.
— Olá pessoal, tudo bem? — disse Marcos, radiante. — Eu me sinto ótimo! Por que essas caras de enterro?
Laura, percebendo os olhares cansados e as olheiras dos soldados, interveio rapidamente:
— Desculpem... é que ontem eu tive que "ajudar" o Marcos com uns problemas pessoais. Ele estava tão triste que demoramos a dormir.
Sanstone lançou um olhar gélido para os dois e revirou os olhos, impaciente.
— Tá bom, tá bom. Por favor, Comandante, a palavra é sua.
Alexandre deu um passo à frente, assumindo uma postura solene para o discurso:
— Escutem! Entendo que ontem tivemos perdas dolorosas. Mas não é só o Reino que conta com a gente; são as famílias de vocês. Sei que nem todos possuem a frieza para matar, mas é preciso ainda mais coragem para serem leais à nossa causa. Essa guerra interna de gêneros... essas picuinhas... não estou aqui para apontar dedos, mas para mostrar que aqui não há hierarquias extremistas. Por exemplo: não é porque a Vice-Comandante está abaixo do meu cargo que ela deve ser submissa a mim. Na verdade, isso sempre é o oposto…
Sanstone cruzou os braços, erguendo uma sobrancelha com sua expressão habitual de seriedade.
— A verdade é que o Comandante às vezes é muito mole. Alguém precisa tomar as rédeas.
Os soldados riram, aliviando a tensão. Alexandre fechou as mãos, fazendo beicinho como uma criança contrariada.
— Por favor, Sans! Eu estou tentando dar a eles um pouco de moral. Todos aqui são importantes.
Sanstone fechou os olhos, suspirando, e falou com voz calma, mas firme:
— Na verdade, o que o Comandante quer dizer é que cada vida aqui importa. Nós ouvimos daquela prisioneira que foi assassinada... ouvimos como vocês se sentem descartáveis no campo de batalha. Não é?
Alguns soldados baixaram o olhar ou entreolharam-se. Sanstone continuou seu monólogo:
— Meu pai disse uma vez: "Um relógio é composto por engrenagens. Se uma única engrenagem para, o relógio também para". O que tivemos aqui foi um exército que parou por conta de uma engrenagem defeituosa. Nós vamos consertar isso.
Alexandre completou, virando-se para a tropa:
— Exatamente. Tanto eu quanto a Vice-Comandante estamos preocupados com o bem-estar de vocês. Hoje, vou pedir voluntários para uma missão honrosa: enterrar dignamente os mortos da batalha de ontem.
Um murmúrio de surpresa percorreu as fileiras. Um recruta levantou a mão:
— Espera... nós devemos enterrar os inimigos também?
— Claro — respondeu o Comandante. — Nós fizemos a bagunça, nós limpamos. Respeito gera respeito.
O silêncio reflexivo foi quebrado por Marcos, que deu um passo à frente, batendo no peito.
— Comandante, por favor, permita-me liderar essa tarefa. Tenho bastante resistência física e... bem, eu causei baixas em ambos os lados. É minha responsabilidade.
Os soldados, vendo seu Capitão — o mesmo que lutara ao lado deles no dia anterior — se voluntariar para o trabalho pesado, sentiram a moral inflamar.
— Comandante, eu também vou! — gritou um.
— Eu também!
Vários soldados se apresentaram. Laura, observando a cena, sorriu levemente corada e disse:
— Eu também vou…
Alexandre e Sanstone responderam em uníssono, cortando o ímpeto dela:
— Não. Fique aqui, precisamos conversar com você.
Laura fez uma cara de boba, como se já soubesse o tópico da conversa. Enquanto Marcos organizava o destacamento para cuidar dos corpos, o trio de oficiais caminhou para fora do QG, em direção ao escritório da Primeira-Ministra.
(Nas ruas, durante a manhã)
O vento matinal soprava fresco. Alexandre quebrou o silêncio, dirigindo-se a Laura:
— Estava bem animada hoje, hein?
Laura corou violentamente.
— Animada? Ah, sim... é que hoje é um novo dia, né? O sol brilha, os pássaros cantam…
Sanstone, caminhando com passos firmes e olhar focado no horizonte, comentou secamente:
— Sim, sim. Dizem que a noite é uma criança, não é?
Laura ficou vermelha como um pimentão, tentando fingir demência.
— É verdade! A noite realmente é uma criança... você tem ótimos ditados, Sans.
De repente, o instinto de Sanstone gritou. Num movimento fluido, ela sacou seu escudo, enquanto Alexandre empurrava Laura para trás e desembainhava sua espada.
Um impacto invisível e avassalador atingiu o escudo, arremessando Sanstone para trás. Ela colidiu contra Alexandre e os dois foram jogados contra o canto de uma parede de pedra.
Uma figura imponente surgiu da poeira.
— Você continua frágil como sempre, Sans.
Alexandre levantou-se com dificuldade, usando sua espada curta como bengala. Sanstone, mesmo atordoada, manteve-se agachada com o escudo erguido. Ao olhar pelo lado da proteção, seus olhos se arregalaram. Laura, que estava protegida mais atrás, sacou seu chicote, furiosa.
— Você vai se arrepender, bandido!
Ela estalou o chicote. A ponta, banhada em veneno paralisante, visou o homem. Ele, porém, segurou o chicote com a mão nua antes que o golpe conectasse. Laura sorriu vitoriosa.
Ele mordeu a isca! O veneno age por contato!
Mas Alexandre, percebendo algo que elas não viram, gritou desesperado:
— Laura, solta o chicote agora!!
Tarde demais. O homem puxou a arma com uma força descomunal. Laura voou como uma boneca de pano, batendo violentamente contra o chão e ficando inconsciente na hora.
Alexandre tentou formular uma estratégia, olhando para o gigante e depois para sua parceira.
— Sans, o plano é o seguinte…
Sanstone estava paralisada, os olhos fixos na figura à frente. Ela murmurou, a voz trêmula:
— Comandante... desista.
— O quê? Por que devo desistir? Não acredito que estou ouvindo isso de você!
Sanstone gritou, o nervosismo transbordando:
— Esta luta é minha, Alexandre!!!
O brutamontes jogou o chicote de Laura para longe, como se fosse lixo, e falou com uma voz grave que fez o chão tremer:
— Escutem bem. Me ataquem com tudo o que têm. Se não fizerem isso, a garota ali no chão nunca mais verá a luz do dia.
O homem tinha quase três metros de altura. Músculos que pareciam esculpidos em pedra, desarmado, mas com um olhar que transmitia apenas tédio e morte. Sanstone não perdeu tempo. Usando a parede como impulso, ela se lançou como um projétil humano contra ele.
Mas o homem simplesmente... sumiu.
Ele é muito rápido... pensou Alexandre, os olhos varrendo o local. Preciso impedir que ele corra para que a Sans tenha chance de acertar um soco.
Alexandre posicionou a espada, calculando a trajetória. A dobra do joelho. É o único ponto.
Sanstone girava, tentando golpear o ar onde o homem deveria estar, mas ele desviava com movimentos mínimos.
— Você continua muito lenta — zombou ele. — Parece que não melhorou em nada.
Quando o homem parou para desferir um soco devastador em Sanstone, Alexandre viu a brecha. Ele avançou numa investida suicida, visando o tendão do oponente atingindo em cheio, mas não pareceu que nada aconteceu. O homem interrompeu o soco para chutar Alexandre, mas isso deu a Sanstone o milésimo de segundo que ela precisava.
O punho de Sanstone conectou-se com o rosto dele. Mas o homem nem se moveu. Ele ficou imóvel por alguns segundos, absorvendo o impacto como se fosse uma brisa. Então, com uma velocidade aterrorizante, agarrou Sanstone pelo pescoço com uma mão e Alexandre pelo braço com a outra, erguendo os dois do chão como se não pesassem nada.
— Vocês se consideram Vice-Comandante e Comandante? Patético. Enfrentei inimigos piores.
Alexandre, mesmo suspenso no ar, respondeu com um sorriso desafiador:
— Não ligo para isso. Você se acha o tal só porque é grande? Quem é você?
O homem olhou nos olhos de Sanstone, que se debatia inutilmente.
— Continuamos nosso assunto mais tarde.
Ele preparou o braço para arremessar Alexandre.
— Oh não... esse assunto vai ser resolvido em alguns segundos — disse Alexandre.
De repente, o corpo do homem travou. Ele tentou mover os braços, mas seus músculos não obedeceram. Alexandre, sentindo o aperto afrouxar, soltou-se, pegou sua espada e recuou para uma distância segura.
— Laura, sua atuação foi perfeita!
O homem, paralisado, rosnou:
— O quê?!
Laura levantou-se do chão, o rosto machucado e sujo de terra, mas fazendo um sinal de "joinha" com a mão. Sanstone, caindo de pé, alongou os músculos e disse, séria:
— Bem pensado, Comandante.
— Eu sei quem você é, Leônidas Stone — explicou Alexandre, ofegante. — Sei tudo sobre sua força lendária e sua resistência impenetrável. Para acabar com você, precisei que a Laura fingisse ser derrotada para aplicar o veneno paralisante em minha arma. Enquanto você estava distraído eu atingi seu tendão e Laura tinha aplicado veneno em você com o chicote no inicio, o veneno agiria uma hora ou outra. Eu só estava esperando o momento certo.
Sanstone pegou seu escudo do chão e encarou o homem.
— Pai, você pode ser forte... mas ainda assim, continua sendo um só.
Leônidas, o Patriarca do Clã Stone, sorriu levemente. Então, começou a rir. Uma risada maníaca que ecoou pelas ruas vazias.
— Hahahahaha!
O trio recuou, chocado. Leônidas fechou a cara instantaneamente.
— Fugir? Que besteira…
Com um simples tensionar de músculos, uma onda de choque de vento explodiu ao redor dele, dissipando o veneno e empurrando os três para longe.
— Liberar.
Leônidas avançou contra Alexandre. Ele está mais rápido! Alexandre pensou, o pânico subindo. Preciso desviar!
O soco de Leônidas visava o estômago de Alexandre. Não havia tempo para esquivar. Alexandre usou a mão livre para se apoiar no próprio punho de Leônidas, usando a força do impacto para ser arremessado para o alto, em vez de ser atravessado.
Sanstone agiu rapidamente. Arremessou o escudo para o alto. Alexandre usou o metal como plataforma aérea, pegando impulso. Laura, sincronizada, laçou a parte inferior do escudo com o chicote e usou uma magia de gravidade para puxá-lo violentamente para baixo, transformando-o em um meteoro de aço.
Leônidas, vendo o ataque combinado, avançou contra Laura, que estava com a guarda aberta. Mas Sanstone interceptou. Ela surgiu na frente do pai, desviando o soco dele com um golpe nos punhos, fazendo-o errar por milímetros.
A troca de golpes foi brutal. Os socos de Sanstone atingiam Leônidas, mas pareciam bater em uma montanha. Os socos dele, porém, faziam Sanstone cuspir sangue a cada impacto.
Alexandre, caindo do céu, chutou o escudo em direção a Leônidas. O patriarca parou de socar Sanstone, pulou para trás e Sanstone agarrou o escudo no ar com uma mão, anulando a inércia do ataque.
Os três jovens aterrissaram juntos, ofegantes e feridos. Leônidas, do outro lado, cruzou os braços, nem sequer suando.
— Entendo. Vocês lutam bem em equipe — analisou ele friamente. — Entretanto, a força individual é lamentável. Você... — apontou para Alexandre — ...precisa de mais força. Você... — apontou para Laura — ...precisa de velocidade. E por fim…
Ele olhou para Sanstone com puro desgosto.
— Minha filha... nunca imaginei que você seria a pior dentre todos. Você não tem especialidade. Sua força é medíocre.
Sanstone abaixou a cabeça, devastada. Alexandre, furioso, gritou:
— Você é pai dela! Como ousa compará-la com a sua força? Você é considerado uma lenda viva! Ninguém supera você!
— Silêncio!! — Leônidas falou de forma autoritária. — Ela é minha filha e devia, no mínimo, ter a capacidade de trocar socos comigo de igual para igual! Mas não... ela é fraca. Não possui resistência e nem força. Acho isso patético!
Laura tentou argumentar, a voz embargada:
— Senhor, por que está fazendo isso? Você é o herói que salvou este reino. Deveria estar do nosso lado!
Sanstone largou o escudo. Ergueu os punhos nus, assumindo a postura de combate tradicional do Clã Stone. Leônidas a observou, interessado.
— Ah? Quer um duelo? esta brincando não é?
Sanstone permaneceu em silêncio, focada.
— Sans, isso é suicídio! — gritou Alexandre. — Você vai morrer!
Sanstone virou o rosto e cuspiu sangue na direção de Alexandre, empurrando-o para longe com o ombro.
— Eu já te falei... essa luta é minha, Comandante. Pode vir Pai.
Quando Sanstone avançou, Leônidas também correu. O ritmo dos passos era idêntico. Quando os ataques estavam prestes a colidir, uma explosão de fumaça e energia aconteceu no ponto de impacto.
Alexandre e Laura foram jogados para trás pela onda de choque. Uma cratera se abriu no chão. Quando a poeira baixou, a cena era chocante: O punho de Sanstone estava enterrado na bochecha de Leônidas. Mas o soco dele... estava parado a centímetros do rosto dela, bloqueado por uma barreira de energia vermelha translúcida que desapareceu tão rápido quanto surgiu.
Leônidas nem se moveu com o soco da filha. Ele disse calmamente:
— Perdão. Acho que entendi por que você está tão fraca.
Sanstone arregalou os olhos. Seu soco mais forte não fez um arranhão.
— Garota do chicote — disse Leônidas, olhando para Laura —, trate de cuidar direito da minha filha. Se mais um erro desses acontecer... sua família vai pagar.
E, num piscar de olhos, ele desapareceu.
Sanstone permaneceu na posição do soco, estática. Sua visão escureceu.
Droga... a perda de sangue da noite passada…
Antes que ela atingisse o chão, Alexandre a segurou pela cintura.
— Você lutou bravamente, Sanstone. Mesmo ferida, você foi incrivelmente forte.
Ela sorriu fracamente e desmaiou. Alexandre virou-se para Laura, que ainda tremia com a ameaça de Leônidas.
— Rápido, Laura! Leve a Sans para a ala médica. Dê toda a atenção a ela. Faça isso pelo bem do seu clã e da sua amiga.
— Sim, senhor! — Laura colocou Sanstone nos ombros dos braços com dificuldade devido a armadura. — Mas... aonde você vai, Comandante?
Os olhos de Alexandre brilharam com uma determinação fria.
— Vou resolver um assunto na Prefeitura. Eu sei de quem é aquela magia vermelha.
(NA PREFEITURA)
Alexandre invadiu o prédio. Percebendo que a secretária não estava, foi direto para a sala da Primeira-Ministra. Dois guardas reais tentaram bloquear seu caminho com lanças cruzadas.
— Alto lá! Você não pode…
Alexandre não parou. Usando a bainha e o cabo da espada, golpeou os pontos vitais dos guardas em movimento contínuo, atordoando-os sem sequer diminuir o passo. Ele chutou a porta.
Lá dentro, uma garotinha baixinha, de cabelos curtos azuis e olhos da mesma cor, regava uma planta. Ela usava uma longa capa estrelada e roupas de couro legítimo. Parecia uma criança rica brincando de governar.
Ela sorriu, um sorriso fofo e gentil.
— Olá, senhor Comandante! Como posso ajudar?
Alexandre marchou até a poltrona em frente à mesa dela, sentou-se e cruzou os braços, sério.
— Por que você impediu a luta de Leônidas contra a General Sans?
A garota parou de regar. Com um estalo de dedos, o regador desapareceu. Num piscar de olhos, ela se teletransportou para a cadeira principal, sentada de forma relaxada. Faíscas vermelhas crepitaram no ar ao redor dela.
— Eu não sei do que está falando, queridinho. Sou apenas uma garotinha comum, como qualquer outr…
!
Alexandre sacou sua espada num movimento borrão, visando o pescoço dela. Antes que a lâmina tocasse a pele, um escudo vermelho invisível se materializou, bloqueando o ataque com um som metálico.
— Eu sei muito bem quem é você, Lilith — disse Alexandre, sem baixar a espada.
Lilith abriu os olhos. O sorriso fofo desapareceu, substituído por uma expressão maníaca e divertida.
— Parece que você fez a lição de casa, Comandante. Fico impressionada. MAS SABIA QUE ISSO DÁ CADEIA?
A voz dela ecoou com poder mágico. Alexandre, no entanto, manteve a espada firme, sem tremer. Lilith inclinou a cabeça, intrigada.
— Pera... você não está com medo?
— Por que eu teria medo de uma criança? — retrucou Alexandre. — Já perdi muita coisa na minha vida. Você pode me ameaçar o quanto quiser, mas envolver outras pessoas na sua diversão é imperdoável. Achei que você cuidava da democracia, não que brincava de ditadora.
Lilith recuou um pouco na cadeira, cerrando os dentes, visivelmente irritada.
— Você é um chato. Nem sei como passou nos exames.
Alexandre guardou a espada, cruzou os braços e colocou as botas em cima da mesa de mogno da Primeira-Ministra, num gesto de total desrespeito.
— Se eu ganhei, tive meu mérito. Diferente de você, que usa magia para ganhar as coisas. Eu sei que esse poder pertence ao Imperador, mas você apenas herdou isso dele. Eu criei o meu próprio estilo.
Lilith arregalou os olhos. Num flash vermelho, ela se teletransportou para trás de Alexandre, sussurrando em seu ouvido:
— Espere... você está querendo dizer que minha magia não é mérito meu? Como ousa? Eu aprendi tudo isso sozin...
— Você herdou isso do seu pai — cortou Alexandre, tranquilo, sem nem olhar para trás. — O Grande Imperador... ele sim é um prodígio.
A provocação foi o estopim. Lilith gritou de raiva. Amarras mágicas vermelhas brotaram do chão, prendendo os pulsos e tornozelos de Alexandre.
— FALE ISSO MAIS UMA VEZ E EU TE MOSTRO O QUE ACONTECE!
Alexandre permaneceu impassível. Lilith, confusa com a falta de reação, gritou:
— POR QUE VOCÊ ESTÁ TÃO TRANQUILO?! POR QUE NÃO ESTÁ COM MEDO?!
O silêncio de Alexandre foi ensurdecedor. Lilith, frustrada, desfez as amarras mágicas com um gesto brusco.
— Desisto! Vou falar para o meu pai que você é um incompetente! Que não sabe nada sobre comandar e ainda por cima deixou uma prisioneira morrer sob sua custódia!
Alexandre sorriu.
— Bingo.
Lilith tapou a própria boca com as mãos, furiosa por ter caído na armadilha. Alexandre continuou:
— Se você tentar falar algo para o seu pai sobre minha competência, eu conto para ele o que você fez hoje, interferindo num duelo de honra.
Lilith berrou, batendo o pé no chão:
— ESCUTE BEM! Você ganhou este round, mas no próximo você vai ver! Agora saia daqui antes que eu mude de ideia e te transforme em um sapo!
Alexandre levantou-se, ajeitou a farda e sorriu genuinamente.
— Gostei de você, Lilith. Na próxima, vamos conversar mais.
A raiva de Lilith se dissipou, substituída por curiosidade.
— Por quê? Pensei que me odiasse.
Alexandre parou na porta e olhou para trás.
— Eu sei que você não é má pessoa, além de ser uma maga habilidosa. E quanto à Valquíria que você matou na sala de tortura... bom, você é filha do Imperador. Nada aconteceria com você de qualquer jeito, mas obrigado por limpar a bagunça.
Ao sair da Prefeitura, a mente de Alexandre trabalhava a mil.
Lilith é muito poderosa. A magia dela consegue me envolver facilmente sem que eu consiga contra-atacar. Preciso aprender uma forma de me defender contra feitiços. Vou falar com a Laura.
Enquanto ele caminhava para o QG, Leônidas — que observava das sombras — entrou na Prefeitura e foi até a sala de Lilith.
— Lilith — chamou o gigante. — Você conheceu o Comandante. O que achou dele?
Lilith estava sentada, emburrada, de braços cruzados.
— Ele é estúpido e chato. Mas…
Ela corou levemente, olhando para o lado.
— ...Ele é um pouco inteligente.
Leônidas soltou uma gargalhada que fez os vidros tremerem. Lilith, vermelha de vergonha, gritou:
— O QUE É ENGRAÇADO, SUA MONTANHA DE MÚSCULOS?!
(NO QG — SALA DO COMANDANTE)
Alexandre entrou na sala acompanhado de Laura.
— Sente-se, Laura.
Ela sentou-se no sofá com formalidade, enquanto Alexandre ocupou sua cadeira.
— Laura, é muito bom saber que você cuidou bem da Sans. Ela está bem?
— Sim, senhor Comandante — respondeu ela, profissional. — Ela está se recuperando na ala médica. Tentou levantar incontáveis vezes, tive que praticamente amarrá-la na cama.
Alexandre revirou os olhos, sorrindo.
— Essa é a Sanstone que conhecemos.
Laura permitiu-se um sorriso relaxado.
— Pois é. Mas era só isso, Comandante?
Alexandre ficou sério. Apoiou os cotovelos na mesa.
— Não. Na verdade, tenho outro problema e preciso da sua ajuda. Trata-se de feitiços.
Laura inclinou-se para frente, interessada.
— Feitiços? Quer aprender algum, Comandante?
— Não. Preciso aprender medidas para me defender deles. Eu conheci a Lilith.
Laura arregalou os olhos.
— A Primeira-Ministra?!
Alexandre assentiu.
— Sim. Ela é bem... "exótica". Não consigo ler a personalidade dela. Uma hora parece uma líder nata, na outra vira uma criança mimada. Aparentemente sofre de dupla personalidade.
— Uau... — murmurou Laura. — Não imaginava que a Primeira-Ministra seria uma criança. Dizem que ela é muito boa com as palavras.
— Ela é — concordou Alexandre. — Só não sei se ela está tentando me enganar. Porque, se ela é uma excelente diplomata, como consegui dominá-la tão facilmente na conversa?
Laura sorriu, um brilho travesso nos olhos.
— Ah, vai que ela gostou de você.
Alexandre corou levemente.
— Duvido muito, Laura. Além disso... eu já tenho alguém de quem gosto.
Laura sorriu, sabendo exatamente de quem ele falava, mas manteve o segredo.
— Sei, sei... todos temos. Enfim, Comandante, você quer saber como contra-atacar feitiços ou se proteger deles, não é?
— Sim. Conseguiria me explicar?
Laura coçou a cabeça, organizando os pensamentos.
— Bem, senhor, a magia funciona da seguinte forma: ela é criada no ponto visual. O mago precisa visualizar o local e então usar sinais de mãos ou pronunciar a palavra do feitiço — como o Leônidas fez com a "Liberação". Porém, existem magos com níveis considerados "divinos" que não precisam de gestos nem palavras. Nesse caso, a única forma de enfraquecer o ataque é bloquear a visão deles. Se não conseguem te ver, não conseguem mirar. A menos, claro, que você tenha uma magia de bloqueio antecipada.
Alexandre absorveu a informação.
— Tá, mas tem algum tipo de couraça que posso colocar sobre mim para me proteger de um golpe mágico?
Laura colocou o dedo no queixo.
— Bem... na verdade, tem. Mas você não vai gostar. O "Casco de Tartaruga" ou “Tortoise”. É a magia usada para bloquear feitiços em 360 graus. Ela protege de um único feitiço antes de explodir em luz, causando cegueira em alvos próximos. Porém, ela exige que o usuário consuma sua própria energia arcana constantemente.
Alexandre interrompeu:
— Energia arcana? Já ouvi falar, mas você poderia me explicar melhor?
— Nunca imaginei que você não soubesse — disse Laura. — Enfim, a energia arcana é a energia que seu corpo produz todos os dias. Pense que, quando dormimos, relaxamos ou fazemos qualquer coisa que desligue nossa mente, essa energia se regenera até encher nosso "reservatório". Cada corpo possui uma capacidade máxima. O meu, por exemplo, possui boas reservas, então resolvi me especializar em feitiços e venenos, honrando meu clã.
Alexandre levantou-se, ansioso.
— Tá certo. Então, quanto de energia eu tenho e como posso descobrir?
Laura levantou-se devagar. Caminhou até o Comandante, balançando os quadris de forma exageradamente sedutora. Ela parou na frente dele e sussurrou:
— Você precisa beijar algum mago…
Alexandre ficou vermelho como um tomate. Ele gaguejou, recuando até bater na parede:
— B-beijar?! Mas... isso não é demais? Você está brincando, né?
Sem avisar, Laura empurrou Alexandre sobre a mesa e segurou a cabeça dele com as duas mãos, fixando-o. Alexandre, em pânico e esperando o beijo, fez bico e fechou os olhos com força.
Laura soltou uma risada cristalina.
— Claro que estou brincando, seu bobo! Eu só preciso segurar sua cabeça para sentir o fluxo.
Alexandre abriu os olhos, fechando a cara, bravo.
— Você tem umas piadinhas muito sem graça, Laura. Fico com pena do Marcos.
Laura riu ainda mais, soltando-o.
— Fique calmo, eu nunca trairia o Marcos. Ele é um anjo único para mim…
A expressão de Laura mudou subitamente. O sorriso desapareceu, substituído por uma preocupação genuína. Ela se afastou de Alexandre.
— Então... posso te dizer as duas notícias?
Alexandre ficou sério. O tom dela não era bom.
— Não me diga que... Fala logo, qual é a bomba?
Laura brincou com os dedos, nervosa.
— A boa notícia é que você tem energia arcana…
Alexandre suspirou aliviado e ficou contente. Laura, mordendo o lábio, completou a frase:
— ...Mas a sua reserva é medíocre.