
Frente a frente com o Ceifador, Alexandre sentia a aura esmagadora e intimidadora que a criatura emanava. Seus próprios olhos, no entanto, estavam vazios e focados.
O demônio, oculto sob o manto esfarrapado, não demonstrava medo, ódio ou qualquer emoção. Lilith, observando a tensão do seu trono, ergueu a mão com um sorriso empolgado:
— Essa vai ser uma luta boa de se ver. Iniciem!
Alexandre sacou sua espada curta num movimento fluido, adotando sua inusitada postura de mão livre. O Ceifador, por sua vez, apenas moveu o braço, revelando a escuridão absoluta sob a capa. De lá, puxou um pequeno pedaço de madeira que se
desdobrou, transformando-se em uma foice colossal, do seu exato tamanho.
Lilith arqueou uma sobrancelha. — Brinquedo legal.
O Ceifador acomodou a arma e fez um gesto provocativo com os dedos esqueléticos.
— Pode vir.
Sua voz era idêntica à do Rei Salocin, porém com um timbre levemente mais agudo.
— Criança mortal, espero que este duelo seja rápido e simples, igual aos nossos corpos quando descansam.
Sem hesitar, Alexandre avançou. Seus passos eram calculados, precisos. O Ceifador caminhou lentamente até o centro para o embate.
Quando as lâminas colidiram, o som do aço contra a madeira mística ecoou. O Ceifador paralisou por um instante e murmurou:
— Seria muito inconveniente a luta acabar aqui, não é verdade?
— Quer apostar? — Alexandre sorriu.
O monstro usou a foice para enganchar a espada de Alexandre e puxá-la, mas o Comandante usou a própria inércia do puxão, segurando a arma, girou o corpo e desferiu um chute aéreo devastador direto no rosto do Ceifador. A criatura desabou na areia. Alexandre caiu de pé e cravando-a a centímetros do chapéu do demônio.
— Eu venci.
De repente, o som de risadas distorcidas invadiu sua mente. Eram Jacó e as outras bestas rindo. Alexandre piscou. O cenário tremulou. Ele estava de pé, próximo ao ceifador, esquivando-se por um triz da lâmina da foice que quase cortou sua garganta.
Tudo tinha sido uma ilusão.
“Como isso é possível?” Alexandre pensou, o suor frio escorrendo pela testa. O medo começou a corroer seu corpo.
Ele sacou a espada e avançou. Mas, ao tentar golpear, o Ceifador simplesmente se desmaterializou em uma nuvem de fumaça cinzenta, ressurgindo vários metros atrás.
Na arquibancada, Sanstone observava a cena, os braços cruzados e o cenho franzido. Alexandre está louco? Ele ficou parado ali sem fazer nada por vários segundos.
Pelo canto do olho, ela notou Leônidas se levantando e desaparecendo silenciosamente da arquibancada.
“Aonde meu pai está indo com tanta frequência?” pensou ela.
Ao olhar para Lilith, percebeu que parecia distraída com o olhar perdido no horizonte.
“Será que os boatos sobre os feitiços dela são verdadeiros?”
Enquanto a luta ocorria na arena, Jade, esgueirava-se pelo QG dos humanos sob o disfarce de uma Valquíria. Ao abrir as gavetas da sala de Alexandre, ela congelou ao ouvir uma voz doce atrás de si.
— Olá, querida.
Jade engoliu em seco. Virando-se devagar, tentou manter a postura militar:
— S-senhorita Primeira-Ministra! Como posso ser útil?
Lilith, sentada casualmente sobre a mesa do Comandante com as pernas cruzadas, folheava alguns papéis.
— Sabe, eu estava querendo saber se você viu onde o Comandante guardou a papelada que pedi ontem. Tive muito trabalho para exigir isso dele.
A espiã forçou um sorriso, suando frio.
— B-bem, eu não sei, senhorita. O Comandante me disse que faria um treinamento em conjunto com as tropas e depois se prepararia para o torneio.
Lilith, ciente da mentira, não desfez o sorriso plácido.
— Entendi. Agradeço a sua resposta.
Num piscar de olhos, Lilith sumiu.
Jade soltou a respiração que nem sabia que estava prendendo.
— Nossa, essa foi por pouco. Espera... se a Primeira-Ministra estava aqui, significa que estou atrasada e o torneio já acabou?! Não é possível, o tempo voa!
Ela voltou a vasculhar os documentos de forma mais ágil. O que ela não sabia era que Leônidas estava encostado na parede, logo atrás da porta entreaberta, observando cada movimento dela, já sabendo que ela era uma espiã, mas apenas a estudava em silêncio.
De volta ao Coliseu, Alexandre desferia golpes desesperados, mas o Ceifador era inatingível. Ele borrava a própria forma e se teletransportava.
“Droga, ele não sofre dano por ataques físicos! Preciso pensar em algo rápido.”
calculava Alexandre.
No camarote, Leonardo gargalhava.
— Nossa, que humilhante! Esse é o Comandante Supremo de vocês? É tão patético. Lilith, você realmente não sabe nada sobre disciplina.
A Primeira-Ministra, que acabara de retornar o foco à arena, retrucou sem olhar para ele:
— Ei, ei, até parece que somos fracos. Ele está apenas pensando. Você vai ver.
Salocin observava o combate em silêncio. Seu campeão iniciou uma investida letal. Alexandre calculou o tempo e usou seu feitiço Aparar. A magia colidiu com a foice, criando uma brecha. Alexandre cravou a espada curta na garganta do monstro… mas a lâmina atravessou apenas fumaça. O Ceifador ressurgiu intacto para trás.
“Que habilidade irritante.”
Alexandre varreu a arena com os olhos, buscando qualquer abertura, mas o monstro apenas caminhava lentamente, os ossos estalando sob o manto.
Longe da arena, nas celas do QG, Marcos abriu os olhos lentamente. A primeira coisa que viu foi o rosto de Laura, que o abraçava com força, chorando sobre seu peito.
— Que visão do paraíso... Eu morri? — brincou ele, a voz fraca.
Laura enxugou as lágrimas, um misto de alívio e raiva no rosto.
— Ainda não, seu idiota. Mas você foi ferido gravemente!
Contrariando a lógica médica, Marcos sentou-se como se tivesse apenas tirado uma soneca.
— Na verdade, eu me sinto ótimo. Nada complicado. Claro, tomei uma facada no coração e na coluna, mas tá tudo inteiro.
Laura fechou a cara e começou a dar soquinhos no peito dele.
— Seu trouxa! Sem noção! Pare de brincar com meus sentimentos! Eu quase morri de preocupação e você levanta como se fosse nada!
Marcos segurou o queixo dela gentilmente, sorrindo.
— É por isso que estou de pé, não é?
O momento romântico foi interrompido por uma Valquíria com um brasão de coroa e uniforme vermelho que abriu a porta da cela.
— Podem sair. A Vossa Majestade os deixou ir.
Marcos sorriu, convencido para Laura.
— Tá vendo? A Lilith não é uma pessoa tão ruim assim.
— Verdade, ela me pareceu bem legal quando conversamos — concordou a Sargenta.
A Valquíria pigarreou, a expressão séria.
— Estou falando dele.
Os dois congelaram, os olhos arregalados.
— Vossa Majestade?! O Líder Supremo?!
— O único e próprio.
Marcos, num raro momento de genialidade tática, recuou um passo.
— Espere aí. Se o Rei disse isso, como você está me passando a mensagem? Nenhum soldado é autorizado a entrar no andar da torre onde ele fica. As barreiras translúcidas desintegram qualquer um e são imbatíveis. Você está mentindo!
Laura puxou o chicote.
— Boa, Marcos! Não podemos sair daqui sem confirmar isso!
De repente, os olhos da Valquíria ficaram completamente brancos. A postura dela mudou e sua voz soou com um timbre grave e ancestral, ecoando pelas paredes de pedra:
— Entendo. Desculpem não ter terminado de f... — A entidade tossiu, ajustando a possessão.
— Olá, crianças. Acreditam agora?
A aura era inegável. Uma barreira translúcida vermelha, idêntica à de Lilith, porém infinitamente mais densa, os cercou. Marcos e Laura caíram de joelhos imediatamente.
— Majestade! — disseram em uníssono.
A voz do Imperador, usando o corpo da soldada, soou carregada de autoridade e ecos.
— Levantem-se. Preciso conversar com vocês antes que minha filha volte sua atenção para cá.
Eles obedeceram, ouvindo com devoção.
— Há muito tempo, eu tive uma filha. — narrou o Imperador.
— Ela nasceu com o talento nato do meu falecido pai. Fiquei extasiado, mas logo a preocupação me tomou. Um poder tão formidável precisava ser protegido do mundo exterior. Decidi criá-la eu mesmo, trancada na torre.
Minha esposa foi contra. Exigiu levar a menina embora, dizendo que não era
negociável, tentei argumentar que Lilith teria a melhor vida possível, riqueza e
segurança, mas ela não quis ouvir. Eu... não tive escolha.
Laura cobriu a boca, horrorizada.
— Eu a matei de forma rápida com a barreira. Quando voltei para os braços de Lilith, minhas mãos tremiam. Eu a criei e ensinei tudo o que sei. Lilith ainda não tem muita maturidade ou malícia, mas ela entende quando as pessoas são ruins...
Das sombras da cela, Leônidas surgiu, ajoelhando-se com reverência.
— Majestade. Por que projetou sua consciência para fora do trono?
— Chegou em boa hora, Leônidas. Preciso que você guie esses dois. Eles devem ajudar Lilith e nossos dois prodígios a amadurecerem.
— Está querendo dizer que chegou a hora? — perguntou o gigante de prata.
— Não, isso ainda levará tempo. Agora, explique a eles o dever de proteger seus generais e por que foram escolhidos a dedo.
A presença esmagadora sumiu do corpo da Valquíria, que caiu desmaiada. Marcos e Laura trocaram olhares chocados.
— Essas possessões são intensas... — murmurou Marcos.
— Mas pelo menos ele não rouba minha força vital como a Laura faz à noite.
Laura deu um pisão no pé dele, vermelha de raiva.
— Marcos, foco! O que ele quis dizer com "escolhidos a dedo"? Quer dizer que não estamos aqui por habilidade?
Leônidas levantou-se, espanando a armadura.
— Errado. Vocês foram escolhidos porque eram os mais fortes de suas categorias. Sanstone e Alexandre também. Ambos têm um poder imenso, mas ainda não o manifestaram plenamente. Marcos!
O Capitão bateu continência por puro reflexo.
— S-sim senhor! Ei, por que eu tô batendo continência pra você?!
Leônidas o ignorou solenemente.
— Você foi o primeiro da sua geração a desbloquear uma técnica ancestral: a Liberação. Precisa aprimorá-la para superar o legado do seu pai.
Laura, você precisa destravar sua verdadeira força arcana. Eu sei do seu potencial selado. Treinem. O reino precisará de todos vocês.
O gigante suspirou, o olhar pesado.
— Vocês dois devem ser as âncoras de Sanstone e Alexandre. Eles são os únicos capazes de quebrar o ciclo de ódio que assola as raças desde a antiguidade. O Imperador confia nisso, ou melhor a ENTIDADE CONFIA nisso.
Marcos ergueu a mão timidamente.
— Eu tenho uma pergunta.
— Não posso dar mais detalhes — cortou Leônidas, ríspido.
— Além disso, o trabalho de vocês para proteger as informações do QG está sendo patético.
Laura assumiu uma postura defensiva, mas confiante.
— Não se preocupe, Senhor Stone. Nós vamos recuperar tudo e blindar o QG. Aposto que o espião ainda não entregou nada ao inimigo.
Leônidas massageou a testa, parecendo extremamente cansado de lidar com jovens.
— Apenas voltem para a arena. Hoje haverá um espetáculo muito maior lá.
Ele guiou os dois por uma passagem secreta até uma parede de pedra que se abriu, revelando um portal rodopiante e roxo.
— Rápido, entrem.
Marcos hesitou, fazendo careta.
— Tem certeza? Isso parece um poço de ranho de nariz roxo.
Laura revirou os olhos, agarrou Marcos pela gola e o arrastou para dentro do portal. Leônidas fechou a passagem logo em seguida. Os dois foram ejetados nas arquibancadas do Coliseu, caindo bem atrás de Sanstone.
A Vice-Comandante virou-se, os olhos semicerrados com desconfiança.
— Onde vocês estiveram? E como chegaram aqui sem eu perceber?
Laura limpou a garganta, suando para inventar uma desculpa.
— D-digamos que eu estava tentando curar o Capitão... demorou um pouco, mas consegui. Aí resolvemos fazer um exercício de infiltração furtiva para surpreender o inimigo, e... deu certo!
Sanstone não pareceu convencida.
— Sei. E a bagunça que fizeram nas celas? Aposto que Lilith e meu pai não deixariam barato.
Leônidas subiu as escadas da arquibancada naquele exato momento, passando por eles com a voz monótona de sempre.
— Está tudo bem, querida. Eles foram perdoados.
Sanstone franziu o cenho ao ver o pai, mas voltou sua atenção para a arena. Laura suspirou aliviada, pensando:
"Como ele chegou aqui tão rápido?"
Enquanto isso, Marcos sacudia a cabeça:
"Aquele teletransporte me deu enjoo. Eu sabia que magia não prestava."
Os quatro olham para a arena, a situação de Alexandre era crítica. Ele apenas bloqueava, incapaz de contra-atacar a velocidade sobrenatural do Ceifador.
“Droga, se isso continuar, meu vigor vai acabar e esse maldito vai consumir minha alma.”
pensou com respiração pesada.
Foi então que uma memória o atingiu. Uma das antigas cartas de seu pai dizia:
"Filho, hoje enfrentei uma leva diferente de monstros. Não eram bestas vivas, mas esqueletos reanimados. Para vencê-los, precisei usar magia sagrada."
Os olhos de Alexandre se arregalaram. É isso! O Ceifador recuou com um teletransporte, a voz fantasmagórica zombando:
— Aceite seu destino. Nenhuma raça escapa da morte.
Alexandre então lamentou :
“Do que adianta saber que ele é fraco contra magia sagrada se eu não sei conjurar nada disso?”
O monstro ressurgiu nas costas dele, a foice descendo como uma guilhotina. Alexandre esquivou-se por puro instinto, rolando pela areia. Frustrado, o Ceifador esticou a mão esquelética para agarrar o pulso do humano. Alexandre saltou para trás, evitando o toque fúnebre.
— O que foi? Está com medo de um aperto de mão? — zombou a criatura.
— Não me venha com essa. Sei exatamente o que o seu toque faz.
“Melhor partir para a ofensiva. Não sei quanto tempo vou aguentar correr.”
Decidiu Alexandre :
Ele piscou e o Ceifador já estava à sua frente. A foice cortaria seu peito ao meio. Alexandre respirou fundo. Ele apontou a mão livre para o ataque e gritou sua única magia:
— Aparar!
A magia colidiu, mas, em vez de recuar, Alexandre focou toda a sua minúscula reserva de mana e falou novamente.
— Aparar!
O atrito arcano gerou uma explosão de Luz puríssima e ofuscante.
Sanstone, nas arquibancadas, abriu a boca para gritar um aviso, mas ficou muda. O Coliseu inteiro prendeu a respiração. Lilith inclinou-se para a frente, o sorriso sádico sumindo para dar lugar à admiração. Até Leonardo estreitou os olhos.
A luz dissipou as sombras do Ceifador. A criatura caiu de joelhos, a foice tremendo em suas mãos. Alexandre, exausto e ofegante, apontou a espada para a garganta exposta do monstro.
— Você é vulnerável à magia sagrada, não é? O feitiço Aparar é feito de energia bruta de luz. Eu não precisei de um feitiço divino... só precisei causar uma sobrecarga luminosa.
O Ceifador grunhiu, a fumaça negra escapando de seus ossos. Ele se teletransportou para trás, cambaleando.
— Inteligente, você pensa fora da caixa, senhor Alexandre, mas você pagará por isso...
Num último esforço, a criatura agarrou o pulso de Alexandre. O frio da morte invadiu as veias do humano, drenando sua vitalidade.
— Olhe nos meus olhos, Comandante, e sinta o terror!
Mas Alexandre fechou os olhos. Com a mão livre, agarrou o rosto esquelético do monstro. — Aparar!
Gritou Alexandre
A explosão de luz à queima-roupa queimou o rosto da criatura, que soltou o Comandante e recuou, urrando de dor. Alexandre caiu de joelhos, a mão no peito, sentindo que sua alma quase havia sido arrancada e seu corpo estava ardendo por conta da queima excessiva de mana.
Ele ergueu o rosto pálido para o camarote de Lilith.
— Majestade! Acho que você também percebeu isso, não é?
Lilith soltou uma risadinha encantada, levantando-se.
— Claro que sim. Eu só queria fazer você suar um pouco por ter me irritado ontem. O vencedor é Alexandre!
As bestas e humanos gritaram em euforia. Leonardo, furioso, bateu no apoio do trono.
— Como assim vencedor?! Ele estava quase morto! Isso é um absurdo!
Lilith balançou o dedo em sinal de negação.
— Naninanão, gatinho. Se você tivesse prestado atenção, veria que a batalha estava sendo injusta desde o começo. O verdadeiro oponente de Alexandre nem era o Ceifador.
O próprio Ceifador guardou a foice, sua aura assassina, desaparecendo enquanto ele retornava tranquilamente para perto de Jacó. Lilith sorriu para Salocin.
— Se me lembro bem, o Ceifador não é uma entidade com vontade própria. Ele é um boneco de ossos controlado magicamente pelo Rei Salocin. No sentido literal da palavra.
Leonardo rosnou, virando-se para o Lorde Demônio.
— Você está brincando comigo?! Esse tempo todo você estava trapaceando na arena?!
Salocin ergueu-se lentamente, sua presença abaixando a temperatura do local.
— Trapacear é uma palavra muito vulgar, Leonardo. Todos os mortos sou eu. Tenho controle absoluto sobre eles. Pensei que veria almas mais interessantes lutando contra mim, mas devo admitir que a Senhorita Lilith organizou um excelente espetáculo. Peço perdão se isso feriu seu ego frágil. Aceito a derrota de qualquer forma.
O choque silenciou os líderes. Leonardo sentou-se, bufando.
— Que porcaria. Podia ter me avisado. Eu teria colocado outro campeão na arena.
— Para eles perderem novamente? — retrucou Salocin, sereno.
— Eu sei que a única alma que vale a pena em seu reino é a de Jacó.
Jacó, encostado na mureta da arena, arregalou os olhos. Um arrepio frio subiu por suas escamas.
“Estou paralisado. Pela primeira vez na vida, não é só uma ilusão, não é?”
pensou o assassino reptiliano.
Salocin virou o rosto sombrio na direção de Alexandre, que ainda recuperava o fôlego na areia.
— Alexandre... Você conquistou o meu respeito. Saiba que, no dia em que você partir deste mundo, eu irei pessoalmente buscar sua alma. Um mortal como você surge apenas uma vez a cada Era. Tirando outras quatro almas que nunca consegui capturar, você é o quinto que desejo ter na minha coleção.
O peso daquela promessa fez o Coliseu gelar. Alexandre estremeceu, mas fez uma reverência respeitosa antes de caminhar de volta para sua equipe.
Jacó observava os passos do humano, um sorriso calculista retornando ao seu rosto. “Inacreditável, ele ganhou o respeito do Rei dos Mortos. Isso prova que ele é perfeito, mantendo a frieza como um bom general, gostei desse cara.
Ao retornar para a arquibancada, Alexandre escolheu um assento isolado, longe de Sanstone. A Vice-Comandante observou a distância com os braços cruzados.
— Mandou bem lá embaixo — disse ela, seca.
— Agradeço — respondeu ele, sem olhá-la.
Laura e Marcos trocaram olhares preocupados. Os pombinhos brigaram, pensaram em uníssono.
A tensão entre eles foi quebrada quando Conor saltou para a arena. Para amortecer a queda, o jovem lagarto conjurou uma poça de magma no chão, aterrissando com estilo.
— Venha para cá, sua feiticeira de meia tigela! — berrou Conor, apontando para o trono humano.
— Vou te dar tantas palmadas que te disciplinarei melhor que aquele covarde do seu pai!
A atmosfera no Coliseu mudou instantaneamente. Lilith parou de sorrir. Seus olhos azuis escureceram. Num estalo de deslocamento de ar, ela se teletransportou para o centro da arena, flutuando a centímetros do chão.
— O que você disse? — A voz dela soou fria, vazia da habitual infantilidade.
Conor riu, debochado, enquanto o magma aos seus pés esfriava.
— Finalmente a mimadinha escutou? Tá surda? Eu vou te dar tantas palmadas que eu serei o seu pai, já que o seu é um preguiçoso escondido numa torre que só come!
A aura mágica de Lilith explodiu. O ar ficou pesado a ponto de dificultar a respiração nas arquibancadas. Ela não gritou, mas sua ordem fez os alicerces do anfiteatro tremerem:
— Leônidas! Anuncie o início desta luta. AGORA!
Leônidas ergueu a mão, o rosto sombrio.
— Comecem!
Conor apontou o dedo, conjurando furiosamente:
— Magma!
Uma torrente de lava incandescente irrompeu do solo, engolindo os pés de Lilith. Porém, quando o feitiço tocou as botas dela, a magia refletiu com brutalidade.
Foram os pés de Conor que começaram a derreter.
O garoto urrou de dor, desfazendo o próprio feitiço em pânico. Seus pés estavam em carne viva, enquanto Lilith continuava de braços cruzados, a pele e a roupa imaculadas. Ela caminhou lentamente até ele.
— Eu pretendia apenas humilhar você... mas como ousou falar do meu papai, terei que lhe dar uma punição didática.
Sem mover um único dedo, Lilith alterou a pressão do ar. Uma torrente de água esmagadora envolveu o corpo de Conor, triturando seus ossos. Quando ela o jogou de volta ao chão, a água se transformou magicamente num tronco de madeira maciça que atingiu o crânio do réptil.
Logo em seguida, Conor entrou em combustão espontânea. Ele gritava enquanto as chamas azuis o consumiam.
— Eu sou um réptil vulcânico! Sou imune ao fogo! Como estou sentindo tanta dor?! pensou o garoto, aterrorizado.
Lilith parou as chamas, olhando para ele com nojo.
— Vamos ver até onde seu corpo aguenta antes de você implorar por uma morte misericordiosa.
Conor tentou mover os lábios para conjurar uma defesa, mas Lilith manipulou a terra, enchendo a garganta dele de areia e pedras, sufocando-o.
— Silêncio! Desista de seus sonhos e morra!
Ela ergueu o queixo. Nuvens negras se formaram instantaneamente dentro do coliseu aberto. Um raio escarlate desceu dos céus, atingindo Conor em cheio e paralisando seu sistema nervoso.
Nas arquibancadas, Jacó assistia a tudo sem piscar, a expressão neutra. O que mais feria a alma de Conor, enquanto era destroçado, não era a magia de Lilith... era ver seu irmão mais velho parado lá em cima, de braços cruzados, sem fazer absolutamente nada para salvá-lo.
Percebendo a resignação nos olhos derretidos do garoto, Lilith interrompeu a tortura.
— Pelo jeito, seus olhos são de alguém que já desistiu da vida. Acho que a lição acaba aqui.
Ela virou as costas e começou a caminhar. Leônidas abriu a boca para anunciar a vitória, mas Lilith ergueu a mão. Uma barreira translúcida envolveu o corpo arruinado de Conor. O garoto piscou, sem entender.
Jacó fechou os olhos. Sabendo o que ia acontecer.
Lilith fechou a mão em punho. A barreira implodiu. O corpo de Conor foi comprimido até virar uma chuva fina de sangue que foi carregada nas nuvens de chuva e Lilith as jogou para longe com sua magia de vento sem mover um músculo.
— A vencedora é Lilith.
Anunciou Leônidas, sem alterar o tom.
Leonardo, no camarote, revirou os olhos.
— Exibida.
Salocin observou a cena, levemente desapontado.
— Está bem. E cadê a "surpresa" que a Senhorita prometeu que teríamos?
Lilith limpou o sangue respingado de sua bota com uma magia de água, sorrindo docemente para os líderes.
— Por favor, meu verdadeiro desafiante... pule na arena. Precisamos dar um show para os convidados.
Sem hesitar, Leônidas saltou da arquibancada, caindo na arena com a força de um meteoro. Ele se ajoelhou com um joelho na terra.
— Sim, Majestade.
A multidão engasgou. O guerreiro mais forte dos humanos iria enfrentar a governante? Lilith desabotoou levemente seu sobretudo estrelado, revelando o grosso Grimório de magias preso à sua cintura.
— Bem, preciso me preparar adequadamente para lutar contra você. É sempre uma batalha difícil, mas... você sempre se solta quando luta comigo, não é, meu carrasco?
Leônidas ergueu o rosto. Seus olhos exibiam a mesma frieza predatória de Sanstone. Nas arquibancadas, Alexandre e a Vice-Comandante observavam a cena atônitos. De repente, dezenas de barreiras translúcidas emergiram do solo, isolando a arena inteira em um domo vermelho impenetrável.
Lilith olhou para o céu e sorriu.
— Oh, obrigada, papai. Isso vai permitir que eu lute sem interrupções.
Jacó, observando as barreiras, arregalou os olhos. A barreira da torre do castelo permanece intacta, mas essa no coliseu parece ainda mais forte.
“O Rei dos humanos fez isso sem sequer sair do trono?!”
O assassino engoliu em seco.
“Inteligente. Mostra superioridade absoluta e mantém a proteção. Subestimei os humanos. Seus líderes estão em um nível divino.”
No centro da arena blindada, Lilith abriu os braços.
— Pode começar quando quiser, carrasco. Como sempre... eu te dou a vantagem do primeiro golpe. Hehe.