
Leônidas fez uma contagem regressiva com os dedos. Assim que o último dedo se abaixou, ele avançou como um raio em direção a Lilith. O impacto, no entanto, foi contido por uma barreira vermelha que se ergueu a milímetros do rosto da garota.
— Seu fluxo de mana está lento, carrasco — provocou Lilith, exibindo um sorriso sarcástico que ecoou pelo coliseu.
A plateia prendeu a respiração. No camarote, Leonardo e Salocin ergueram os olhares, visivelmente surpresos com a facilidade da defesa.
— Bom golpe, carrasco, mas ainda lhe falta força — continuou a Primeira-Ministra, flutuando graciosamente atrás de sua barreira translúcida.
Num piscar de olhos, Leônidas desapareceu. Ele ressurgiu nas costas de Lilith, disparando um soco devastador. Sem sequer virar o rosto, a garota defendeu o ataque com outra barreira.
Nas arquibancadas das bestas, Jacó estreitou os olhos, a mente trabalhando a mil.
“Inacreditável... ele se teletransportou mais rápido que o meu Passo Sombrio, e sem nem pronunciar um feitiço. É assustador como esse humano é poderoso. Ele nem parece ser um de nós.”
Lilith virou-se lentamente para encarar Leônidas, a expressão serena.
— Atacar pelas costas é bem covarde, sabia?
Leônidas abaixou o punho, mantendo inabalável.
— A senhorita jamais entenderia isso.
Com um estalo, Lilith sumiu e reapareceu flutuando metros acima, olhando-o com puro desdém.
— Que coisa, você quer dar sermão para mim? Coloque-se no seu lugar! Até você conseguir encostar em mim, não lhe darei um pingo de respeito.
Ela apontou o dedo indicador. Um raio fulminante disparou em direção ao gigante. Leônidas apenas cruzou os braços, deixando o choque atingi-lo. A energia foi refletida violentamente para fora, chocando-se contra a redoma que protege a arena.
Lilith inflou as bochechas, contrariada.
— Você é um chato mesmo! Por que não se defendeu?!
— De um feitiço ridículo como esse? — Leônidas rebateu, sem desfazer a pose. — Você só pode estar brincando comigo.
Irritada, Lilith começou a moldar uma enorme esfera de energia azul. Em resposta, Leônidas recuou o braço, preparando um soco semelhante ao que havia obliterado Las Platas. Quando o soco cortou o ar e Lilith arremessou a esfera, as duas forças colidiram. A magia foi pulverizada, mas a barreira de Lilith permaneceu intacta.
A garota caiu na gargalhada, divertindo-se genuinamente.
— Haha! Você não consegue me derrotar, Leônidas! Mas gosto que você esteja se soltando comigo.
Na arquibancada, Sanstone assistia à cena com os braços cruzados e um olhar gélido.
— Meu pai é mesmo um imbecil — murmurou ela.
Laura e Marcos, que observavam a troca de golpes de boca aberta, viraram-se para ela.
— Como assim, Sans? — perguntou Laura, confusa. — Ele está lutando seria…
— Seriamente mal — cortou Sanstone. — Ele está apenas brincando com ela. Até parece que aquela luta é real. Mas imagino que eu saiba o que Lilith quer com isso.
Alexandre, ouvindo a conversa em silêncio, olhou para o camarote onde os reis convidados estavam.
“O plano da Lilith esta dando certo. Jogada inteligente.”
Enquanto a luta continuava, um soldado lobo aproximou-se cautelosamente de Jacó.
— Senhor Jacó, temos um problema — sussurrou o recruta.
Jacó desviou os olhos da arena por um segundo, a voz monótona:
— O que foi agora?
— A Las Platas sumiu da cama da enfermaria. Não a encontramos em lugar nenhum.
O assassino reptiliano fechou os olhos e suspirou, voltando a olhar para frente.
— Esqueça ela. Las Platas não pertence ao nosso reino.
— M-mas, senhor... o senhor investiu pesado nela. Não quer que ao menos um de nós tente caçá-la?
— Eu não trabalho com vingança. Deixe a garota em paz,Temos prioridades. Não posso segurar guerreiros se eles não querem ficar conosco.
— O senhor está mesmo deixando ela ir? Assim, sem mais nem menos? Algum problema?
— Nenhum.
— Uau, fico contente com sua decisão Senhor. você é muito misericordioso e sábio.
Jacó soltou um longo suspiro cansado.
— Não sou nada disso, garoto. Como comandante, preciso entender onde aplicar meus esforços. Focar em vingança só faria nossos melhores guerreiros morrerem em vão. Não ganharíamos nada com isso. Enfim, era só isso?
— N-não. Também tenho um Comunicado. O rei quer falar com o senhor antes de voltarmos.
Jacó revirou os olhos, entediado.
— Deixe-me adivinhar: a sós?
— Sim, senhor. Como sabe?
— Você é um recruta recente, não é? O clã We? Os lobos que serviram há décadas na guerra.
O garoto assentiu, surpreso. Jacó manteve a calma, observando a arena.
— Nada. É que tem coisas que nunca mudam. E o rei é uma delas.
— Queria tanto que ele mudasse... — lamentou o soldado.
— Eu também, garoto. Se isso era tudo, por favor, volte para perto de Vossa Majestade. Como guarda-costas dele, o rei ficará furioso se notar sua ausência por tempo demais.
Pelo canto do olho, Jacó percebeu que Leonardo o observava no camarote. Ignorando o rei, ele voltou sua atenção para a poeira que subia no coliseu.
— Majestade, vai continuar voando assim o tempo todo? — perguntou Leônidas, ainda no chão.
Lilith, flutuando bem alto, fez um movimento com as mãos como se puxasse a corda de um arco invisível.
— Eu farei o que eu quiser, com o que eu tenho! Agora, espero que consiga desviar disso!
Ela começou a disparar saraivadas de flechas elementais — fogo, água, terra, eletricidade, luz e trevas. Leônidas esquivou-se de todas com movimentos curtos e precisos, sem sequer descruzar os braços.
Salocin, observando a tempestade mágica, comentou em voz baixa:
— Interessante. Ela domina todos os elementos.
— "Todos" é uma palavra muito forte, eu diria — resmungou Leonardo, desdenhoso.
— Não. Ela literalmente sabe todos os elementos que compõem a natureza deste mundo — corrigiu o Lorde Demônio. — O que ela está fazendo é moldá-los de uma forma física. Exige uma concentração formidável.
Leonardo riu com escárnio.
— Apesar desse showzinho, até eu faria algo assim se ficasse protegido dentro de uma bolha o tempo todo. Iss…
— E quem disse que ela está se protegendo o tempo todo? — interrompeu Salocin, inclinando-se para frente. — Lilith só ativa a barreira quando Leônidas chega perto. Ela sabe se defender quando necessário e atacar simultaneamente. E mesmo assim, a barreira translúcida permite que ataques passem para fora, se o usuário desejar, mas ela não faz isso, o que demonstra que ela tem reflexos muito bons para uma maga.
Leonardo franziu o cenho, intrigado e levemente tenso.
— Espere. A barreira que matou o meu pai... consegue ser transpassada?
— Apenas se quem a conjura quiser isso. Eu lutei contra o Imperador uma vez. Ele usou esse exato recurso para obliterar meus esqueletos sem que eu pudesse contra-atacar, basicamente o ceifador atacava mas a barreira bloqueava e ele conseguia me atacar através dela, uma ferramenta de defesa e ataque imbatíveis.
O Rei das Bestas engoliu a surpresa, cerrando os punhos.
— Depois faremos uma reunião, Salocin. Precisamos conversar sobre algumas coisas.
— Sim, sim, uma reunião. Aliás, você não gostaria de negociar a alma daquele tal de Jacó?
— Falamos disso mais tarde — rosnou Leonardo, encerrando o assunto.
Nas arquibancadas, Sanstone notou que Laura não estava em seu posto.
— Laura, eu tinha te dado uma ordem clara, não foi? O que você está fazendo aqui?
Laura, que estava tão entretida com o torneio a ponto de esquecer os espiões, arregalou os olhos. Sem dizer uma palavra, ela saiu correndo a toda velocidade. Sanstone suspirou.
Marcos, alheio à fuga da namorada, olhou em volta.
— Falando nisso, Alê... cadê os outros concorrentes? Só tô vendo o jacaré e o esqueleto chifrudo lá em cima.
— Estão mortos — respondeu Sanstone, seca.
Marcos travou, o cérebro processando a informação.
— O QUE?! Mortos?! Como…
A voz de Lilith ecoou, cortando o escândalo de Marcos:
— Fica quieto, seu brutamontes! Presta atenção na nossa luta!
Porém, ao dar essa bronca e perder o foco, Lilith não percebeu a aproximação de Leônidas. Quando viu o punho do gigante a centímetros de seu rosto. No reflexo, em vez de criar uma esfera de proteção ao redor de si, ela moldou a barreira como uma armadura colada ao próprio corpo.
O soco a atingiu. Lilith foi lançada para longe, quicando na terra até bater na parede do coliseu. Ela se levantou devagar, limpando a poeira.
— Nada mal.
Foi então que sentiu a cintura leve. Seu precioso grimório de feitiços não estava lá.
Leônidas ergueu o livro pesado.
— Parece que venci você, Alteza. Sem seu livro, você é inofensiva.
“Então aquele livro é a fonte do poder dela? Interessante,” gravou Jacó em sua mente.
Os olhos de Lilith escureceram com uma aura assassina.
— Larga esse livro agora, se você tem amor à vida, carrasco.
Para testá-la, Leônidas jogou o grimório para o alto. Imediatamente, Lilith conjurou uma redoma ao redor dele e do livro, prendendo-os.
— Realmente pretende fazer isso? — desafiou o Leônidas cruzando os braços.
Lilith estendeu uma mão para frente, enquanto com a outra fazia um gesto de puxar a pequena bolha do grimório. A cor de seu cabelo começou a clarear, perdendo o azul vibrante e tornando-se azul mais claro. O livro voando direto para as mãos dela dentro da barreira ate ela pegar.
— Agora vou esmagar seus ossos — sibilou ela, prendendo o livro na cintura.
Ela fechou os punhos, tentando encolher a redoma ao redor de Leônidas para esmagá-lo. O gigante, no entanto, segurou as paredes invisíveis com as mãos e os pés, travando a magia na força bruta.
Lilith suava, então começou a usar as duas mãos, mas a barreira não cedia um centímetro.
— Ora, ora. Vejo que você está em maus lençóis, carrasco. Sua filhinha está observando. Aposto que ela está adorando ver este espetáculo.
Leônidas não respondeu, seus músculos tensionando suportando o feitiço impiedoso. O cabelo de Lilith foi perdendo cada vez mais a cor ficando levemente cinza. ela sorriu e estalou a língua e dissipou a magia de forma rápida e sem clímax.
— Bem, você é um chato mesmo, se eu fazer isso vou acabar te matando. Sabe que não tem chance, então se renda de uma vez estou poupando sua vida, carrasco.
Leônidas ajeitou a postura, ajoelhou-se na terra destruída e curvou a cabeça.
— Obrigado por poupar minha vida, senhorita.
— Tá bem, tá bem! Que chatice, não tem ninguém neste reino capaz de rivalizar comigo! — Ela virou-se para os camarotes, abrindo os braços e sorrindo. — Enfim, o que acharam da demonstração?
Salocin observava tudo com atenção reverente e se levantou.
— Achei um show formidável. Vejo que este reino possui recursos mágicos muito mais ricos do que eu imaginava.
Leonardo também se levantou, batendo palmas lentas.
— Uma demonstração grandiosa de força. Fiquei impressionado com a resistência de Leônidas. Ele é um guerreiro formidável... diferente de você, que usa métodos covardes para tentar esmagar oponentes de longe.
Lilith manteve o sorriso doce, ignorando a provocação.
— Fico feliz que todos tenham gostado do espetáculo! Gostaria de saber se os Supremos gostariam de ficar para o almoço que planejamos no castelo. Teremos bastante carne e, claro, muitos "bons samaritanos" que se voluntariaram para doar suas almas a você, senhor Salocin.
— O seu Rei vai estar presente neste jantar? — exigiu Leonardo.
A expressão de Lilith azedou no mesmo instante.
— Não. O papai não vai estar. Como eu expliquei antes, ele é um homem muito atarefado.
— Mas que chatice! — esbravejou Leonardo. — Como um rei pode ficar se escondendo desse jeito? Somos todos monarcas! Ele não pode fazer isso. Eu mesmo vou…
Jacó usou o Passo Sombrio, surgindo atrás de seu rei e tocando-lhe o ombro levemente, enquanto balançava a cabeça em um sinal silencioso de "não faça isso".
Leonardo estalou a língua, engolindo o orgulho.
— ...Por eu estar de bom humor, deixarei essa passar.
Lilith, satisfeita, voltou-se para Salocin.
— Então, senhor Salocin? Ficará conosco?
O Ceifador posicionou-se ao lado de seu mestre. O Lorde Demônio respondeu com uma voz que gelava o ar:
— Eu gostaria muito, mas preciso me retirar. Minhas energias estão baixas. Sabe como é cansativo manter uma manifestação fora do mundo subterrâneo. Mas podemos marcar um banquete para daqui a três dias, o que acha?
— Parece ótimo! Vou fazer questão de trazer os relatórios sobre as próximas almas que irão perecer em nosso império, digamos que esse será um bom presente ao senhor — concordou Lilith.
Salocin fez um aceno respeitoso com a cabeça e, junto com seu exército cadavérico, afundou nas sombras e desapareceu.
Do outro lado, Jacó bateu palmas chamando a atenção de suas tropas.
— Circulando, pessoal. Rumo às docas. Temos que voltar para casa.
As feras começaram a marchar para fora do coliseu, empurrando-se umas às outras com brutalidade.
Lilith que estava no chão, espreguiçando-se falou em alto e bom tom.
— Tá bem, a folga acabou. Todos podem voltar às suas vidinhas miseráveis de sempre!
Enquanto a multidão se dispersava de forma organizada, Leônidas manteve-se calmo, observando os arredores. Sanstone, notando a mudança na atmosfera, se levantou para voltar ao QG com Alexandre.
Porém, Lilith colocou as mãos nos quadris e gritou lá de baixo:
— Comandante! E Vice-Comandante! Por favor, apresentem-se no castelo imediatamente. Preciso conversar com vocês. E isso é uma ordem direta de Vossa Majestade!
Ela encerrou a frase com um sorriso indecifrável e começou a caminhar em direção ao palácio. Alexandre trocou um olhar pesado com Sanstone, e ambos começaram a segui-la. No longo e silencioso corredor que levava aos portões do palácio, Sanstone quebrou o silêncio. Eles estavam a sós.
— Alexandre... eu gostaria de pedir desculpas. Se você achou a minha atitude com a Muralha muito bárbara, me perdoe. Eu deveria ter concedido misericórdia a ela, e não ter cedido aos meus ins—
— Fique calma, Sans — interrompeu Alexandre, o tom sereno, mas sério. — Você fez aquilo para se defender. Ao lutar contra o ceifador, eu finalmente entendi o que você quis dizer sobre 'lutar para sobreviver'. Se aquela minha luta não fosse uma trapaça mágica do Ceifador, eu teria morrido com toda certeza. Você agiu como uma guerreira.
O olhar de Sanstone suavizou-se levemente, confortada pelas palavras dele e ficou levemente corada por um curto tempo.
Ao chegarem à entrada dos aposentos reais, um soldado e uma Valquíria de armadura escarlate cruzaram suas lanças, bloqueando a majestosa porta dupla.
— Identificação.
Alexandre coçou a nuca, tranquilo.
— Sou o Comandante Alexandre, e esta é minha Vice, Sanstone, do Clã Stone. Viemos porque a Primeira-Ministra exigiu uma reunião conosco.
A Valquíria estendeu a mão, emanando uma fraca luz vermelha em direção a eles. Confirmando a aura, os guardas recolheram as lanças e abriram as pesadas portas.
— Podem entrar. Estão dizendo a verdade.
O interior do castelo era de um luxo estonteante. Um imenso tapete carmesim cortava o chão de mármore brilhante. Vasos de ouro, quadros históricos e imensas estátuas do Imperador decoram os corredores.
Sanstone olhava ao redor, maravilhada.
— É de fato bem bonito. Até eu me surpreendo com o nível de luxo daqui.
— Você nunca veio ao castelo? — perguntou Alexandre.
— Não. Somente meu pai tinha autorização para pisar aqui. Afinal de contas, dizem que ele é amigo pessoal do Imperador.
— Espere... Leônidas já viu o rosto do Imperador?
— Sim, el—
A frase de Sanstone morreu quando entraram no salão de jantar. A cena à frente deles era curiosa: Lilith estava sentada confortavelmente nos ombros de Leônidas. Ao ver os dois chegarem, o gigante a colocou no chão com delicadeza.
— Sim, o carrasco conhece o meu pai — confirmou Lilith, alisando o vestido. — Ele e eu somos os únicos autorizados a ver o Papai, e apenas em casos de extrema emergência.
Ela andou até a cabeceira de uma longa mesa de banquete, colocou as mãos nos quadris e assumiu um tom professoral.
— Eu chamei vocês dois aqui porque precisamos ter uma conversa bem séria.
Alexandre adiantou-se, engolindo em seco.
— Majestade, se for por causa dos problemas que a Laura causou no coliseu, eu assumo total responsabilidade por tudo que ela causou. Se uma cabeça precisa rolar, que seja a minha.
Lilith o encarou por um segundo antes de revirar os olhos e imitar a voz dele com um tom choramingas:
— "Aiai, se for por causa da Laura eu assumo a responsabilidade... corte a minha cabeça!" — Ela bufou. — Pelo amor dos Deuses, você é um completo imbecil! Acha que eu chamei vocês aqui por causa daquela sargentinha? Eu esperava muito mais inteligência do meu Comandante Supremo!
Após a bronca humilhante, Lilith aproximou-se, a voz caindo para um sussurro conspiratório.
— Escutem bem. Esse torneio de hoje foi uma forma de tentar adiar um problema que estamos enfrentando há muito tempo.
Sanstone ergueu as sobrancelhas.
— Problema? As lendas dizem que vocês o enterraram após a Grande Guerra.
Lilith balançou o dedo indicador em sinal negativo.
— E quem disse que o passado morre fácil, queridinha? Aquele gatinho crescido do Leonardo está doido para arranjar uma justificativa para nos atacar. Ele se acha o todo-poderoso. Meu pai está fazendo o impossível para manter a paz e, atualmente, trabalha numa forma de entrar em contato com o Reino dos Espíritos.
Alexandre franziu a testa, o cérebro tático trabalhando rápido.
— Espere. Se o seu pai está tentando contatar os espíritos agora, por que ele simplesmente não faz a mesma coisa que fez anos atrás, durante o início da guerra?
Lilith parou, arregalando levemente os olhos ao perceber como ele entendeu a pergunta e coça a cabeça levemente depois coloca as mãos no quadril.
— Você é bem rápido. Gosto disso em você, Alexandre. — Ela suspirou, o rosto ganhando uma sombra pesada. — Bem, já que vocês são o topo do comando militar, eu terei que revelar. Mas fica o aviso: se qualquer um de vocês comentar isso com uma única viva alma, estarão assinando a própria sentença de morte. Entendidos?
Os dois assentiram gravemente. Lilith começou a andar lentamente ao redor da mesa.
— Há muito tempo, o Imperador conseguiu se comunicar com os Espíritos para nos proteger. Naquela época, as Feras nos caçavam por esporte, e os Demônios levavam as almas de nossos mortos como combustível, ate hoje os mortos fazem isso se não eles desaparecem, é um ciclo de vida. Fomos gado por séculos das feras. Quando o imperador finalmente alcançou o Espírito Mais Poderoso do mundo, ele pediu ajuda e um acordo foi feito: o espirito deu aos humanos a capacidade de usar e evoluir a magia, mesmo que nossa afinidade natural fosse medíocre.
Alexandre ergueu a sobrancelha.
— Isso foi uma indireta?
Lilith sorriu docemente.
— Silêncio. Criaturas como você devem apenas ouvir, voltando. O Imperador fundou os clãs Stone, Poison e Longinus. Cada um com suas especialidades, Os Stones eram a Defesa, Os Poison eram a espionagem e suporte, e os Longinus eram a ofensiva, Com isso, ele reuniu sobreviventes e ergueu o 'Santuário da Vida', o nosso atual castelo. Leonardo I percebeu a ameaça e marchou com o exército bestial inteiro contra nós. A desvantagem numérica era absurda. Sabendo que seríamos aniquilados, O imperador desafiou Leonardo I para um duelo mano a mano, e o mesmo não podia rejeitar se não era fraqueza.
Sanstone e Alexandre ouviam vidrados. Isso não era revelado a eles nos livros.
— Eles lutaram por dias. No limite da exaustão, o Líder das Feras usou um corte devastador que atingiu o Imperador em cheio. Mas o mesmo usou as barreiras vermelhas para esmagar os órgãos internos do leão de dentro para fora. Ambos ficaram à beira da morte e recuaram, ambos os Monarcas assinaram os tratados de paz, porque estavam extremamente debilitados e os povos não queriam mais lutar. O filho dele, Leonardo II, assumiu o trono apos a morte lenta do pai. Mas o preço foi alto demais, para ambos os lados.
— O Imperador está muito debilitado para sair da torre... — murmurou Alexandre, compreendendo.
— Bingo — confirmou Lilith. — Que bom que vocês fizeram a lição de casa e resolveram usar a cabeça. Enfim, com aquele rei felino espumando de raiva hoje por vingança, o tratado está por um fio. Preciso que vocês treinem o exército intensivamente. Preparem-se para a guerra.
Sanstone e Alexandre arregalaram os olhos.
— Guerra?! Mas Lilith, isso é um absurdo! Não temos contingente para…
— Teremos que dar um jeito! — interrompeu a garota. — Eu também detesto a ideia de uma guerra, mas precisamos estar preparados para o pior cenário possível.
Sanstone cruzou os braços, a raiva borbulhando.
— Está me dizendo que a aniquilação está batendo na nossa porta e você só está nos avisando agora?! E cadê aquele papinho político de "a diplomacia em primeiro lugar"?
Lilith bateu o pé no mármore repetidas vezes, o rosto ganhando um tom infantil de birra.
— Ah, que inferno! Você é muito burra, menina! Não é à toa que o Alexandre precisa de uma 'melhor amiga' de verdade como eu, pra fazer companhia a ele! não vou explicar de novo.
A Primeira-Ministra então virou-se para Alexandre com um brilho carente nos olhos.
— Falando nisso, Alexandre... preciso que você venha até os meus aposentos esta noite. Eu quero muito que você durma comigo a noite toda! Estou super entediada e preciso de alguém pra me fazer companhia!
O silêncio que se seguiu foi grave. Sanstone arregalou os olhos vermelhos, a respiração travando na garganta. Alexandre empalideceu, sentindo o suor frio escorrer pelo pescoço, sem sequer perceber a aura assassina que começava a emanar de sua Vice-Comandante.
— M-Mas, Lilith... — gaguejou Alexandre, em pânico. — V-Você não pode pedir para algum dos seus servos ou guardas fazer isso?
Lilith cruzou os braços, fazendo bico.
— Não! Eles não têm a habilidade que você tem! Então, hoje, é eu e você no meu quarto, trancados até amanhã, sozinhos e nada mais!
Sanstone virou o rosto lentamente para Alexandre. Seu olhar era tão frio que poderia congelar o inferno.
— Então é assim que você age, Alexandre? Nunca pensei que você fosse um homem deste calibre.
Alexandre entrou em curto-circuito. Ele entendeu o mal-entendido catastrófico, mas Lilith, na sua completa ignorância inocente e infantil sobre assuntos mundanos, continuou a cavar a cova do Comandante:
— Claro que ele é assim! Ele me faz rir e me diverte muito quando estou entediada. Ele é o melhor que eu poderia ter! Então nós vamos nos divertir a noite toda, não é, Alê?.
Alexandre escondeu o rosto nas mãos. A mente dele gritava de desespero. Se ele tentasse explicar para Sanstone na frente de Lilith que ela estava agindo como uma criança carente de amigos, seria decapitado. Se ele recusasse, era traição. Com o coração pesado, ele aceitou o sacrifício.
— Claro, Lilith... Eu fico com você essa noite.
Leônidas, que assistia ao circo em absoluto silêncio, falou.
— Majestade. O seu pai gostaria de falar com a senhorita.
Os olhos de Lilith brilharam como estrelas. A birra sumiu num piscar de olhos.
— Papai?! Ele quer me ver?! Eba, eba! — Ela deu pulinhos de alegria. — Comandante, mudei de ideia, seus serviços não serão necessários hoje! Você está dispensado. Tchau, tchau!, Carrasco, leve esses dois para fora!
E com a agilidade de uma criança chamada para brincar, Lilith saiu correndo pelo corredor.
Deixado para trás, Alexandre ainda sentia o peso do olhar de Sanstone fuzilando sua alma. Leônidas fez um gesto em direção à saída.
— Acompanhem-me. E lembrem-se, vocês precisam ficar muito mais fortes para o que está por vir.
Os três caminharam em silêncio pelos corredores. O clima estava denso. Alexandre tentou quebrar o gelo.
— Mas nós não ficamos mais fortes hoje com a experiência no Coliseu?
— Ficaram — respondeu Leônidas, sem olhar para trás. — Mas isso não é suficiente para sobreviver num campo de batalha real.
Sanstone mantinha o maxilar travado, recusando-se a olhar para Alexandre. Leônidas continuou sua lição fria:
— Para sobreviver na guerra, vocês precisam de treinamento extremo. Viver sem nada, sem nenhum luxo. Tentar sobreviver apenas com o que a natureza dá. Só assim entenderão a realidade dos soldados da infantaria e ajudá-los quando preciso.
Foi a gota d'água. Sanstone parou no meio do saguão de entrada e apontou o dedo para Leônidas.
— Escuta aqui, pai. Eu e o Alexandre não somos como você. Um 'carrasco', como a senhorita Lilith tão bem te chama! Você acata todas as ordens deste reino como um cachorro e simplesmente não pensa no bem de ninguém! Principalmente da minha mãe! Acha mesmo que eu vou levar em consideração esse seu discursinho hipócrita? Eu tenho minhas formas de Liderança e aposto que seus soldados tinham medo de você, por isso fingiam sorriso igual fazem com a Lilith.
Alexandre deu um passo à frente, erguendo as mãos para tentar apaziguar.
— Calma, Sans. Você está muito tensa com tudo o que aconteceu hoje. Ficar gritando assim só vai te trazer problemas.
Sanstone girou nos calcanhares, a fúria agora direcionada a ele.
— E você?! Nem ouse me dizer o que fazer! Você afundou num nível tão baixo como comandante que fica babando e aceitando propostas indecentes da Primeira-Ministra! Pensa que eu não vi? Saiba que relações amorosas entre oficiais e a realeza são crime militar grave, sabia?! Mas acredito que você e ela já tem um pacto então você se tornou uma exceção né?!
— Eu sei muito bem das regras, Sans! — Alexandre tentou se defender. — Mas o que a Lilith disse é um tremendo mal-entendido! Ela não quis dizer nada daquilo no sentido que você está pensando, ela só queria brincar de..
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— TSK! Esquece essa merda! — Sanstone empurrou as pesadas portas do castelo. — Eu vou trabalhar que ganho mais. Mas, pai... eu não esqueci o que você faz com a minha mãe. Você pode fingir ser o bom moço e o herói impecável para todo mundo! Mas pra mim, você continua sendo um carrasco.
Ela bateu a porta de carvalho com tanta força que o som ecoou pelas torres.
Alexandre escorregou a mão pelo rosto, exausto.
— Ela tá de cabeça quente. Vai ser muito difícil apaziguar isso depois daquele teatro. E, Leônidas... por que a Sanstone disse aquilo sobre você e a mãe dela?
Leônidas olhou para as portas fechadas. Sua expressão continuava a mesma de sempre.
— Não é nada. Negócios de família, Comandante. Agora volte para suas obrigações, como Vossa Majestade ordenou.
Ao sair para o pátio do castelo, seguindo o caminho que Sanstone acabara de trilhar, Alexandre suspirou para o céu cinzento.
“Cara... por que a família Stone sempre tem que ser tão problemática? Eu preciso entender isso melhor, e eu sei exatamente a pessoa que pode me ajudar com isso.”